26.08.30 – “Now your eyes are red from crying, almost blue”

  • É difícil a gente entender os tempos que vivemos enquanto os vivemos, mas algo que tem se destacado pra mim como marca da nossa época é como os diagnósticos tomaram lugar dos sentimentos. Antes a gente ficava triste, feliz, nervoso, na fossa, em crises existenciais, com neuras, raivoso ou apaixonado, mas essas emoções todas, com seus sofrimentos e glórias, eram sempre provenientes das relações que estabelecíamos com as pessoas e com o mundo. Hoje o movimento parece ser simplesmente interno, uma precondição a ser ativada para gerar uma resposta emocional padronizada e repetitiva, uma proverbial bala na agulha à espera de um gatilho genérico pra estourar. O mundo, nessa visão, não existe como interlocutor, só como catalisador de um destino psíquico inevitável. Deixamos de ser humanos, agentes de nosso destino, para nos tornarmos algoritmos de carne a espera dos comandos que darão início à nossa programação. Triste isso, não? Ou seria melhor dizer digitalmente deprimente?
  • Óbvio que no Brasil, essa tendência vai assumir os contornos locais de desespero escondido em bazófia. Exatamente como o Nelson Rodrigues tratou a psicanálise. Acusava o analista de comadre bem paga, mas por baixo da zoação com os complexos edipianos e outras manifestações inconscientes, que a pornochanchada escrachou de vez, Nelson foi o maior divulgador da importância da mitologia familiar na constituição da nossa psiquê. Hoje, o linguajar vazio da pseudo psiquiatria de Instagram não dá corda pra grandes obras. No máximo sai um esquete de A Praça é Nossa com meia dúzia de bordões pouco imaginativos repetidos à exaustão. Deprimiu ou Burnout, meu companheiro de diagnóstico?
  •  Caramba, acabei de ter um déjà vu que estava escrevendo que estava tendo um déjà vu . Perdão, mas já não escrevi isso antes? Ou foi um outro déjà vu? Nah, deve ter sido algum problema psiquiátrico (ainda) não diagnosticado.
  • Mas, no fim das contas, psicanálise ou psiquiatria, Nelson Rodrigues ou Instagram, o que importa é a gente manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo.

  • Negativity is the enemy of creativity. If you are filled with bitter, selfish anger, this occupies the mind and leaves little room for creative ideas.David Lynch

 

 

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