Agora que já passou a comoção inicial e as camisetas “Je suis Charlie” já começaram a sair de moda, dá pra começar a sentir qual é a verdadeira opinião da população sobre o fato. Ao invés de uma defesa da liberdade de expressão e, consequentemente, do modelo liberal ocidental que deveria nos pautar, vejo surgir, no meio dos comentários de revolta contra o ato terrorista, o famoso “eles pediram”. Sim, pode prestar atenção. Lá, escondido, entre os “Que absurdo”, “Como isso foi acontecer” e “Coitados”, o povo solta um “junto com os cartunistas morreram vários inocentes” ou o mais comum “também, olha só com quem eles foram mexer”. Continue lendo
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Charlie Hebdo e a Censura Mortal
Quando fiquei sabendo do atentado à Charlie Hebdo, estranhamente me lembrei de um episódio que me aconteceu há uns dois anos.
O andar onde eu trabalhava em Belo Horizonte ia ser reformado. Fomos forçados a nos abrigar temporariamente num outro andar da empresa e a encaixotar tudo que não fosse de uso diário. Um trabalho chato e cansativo.
No processo de encaixotamento já vislumbrávamos que havia muita coisa a ser jogada fora. Em nome da presteza, o momento 5 S foi deixado para depois. Findas duas semanas de dividir mesas e estações de trabalho com pessoas que não queriam e nem tinham a menor obrigação de realmente nos receber, nosso andar ficou pronto e a mudança de volta foi feita.
Descemos nós, nossos computadores, alguns itens de uso diário e as caixas. Muitas caixas. Além de abrí-las e guardar seus conteúdos nos seus novos esconderijos, precisávamos separar o que seria jogado fora e o que seria doado. Nesse processo uma das maiores atribulações era o que fazer com materiais sigilosos que estavam encadernados com espiral. Eu, infelizmente, rapidamente peguei a manha e separava espirais e papéis com facilidade para que o conteúdo realmente delicado pudesse ser triturado. As espirais, sem uso, eram jogadas numa caixa de papelão para depois se avaliar a possibilidade de reciclagem. Não preciso dizer que o trabalho ficou todo pra mim.
Depois de uma tarde inteira de rasgação de papel e retirada de espirais, sentei na minha estação de trabalho e tive uma epifania. Aquela cena, espirais emboladas numa caixa de papelão, daria uma bela escultura. Continue lendo
Qual é o porquê de tanto porquê?
Não me ajudou muito na vida ter uma mãe existencialista que estudava filosofia, um pai galhofeiro que não tinha respeito por nenhuma instituição estabelecida e estudar num colégio católico de disciplina rígida. Para dizer a verdade, não só não ajudou como complicou muito.
Enquanto todos os alunos, desde a mais tenra idade, baixavam a cabeça para as ordens e os dogmas, eu os questionava. Até os 10 anos isso era considerado bonitinho. O pior que faziam era passar a mão na minha cabeça e dizer: “Que menino revoltado, hein?”. Desmereciam minhas reclamações e observações e continuavam com a ladainha que, hoje desconfio, nem eles mesmos acreditavam.
Quando fiz 10 anos a situação complicou um pouco. Eu já não era só um menino revoltado. Estava me tornando um pré adolescente questionador e perigoso. Para complicar um pouco a situação, minha educação na época estava sob o comando do melhor exemplo do proselitismo e nepotismo: minha professora de matemática era a filha fanática religiosa e recém formada do diretor do colégio. Continue lendo
Medo e Alívio em Las Vegas, quer dizer, em 2014
“The way does not lead between, but embraces. It is both cheerful play and cold horror.” — Carl Jung
Nas redes sociais e nas ruas, o consenso parece ser que 2014 foi um péssimo ano. Pessoalmente, não gosto de atribuir valor a construções ficcionais. Um ano não tem como ser bom ou ruim. O ano que vem, por exemplo, também não vai ser melhor nem pior. O que pode acontecer é calhar que a maioria dos fatos num dado período de tempo seja mais ou menos agradável. E só. Já o ano em si… ele não tem significado. A não ser aquele que lhe atribuímos.
Por mais que não goste de fazer isso, sou humano. Sim, podem acreditar. Pra piorar leio quadrinhos, ficção científica e fantasia regularmente; jogo RPG; e mantenho relações emocionais com seres ficcionais. Sim, sou um escravo emocional da ficção. Incluindo aquela que chamam de Vida. Exatamente como você. E que atire a primeira pedra quem nunca se emocionou lendo ou vendo um filme que ama. Portanto, nesse momento de retrospectiva forçada, começo a valorar o ano que passou numa tentativa fútil de prever o que ocorrerá em 2015. A minha conclusão? Para mim 2014 não foi bom nem ruim. 2014 foi um ano marcado por grandes momentos de medo e alívio. Continue lendo
A Odisséia Carioca
Assim como os londrinos anseiam pelos raros dias de sol nos quais poderão se desnudar nos parques e se deixar banhar pelos seus raios, a maioria dos cariocas anseia pelo frio. O meu primeiro dia não quente após a minha volta à cidade foi ontem.
A chuva varou a noite e deixou o clima ameno pela manhã. Uma heresia para o panteão dos deuses cariocas só preocupados com sol, mar, praia, chopp e futvolei. Uma benção para um herético como eu. Graças ao alívio climático, eu podia botar em ação o meu plano de ir ao trabalho de bicicleta. Continue lendo
There and Back Again
Giro a chave e abro a porta. Ela range e emperra. Minha mão resvala num parafuso solto na fechadura e me corta. Sem sangue. Entro na casa. Ela, cheia de caixas de papelão fechadas. Retrato da bagagem física e emocional que carrego pela vida. Eu, cheio de malas. Retrato do apego às poucas realizações e vícios que consegui manter.
Jogamos as malas no parco espaço vazio entre as caixas e começamos a inspeção. Nenhuma casa, por mais que a visitemos antes da mudança, parece a mesma depois que você se mudou. Uma surpresa aqui, outra alí, mas, aparentemente, iremos conseguir viver lá. Quer dizer, aqui. O antigo aqui agora é lá. Estamos de Volta de Novo. Antes de qualquer coisa, uma olhada pela janela para ver se o mar ainda está no seu lugar. Ufa, está!
Deixamos as malas e saímos pelas ruas para ver o quanto da nossa vida mudou. Ou melhor, o quanto do bairro mudou depois que a nossa vida mudou ao deixarmos a cidade quatro anos atrás. Visitamos o velho botequim. Os mesmos clientes, os mesmos funcionários. Todos estamos mais velhos, mais gordos, mas, estranhamente, mais tranquilos. Algumas lojas nunca mudam e somos saudados por pessoas que ainda lembram de nós. Mesmo sem saber exatamente de onde ou de quando. Algumas, lojas e pessoas, sumiram como se nunca houvessem existido. Questionamos a nossa própria existência nesses últimos quatro anos. Será que nesse período nunca existimos para Copacabana?
Cada esquina, cada rua, cada banca de jornal é um marco de lembranças, cheias de significados vazios, criadas por corações saudosos. Somos memórias ambulantes, esperando um momento fatal quando seremos definitivamente esquecidos. Para nós, fazemos um passeio de resgate pelo passado e recebemos mais um aviso da nossa mortalidade. Para nossa filha, tudo é novidade e vida. Anos de distância separam nossas motivações e destinos, mas Copacabana une nossas experiências.
Em busca de consolo, nos voltamos à praia e ao mar, os únicos espaços imutáveis no bairro. Nossa filha, boa mineira como é, enfrenta a água congelante para ter o tão esperado encontro com o azul infinito desse marzão. Como diria Tales de Mileto: tudo água. Como diria o 14 bis: Foi assim / Como ver o mar (…) Não tive a intenção / De me apaixonar.
Refrescados pela balsâmica água salgada de Copacabana, tomamos o calçadão para voltar ao nosso novo lar. De repente, um encontro fortuito com um conterrâneo da nossa pequena. Quieto, tranquilo, como muitos mineiros, esse ilustre exilado nunca põe os pés na areia apesar do enorme amor que tem pelo mar. Nossa filha não entende essa opção. Talvez algo da nossa carioquice lhe tenha sido passado pelo DNA.
Quase chegando ao nosso prédio, a fome nos impede de continuar. Paramos numa casa de sucos. Coisa que, por mais que se copie por aí, não existe em lugar algum como as daqui. No balcão aquecido, uma pizza carioca. Meio mozzarella, meio calabresa. Os únicos sabores que fazem sentido. Massa grossa e fofa. Queijo de má qualidade e borrachudo. Orégano? Sim, por favor. Em excesso. Um clássico. Pedimos uma fatia e um copo de mate. A cobrimos de ketchup e comemos dividindo os pedaços entre nós três. O sabor de infância não deixa dúvidas: finalmente voltamos pra casa.
Saciados, voltamos pro apartamento. Na janela, aproveitando a vista enviesada do mar, penso em Bilbo. O que será que ele sentiu ao voltar ao condado depois de todas as suas aventuras. É claro que ele perdeu sua respeitabilidade, mas será que a riqueza e a sabedoria compensaram?
Ao contrário de Bilbo não consegui deter Smaug. Ele ainda governa a montanha solitária na minha terra média. Mas fico feliz de ter feito o que podia para livrar os anões e a cidade do lago de seu terrível domínio. Ainda acho que falta pouco para que Bard finalmente apareça e crave a flecha fatal na besta. Talvez, eu tenha apenas abandonado a aventura, um pouco mais rico e um pouco mais sábio, antes do seu fim. Talvez ainda haja aventura a rolar.
Mesmo se houver, não é mais minha aventura. Agora é hora de, como fez Bilbo, descansar. Escrever minhas memórias. Compartilhar a sabedoria e a riqueza que essa aventura confusa e inesperada me trouxe. Mas nem tudo são flores. Toda aventura lança sobre o aventureiro uma pequena maldição. Aturdido, olho para a minha filha e penso se ela terá como Frodo a força para carregar o Um Anel que eu trouxe à reboque nessa busca.
Com essa charmozice mineiroca, tenho certeza que ela não terá grandes problemas.
Dorothy tem razão: “Não há lugar como o lar”.






