Autista ou Alemão? Eis a questão

Minha preocupação e ocupação com regras é ao mesmo tempo demasiada e exemplar. Talvez por isso tenha calhado de trabalhar com Gestão do Conhecimento. O processo de organizar a criação, explicitação, consolidação e internalização do conhecimento é a melhor maneira, até o momento, de envolver as pessoas na determinação das regras que elas mesmas devem executar. Afinal, não envolver as pessoas nesse processo, todos  sabem, faz  com que as chances de as regras serem seguidas a contento caiam drasticamente.

Porém, confesso, tenho fortes sentimentos físicos e mentais devidamente contidos e ocultos, quando as coisas não ocorrem como o planejado ou como o combinado. Claro que isso me gera muita angústia, mas em vez de me desesperar, o que não seria prático ou mesmo coberto pelos acordos sociais sob os quais vivemos, simplesmente aceitei esse risco. Desde que esteja devidamente medido e registrado, trato de atacá-lo com planos de mitigação e extinção, acionados por gatilhos derivados de métricas objetivas.

Óbvio que já considerei que esse caráter comportamental podia ser um sinal de autismo, apesar de achar, como Uta Frith, pesquisadora alemã que ajudou a consolidar a ideia de autismo como espectro, que algumas regras podem estar sendo flexibilizadas demais para promover tantos diagnósticos tardios desse transtorno de neurodesenvolvimento. Porém credito boa parte desse meu comportamento à minha criação. Tive um pai que morria de medo de atrasar em qualquer coisa, ao ponto de sair com quatro horas de antecedência para o aeroporto;  minha mãe é uma perfeccionista contumaz, dando o mesmo nível de atenção e esmero a uma tese de doutorado ou a montagem de uma árvore de Natal; e estudei num colégio brutalmente estrito do qual poucos saíram com uma saúde mental aceitável (não, não fui um desses abençoados).

Pra piorar, meus bisavós paternos podiam ser considerados “alemães”, apesar de terem vindo para o Brasil ainda na época do Império Austro-Húngaro, antes da unificação alemã, o que sugere certas inclinações culturais, óbvio, estereotipadas, porém bem comuns.

Por isso, mesmo sem confiar sequer em testes psicológicos, fiquei tentado a passar pelo teste “Am I German or Autistic?” com o qual esbarrei em uma rede social. Óbvio, não é um teste apurado, mas cumpre seus propósitos de discutir os paralelos entre o transtorno e a cultura germânica. Porém, não posso deixar de mencionar, o resultado me deixou preocupado.

Se os scores de autismo e alemosidade (isso é uma palavra?) são independentes a pesquisa não deveria ser “Am I German and/or Autistic?”. Não sei, só estou dizendo…

Caso queira fazer a sua medição, aqui está o link, mas, reforço, não garanto a fidedignidade dos resultados nem a sua aderência a um verdadeiro teste de afinidade cultural ou avaliação psicoclínica.

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