O escritor carioca confinado

Toda vez que compartilho algum texto meu com colegas que não moram no Rio, recebo sempre a mesma crítica: “Pra que diabos você precisa ficar dando nome e endereço de tudo?”.

Entendo a crítica, compreendo a irritação, mas, sorry, não posso fazer nada.

É a sina do escritor carioca trampar de guia turístico. Machado de Assis fez isso, Joaquim Manuel de Macedo fez isso, João do Rio inclusive, olha a bandeira, tem um livro chamado A Alma Encantadora das Ruas. Avançando pelo século XX, Stanislaw Ponte Preta, e até os estrangeiros, como Nelson Rodrigues e os Rubens, Fonseca e Braga, se renderam a essa literatura de Guia Rex. O escritor carioca precisa mostrar de onde e a que veio. Afinal, pré pandemia, era um prazer flanar por essa cidade.

Por isso escrevo que os personagens avançaram a pé pela Tonelero ao invés de pegar a Barata Ribeiro. Isso é importante pra história e nos fala das escolhas que os personagens fazem e do que eles são feitos. Quem escolhe atravessar o Túnel Velho a pé pra chegar em Botafogo é diferente, e muito, daquele que pega um táxi e segue pela Lagoa subindo o corte do Cantagalo. O sujeito que chega no Méier de lotação é de outra espécie do que aquele que vai de trem e cruza a linha pra chegar do outro lado.

O escritor e o personagem cariocas são feitos de escolhas de onde ir e como chegar. Não tem grandiosidade, só pequenos dramas exagerados. Por isso a literatura do Rio é feita de gente discretamente escandalosa e de esquinas e lugarezinhos. Por isso não há literatura na Barra da Tijuca, lugar que nem deveria fazer parte dessa terra. Por isso, a literatura carioca não foi feita só pra se ler, mas para se andar.

Hoje, tentando terminar um conto que protelo desde meados de junho, esbarro num desses dramas. Os personagens deveriam ir pelo Joá ou pela Lagoa Barra? Como esse é um ponto central na história, confesso, fico paralisado. Sem poder botar os dois caminhos à prova, me pergunto o que será da literatura carioca sem o flânerie. Mas lembro da elite ignara que enche as ruas do Leblon durante a pandemia e tenho certeza: graças a esses miseráveis, caminhar pelo Rio nunca mais terá graça.

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