Buquina, mas não esculacha

Eu já sabia, quando mudei pra cá, que os sebos de BH eram infinitamente mais caros do que os do Rio. Nas minhas garimpagens locais normalmente me assusto um pouco com os preços, mas, mesmo com a possibilidade de comprar no Rio, acabo levando uma coisa ou outra mais difícil de se encontrar. Além disso, pra me facilitar, na grande maioria das vezes, os livreiros belorizontinos sempre dão um bom desconto pra esse ex-colega de profissão. Hoje, tomei mais um susto num sebo, mas foi daqueles dos quais não dá pra se recuperar com facilidade.

Voltando do almoço, passei na frente de um sebo que já tinha paquerado, mas no qual nunca tinha entrado, o Buquinar. Loja pequena, na meiúca da Savassi. Vitrine cheia de livros, de cima a baixo, e todas as edições, mas todas mesmo, protegidas por sacos plásticos. Entrei discretamente. Um cliente mexia distraído numa pilha de quadrinhos, também embalados, e uma senhora se escondia atrás de um balcão nos fundos da loja. Provavelmente uma funcionária ou a dona.

A frente da loja não antecipa o terror que suas estantes escondem

Vasculhei as estantes buscando algo que me interessasse. Um bando de best sellers em bom estado, mas quase nada interessante. Dei mais uma chance a loja e continuei a procurar. Nisso bati de frente com A ARTE DA FOME, do Paul Auster. Eu tenho o livro, mas o peguei, mesmo sem poder folhear, só pra ver o preço. Quase tive uma síncope.

A ARTE DA FOME é um livro que não é editado há muito tempo e razoavelmente difícil de se encontrar. Isso, é claro, justifica um preço um pouco mais alto, próximo, se muito, de um livro novo. Respirei fundo e olhei o preço novamente. Não era o preço de um livro novo. Era quase o preço de um livro raro. Ainda sem acreditar me virei para a senhora nos fundos da loja.

– Esse é o preço mesmo?
– Se tem um preço escrito, esse é o preço.

Cocei os olhos, não querendo acreditar no que via, e levei o livro até ela.

– Isso mesmo- ela confirmou.- Oitenta e um reais.

Deixei a “preciosidade” na estante e comecei a olhar outros livros para ver se era um caso único ou o padrão da loja. Era o padrão. Best sellers bobos a quase 30 reais. Livros de coleções de banca de jornal a 50, 60. E até os pockets da LPM, pobrezinhos, tão baratos, não custavam menos de 25 reais. Sem falar mais nada, intimidado por esse choque de (ir)realidade, saí da loja.

No caminho para o trabalho não parava de pensar como uma loja dessas ainda poderia sobreviver desde 1993. Sim, ela tinha até uns livros raros em exposição, mas não eram nada demais. Se os meus amigos donos de sebo no Rio estavam cortando um dobrado pra se manterem nos negócios e viverem de seus ofícios, como uma loja em Belo Horizonte conseguia não falir praticando preços como esses? Será que eles não sabem que o mercado hoje vive a lógica do preço baixíssimo desde a Estante Virtual?

Quando cheguei no trabalho, só pra verificar que não estava louco, procurei alguns dos livros no Estante pra ver a quanto eles iam. Minhas suspeitas se confirmaram. Em outras lojas, eles eram bem mais baratos, 80% mais barato em média. Só pra aumentar o meu espanto, imaginem só, a loja também está no Estante.

No estante o livro ainda está 3 reais mais barato. Uma pechincha!
Será que vendo esses preços eles não retornam à razão?

Depois dessa, pode crer, Buquinar na Buquinar? No more! De casa de loucos já basta a minha.

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