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Aqui e ali

Hoje sonhei que estava ao mesmo tempo aqui e ali. Havia um futuro ali, com cores, beleza e movimento; mas o passado, ou melhor, ou pior, o presente do aqui ainda me prendia, com seus alarmes e alertas, suas mensagens de celular e videoconferências sem fim. No sonho, era como se eu estivesse à caminho do ali, mas ainda sem tirar um pé do aqui.

Quando acordei, anotei o sonho num caderno que tenho aqui, cheio de fantasias e desejos que imagino realizados ali, e percebi que, ao mesmo tempo que quero ir para ali, tenho medo de deixar aqui.

Ali representa satisfação, amor e emoção. Aqui representa dor, marasmo e humilhação. Mas ali é incerto, e tenho medo de me frustrar. Aqui é menos incerto, mas tenho medo de me afogar.

Não lembro de quando fiquei sabendo que havia ali. Talvez já tenha vivido ali, antes de viver aqui, mas já não sei mais. Durante um tempo, longo demais, não fiquei nem aqui, nem ali, e pedi a Deus que me levasse para algum lugar. Ele me trouxe para aqui, e agradeço por não estar mais em lugar algum. Porém, agora, não me canso de sonhar com deixar aqui e chegar ali.

Ali eu teria liberdade e diversão. Aqui é só medo e opressão.

Ali eu poderia ser mais eu mesmo. Aqui eu preciso esconder quem sou por medo de retaliação.

Ali as coisas crescem e se transformam. Aqui as coisas morrem e tentam ser salvas por ganância e sede de poder, não por merecimento.

Ali é a juventude que eu tive; a alegria de viver. Aqui é a decrepitude alheia, o formalismo, os velórios; o medo de morrer.

Ali não é aqui. E aqui não é ali. E isso já bastou pra eu quase me decidir.

Parece fácil escolher entre aqui e ali, mas não é. Afinal, um dia, aqui já foi ali e representou tudo o que o novo ali hoje representa. Ali e aqui não são só uma questão de espaço, também de tempo. Todo lugar é ali quando não se está lá. E assim que se está lá, ali ele se torna aqui.

Mais importante do que o aqui e o ali, é quem sou lá, quer dizer, lás. Quando sou novo e cheio de promessas, para o aqui eu sou um ali. Quando o tempo passou e me tornei antigo e repetitivo, sou o espelho do aqui para o qual ninguém mais quer olhar.

Como um papel de parede bonito e vistoso, que chama a atenção logo após a sua aplicação, aos poucos vou me confundindo com a parede e sumindo naquilo do que eu achava que não fazia parte.

Mas dentro do meu coração, eu sei que não pertenço aqui e, talvez, nem pertença ali.

Fico buscando, em sonhos e medos, razões para ir e pra ficar. Pois, sempre resta uma esperança que eu possa, ou algo possa, transformar o cansado aqui num excitante ali. E, assim, eu não precise me mudar.

Indeciso, com medo e angústia, ponho um pé pra fora do aqui, nos meus sonhos, nas minhas conversas, em desenhos e palavras cruzadas feitas escondido. Mas não saio inteiramente, nem me comprometo com o caminho para o ali, pois não sei se vou chegar.

Hoje, como ontem, e, espero diferente de amanhã, a decisão é não decidir entre o ali e o aqui. Mais uma vez, a decisão é ficar nem cá, nem lá. Melhor voltar a dormir e sonhar com mapas que venham me salvar.

Publicado emArtigos

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