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O Fim da Inveja de Truman

Fomos avisados, mas olhamos para as profecias do nosso cinema cassândrico com inveja e desejamos nos tornar os objetos da atenção constante alheia. E, como previsto por Truman, adoecemos.

Agora que queremos escapar dos sets coletivos em que somos figurantes nos achando protagonistas, temos medo demais de enfrentar o mar cenográfico e nossa percepção embotada não nos permite encontrar a porta que nos levará para fora desse mundo virtual, em que tudo parece falso, inclusive nós mesmos.

A quem e quando poderemos finalmente dar, caso não nos vejamos mais, nosso bom dia, boa tarde e boa noite?

Biscoito da Fortuna?

Tenho uma história complicada com os tais biscoitos da sorte. A relação é um misto tão bizarro de amor e ódio que até escrevi um livro a respeito.

Antes que venham botar na conta das minhas múltiplas neuroses, aviso, não é exagero da minha parte. Já abri biscoitos com papéis em branco; embalagens estufadas, mas sem biscoito; mensagens pouco inspiradoras (e.g. “Você nunca será rico… mas nada lhe faltará”); e até, como rolou hoje novamente, biscoitos sem nada dentro.

O drama é tão comovente e conhecido no comércio local que, hoje, o dono da loja de produtos japoneses, compadecido, acabou me dando um biscoito de graça.

O segundo biscoito veio com uma sorte meio meh!, mas certeira.

Sorte ou não, não dá pra desprezar certas verdades por mais clichê que sejam.

Corações e Mentes

Uma vez, no meio de um pacote de livros, me enviaram, de surpresa, dois squishy toys insólitos: um coração e um cérebro. A princípio não fiz nada com eles, mas, com o passar dos anos, eles acabaram assumindo funções bem específicas. O cérebro está no meu trabalho, em perfeito estado, ao lado do Gênio dos Smurfs, para não me deixar esquecer que é preciso, sim, usar a cabeça, mas sem querer ser esperto demais; já o coração, ah, coitado!, ficou solto pela minha casa, sem função definida, até que os gatos o acharam. Depois disso, ele some e reaparece, quando menos se espera, num estado cada vez pior.

Sempre que esbarro de surpresa com ele pelo chão, coberto de mordidas e pelos de gato, me pergunto se, enquanto meu cérebro tá lá preservadinho no trabalho, eu não estaria olhando para um vodu do meu próprio coração, mais estropiado a cada dia. Normalmente, o pensamento me passa direto pela cabeça e não volta. Porém, hoje, depois de reaparecer sem aviso, quase irreconhecível na boca da minha gata, resolvi guardá-lo num lugar seguro para protegê-lo das unhas e mandíbulas dos gatos e das ansiedades geradas pelas minhas superstições.

Óbvio que tudo isso não passa de uma manifestação dos meus medos da morte, e da patente discrepância de atenção que dou ao meu conhecimento e às minhas emoções, mas vai quê? Não custa nada usar o cérebro para proteger o coração.

Já ouviu a última do povo?

Ah, o povo… do povo, sobre o povo, para o povo, sob o povo. Há povos para todos os gostos e desgostos. O problema do povo, que é sempre um problema, é, ao mesmo tempo, existir e não existir. É impossível olhar para o tudo e nomear tudo o que lhe constitui. Não constitui. É uma amálgama de percepções e experiência que torna qualquer tentativa de diálogo, ou, sendo mais sincero, convencimento impraticável.

Talvez, por isso, o povo tenha tantos especialistas bem intencionados, que não fazem, nem querem fazer parte do povo. Afinal, como é possível o observador ser o objeto? Só de começar a se questionar sobre si mesmo, ele deixaria de ser parte do que estuda, o que nos impõe a impossibilidade de uma auto análise salvadora, que, alegadamente, só foi realizada por Freud, sob o pretexto de que não havia ninguém mais para analisá-lo.

Assim, o povo, essa entidade mezzo imaginária, mezzo real, é sempre colocado sob o microscópio para analisarmos a sua crise permanente e tentar encontrar maneiras de resolver seus problemas, o que o tornariam algo que não é o povo, pelo menos como o conhecemos. Porém, por mais acuradas e inteligentes que essas percepções sejam, elas nunca ajudam o povo a deixar de ser povo, pois se há um problema típico do povo é ser povo. Então, por que iríamos querer curá-lo se, por pior que sejam as suas condições de vida, é importante que haja um povo, para que nós não sejamos parte dele, povo, e, assim, possamos estudá-lo?

Entre Dois Mundos traz esse conflito com muita delicadeza, até que se derruba sobre nós como uma avalanche de culpa e realidade. Juliette Binoche interpreta com uma exatidão relaxada a intelectual bem intencionada que, como uma espiã, faz parte, mas só por um tempo, do povo, para entender o povo e tentar ajudá-lo. A sua maior crise é começar a gostar do povo e do seu avatar, por ela escolhido, interpretado com crua sinceridade por Hélène Lambert. Como não é um filme moralista, sindicalista americano dos anos 30, não há final feliz e o conflito, emanente da falta de diálogo entre o intelectual que acha que entende e quer ajudar o povo e o indivíduo, que a intelectualidade considera representar o povo, e, assim, não teria individualidade, óbvio, não se resolve.

Mas há sequer uma chance de resolução? Eu não sei, mas me lembrei muito de Tio Vania, do Tchekhov, onde o povo da fazenda sustenta o intelectual que tem direito a pensar enquanto eles são condenados a uma vida de trabalho e desespero que só poderá ser redimida com a morte e a existência de um paraíso em que eles mesmos não acreditam mais. Entre Dois Mundos é como um Tio Vania construído a partir do ponto de vista do Professor, em que a redenção vem através da loteria, com a qual o intelectual, surpresa!, não sonha. Não admira que o Anti-intelectualismo seja a força motriz de boa parte das políticas, todas um pouco fascistas e notadamente populistas, opa!, em sua essência. O intelectual desmerece os sonhos do povo ao torná-lo o foco elitista da sua capacidade e intenção analítica.

Talvez estamos olhando para a questão errada e a pergunta que devemos fazer para iniciar esse diálogo é: qual o paraíso que o povo espera alcançar e qual o paraíso que os intelectuais almejam para ele? Enquanto não pudermos sonhar com um caminho não único, mas comum, em que esse aspecto da redenção possa finalmente ser alinhado, não há a menor possibilidade de um diálogo de igual para igual.

O que a IA pode ser e o que eu não quero ser

O problema, ou benefício, da idade é ter passado por várias ondas e perceber o quanto as ondas são ondas, mas o mar permanece o mesmo. O ser humano tende a olhar tudo como espelho, mas ao invés de se refletir nas coisas, tende a reproduzir as qualidades que espera dos objetos nele próprio. É um pouco a questão de olhar pro abismo, ele olhar de volta e você se tornar o abismo.

Quando criamos a alavanca, tudo era passível (ou desejável) de ser movido por alavancas. E, assim, nos tornamos alavancas. Lembro quando o Cibercultura,do Pierre Lévy, foi o arauto da Utopia “internética” mas passou ao largo da Distopia onde nos afundamos hoje. Acho que estamos vivendo um pouco disso com a IA. Há uma pressa em reproduzir o comportamento da ferramenta (sumarizar, responder, coletar, adaptar, imitar) assim como fizemos no início da internet (expondo, conectando, absorvendo e compartilhando). Talvez o que a gente precise é justamente o contrário: ter paciência. Deixar a IA fazer os trabalhos chatos que nos sobrecarregam e repensar qual é o nosso papel no mundo.

Na verdade, a única coisa que a IA deveria fazer, para cumprir a profecia do Keynes, é assumir os bullshit jobs que ninguém deveria fazer desde o início e nos deixar descansar. Mas o engraçado é que todo mundo parece querer entregar o filé mignon pra ela. Ou, pior, queremos competir com a máquina para fazer os trabalhos que ninguém queria fazer e trabalhar 24 horas por dia vivendo a constante síndrome de people pleasing.

Na boa, isso não é pra mim. Não quero o trabalho da IA, não quero imitar, reproduzir, organizar, ou sumarizar as coisas; o que eu quero é divagar bem devagar. Enfim, sou um fiel seguidor do conselho da Tina Fey em Only Murders in The Building:

Me perdoem o ostensivo elogio à preguiça, devem ser as férias falando. 😉

O que acontece entre o primeiro e o último suspiros?

Le dernier souffle - Dimanche 17 - 11h - Festival du Film de Muret

O ser humano é atormentado pela finitude. A expectativa de voltar a um estágio em que ele volte, com bastante ênfase no “volte”, a um suposto estado de não existência é o que move boa parte de nossas ações. A ansiedade de construir algo duradouro antes que esse fim chegue; o impulso instintivo aparentemente amoroso de deixar um legado genético sobre a terra antes que retornemos para baixo dela; a ânsia de pôr fim à existência dos que não nos deixam existir como queremos; e até as discordâncias literárias sobre o que escolhemos acreditar a respeito do que há depois, ou mesmo antes, da vida movem nossos comportamentos mais extremados e a nossa história enquanto (in)civilizações. Num mundo onde nos consideramos tão avançados, é surpreendente que, enquanto trocamos magicamente informações com toda a humanidade e transpomos enorme distâncias pelo ar, ainda não paramos para nos debruçar sobre o sentimento que nos deixa acordados desde o tempo das cavernas: o medo da morte.

Em “O último suspiro”, Costa Gravas, aos 91 anos, cinematograficamente, parece preparar-se para dar o seu. Acompanhando a conversa entre um filósofo e um médico, ele nos apresenta histórias e questionamentos sobre o que é “A boa vida”, o título bem escolhido para o português, e a boa morte.

Porém, ao sair do cinema, emocionado com o desapego de tantos personagens cativantes que aprenderam a transcender esse medo e aceitar essa natural passagem de estado que tanto tememos, foi impossível não pensar: como é possível viver uma boa vida sem torná-la um eterno exercício de cuidados paliativos? Mais importante do que saber o que é uma boa vida, ou uma boa morte, é saber “o que é bem viver?”. A vida, mais do que um objeto de estudo ou um bem ao qual nos agarramos, é uma ação que, por mais que seja exercitada todos os dias, ainda é um completo mistério para nós. Por incrível que pareça, a vida em toda a sua óbvia e inescapável exuberância guarda ainda mais dúvidas e descobertas do que a esquiva e silenciosa morte.