É difícil a gente entender os tempos que vivemos enquanto os vivemos, mas algo que tem se destacado pra mim como marca da nossa época é como os diagnósticos tomaram lugar dos sentimentos. Antes a gente ficava triste, feliz, nervoso, na fossa, em crises existenciais, com neuras, raivoso ou apaixonado, mas essas emoções todas, com seus sofrimentos e glórias, eram sempre provenientes das relações que estabelecíamos com as pessoas e com o mundo. Hoje o movimento parece ser simplesmente interno, uma precondição a ser ativada para gerar uma resposta emocional padronizada e repetitiva, uma proverbial bala na agulha à espera de um gatilho genérico pra estourar. O mundo, nessa visão, não existe como interlocutor, só como catalisador de um destino psíquico inevitável. Deixamos de ser humanos, agentes de nosso destino, para nos tornarmos algoritmos de carne a espera dos comandos que darão início à nossa programação. Triste isso, não? Ou seria melhor dizer digitalmente deprimente?
Óbvio que no Brasil, essa tendência vai assumir os contornos locais de desespero escondido em bazófia. Exatamente como o Nelson Rodrigues tratou a psicanálise. Acusava o analista de comadre bem paga, mas por baixo da zoação com os complexos edipianos e outras manifestações inconscientes, que a pornochanchada escrachou de vez, Nelson foi o maior divulgador da importância da mitologia familiar na constituição da nossa psiquê. Hoje, o linguajar vazio da pseudo psiquiatria de Instagram não dá corda pra grandes obras. No máximo sai um esquete de A Praça é Nossa com meia dúzia de bordões pouco imaginativos repetidos à exaustão. Deprimiu ou Burnout, meu companheiro de diagnóstico?
Caramba, acabei de ter um déjà vu que estava escrevendo que estava tendo um déjà vu . Perdão, mas já não escrevi isso antes? Ou foi um outro déjà vu? Nah, deve ter sido algum problema psiquiátrico (ainda) não diagnosticado.
Mas, no fim das contas, psicanálise ou psiquiatria, Nelson Rodrigues ou Instagram, o que importa é a gente manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo.
Negativity is the enemy of creativity. If you are filled with bitter, selfish anger, this occupies the mind and leaves little room for creative ideas. – David Lynch