Feriado, ainda que tardio

Nem parece feriado. Quem trabalha presencial vai trabalhar, pois o feriado foi antecipado. O mesmo vale para as escolas, que ficaram fechadas durante o recesso sanitário. Agora, pra quem, como eu, trabalhou remoto é folga. Para comemorar o quê, mesmo? Ah, Tiradentes.

Era melhor terem cancelado o feriado logo, ao invés de antecipar. Nem faz mais sentido comemorar a fracassada Inconfidência Mineira num país onde o governo conspira para assassinar a população de fome, guerra ou peste. Ou talvez agora faça mais sentido do que antes. Precisamos, sim, de liberdade, mesmo que tardia. Não para sair de casa, como ambicionam os genocidas negacionistas, mas sim para ficar nela. Protegidos. Em todos os sentidos. Mas até isso nos é negado em nome de um arremedo de meritocracia inventada para perpetuar uma elite no poder e continuar escravizando todo um povo sob a falácia que o trabalho enobrece e sob a fantasia que seu esforço e sua competência farão diferença.

Frente a esse cenário, só vejo uma saída. Como com os portugueses na colônia, não há espaço para negociar e precisamos acabar logo com esse mal que nos acomete: o trabalho. É, ao invés de lutar por uma sociedade onde todos possam trabalhar, precisamos ter uma sociedade onde ninguém precise trabalhar. E não é difícil; quer dizer, é, mas não é impossível. Só precisamos automatizar a maioria dos trabalhos, reduzir o nosso consumo, dar condições básicas e confortáveis de vida a todos, e acabar com o acúmulo de capital. Dessa forma, o trabalho não será mais uma necessidade de sobrevivência, mas uma maneira de nos doar a nossa coletividade. Seria bom, né?

Óbvio que não dá pra fazer isso do dia pra noite. Deve levar uns 50-100 anos, mas se não começarmos hoje só vai demorar mais. Então, começamos taxando as grandes fortunas ou pela renda mínima universal? Que tal os dois? E se a gente aproveitar e acabar também com as forças armadas no mundo todo?

BAM-BAM!

Que diabo foi isso? Calma, era só uma porta batendo. Bom, sinal de que é melhor eu ficar quieto hoje curtindo meu feriado. Afinal, se Tiradentes, que ambicionava bem menos, levou a pior há quase 230 anos, não sou eu, ainda não vacinado, que vou tirar onda de herói. Pelo menos não hoje. Mas amanhã, ah, de amanhã, pode escrever, essa revolução não passa; olha, que não passa mesmo.

BAM-BAM!

Pera aí, é impressão minha ou vocês também ouviram alguém mexendo na porta?


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