A arte de ser arte

Escutei o disco novo da Fiona Apple e senti o mesmo que senti quando assisti ao primeiro episódio de New York Stories, dirigido por Scorcese.

No curta metragem Life Lessons, Nick Nolte interpreta um pintor em crise criativa obcecado pela sua assistente e ex-namorada. A sua relação com a obra que não consegue terminar não é só angustiante, como é carnal e vital. Uma luta de vida e morte que pode não ter um final feliz.

As cenas dele pintando são o que realmente mais me impactou. O esforço de se jogar contra o nada, seja a tela vazia, o papel em branco ou o opressivo silêncio, é o que diferencia a atividade da arte de qualquer outra coisa produtiva. Fazer arte é confrontar a falta de objetivo e, ao mesmo tempo, as infinitas possibilidades do universo que nos permitem extrair um cavalo de uma pedra ou uma lágrima de um som.

Todos os méritos para as outras atividades humanas e seus empreendimentos, mas a arte é especial, pois é um exercício fútil e sem expectativas de recompensas contra o tudo e o nada que nos oprimem.Talvez seja aí onde o comércio e a indústria tem o seu corte frente à arte. A demanda da arte é interna e contínua, porém não se pretende produtiva.  Não precisamos escrever um livro por ano para fazer arte, ou lançar uma música por semana. Isso é comércio e indústria. A arte é o que surge de ser o que você é, mesmo que leve 8 anos, como o novo álbum da Fiona, ou nunca saia como dos hipsters angelicais de “O Uivo” de Ginsberg.

Arte não é sobre fazer, é sobre ser. Nada e tudo.

“It’s art. You give it up, you were never an artist in the first place.”Lionel em Life Lessons

E você nunca desiste, você continua tentando, faça algo ou nada, mesmo que nunca tenha nada pra mostrar.

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