Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

A bolsa contra a opressão do Plot

Li hoje pela amanhã “A Teoria da Bolsa de Ficção” da Ursula Le Guin. A sugestão do ensaio principal do livro, acrescido de dois ensaios complementares de outras autoras sobre o texto inicial, é que o modelo narrativo do “Herói” carrega em si uma ideologia baseada na morte, no conflito, algo quase (ou totalmente) belicista. Em contraposição a esse modelo patriarcal, ela sugere o modelo da bolsa que, ao contrário da seta apontando ameaçadoramente em direção ao futuro, recolhe as histórias e personagens num espaço de acolhimento focado no presente.

É um belo e provocador pensamento, mas os milênios de costume com a opressão do plot que encaminha a história sempre para a resolução de uma contenda, normalmente em busca do retorno a um estado normal, que de normal não tem quase nada, tornam esse exercício de re ou desconstrução muito desafiador.

Fiquei me perguntando onde poderíamos encontrar sinais desse modelo e logo me veio à mente Jacques Tati com seu Monsieur Hulot, cujas férias eu estava curtindo ontem.

Aos moldes do que Le Guin sugere, nas obras  de Tati as histórias apenas se acumulam, sem conflito, propósito ou contenda a se resolver. São justamente apanhados temáticos de experiências, filmadas a uma média distância, que lhe permitem escolher para onde olhar e no que fixar a sua atenção. Pode não haver um propósito norteador, mas essa experiência estética, como a vida, está carregada de sentidos a se abraçar, como itens espalhados randomicamente dentro de uma bolsa mágica. Extrapolando, ainda dentro do cinema, parece que o mesmo pode se aplicar ao neorrealismo italiano, à Nouvelle Vague, e a outros movimentos de cinema independentes. A escolha pela contemplação e reflexão parece ser bastante natural quando não ficam cerceando nosso campo de visão com cores berrantes, explosões ou super close-ups.

No caso da literatura, um outro exemplo, lido esse ano, do qual me lembrei, foi Esboço da Rachel Cusk. Nesse livro rola a mesma sensação de observar a vida e caminhar por entre histórias nas quais podemos nos aprofundar mais ou menos, ao nosso bel prazer, sem a ansiedade de um fato ou trajeto narrativo conclusivo que estabeleça um lado “vencedor”. Se formos buscar formatos mais alternativos, seja entre Burroughs, Borges, Burgess, Calvino, ou mesmo entre os Beatniks, ou o povo da Oulipo, encontraremos ainda mais belas bolsas a vasculhar.

A verdade é que, escondidas em toda essa balbúrdia sem sentido de som e fúria, talvez estejamos cercados de mais bolsas que imaginávamos. Só precisamos (re)aprender a reconhecê-las e intencionalmente sair à sua busca ou mesmo a criá-las.

 

[oei#40] O contrato como ferramenta de gestão de risco nas (in)certas relações editoriais

Mais do que um instrumento legal, o contrato é um desenho de futuro. Nas suas cláusulas, itens e até nas suas assinaturas encontramos uma intricada cadeia de relações, cheias de expectativas de atividades e entregas, que se desdobram em prazos, promovendo sociedades na criação editorial, ou a troca de valores financeiros por serviços e produtos. O contrato, em sua construção, tenta antecipar tanto os possíveis conflitos e riscos negativos da produção editorial como as conquistas e recompensas devidas às partes envolvidas nessa construção coletiva. O contrato é o roadmap da história que esse livro nascente se propõe a trilhar.

Apesar das práticas das editoras comerciais já estabelecerem alguns padrões, muitos, inclusive, por força do costume, já previstos em lei, os instrumentos contratuais não podem ser iguais entre si. Eles sempre devem refletir não só a realidade de cada projeto, mas os diferentes modelos de negócios que intermediam as relações entre autores, prestadores de serviços e editoras. Esses modelos refletem como o valor é acrescido em cada etapa do processo editorial até que o produto final chegue ao leitor.

Porém, esse caminho, por mais que já tenha sido trilhado diversas vezes, é sempre coberto de incertezas. E, para isso, contamos com os contratos como proteção. Seja para antecipar a solução de possíveis problemas com as partes que os assinam, usando multas, compensações ou sanções, como para estabelecer protocolos de decisão e mediação, quando ocorrem os inevitáveis imprevistos, sempre com o interesse de proteger tanto os direitos morais e patrimoniais dos autores quanto o investimento das editoras.

Por isso, tão importante quanto a sua redação, a gestão do contrato é uma das atividades mais críticas para o sucesso dos projetos editoriais. Desde o momento em que se faz e como se faz a sua leitura, garantindo o entendimento de deveres e responsabilidades de todos; passando pela negociação de termos e pela revisão de cláusulas para contemplar mudanças de cenários e resultados; até o momento em que as entregas, nele previstas, são recebidas e verificadas, a gestão do contrato é a linha de vida do relacionamento colaborativo e produtivo entre as partes responsáveis pelo nascimento de uma nova obra.

Assim, não podemos esquecer que o contrato deve ser tratado como uma entidade viva. Ele serve como garantia legal e referência, sim, dos objetos das relações comerciais, mas ele também carrega, a partir das expectativas passadas, o estabelecimento e garantia do cumprimento dos acordos presentes e os critérios de aceitação dos produtos futuros.

Como a realidade nunca reflete ipsis literis aquilo que esperamos dela, os gaps entre o que era esperado acontecer conforme o contrato e o que realmente ocorreu devem servir como alimento não só para a revisão dos atuais acordos, mas também para a melhoria dos próximos instrumentos legais. O contrato se estabelece, portanto, também como uma ferramenta de aprendizado. E, frente ao cenário mutante pelo qual o mercado passa atualmente, se há um lugar onde as lições aprendidas que definirão nossa futura atuação tem mais chance de serem implementadas é justamente nesse conjunto de cláusulas e itens que assinamos para firmar o nosso compromisso com o nascimento de mais um livro e com a saudável e juridicamente segura longevidade do nosso ofício.

O cerceamento da esperança

Tá, eu sei,  é sobre futebol, mas essa propaganda não é um horrível manifesto do direito que as outras pessoas, físicas ou jurídicas, acham que tem de estipular quando, como e no que podemos ter esperança? Pra termos chegado nesse nível, pelo jeito, não nos sobrou nenhuma. Excetuando-se, talvez, a megasena da virada.

O meu cantinho (de leitura) das férias

Olha só essa. Fui na Biblioteca do Sesc de Botafogo, a antiga Machado de Assis, para devolver um livro, atrasado (sempre!), e fui informado que o acervo ficaria fechado, para avaliação e cadastro, do dia 8 de dezembro a 12 de janeiro. Por conta disso, vejam a minha sorte, poderia emprestar até 5 livros com prazo até o ano que vem. Óbvio, aproveitei.

A pilha de para ler das férias, assim, só cresce. Só não sei se isso é bom ou ruim.

Sacanagem, sei, sim. É bom. 😉

As reformas e contrarreformas da Mitologia da DC Comics

Quando as mitologias (e as religiões), como a DC, se tornam Propriedades Intelectuais as coisas se complicam.

Porém, no início, tudo é festa. Os mitos e lendas se avolumam, sem controle, ou regra. Num dia as concubinas dos deuses estão grávidas, no outro, era tudo um sonho. Na manhã seguinte os filhos que não nasceram surgem do futuro, e, juntos com os pais, presumidos, salvam o mundo, até descobrir que seus pais eram de outra dimensão. Já viu onde isso vai dar…

Os fiéis antigos, confusos com essas múltiplas versões, param de participar dos rituais; novas religiões concorrentes seduzem as congregações abandonadas; as novas gerações não conseguem se inteirar da complexa cronologia ou entender as referências teológicas das crenças originárias; e, então, alguém descobre que mobilizar as pessoas em torno de narrativas é poder, político, financeiro, e cultural.  E, óbvio, ninguém quer abrir mão desse poder. É nesse momento de caos que a crença orgânica, quase animista, começa a ser encarada como propriedade de um grupo.

Aí vêm as reformas. As externas, daqueles que se apropriam dos conceitos iniciais por se acharem os verdadeiros crentes na palavra divina; e as internas, dos que comandam os grupos e instituições construídas ao redor dessas histórias, buscando manter os atuais fiéis e arregimentar novos.  Os reformistas, dizem que é tudo em nome da fé, mas, se não tivesse dinheiro envolvido, provavelmente nada aconteceria. Ou, pelo menos, não aconteceria dessa forma.

A DC vive isso há anos. Desde a Era de Prata, nos anos 50/60, quando recriou seus heróis originais; na Crise nas Infinitas Terras; na morte do Super Homem, e na quebra da coluna do Batman; nas reativações da Crise; no 52; e, enfim, agora, no universo Absolute. Li as primeiras edições de Batman, Super Homem e Mulher Maravilha. Não são ruins, tá, são até legais, mas a cada quadro, a cada página eu ficava me perguntando: “Pra quê, senhor? Pra quê?”.

Há de fato uma necessidade quase religiosa de rever os velhos mitos à luz dos novos tempos para novos públicos? A intenção puramente comercial justifica essas constantes recriações? Ou essa é uma tentativa sobrenatural dos mitos não morrerem manifestada pela vontade de sacerdotes/autores e fiéis/leitores? Ou, pelo contrário, uma insistência em manter vivo algo que já deveria ter morrido ou sido esquecido? Não sei, não sei, mas, nessas horas, acaba que a escolha preguiçosa e desleixada da Marvel de manter sua cronologia um caos completo parece até ser ética. (Cá entre nós, não é)

Ah, Super Homem, por que não ficaste morto nos anos 90? Senhor, eles realmente não sabem o que fazem…

Mas dessa vez, pelo menos, fizeram uma Mulher Maravilha com cara de grega.