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A Alta

Depois de 74 dias internado, meu pai recebeu alta. Mesmo afastado da família, por razões longas demais para esse texto curto, acompanhei o processo. Minha irmã fazia questão de me dar informes de hora em hora por áudio, texto e vídeo. Eu ignorava a maioria.

A notícia da saída do meu pai do hospital foi mais difícil de ignorar: 34 mensagens e 7 ligações em menos de 2 horas. A última, eu atendi. Recebi essa nova informação com a mesma animação que recebi as outras: nenhuma. Minha irmã, por outro lado, estava esfuziante. Considerava que essa seria uma oportunidade ótima para uma reconciliação:

– Vem receber ele em casa. Deixa essas amarguras no passado e vem dar um abraço no papai. Vai ser uma surpresa muito legal. Aposto que ele vai adorar.

Tinha certeza que não, mas menti e disse que ia pensar. Acabou que não pensei e, talvez por isso, fui recebê-lo.

Cheguei no prédio na hora combinada, cumprimentei alguns porteiros da velha guarda, e subi com muita resistência para o apartamento dos meus pais. Todas as memórias evocadas pelos corredores escuros do edifício me diziam que eu não deveria ter vindo. Era tarde demais para ouvir os seus conselhos.

Toquei a campainha e minha mãe abriu a porta. Jogou os braços ao céu como se estivesse recebendo Jesus no domingo de Ramos.

– Agora, sim, esse é um dia abençoado. A família estará unida! Finalmente, unida.

Ela me abraçou apertado e me deixou sentado no sofá, enquanto resolvia as últimas providências para a chegada do meu pai. Na sala, a TV passava um programa sensacionalista que se pretendia noticioso. Espirrei enojado. O mofo e a poeira continuavam os mesmos. Assim como os seus péssimos gostos e posições políticas.

Barulho na porta. Minha irmã surgiu empurrando meu pai numa cadeira de rodas.

– Ele chegou! Ele chegou! – ela gritava.
– Louvado seja o Senhor- minha mãe respondia.- Ele ouviu as minhas preces. Louvado seja Deus.

Fiz menção de me levantar, mas quando vi meu pai, com o rosto caído, desisti. Ele não me percebeu, ocupado em não ouvir as louvações das duas; o que era basicamente impossível. Para piorar, do corredor do prédio, surgiram várias pessoas estranhas, provavelmente vizinhos, de chapéus de festa, carregando bolas de encher e soprando pequenos apitos.

– Ele é um bom companheiro, ele é um bom companheiro, ele é um bom companheeeeeeirooooo! Ninguém pode negar.

Depois do coro improvisado, forçando uma intimidade inexistente, os vizinhos passaram pela cadeira rodas cumprimentando meu pai com beijos e abraços.

– Que susto, hein?
– Que bom te ter de volta.
– Não faz mais uma dessas, não.
– Você ficou em qual hospital, mesmo?

Excitadas, minha mãe e minha irmã jogavam os braços pro alto, entremeando detalhes vexatórios sobre a internação e os problemas de saúde do meu pai com gritos de “Aleluia”.

Os vizinhos, quando me notaram, me cumprimentaram à distância e de forma tímida, mas não sem tentar me constranger:

– Olha, quanto tempo?
– Você engordou, hein.
– Tá ficando a cara do seu pai.
– Por que você sumiu por tanto tempo?

Naturalmente, aos poucos, a festa improvisada se transferiu para a cozinha e todos esqueceram de mim. E de meu pai. Ele, na sua cadeira de rodas, eu, no sofá. Abandonados. Como sempre.

Finalmente, na sala vazia, meu pai achou seguro levantar os olhos e me viu. Não esboçou nenhuma reação, assim como eu, acho, não esbocei. Nos olhamos por alguns momentos trocando telepaticamente ofensas e memórias ruins, até que eu desisti de participar desse jogo.

Fiz menção de levantar do sofá para escapar da sala, mesmo temendo as conversas e gritos que vinham da cozinha, mas meu pai me impediu. Em silêncio, balançou a cabeça em negativa e baixou os olhos. Ele tinha razão, lá ia ser pior. Eu assenti com a cabeça, sentei novamente no sofá e peguei o controle remoto para aumentar o volume da televisão e tentar abafar os sons da cozinha. Foi inútil, mas ninguém pode dizer que não tentamos.

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