
Marty McFly, mártir da Geração X
Como tantos de nós, nascidos entre 1965 e 1980, Marty, criado por conta própria, foi obrigado a viajar pelo tempo, do passado ao presente e de volta para o futuro, para resolver os problemas da sua família boomer disfuncional.

Quando ele achou que estava tudo resolvido, surpresa!, mais um chamado, agora para resolver os problemas de seus filhos millenials.

Se isso não o torna a epítome da Geração X, não sei o que melhor pode nos representar. Quando será que ele terá um tempo para poder realizar os sonhos que deixou para trás em nome dos seus antepassados e da sua descendência?

Tecno feudalismo, i.e., o socialismo oligárquico americano do pós capitalismo
Muito curioso que, com o dinheiro obtido da venda dos recursos naturais roubados da Venezuela, Trump force o país invadido a comprar apenas produtos americanos. É um processo curioso em que se “liberta” um país de uma ditadura “socialista” para lhe impor um “livre mercado” onde você só pode vender para um cliente e comprar de apenas um produtor.
O quanto isso, me pergunto, se confunde com um socialismo sem ideais socialistas? Parece que os EUA simplesmente abraçaram as estratégias da União Soviética com os países sob a sua esfera de influência pós II Guerra Mundial, misturada com uma autocracia que beneficia os negócios dos amigos pessoais do rei, quer dizer, da família real, quer dizer, da figura patética, quer dizer, do presidente americano.
Na boa, não entendo mais como nada funciona no mundo. Enfim, a única coisa que me passa pela cabeça é gritar junto com o Sílvio Brito: Pare o mundo que eu quero descer.
Tá tudo errado, tá tudo erradoDesorientado segue o mundoEnquanto eu morro estando aqui paradoTá tudo errado, tá tudo erradoSó quero ter você do ladoPra mandar o resto pros diabos.
The (Kitchen Sink) Stuff, quer dizer, Pluribus
Confesso, não assisti à primeira temporada até o final, mas já no sexto episódio estou cansando. O excesso de exposição e o “mistério”, que parece uma colcha de retalhos de outros filmes (e.g.The Stuff, Soylent Green, The Quiet Earth, West World, M.I.B., etc) numa sucessiva cadeia de “oh, quem diria?”, não conseguem me prender a atenção por parecerem justamente feitos só pra isso.

Oh, Carol, Charlton Heston já tinha cantado essa pedra…
A personagem principal, da qual muita gente está reclamando, não é, na minha opinião, tão odiosa assim para ser o motivo pelo qual a série não tem graça. Ela, como o livro “sério” da Carol, é só “nice”, quer dizer, “meh!”. Se a Carol fosse mesmo uma Karen, como tem sido acusada por aí, eu acho que seria muito mais interessante. E as comparações que tenho lido com Invasores de Corpos (ou Vampiros Almas)? É sério isso? É quase como comparar 1984 com Admirável Mundo Novo. Pluribus está muito mais próximo de O Fim da Infância do Arthur C. Clarke do que do(s) filme(s) inspirados pelo livro do Jack Finney.
Objetivamente, meu principal incômodo é que a série perde oportunidades ótimas e atualíssimas para discutir nossas resistências para aceitar (ou lutar por) um mundo melhor e o nosso hábito em instrumentalizar o hedonismo em prol da inconsciência narcisista. Talvez se a Carol, ao contrário do que rola, lutasse para ser integrada e não conseguisse, a metáfora seria mais forte.
Além disso, não fossem os aliens (são aliens?) vilões antropófagos bem educados, a história com certeza seria bem mais intrigante e empolgante. Mas, pelo jeito, como os aliens (vem cá, são aliens mesmo? eu disse que não vi até o fim) , o Vince Gilligan não só quer agradar todo mundo como adora ficar explicando as coisas o tempo inteiro.
Sorry, Vince, nessa você me perdeu…
A ressurgência do sucesso mineiro
Quando eu ainda estava envolvido no mercado de RPG, sempre me espantava com as inclinações regionais dos criadores e empresas. No Rio sempre me parecia que o pessoal buscava investir em alguma criação que chamasse atenção pelo seu capital cultural e possibilitasse retorno financeiro por editais ou na forma de status. Já em São Paulo, o que parecia pesar mais era o capital econômico e a orientação do público. Pra onde o vento soprasse mais forte, com muita eficiência e velocidade, o pessoal conseguia produzir material que atendesse às expectativas ou desejos mais pontuais, e, às vezes, efêmeros, da massa de consumidores. Mas em Minas o lance era diferente. Em Minas toda vez que eu conversava com os criadores sobre suas expectativas de retorno sobre o investimento (financeiro, de tempo e emocional) envolvido nas suas criações, a resposta que normalmente recebia era: “ah, véio, fizemos isso pois é muito doido”.
Quando vejo pra onde o mercado editorial (do qual o RPG também faz parte) se move com a IA, me pergunto se não estamos chegando num ponto de inflexão em que a maximização dos resultados se torne impossível pela pasteurização dos outputs das máquinas baseados em dados gerados pelos próprios algoritmos que os criam.
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Será realmente lindo quando pudermos abraçar essa “doideira” mineira como a verdadeira forma de sucesso. Um sucesso que todos podem fazer, pois, mesmo que sejamos todos doidos, seremos sempre doidos às nossas próprias maneiras.
Mergulha!
O que o Rock nos deu e o Punk Rock popularizou, em contraposição aos megashows em arenas onde a divisão entre artistas e plateia é clara e intransponível, foi o stage diving. Um momento de pura vulnerabilidade em que a estrela se coloca na mão do seu público. Será ela amparada? Ou acabará estatelada no chão?
Ao contrário do que possa parecer isso nada tem a ver com vaidade, mas, sim, com a confiança de fazer parte de uma tribo que vai estar ali pra te socorrer. Não admira que o próprio público também se sinta à vontade de subir ao palco para se atirar sobre seus iguais. Afinal, plateia, músicos, palco, audiência, somos todos iguais; o que nos difere é apenas o papel que desempenhamos no momento.
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“Keep your hands up and keep your phones down! If you don’t catch me, I will fucking die!”
Superman tinha razão: solidariedade e confiança são o verdadeiro punk rock!
À espera de um milagre
As maiores tragédias dos nossos tempos não são as guerras, não são as ditaduras, não é a violência enraizada nas nossas relações formais e informais: é a falta de sensação de pertencimento. Essa impossibilidade de olhar para o outro e saber como ser generoso e receber a sua generosidade é o que causa todos esses males. Em vez de terminar com as guerras com mais violência ou reagir com igual vilania às atrocidades que nos submetem, deveríamos reforçar as nossas relações mais próximas, criando uma rede de apoio que sufoque todo esse ódio, e o medo que o alimenta, para, enfim, tornar a humanidade, de fato, uma comunidade. Quando esse dia chegar, como Kevin Kelly bem nos lembra, estaremos prontos a aceitar os milagres que todos merecemos receber.
Mas, confesso, é muito difícil manter essa fé quando as bombas da ignorância e da ganância explodem ao nosso redor. A cada estrondo, a cada mentira, a cada último suspiro dado por um inocente pego no fogo cruzado desses narcisistas amedrontados, a pergunta ecoa nas nossas mentes: quando (e se) nos emendaremos? Será que um dia teremos a coragem de abandonar o medo e caminhar a estrada não trilhada?

I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I—
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.
As lições cinematográficas não esperadas das madrugadas
Há muito tempo, quando não tínhamos um mundo de opções de distrações opiáceas para entorpecer nossas cognições e nossos sentidos, era preciso aceitar a fricção estética dos filmes ruins das madrugadas. Restritos a meia dúzia de canais que precisavam despejar os longas-metragens de qualidade duvidosa que as estações de TV precisaram comprar para adquirir os direitos de exibir os blockbusters que realmente traziam público e anunciantes, nós passávamos por uma educação cinematográfica forçada, aprendendo o que não prestava e tentando dar sentido e afeto ao que não tinha senso.
Mas quem disse que isso era ruim? Ninguém se tornou um gênio sob uma dieta exclusiva de clássicos, Tarantino que o diga. É preciso receber doses cavalares de filmes/livros/músicas de B a Z para adquirir musculatura estética pra criar algo que preste.
Depois perguntam por que hoje em dia não se cria nada bom. Sem o gosto ruim da película ingênua, produzimos apenas gerações de imitadores em busca de um sucesso medíocre. Falta aos novos criadores, oprimidos por vergonhosas preferências irônicas, a paciência e a generosidade de saber assistir a filmes ruins. Ah, um pouco de insônia também sempre ajuda.
Meu desejo pra você em 2026
Que em 2026 você tenha clareza de pensamento. Afinal, como dizia o Spy vs. Spy, “Reality’s a matter of a clarity of mind”. Ou seja, não importa se as coisas vão bem ou mal, a clareza de pensamento sempre vai te ajudar a lidar melhor com a vida.
Been years gone byI’ve just abused my mindMy body’s paid the priceCome to a forkI can go up and downOr use my mouth too muchOh lord, protect my words(…)All the things I’ve saidYou know they don’t all addNow who’s a moddle head
Prospectiva 2026
Toda virada de ano (e, dependendo da minha ansiedade, de semestre) eu chamo a minha taróloga pra bater um papo sobre minhas expectativas e temores a respeito do futuro. A parte mais difícil do processo não é encarar o que (de ruim) pode acontecer, mas saber o que perguntar. Normalmente essa dificuldade vem de uma falta de honestidade comigo mesmo. Como assumir o que eu quero, não só para os outros, mas para mim mesmo?
Sim, sou desses; tenho vergonha das minhas parcas ambições. Mas esse ano fui até melhor nesse quesito e cutuquei o problema na raiz: como entrar em contato direto com os meus desejos em vez de ficar me satisfazendo com a ajuda que presto na resolução dos problemas alheios?
A resposta não foi, como esperado, algo que eu esperasse. Invés de dispender mais esforço ou me debruçar racionalmente sobre o problema, minhas formas usuais de encarar quase tudo, o recado foi: deixa rolar. Sério? Pra um sujeito como eu, acostumado a evitar a possível fadiga futura trabalhando antecipadamente, é um exercício cruel.
Confesso que relutei em aceitar. Como simplesmente mudar a chave e viver de forma livre, como o Louco do Tarot, dando voltas por aí, sem me preocupar com os precipícios que nos cercam? Óbvio que precisei de ajuda pra encontrar um caminho intermediário. Lembrei logo e resolvi reler o The Happiness Project da Gretchen Rubin, em que ela, uma control freak, como eu, entrou numa jornada de 12 meses para ser conscientemente mais feliz. Tá, eu sei que estou burlando o tal do “deixar rolar”, mas foi o que deu para eu permitir, ordeiramente, as coisas me surpreenderem mais na vida, sem que as minhas fantasias de ruína tomem conta da minha mente.

Leitura iniciada na praia. Mais relaxada que isso impossível!
No primeiro mês, o foco é ter mais energia, tornando o caminhar uma prática, enquanto se livra dos pesos extras que carrega, pra prestar mais atenção ao que está na sua cara e você se venda pra não ver. Hoje, já senti que o lance está funcionando. De manhã, na volta de umas compras aleatórias, atravessando uma rua pela qual passo sempre em modo automático, esbarrei com um veículo impossível de ignorar no qual deveria estar fazendo essa viagem de liberdade por 2026.

Isso não é um automóvel, é um sinal divino.
Agora vem a pergunta: ele simplesmente cruzou o meu caminho ou sempre esteve lá e só consegui vê-lo agora? Tá, eu sei, é exagero, mas não custa nada dar uma moral pras surpresas que bestificam a nossa razão. É, pelo jeito, o inesperado chegou com tudo. Seja bem vindo!
