O excesso de festividades e essa alma celebrativa do brasileiro escondem uma grande melancolia. É só andar pelas ruas num dia como hoje para notar. Depois da grande festa, as pessoas se movem lentas, sem destino, passando por terríveis crises de consciência. Ressaqueadas. Física e moralmente.
Alguns mais guerreiros continuam a se intoxicar tentando voltar àquele estado inebriado de felicidade. É inútil e apenas esconde a vontade secreta de ficar infeliz. Mas mesmo assim tentamos.
Um casal de idosos, bêbados, abraçado numa esquina é estimulado por uma menina:
– Beija ela! Beija. Ela não vai lembrar de nada. Tá bêbada.
– Bêbada, nada- defende o consorte.
Se beijam. Provavelmente não lembrarão de nada.
Na padaria, lotada, um sujeito passa apertando mãos:
– I’m hungry. Tengo hambre. Tô com fome.
A miséria de fato e da espírito está globalizada.
Ele tenta pegar o dinheiro da mão de um gringo.
– Sorry, bro. No money.
O malandro não se abala e passa para o próximo da fila. Mais um poliglota humilhado.
A sensação é de que o brasileiro acha que alguém está sempre lhe devendo algo, que a razão da sua desgraça está no outro e não nele mesmo. Parece que lhe impediram de entrar na Igreja e quem entrou é obrigado a lhe ajudar. Afinal quem tem graça deve dá-la aos desgraçados.
E não há graça, nem riso que aplaque essa sensação. Por isso vamos festejar.
Um amigo que trabalhava com dependentes químicos uma vez me disse:
– O que o alcoólatra mais anseia é pelo momento da ressaca.
Assim é o brasileiro. Festeja pois quer ficar triste e não aceita a sua própria tristeza. Com a ressaca terá motivo para encarar o mal que lhe aflige, fingindo que é culpa do álcool. Não é só patético, é covarde.
Acho que já está mais do que na hora de elaborarmos esse luto e podermos festejar para ficarmos verdadeiramente felizes e não para encobrir a tristeza que não aceitamos.
Deve ser uma sensação mágica. Não lembro de ter experimentado. Sou, antes de tudo, um brasileiro.