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Ao Super, o que é o do Super; A Lex, o que é do Lex

Um dos sinais que o filme, os quadrinhos, a animação ou qualquer manifestação midiática do Homem de Aço vai ser ao menos interessante é o quanto a “maldade” de Lex é bem trabalhada pelos autores. Mais do que um conquistador tecnológico, mais do que um executivo sem escrúpulos, mais do que um tirano invejoso, Lex precisa se mostrar abjeto ao público e a seus valores, representando exatamente o oposto do que o Superman defende. Esse contraste é o que nos mostrará de que lado estamos, nos engajará emocionalmente com a obra e nos fará torcer pelo herói.

Hoje de manhã, reassistindo à versão do James Gunn, me perguntei se o novo Lex atendia a esse requisito, e infelizmente, apesar da bela interpretação do Nicholas Hoult, não posso dizer que sim. Apesar de ser um reinvenção legal,  lembrei de uma história do John Byrne que seria mil vezes mais adequada para mostrar o Lex exercitando exatamente o oposto da empatia punkrocker dessa nova versão do Super.

É uma história curta mas marcante. Dá pra vocês lerem aqui. Em resumo: Lex, num restaurante de beira de estrada, a 900 milhas de Metropolis, faz uma proposta indecente a uma garçonete (alguns anos antes da Demi Moore aceitar a sua) para que ela lhe acompanhe por um mês, largando seu marido e toda a sua vida “limitada”, em troca de 1 milhão de dólares. O  que acontece depois? Você precisa ler, mas pode ter certeza representa exatamente tudo o que os nossos valores negam.

O que ela deveria responder? Ou, melhor, o que você responderia?

A conclusão da história é tão emblemática que é impossível não admirar a falta de limites na maldade do Lex, que não precisa de um Superman para dar as caras. Pode parecer até estranho dizer isso, mas, cá entre nós, é impossível amar o Super, sem ter uma forte ligação emocional com Lex. Afinal, os dois vivem dentro de nós e é isso o que os faz funcionar tão bem. Pro bem ou pro mal, o nosso bem e o nosso mal.

Graça Infinita contra os perigos da conformidade

É uma pena que Infinite Jest tenha virado esse red flag de masculinidade tóxica esquerdomacho style. David Foster Wallace tinha excelentes sacadas. Na verdade, acabou conhecido pela mais besta delas: a dos peixes não saberem que estão na água.

Ele também escreveu uns contos incríveis. Um dos meus preferidos está em “Oblivion: Stories”  e conta a história de uma mulher que ficou com uma expressão constante de terror devido a um erro numa cirurgia plástica e tanto a sua família como o resto do mundo precisam conviver com essa antecipação de tragédia como se fosse normal.

Outra excelente fonte pra conhecer o autor é o filme baseado na adaptação do livro de David Lipsky sobre o fim da turnê de Infinite Jest. Como seus textos, ele é recheado de grandes momentos, como o abaixo, em que David Foster Wallace prevê o nosso futuro próximo.

Ele não viveu para ver esse futuro previsível, mas deixou uma obra que combate até fisicamente isso. Há poucas justificativas para um livro ter mais de mil páginas. Lutar contra as forças da comodidade que nos engolirão completamente em pouco tempo é uma das melhores. Será que temos chance de ganhar essa guerra? A própria história de Wallace não nos dá muitas esperanças, mas é um bom sinal que nos 30 anos de Infinite Jest ainda estejamos podendo discuti-lo por aí. Alguns de nós, pelo menos.

A inescapável psicose induzida pela Internet

Warren Ellis escreve na Internet sobre as pessoas que escrevem na Internet sobre como a Internet está as deixando loucas e, por isso, saíram (?), ou querem sair, da Internet. Enquanto isso eu lhes escrevo da Internet para dizer que concordo com quem concorda e com quem discorda, e, como Tancredo Neves, especialmente com aqueles que nem discordam, nem concordam muito pelo contrário.

Como motivação, para saíram da Internet, de onde falo com vocês compartilho a palavra sagrada de Howard Beale sobre outra rede que nos deixou loucos: a televisa.

 

A prontidão do escritor

O problema de escrever é que o texto só tem dois estágios: pronto e não-pronto. A gente batalha nele (ou com ele) quando está não-pronto até cansar, e, enfim, dizemos pra nós mesmos: “Não aguento mais. Pronto!” Aí publicamos, e mentimos pra todo mundo que está pronto, apesar de nunca estar. Porém, quem lê acha que está pronto e às vezes fantasia que vai conseguir escrever algo assim “tão pronto”, como o que acabou prontamente de ler. Aí, meio sem querer querendo, começa a escrever e descobre, de pronto, que o que escreve nunca vai ficar pronto, mas aí já é tarde demais. Assim, a história termina ou, quem sabe, começa. E pronto. Pronto! Pronto?

Sobre não fazer nada nas férias e o poder das duplas negativas

The Fly Guy, lembram dele?, sabe mesmo como aproveitar as férias

As férias se aproximam do fim e, com elas, caem por terra todas fantasias do que achava que ia, mas sabia que não ia, fazer. Porém, posso afirmar com segurança, fiz avanços significativos no campo de nada fazer:

  • Terminei de ler How to Do Nothing, que na verdade deveria se chamar How to Do Something Else, o que não se trata de uma crítica negativa, mas de uma recomendação;
  • Entrei em The AI Survival Club da Catharina Doria, onde lemos em janeiro Mulheres Invisíveis, e participamos de um encontro online muito rico e cheio de gente esperta;
  • Visitei os restaurantes do coração, comi o Sanduíche Especial do Parada de Copa, o Chicharrón de Lulas do Ceviche, os frios do Talho Capixaba e os pasteis do bar Urca;
  • Fui bastante ao cinema e, por conta disso, pensei em escrever várias críticas:
    • uma sobre como A Useful Ghost, Foi Apenas um Acidente, O Agente Secreto, e Valor Sentimental reforçam a importância do cinema como ferramenta mnemônica contra o trauma e sua repetição;
    • outra sobre Morra, Amor e Se Eu Tivesse Pernas te Chutaria e a ressignificação da maternidade;
    • e finalmente uma relacionando Hamnet e o livro Imortalidades do Eduardo Gianetti sobre o luto pelos entes queridos e  o luto antecipado das nossas próprias mortes como a ferramenta maior da construção da nossa cultura.
  • Enquanto fazia meus rascunhos e anotações, pensei: “quem vai querer ler a respeito?”, e, ciente da resposta, desisti e guardei essas observações só pra mim;
  • Mas mesmo assim escrevi umas notas, umas crônicas para o República e fiz até uma homenagem especial à morte do Maneco;
  • Por falar em Leblon(?), participei da atualização do meu curso de Meditação Transcendental e voltei a meditar com regularidade, exatamente como David Lynch sugeriu;
  • Visitei muitas livrarias, tanto uma nova (a bela Ceci na Urca), como as velhas companheiras de guerra (Baratos (não mais da Ribeiro), Mar de Histórias, Brasil 2001, e Travessa (a de Ipanema)), e comprei alguns livros, com parcimônia;
  • Tentei exercer a mesma parcimônia nos projetos que se apresentaram pra mim, ou que surgiram na minha cabeça. Até resisti com afinco, mas fui subjugado pela minha inescapável vontade de inventar sarna pra me coçar, e, óbvio, acabei meio que me envolvendo em dois ou três novos e embrionários projetos de publicação e com uma oficina de fanzines;
  • No mais: joguei RPG (mas não o sistema que eu queria); fiz Pilates (com a professora que saiu da academia que eu frequento ou frequentava); tentei jogar basquete (e me contundi); mas ainda consegui caminhar bastante (e criei bolhas nos pés).

Pode até parecer que fiz muita coisa, mas, na verdade, seguindo o exemplo do How to Do Nothing, não fiz nada (que fosse produtivo aos outros). Ou, por outro lado, pode até parecer que nada foi feito, mas esse período serviu, pelo menos, como um excelente exercício para um ano regido pelo Enforcado, em que preciso dar uma pausa (forçada ou voluntária) e rever minhas perspectivas.

Vou considerar, então, que foi um sucesso total; afinal não foi pra isso que as férias, ou melhor, a vida foi feita?

Marty McFly, mártir da Geração X

Como tantos de nós, nascidos entre 1965 e 1980, Marty, criado por conta própria, foi obrigado a viajar pelo tempo, do passado ao presente e de volta para o futuro, para resolver os problemas da sua família boomer disfuncional.

McFly family at the dinner table in Back to the Future

Quando ele achou que estava tudo resolvido, surpresa!, mais um chamado, agora para resolver os problemas de seus filhos millenials.

Back to the future part II meal

Se isso não o torna a epítome da Geração X, não sei o que melhor pode nos representar. Quando será que ele terá um tempo para poder realizar os sonhos que deixou para trás em nome dos seus antepassados e da sua descendência?

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