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A raquete

Cansada de ser vampirizada, ela comprou a raquete.

“Você vai ver só como a nossa vida vai ficar melhor,” proclamou a quem quisesse ouvir.

No mesmo dia a colocou em ação. Desperta, no meio da madrugada, toda vez que sentia que estava para ser mordida, ligava a raquete e eletrocutava os insetos que a incomodavam.

“Não entendo esse ódio,” eu protestava. “Os bichos só estão seguindo as suas naturezas”

Ela ignorava meus apelos zen-filosófico-ambientalistas e, como um misto de Serena Williams e Thomas Edison, fazia mosquitos, muriçocas e até um marimbondo desgarrado pegarem fogo e iluminarem a nossa noite como pirilampos suicidas.

“A-ha! Esse sangue vocês nunca mais vão chupar,” se regalava sobre o cadáver de seus inimigos.

Talvez como uma tentativa de reduzir o karma ocasionado por esse genocídio, na mesma época, ela resolveu fazer compostagem. Num apartamento. Aos mosquitos, muriçocas e aos marimbondos desgarrados se uniram pequenas mosquinhas sem clara identificação, mas tão odiadas quanto.

Como durante o dia eu ficava em home office e ela no presencial, mesmo sabendo da minha aversão à raquete, ela me deu uma missão:

“Quando eu não estiver em casa, se as mosquinhas começarem a proliferar, mete bronca. Dessas você consegue dar cabo.”

Demorei pra tentar, arrumava desculpas, tinha pena. Depois de muita pressão, cedi. Mas, ao contrário do que ela esperava, não dava conta.

Depois de muitas tentativas, quando finalmente consegui matar a primeira, tomei um susto. Um estalo seco e uma faísca diminuta; um grito silencioso e uma alma partindo. Tomei um susto, mas me senti poderoso. Peguei gosto e, assim, ia além do chamado do dever.

Mesmo que elas não estivessem proliferando ou incomodando, ou mesmo visíveis, eu, em cada intervalo ou brecha no trabalho, ia atrás delas. Buscava-as atrás de portas, em cômodos onde não costumavam estar e até no corredor do prédio.

“Ahhh,” eu gemia de satisfação quando elas pipocavam na raquete como fogos de artifício em miniatura.

A obsessão ficou tão forte que até quando ela estava em casa, eu andava pelos cômodos caçando as mosquinhas.

“Estou gostando de ver. Mas por que você está fazendo isso agora?” ela questionava.
“Ué, você não mandou?” eu me defendia, fingindo compaixão.

Era mentira; eu descobri: essa era a minha natureza.

Publicado emMicroconto

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