
24 de fevereiro
Todo dia é uma oportunidade para começar um novo ano. Todo dia é uma oportunidade para entrar numa nova cidade. Mesmo que seja em Philadelphia.
Analogias Analógicas
Algo está quebrando, ou, quem sabe?, se consertando, se concertando. Não só em mim, mas em todo o mundo.
No trabalho, no intervalo do almoço, as pessoas fazem palavras cruzadas nas suas mesas com uma concentração inesperada. Hoje, num restaurante uma família, na mesa ao lado, fazia as suas, enquanto esperava com surpreendente calma a sua comida. As salas de cinema estão, não exatamente cheias, mas mais cheias. As revistas voltam a ser vendidas e lidas em seus formatos físicos, pois falam de atividades analógicas e seria um contrassenso fazê-lo no digital.

Essa semana li Veja e Super Interessante o que provavelmente não fazia desde o século XX
O tempo, que parecia faltar, agora sobra e eu consigo cochilar sem culpa nas tardes tediosas dos domingos e nas manhãs vazias dos sábados. A caminho de casa, eu escolho os trajetos mais longos, onde posso encontrar as coisas que eu não esperava encontrar. Ouço as tolices bem intencionadas das pessoas e o barulho (quase) harmônico do trânsito; sinto o cheiro fermentado das ruas e o odor adstringente das lojas; saboreio a doçura da chuva e o defumado dos canos de descarga; sofro na pele o calor inclemente das tardes cariocas, suo, mas, apesar do incômodo, não assim acho tão ruim. Sentir o que nos cerca é estar vivo e, por pior que seja a dor, ela é preferível ao embotamento ao qual nos submetemos por tanto tempo.
Enfim despertos, como viciados, recém saídos do fundo do poço, caminhamos pelas ruas vazias das cidades natais que não mais reconhecemos, para mastigar um pão estranho, lembrando que esquecemos como era o seu gosto. O gosto é bom? Ruim? Não sabemos dizer, mas, ao contrário de toda a virtualidade no qual nos escondemos por tão tempo, ele, pelo menos, é; ele, pelo menos, é.
Under Pressure
Como eu estava dizendo, é impossível escapar, mas também é impossível não resistir. Sim, a pressão é contínua e vem por todos os lados, mas fingir que não a vê ou não tomar partido em nada ajuda. É preciso reconhecer que ela existe, e, melhor, até entender do que ela é feita. Mas não tenhamos ilusões, conhecer o que nos antagoniza, apesar de nos permitir resistir, por um tempo pelo menos, nunca resolverá os problemas que a pressão gera e que são, por ela, gerados. Sim, é impossível escapar, mas também é impossível não lutar. E, antes de nos congratular, lembremos: reconhecer, entender, e resistir a pressão, sem expectativas de vitória, não é heroísmo, mas, simplesmente viver. Enfim, o que há mais no viver do que resistir àquilo que não conseguimos evitar? Mas eu já falei isso, não? Como eu estava dizendo…
A equação de feliz ano novo (de novo)
O carnaval acabou (ou quase) e surge (novamente) a promessa de que o ano vai (enfim) começar. Será que (dessa vez) vai rolar? A primeira tentativa (frustrada?) foi no Réveillon, agora surge a (nova?) esperança pós Carnaval; mas, para alguns (ou muitos), só depois das eleições é que saberemos se teremos ano novo (de novo) de verdade. E olha que nem estou contando com os marcos pessoais (e intransferíveis) de cada um de nós, pelos quais esperamos (ansiosa ou temerosamente?), mas que parecem nunca chegar (ou sequer existir).
Afinal, o que esperamos dessas (múltiplas) viradas de ano? Quando finalmente iremos estar satisfeitos com o início (ou o fim) de um ano? Como viciados à espera de redenção (ou de um definitivo fundo do poço), aguardamos por uma virada completa de 180° (e não uma das fakes e usuais de 360° ). Algo que simbolize que o passado se foi (afinal) e que o futuro pode (pelo amor de Deus) começar.
O fato é que nada muda se nada muda (ou se não mudarmos). Então, pode escolher o dia (Réveillon, Ano Novo Chinês, Quarta de cinzas, Eclipse, Ano Novo Astrológico, Eleição Presidencial, ou Rex Manning Day). Qualquer data é válida para começarmos tudo de novo com (apenas?) uma certeza: vamos continuar abertos aprendendo (e mudando), pois essa virada definitiva (sério, que acreditamos nisso?), na boa, nunca vai rolar (ou quem sabe rola todos os dias e só não aproveitamos (ou percebemos que ela rolou (de novo))).
Então, para comemorar esse (mais novo) ano novo (de novo), deixo vocês com Tessa Violet explicando (de novo) por que (se nos permitimos aprender e errar) tudo é novo (de novo). Feliz ano novo (vocês entenderam (não? (então, deixa que eu explico (de novo)))).
Por quem uivam os ventos com aspas
Pra começo de conversa, aviso: tentei ler O Morro dos Ventos Uivantes na adolescência, mas não avancei. Como quase todos os romances góticos, ele me causou uma estranheza peculiar. Explico, sempre me incomodo ao acompanhar histórias em que as personagens são afligidas por emoções potentes demais. Sejam elas amor, ódio, amizade, fascinação, luxúria ou mesmo apatia. Engraçado que não me incomodo com isso na poesia, onde o momento é mais fugidio e sempre dá a impressão de ter acabado de passar; mas na prosa… sei lá, sempre me parece que o fio de pensamento corrente da prosa pede uma reflexão que inviabilizaria essa comoção emocional toda. Pelo menos em histórias longas.

Heath e Cat, acho que vocês tão levando esse namorico a sério demais…
Esclarecido o meu lugar de fala, vou te dizer, não achei essa nova versão de O Morro dos Ventos Uivantes tão ruim quanto estão pintando por aí. Sim, tem uns momentos de comédia não intencional, a história não se decide entre um romance rasgado e uma discussão sobre o amor como uma forma de dominação BDSM, e cada uma das atuações parece estar numa sintonia diferente como se um comitê de diretores (ou produtores) estivesse cuidando do filme, o que, vai ver, pode ter sido verdade.
Enfim, é só uma versão, espertamente titulada com aspas, e, como tal, tem seus belos momentos idiossincráticos. O reflexo do quarto de Cathy como o seu corpo, com pintas e sanguessugas subindo pelas paredes; a cenografia exagerada e corporal, com a lareira ladeada por mãos, as cores sólidas e fortes nos momentos mais marcantes da história; e a divertida introdução dos personagens enquanto crianças, que consegue manter com muita competência o ritmo e a tensão perversa da hipocrisia desejante da sociedade inglesa.

Cathy querendo rasgar a própria carne é um bom toque quase Cronenberg da cenografia
Como versão, acho que atingiu com louvor o objetivo de toda versão: expressar o que a autora queria mostrar da própria leitura da obra. Talvez, pra variar, o problema seja novamente o público que, dividido entre o purismo impossível da fidelidade a uma obra que já é infiel de nascimento, e os bate bocas de internet sobre “a vida, o universo e tudo mais”, vive obcecado em encontrar respostas a perguntas que ninguém formulou. Minha dica? Relaxem, se agraciem com as dúvidas da vida e das artes, e, com um amplo sorriso no rosto, toda vez que virem alguém recontando uma história que fala ao seu coração, digam um sonoro “show, ok, sei lá”.
Ah, e se você não concorda comigo, beleza, a gente sempre pode curtir a versão da Kate Bush juntos. 3 minutos e 45 minutos de amor louco eu aguento sem problemas e até curto.
Kaputt! A História é história, mas isso é outra história
“The feeling of the old world fading away comes from witnessing culture lose “the ability to grasp and articulate the present,” but it is not, as Fisher says, because the present no longer exists, it’s just that the present, now, is so beyond what a human mind can hold.” – Heather McCalden
A nossa pretensa onisciência, proporcionada por ferramentas cibernéticas indutoras de psicose, talvez venha a provocar um corte epistemológico forte demais para nossa História e nossas histórias sobreviverem. Agora que tudo acontece ao mesmo tempo, incluindo o passado e o futuro, ambos, futuro e passado, deixam de existir; e o presente, em vez de um tempo intermediário, separando o que fomos do que seremos, se torna um espaço de inescapável paralisia emocional, sem esperança ou segurança, onde futuros impossíveis e passados adulterados conflitam pelo controle de nossas mentes e corpos, que não só não podem resistir, mas nada farão.
Porém, por outro lado, pode ser que seja a nossa concepção de tempo esteja mudando, como causa ou consequência desse nosso presente tóxico. Já vivemos choques de futuro, d’après Alvin Toffler, desse tipo em eras, ou épocas, anteriores, nas quais, intuímos, os tempos eram percebidos de forma diferente, mas não temos como saber se estamos afogando no presente enquanto nossos pulmões se transformam em guelras, nem temos registros fidedignos ou compreensíveis do passado para confirmar nossas hipóteses.
Enquanto isso, só nos resta meditar, esperando que um dia tudo não mude, mas, pelo menos, passe a fazer sentido ou, quem sabe?, aprendamos a não nos importar. Essa, sim, é a verdadeira diferença entre ser o tempo, sentir o tempo e viver o tempo.
Ao Super, o que é o do Super; A Lex, o que é do Lex
Um dos sinais que o filme, os quadrinhos, a animação ou qualquer manifestação midiática do Homem de Aço vai ser ao menos interessante é o quanto a “maldade” de Lex é bem trabalhada pelos autores. Mais do que um conquistador tecnológico, mais do que um executivo sem escrúpulos, mais do que um tirano invejoso, Lex precisa se mostrar abjeto ao público e a seus valores, representando exatamente o oposto do que o Superman defende. Esse contraste é o que nos mostrará de que lado estamos, nos engajará emocionalmente com a obra e nos fará torcer pelo herói.
Hoje de manhã, reassistindo à versão do James Gunn, me perguntei se o novo Lex atendia a esse requisito, e infelizmente, apesar da bela interpretação do Nicholas Hoult, não posso dizer que sim. Apesar de ser um reinvenção legal, lembrei de uma história do John Byrne que seria mil vezes mais adequada para mostrar o Lex exercitando exatamente o oposto da empatia punkrocker dessa nova versão do Super.
É uma história curta mas marcante. Dá pra vocês lerem aqui. Em resumo: Lex, num restaurante de beira de estrada, a 900 milhas de Metropolis, faz uma proposta indecente a uma garçonete (alguns anos antes da Demi Moore aceitar a sua) para que ela lhe acompanhe por um mês, largando seu marido e toda a sua vida “limitada”, em troca de 1 milhão de dólares. O que acontece depois? Você precisa ler, mas pode ter certeza representa exatamente tudo o que os nossos valores negam.

O que ela deveria responder? Ou, melhor, o que você responderia?
A conclusão da história é tão emblemática que é impossível não admirar a falta de limites na maldade do Lex, que não precisa de um Superman para dar as caras. Pode parecer até estranho dizer isso, mas, cá entre nós, é impossível amar o Super, sem ter uma forte ligação emocional com Lex. Afinal, os dois vivem dentro de nós e é isso o que os faz funcionar tão bem. Pro bem ou pro mal, o nosso bem e o nosso mal.
Graça Infinita contra os perigos da conformidade
É uma pena que Infinite Jest tenha virado esse red flag de masculinidade tóxica esquerdomacho style. David Foster Wallace tinha excelentes sacadas. Na verdade, acabou conhecido pela mais besta delas: a dos peixes não saberem que estão na água.
Ele também escreveu uns contos incríveis. Um dos meus preferidos está em “Oblivion: Stories” e conta a história de uma mulher que ficou com uma expressão constante de terror devido a um erro numa cirurgia plástica e tanto a sua família como o resto do mundo precisam conviver com essa antecipação de tragédia como se fosse normal.
Outra excelente fonte pra conhecer o autor é o filme baseado na adaptação do livro de David Lipsky sobre o fim da turnê de Infinite Jest. Como seus textos, ele é recheado de grandes momentos, como o abaixo, em que David Foster Wallace prevê o nosso futuro próximo.
Ele não viveu para ver esse futuro previsível, mas deixou uma obra que combate até fisicamente isso. Há poucas justificativas para um livro ter mais de mil páginas. Lutar contra as forças da comodidade que nos engolirão completamente em pouco tempo é uma das melhores. Será que temos chance de ganhar essa guerra? A própria história de Wallace não nos dá muitas esperanças, mas é um bom sinal que nos 30 anos de Infinite Jest ainda estejamos podendo discuti-lo por aí. Alguns de nós, pelo menos.
A inescapável psicose induzida pela Internet
Warren Ellis escreve na Internet sobre as pessoas que escrevem na Internet sobre como a Internet está as deixando loucas e, por isso, saíram (?), ou querem sair, da Internet. Enquanto isso eu lhes escrevo da Internet para dizer que concordo com quem concorda e com quem discorda, e, como Tancredo Neves, especialmente com aqueles que nem discordam, nem concordam muito pelo contrário.
Como motivação, para saíram da Internet, de onde falo com vocês compartilho a palavra sagrada de Howard Beale sobre outra rede que nos deixou loucos: a televisa.
A prontidão do escritor
O problema de escrever é que o texto só tem dois estágios: pronto e não-pronto. A gente batalha nele (ou com ele) quando está não-pronto até cansar, e, enfim, dizemos pra nós mesmos: “Não aguento mais. Pronto!” Aí publicamos, e mentimos pra todo mundo que está pronto, apesar de nunca estar. Porém, quem lê acha que está pronto e às vezes fantasia que vai conseguir escrever algo assim “tão pronto”, como o que acabou prontamente de ler. Aí, meio sem querer querendo, começa a escrever e descobre, de pronto, que o que escreve nunca vai ficar pronto, mas aí já é tarde demais. Assim, a história termina ou, quem sabe, começa. E pronto. Pronto! Pronto?