2026.08.16 – “Apague a luz pra eu te ver melhor”

- A diferença entre uma seita e seus amigos é que a seita será sincera contigo pelos motivos errados, enquanto seus amigos vão mentir pra você pelos motivos certos. Apesar dos apesares, há horas em que seitas podem fazer mais por você do que seus amigos (que, se forem realmente amigos, na hora certa, vão te resgatar da seita).
- Me surpreendo como o Chorão virou a voz de uma geração. Assim como o Renato Russo que ajudou uma geração que “fala demais por não ter nada a dizer” a sumarizar suas angústias, o doutor Alexandre Magno Abrão ajudou de millenials em diante a expressar os incômodos que eles não conseguem vocalizar ou entender. Curioso que ambos foram vítimas dos algozes das suas respectivas gerações: a AIDS e os distúrbios psicossociais. Como todos os que falam o que sabemos ser verdade, foram considerados loucos, mas suas palavras e sabedoria permanecem. Já isso não é surpresa alguma. Afinal, “Só os Loucos Sabem“…
- Não há sensação mais estranha do que acordar de madrugada numa casa onde a luz acabou. Ao contrário da sensação de quebra de ordem que o susto da queda de luz gera, quando acordamos durante um blackout, é como se fóssemos nós os deviantes numa ordem diferente mas natural. Assim, despidos da intenção e motivação para tentar resolver o irresolvível, apenas seguimos a vida como se a luz fosse uma ilusão e ela nunca fosse voltar. Vamos ao banheiro no escuro; buscamos comer o que pode estragar no congelador; acendemos o fogão que, graças a Deus, ainda gera luz e calor; usamos as nesgas de luz e energia para ler ou tentar contato com o mundo exterior; enfim, tentamos seguir a vida dentro de uma fingida (a)normalidade. E, do nada a luz, volta. É uma sensação estranha de viver algo que parece que não aconteceu de verdade. Tipo quando a luz acaba no cinema.
- Tudo volta, mas volta diferente. Não sei se tem relação com a queda de luz, mas tudo pediu pra eu me relogar. Na base das infraestruturas (físicas e lógicas) está a energia.
- Adendo: fui ao cinema assistir a Camp Miasma (o que merece um texto à parte) e o cinema estava sem luz. Resolvi esperar até o horário da minha sessão e a luz voltou. Porém, como esperado, no meio do filme, a luz do cinema acabou de novo, o que é também uma sensação esquisita, pois. no cinema, JÁ estamos no escuro. Exatamente como na queda de luz quando dormimos. Porém logo a luz voltou, como de madrugada. Me pergunto o que esses eventos repetidos significam. A luz acaba quando ninguém vê e tudo volta ao normal sem ninguém perceber. Talvez eu esteja precisando apagar a luz para ver algo melhor.
- Mas isso o João Penca já sabia:
- Sempre fico encantado com a beleza e a maestria da narrativa simples, mas nunca simplória, de Charles Schulz. 4 movimentos com blocos visuais muito claros sobre desejo, luta, resolução e decepção. Pra ir do cotidiano ao existencial só precisamos de quatro quadros (e de um Beagle preto e branco).
- Um fim de semana razoavelmente produtivo: fiz a decupagem do curso de quadrinhos e a primeira edição do AH!QUATRO para o curso de fanzine. Que outros dias sejam tão calmos e criativo assim.
- Em vez de vida longa e prosperidade ou paz e amor, deveríamos desejar calma e criatividade aos outros. Então, paz e imaginação pra vocês.

2026.08.09 – “This is the day, your life will surely change. This is the day, when things fall into place”

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- Sumido por motivos de exaustão mental, incerteza (positiva) sobre o futuro e overdose de remédios emocionais, tais como RPG, Magic The Gathering, Quadrinhos e A Gata Comeu. The Works.
- Curioso como sempre me agarro nessa novela em momentos de transição. O que me atrai? A liberação das fantasias ou a confirmação de que o mundo é um (mau) teatro? Por outro lado, sempre me parece um ritual de fim de fase, mesmo sem saber qual nova fase virá. Nas outras vezes, eu assisti pois estava sendo exibida. Agora, com o streaming tomei a iniciativa de eu mesmo assistir. O que isso diz sobre a minha tentativa de controlar o futuro? Que fase eu quero que acabe logo e qual sonho quero que comece?
- Por falar em rituais, hoje, como em todos os dias dos pais, segui o mesmo protocolo: acordar antes de todo mundo (como sempre), lavar louça e arrumar a casa, esperando o que sabe-se lá o que virá. É acts of service que chama, não?
- Nas redes e nas conversas de botequim, só se fala do novo mundo pós IA. Que tudo, do trabalho à política, passando pelas amizades e relacionamentos, irá mudar por conta das respostas rápidas e (in)certas dos Chats da vida. O que ninguém parece perceber é que informação sem experiência ou experimento é uma tentativa vazia de mostrar sabedoria, pois conhecimento sem engajamento emocional e existencial é apenas uma ferramenta para fraude (estando a informação correta ou não). Afinal, o que se faz simplesmente pelo ganho pessoal e não pela verdade nasce de egoísmo mimético e má intenção (nem sempre no sentido moral, mas com certeza no ético). E a IA é a coroação desse casamento fatal da ignorância com a ganância que assassinará o saber.
- Por essas e outras, dá até vontade de escrever uma continuação protópica de A Máquina do Tempo em que o viajante encontra uma outra tribo que, longe da briga entre Morlocks e Elois, aprendeu a viver com sabedoria, ou seja, sem ilusões utópicas ou fantasias distópicas, assim, sabe?, como dá. Provavelmente na minha versão, essa tribo viveria em Paquetá.
- Em paralelo, parece que há algo no ar sobre o fim das redes sociais e da sociedade do espetáculo. Tá, exagero, mas o pessoal já parece estar cansado de trabalhar de graça para os barões da internet. Enfim, a história humana se movimenta de abolição em abolição de múltiplas escravaturas. A Heineken já se movimenta há tempos sob essa lógica, com motivos espúrios, lógico.
- Quando a gente vê o aparato que as plataformas de internet nos entregam, é surpreendente como o uso é vazio. Quando não tínhamos nada, dispendíamos muito esforço e artesanato para construir fisicamente as imagens que nos passavam pela cabeça. Hoje, que tudo é dado, a impressão é que nada temos a dizer. É como se publicar, divulgar, produzir tenham se imposto na frente do que deveria ser sua origem: imaginar, sentir, querer. Como gatos, os artistas do avant-garde de hoje, em vez de inovar tecnicamente, passaram a brincar com as caixas de papelão onde os presentes caros e inúteis que receberam das Big Techs foram embalados. Talvez isso explique o retorno dos fanzines e outras mídias low-fi. What would Maya Deren do?
- O que o mercado do entretenimento não parece perceber é que, como belamente demonstrado na cena do Azul Cerúleo de O Diabo Veste Prada, o público de massa precisa do avant-garde (no caso da alta costura) para poder construir o seu junk food estético. Porém, com olho no lucro fácil e na infinita reprodutibilidade que a IA promete, o que se deseja é apenas reproduzir o fácil, genérico, de (aparente) grande alcance e que retorne rápido seu investimento. Nossas almas não podem viver com essa pseudo-arte caloria zero. É a alma dos artistas que nos alimenta. Infelizmente até as almas deles estão sendo fabricadas em série, vide o circuito de autores celebridades que atende às culpas e desejos dos mais diversos públicos de todos os espectros e fetiches.
- Mas pra que eu devo me preocupar ou me exaltar com esse futuro? Melhor viver o presente. Se for um pouquinho melhor que ontem já tá bom. Não tá?
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2026.07.25 – “Hot topic is the way that we rhyme”

- Sempre é salutar (re)visitar as suas referências. Hoje tive o prazer de reencontrar uma das minhas maiores inspirações no cinema: Sullivan’s Travels, uma deliciosa história non sense, com forte veia metalinguística, fazendo uma crítica social da indústria de entretenimento na grande depressão com um delicado viés humanista/existencial. Ah, e tem uma doce e exuberante Veronica Lake, afinal “There’s always a girl in the picture. Haven’t you ever been to the movies?”.
- Na sala de cinema, além de mim, só 3 pessoas. Não sei como a obra lhes afetou. Eu, me sentindo sozinho e livre, ri frouxo e me permiti ficar emocionado com o final que alguns, hoje, podem até considerar brega. Mas e daí? Quem disse que é ruim ser brega? Eu, pelo jeito, sem a menor vergonha, sou.
- Confesso: é difícil assistir a uma obra com 85 anos, especialmente cinematográfica, sem sentir a diferença técnica e narrativa. Mas essa diferença não deve ser tratada como critério como uma forma de hierarquizar obras de arte das mais às menos evoluídas. Isso também não significa que precisamos tentar o impossível: entender ou nos posicionar no contexto da sua criação. Tudo o que é preciso é abraçar o que mundo lhe entrega sem julgamentos. Tá não é fácil, mas é possível. Taí uma regra que também serve pra outras vivências e leituras.
- Hoje, também, depois de uma longa e inexplicável resistência, assisti a Parasita. Pode parecer que não tem nada a ver com Sullivan’s mas é mais obra sobre o contraste entre pobres e ricos. Não à toa, Sullivan’s Travels em português ganhou o título Contrastes Humanos. Esse poderia ser o título de todas as obras, não? É dos nossos contrastes que surgem os conflitos que movem as narrativas.
- É importante saber de onde vêm as nossas referências. Afinal, é impossível criar do nada. A tal da genialidade, se é que existe, como bem dizem, tem muito a ver com reciclar seu próprio bom (ou mau) gosto. Então, não se sinta oprimido pelas sua inspirações. Quem te inspira não te limita. Só pegar Roberto Carlos, Leo Jaime e Raul Seixas para ver aonde usar Elvis como inspiração pode te levar.
- Então, fica a dica vinda de Academia de Gênios:

- Pronto! Foi só ressuscitar mais uma referência pra eu ficar com vontade de ver.
- Já fez uma lista das suas inspirações? Le TIgre fez.
2026.07.23 – “And the girls all dance, while I’m feeling like a refugee”

- Férias são o momento ideal para adquirir ou retomar velhos hábitos. Hoje pela manhã voltei ao Yoga. Fazia muito tempo que não praticava e a sensação foi a mesma de outras épocas: um cansaço e um descanso profundos; e um esforço ao mesmo tempo mínimo e desumano. Enquanto os demais alunos faziam com desenvoltura suas posturas, eu suava em bicas, colocando para fora, na forma de lágrimas corporais, anos de abusos físico, moral e intelectual que cometi comigo mesmo. Pelo menos, pra mim, todo Yoga é Hot Yoga.
- Até o suor do Yoga é diferente dos demais. Parece ao mesmo tempo pesado e leve; plasmático e gasoso, como se eu estivesse colocando novamente em funcionamento uma tubulação de gás aposentada, enferrujada e inundada de resíduos tóxicos anciãos. Foi duro, mas sobrevivi.
- Na saída, passando na frente de um fruteiro me encantei, como há muito não fazia, com um enorme pedaço de melancia, que, por impulso, comprei e, parcialmente, devorei em casa. Reação da reativação de um corpo em repouso por tempo demais?
- Mexer o corpo é aquecer os desejos. Como nos sentimos fisicamente diz muito sobre o que nos incomoda e o que amamos. O melhor caminho para saber o que mexe no emocional e cerebral passa pelo físico. O desejo não precisa de palavras, mas é dependente de sangue.
- Mais uma sessão de tarot complementar nas férias sob o pretexto de testar uma nova plataforma. Muitas reflexões sobre a vida e oportunidades de uso da plataforma. O desejo só surge como enigma.

- Começando a reassistir a A Gata Comeu. Queria entender essa minha fascinação por ilhas. Talvez meu sonho não seja ir para uma, mas sair da que estou. Por isso, ir para outra me parece simplesmente natural. Afinal, continentes não passam de ilhas grandes e o universo, um arquipélago.
- É surpreendente como os hábitos mudaram por conta da tecnologia. A necessidade de ligar pra se comunicar forçava relações mais diretas e havia uma tolerância maior em não se ouvir falar dos outros. Era totalmente factível alguém próximo sumir por dias (ou semanas) e ninguém se preocupar de fato. Éramos menos suscetíveis à ausência alheia e mais propensos a aproveitar suas presenças. A ubiquidade proporcionada pela tecnologia matou muitas estratégias narrativas.
- Mas, cá entre nós, até mesmo para época, a tranquilidade do pessoal frente a um barco sumido há quatro dias é displicência demais. Ou não é?
- Parece que o veranico acabou e o tempo está virando. Deu pra aproveitar um pouco: fui ao cinema, comi bem, testei novas coisas e deixei de me preocupar com as antigas. Agora é se/me preparar para a volta. O que essas férias mudaram em mim? Vamos ver o que permanece na semana que vem.
- “And maybe tonight
I can make you mine
And if it’s alright
We could dance in the white light” - Agora, com licença que eu vou ali jogar um RPG.
2027.07.22 – “And I’m giving you a longing look, everyday I write the book”

UmaDuas compridas semanas cumpridas. Não importa o resultado se chegamos no final. Isso já é resultado o suficiente. A ansiedade do início das fériasestá me fazendome fez adiar todos os meus planejamentos e acelerar todas as tarefas de trabalho. O meu fica pra depois, o dos outros é pra ontem. Como sempre. Vamos ver se consigo chegar numa iluminação que faça essa balança se equilibrar melhor.- Como as edições mostram, não consegui. Não consegui nem terminar e postar esse texto iniciado 10 dias atrás. Pelo menos retomei. Pelo menos?
- Sim, pelo menos, Pelo menos as férias começaram, como o tradicional especial do
CervantesParada de Copa indica.

- Mesmo assim nada se move. Tento abandonar, com muito esforço e pouco sucesso, pequenos comportamentos que hoje não fazem mais sentido. Ao mesmo tempo me surpreende e não me espanta que seja tão difícil. Me tornei um poço de excessos. Quando as coisas fizerem sentido não perderei o meu?
- Por falar em comportamentos que deveria abandonar,
comeceiestou fazendo o curso da Marie DeClercq e tenho rateado nos desafios. Alguns não me interessam, outros são pessoais demais e não me parecem escrita; estão mais pra confissão. Tem gente que acha que confissão é uma espécie de escrita. Tá, até pode ser, mas a parte do verdadeiro artesanato é criar o distanciamento que gera identificação. Não é só desabafo. Ou será que é? Você me diz. - Uma discussão interessante sobre a importância do ecossistema do livro na construção do conhecimento. Um dos poucos pontos positivos da IA é nos fazer perceber (ou lembrar) que ler não se justifica apenas pela informação que se adquire na leitura mas pelo processo de reflexão durante a leitura. O mais importante não é o que nos dizem, mas o que descobrimos sobre nós mesmos (e o mundo) no contato com o texto. O mesmo se aplica ao processo de escrever. Não escrevemos para mostrar o que sabemos, mas para descobrir o que sabemos (e quem somos). O texto final, incensado produto da indústria editorial, é apenas um apanhado de restos mortais da experiência de escrever que será ressuscitado pelo leitor.
- Fui obrigado por compromissos paternais a assistir no cinema a uma comédia brasileira atual. Uma parte muito significativa dessa safra pós retomada dá saudades da época em que diziam que filme brasileiro só tinha palavrão e putaria. Hoje, além da falta de estrutura, proposital ou não, derivada da inescapável cultura de sketches bobos que vem do rádio, passa pela TV e chega até à internet, ainda precisamos aguentar a didimocozice do sentimentalismo barato de um Renato Aragão tentando imitar Chaplin num filme sobre doentes terminais. Pode pensar em qualquer comédia: a sensação é sempre a mesma. Depois de um bando de cenas quase engraçadas, os personagens desfiam rosários de lugares comuns para reforçar a importância de deus, pátria, família e todos os outros conceitos reacionários que cabem em uma hora e meia de cinema(?). Sabe o que realmente seria radical: trazer a nudez e os palavrões de volta pras telas. Ah, esqueci! A geração atual acha cenas de sexo desnecessárias… Valha-me, Deus. A humanidade realmente tá merecendo o que recebe.
- Ou talvez nos falte saber quem somos. Isso nem as comédias, nem a IA vão conseguir responder por nós.

2026.07.05 – “Memory, all alone in the moonlight. I can dream of the old days. Life was beautiful then”
- Hoje no Bluesky o povo tá surtando com os “jovens” que dizem estar na Internet há 10 (isso mesmo, dez) anos como defesa de suas ideias. Não acho que eles, os tais jovens, estejam certos em usar esse tipo de argumentação, mas também não podemos desconsiderar os comentários de alguém pela quantidade de tempo que usam a rede ou fazem qualquer coisa. Antiguidade pode ser posto, mas não significa sabedoria, tanto quanto juventude não significa inovação, como as discussões sobre o etarismo com a Madonna depois da parceria com a Sabrina Carpenter mostram bem. Essa progressiva extensão da vida humana vai fazer com que o etarismo (para ambos os lados) se torne uma das agendas mais importantes de DE&I nos próximos anos.
- Por falar em Internet, lembro como, depois de uns 6 meses de CentroIn, finalmente consegui acesso à Internet. Fiz as configurações numa ligação por telefone (fixo!) e me pediram um nome de usuário com pelo menos cinco letras. Eu entendi que tinha que ter exatamente cinco letras. Sem saber o que escolher olhei pra estante e bati com o livro do Edgar Allan Poe. Na hora disse: Corvo! Por um tempo, até abrir minha conta no UOL, meu e-mail era corvo@centroin.com.br . Estranhamente vez ou outra recebia um e-mail de alguém perguntando se meu e-mail era por conta do filme O Corvo com o Brandon Lee. Não era, mas eu não respondia, nem explicava.
- Ah, por curiosidade, isso tem 33/34 anos. Uma vida inteira no início do século XX. Uma meia vida (mal vivida) no século XXI.
- A impressão é que sempre estamos no ápice. Ainda falta muito. Nos anos 80 e 90, as expectativas psicodélicas de fusão com a rede eram comuns, hoje são raras e tem o viés religioso que essa epifania provavelmente vai gerar. Enfim, sempre pode piorar (ou melhorar). Vai saber.
- Enquanto todo mundo foi assistir ao Brasil, eu preferi ficar um pouco com mim mesmo. E com uns livros. Sempre vale a pena. (Estou lendo demais em inglês. O que me falta que as editoras brasileiras não entregam?)

- Uma pequena atualização: é espantoso como o Brasil tá zicado. É só se animar com qualquer troço que tudo dá errado. Graças a Deus, estava assistindo a Bossa Nova durante a pelada. O filme, saca? Não? Olha aqui embaixo. Há 26 anos a vida parecia melhor.
- Melhor deixar vocês quietos. Lembro como é ruim quando o Brasil perde. Já torci pra futebol, mas, obrigado, senhor, já passou. Há tempos, já passou. Enfim, melhoras e melhor sorte pra todos nós daqui a 4 anos e, bom não esquecer, daqui a 3 meses. Mais importante, não?
2026.07.04 – “Here we go again. These little earthquakes. Doesn’t take much to rip us into pieces”

- É estranho respirar. A falta de sensação desastre eminente, essa aparente tranquilidade repentina, apesar de balsâmicas, carregam em si a possibilidade de uma benção ou de uma maldição. Estamos finalmente salvos? Ou estamos baixando a nossa guarda cedo demais? Como reagir a essa dualidade? Na real, não sei, mas, por enquanto, por pelo menos esse fim de semana, eu vou me dar o direito de aproveitar. Eu mereço, não?
- Ao mesmo tempo, ou por causa disso, uma espécie de vácuo se formou: mudanças positivas no trabalho, fim das aulas na pós, sem compromissos a cumprir. Fiquei com um sábado livre como há muito eu não tinha. O que eu fiz? Li RPGs e quadrinhos, assisti filmes catástrofe, joguei Magic Arena. Simplesmente me deixei curtir. É estranho ter tanto tempo e não saber o que fazer com ele, mas é bom, surpreendentemente bom.
- Agora estou com uma impressão que dá pra fazer quase tudo. É só querer. E não esperar demais disso.
- É estranho. Já disse isso, não?
- Bateu uma saudade do início da Internet em que parecia que tínhamos o mundo a nossa disposição e não sabíamos o que perguntar. Hoje temos tantas dúvidas e tudo o que a IA nos oferece é uma resposta única, e, pior, falsa. Talvez o que nos falte é aprender a conviver com a dúvida. Antigamente pra essas minhas perguntas inconsciente, a resposta normalmente era Tori Amos. Será que ainda é?
- Parece que sim.
2026.06.29 – “No one dared, no one cared to tell me where the pretty girls are”

- Estava zapeando (assim fazemos isso?) e calhei de esbarrar com uma reprise da primeira temporada de GIRLS. É surpreendente como tudo se beneficia de distanciamento histórico. Obras em seu lançamento são carregadas de ansiedade. Pra pior e/ou pra melhor. GIRLS foi um desses casos que sofreu de ambos. Enquanto metade do mundo batia palmas às inegáveis inteligência e pertinência da série de Lena Dunham, metade reclamava da falta de propósito da nudez, das cenas gráficas de sexo e da superficialidade das personagens. Vista hoje é claramente um trabalho feito com muito esmero que tenta com muita sinceridade ser a voz da sua geração, ou, como a própria Hannah fala, “Uma voz de uma geração”. E não são assim todas as vozes?
- Comparadas com a juventude de hoje assexuada, careta, medicada e destruída pelo brainrot, as meninas de GIRLS se mostram extremamente reais e profundas. E qual a novidade? A juventude atual sempre parece a pior, e a nossa, ó, saudades, é incomparável. Com seu envelhecimento, as juventudes alheias se tornam até simpáticas ou, no mínimo, dignas de pena. Sei que é algo horrível de se dizer/escrever, mas fazer o quê? O sentimento é esse mesmo. Temos muita dificuldade em conseguir medir a experiência humana pela vivência alheia, especialmente entre gerações.
- Por falar nisso, fica a dica aí pra essa geração Z que se treme toda quando vê sexo no cinema: GIRLS é um belo exemplo onde as cenas de sexo são extremamente importantes pra narrativa.
- No segundo episódio, o aborto (não necessário e não realizado) de Jessa me fez pensar como esse momento se tornou uma espécie de rito de passagem para as mulheres em diversos filmes e séries. De Picardias Estudantis a Euphoria, passando por Sex Education e Anos Dourados, a escolha consciente pelo término da gravidez é tratada, mesmo que de formas diferentes, como um momento em que a mulher se responsabiliza pelo seu futuro e afirma seu direito de escolher como levar sua própria vida. É basicamente impossível discutir a liberdade feminina sem considerar a liberdade de exercer seus direitos reprodutivos. Enquanto isso mulheres se elegem ao congresso brasileiro para pedir a diminuição dos direitos da mulher. Vai entender este país (ou outros)…
- Mas o Brasil ganhou do Japão e isso que importa, não? Sério que preciso responder isso?
- “These precious thingsLet them bleed nowLet them wash away” – Precious Things – Tori Amos
2026.06.26 – “Na casa de noca, quando o couro come, é sinal que a dona quer respeito”

- Com um pouquinho de atraso(?), fiquei sabendo do novo bafafá na casa da Besta Fera. Parece que a cônge do demônio queria algo, o enteado, que está na pior, não quis dar e rebateu de forma atravessada; ela, ofendida de ser colocada no papel de submissa que defende que todas as mulheres (menos ela) assumam, foi na internet fazer um mi-mi-mi de 20 minutos pra dizer que entende do que não entende, mesmo que tenha influência em quem não entende do que ela não entende, mas finge que entende. O que me espanta é que a gente fique mobilizado por isso. É óbvio que é golpe, como a Clara Averbuck apontou até duas vezes, mas a questão é: qual é o propósito? Os dois tão mancomunados pra ele, em queda livre, passar o lugar pra ela, dando a impressão que ela tem uma moral que não tem? Ou é mesmo um caso de assassinar esse Julio Cesar da Kopenhagen, mesmo que ele mesmo já tenha se apunhalado múltiplas vezes, para a Evita das Cidades Satélites se apresentar como uma opção eleitoral viável? Não dá pra saber, mas é meio bizarro assistir esse Alexandre, o Minúsculo, assistir o seu “reino” ser dividido em vida quando olha pra paisagem da Muzema do Vivendas da Barra chorando por ter percebido que nunca conquistou terra alguma (que não lhe tenha sido ofertada pelos milicianos).
- Toda vez que vejo essas notícias me dá um sentimento ruim, pois lembro da sensação na pandemia de estar preso com a Besta Fera. Todo dia uma notícia alarmante, uma bravata, uma burrice. Já não passamos tempo demais dentro da casa de sitcom ruim de “0$ B0l$0n4r0$”.? Já deu, né, galera? Podíamos simplesmente nos oferecer nossa completa e mais sincera falta de atenção.
- Por outro lado, nesse mundo em que tudo parece falso, esse tipo de factoide gera uma impressão de realidade justamente pelas inúmeras (e irreais) camadas conspiratórias que esse drama familiar fuleiro com enormes (e graves) consequências ao país carrega. Há uma sensação de risco real, apesar de tudo não passar de um teatro. Porém, não é (a princípio) um remix beirando o plágio de algo sobre IA feito por IA. Ai,se.. AI, se… Baby!
- Engraçado que boa parte das minhas referências mais comuns são de 1999: Beleza Americana, Matrix, Clube da Luta, Office Space… Parece que estou num romance de FC do Philip K. Dick em que o bug do milênio nos jogou numa realidade construída pela Internet e nunca chegamos no século XXI. Bom, ruim, grande, pequeno, como vou saber?
2026.06.24 – “Pra frente, Brasil, salve a Seleção”

- Ruas, lojas e escritórios repletos de pessoas vestidas de verde e amarelo (e algumas de azul) aguardando o momento mágico de serem liberadas do trabalho para poderem viver por um momento a fantasia de uma só nação, mesmo que unida apenas pra torcer pra seleção.
- O problema é que a seleção, em que depositamos essa fé, não representa a nação, mas uma parte seleta dela. Isso não significa que seja boa ou ruim, apenas que alguns foram selecionados para nos representar por critérios com os quais nem sempre concordamos. Assim como o congresso, esses eleitos, por motivos e interesses que transcendem o que realmente deseja a população, fingem encapsular em 22 pés toda uma pluralidade impossível de resumir. A pátria de chuteiras pode até ter sido uma realidade, mas hoje não é mais. Que o diga o técnico alemão, quer dizer, italiano, mas conceitualmente alemão, dessa seleção.
- Até mesmo a permissão(?) de ser feliz por essa ilusão, sancionada pelas corporações, redes sociais e influencers, se torna uma performance vazia.
- E quem, como eu, não se sente parte de nada disso? A nós só resta aguardar o jogo passar, mas com uma torcida sincera pra que sejamos primeiro do grupo pra poder faltar ao trabalho integralmente na segunda feira. Ou pra, pelo menos, ficar de home office. Essa, sim, já seria uma grande vitória.