O Último Aniversário

Desde os meus 13 anos eu tinha um ritual que cumpria fielmente no dia do meu aniversário: reler Watchmen. Naquele 11 de setembro de 2001 não foi diferente.

Na época eu gerenciava o turno da manhã no sebo Baratos da Ribeiro e como já ia sair de noite, para não correr o risco de não cumprir a tradição, troquei de turno com o pessoal da tarde. Acordei, como de costume, bem cedo; fiz um café da manhã não memorável;  levei minha namorada no ponto de ônibus; e voltei pra casa pra cumprir o meu dever.

Separei as seis edições de Watchmen da Abril, aquelas originais do lançamento no Brasil; botei o cinzeiro e o maço de cigarros ao lado da cama; e liguei a TV baixinho na Bandeirantes para acompanhar as notícias do dia. Entre um cigarro e outro, ia revisitando o universo alternativo de Alan Moore, onde um bando de heróis impotentes tentavam inutilmente frear os impulsos autodestrutivos da humanidade. Lá pelo meio da história da captura do Rorschach, entrou um plantão da TV: um avião, aparentemente um monomotor, colidiu com o World Trade Center.

Parei a leitura e comecei a zapear pela curta lista de canais da época. Mesmo com TV a cabo foi rápido. A maioria dos canais exibiam as mesmas imagens e diziam algo que o jornalismo de hoje deveria dizer mais: “Não sabemos do que se trata. Ainda estamos apurando”. Só o SBT se mantinha firme na sua missão de alienação e continuava a transmitir desenhos animados durante o seu Bom Dia & Cia. 

Tentei retomar a leitura, mas um dos funcionários do sebo ligou de um orelhão avisando que o sócio que ia me substituir não tinha chegado. Comentei sobre a colisão do avião e pedi que esperasse uns 15 minutos antes de me ligar de novo. Ele me ligou em menos de 10 pra avisar que o sócio tinha chegado.

Liberado da função, voltei pra frente da TV, ainda com esperanças de terminar de reler o Watchmen. Consegui avançar até as sessões de psicoterapia do Rorschach, mas, em breve, ao vivo, logo veio a notícia da colisão do segundo avião. Agora, as dúvidas se tornaram certezas. Não poderia ser uma simples coincidência. Pra fazer sentido, tudo tinha que ter sido orquestrado. Era um ataque terrorista.

Enquanto os jornais começavam a enumerar os possíveis suspeitos, liguei pra loja e comecei a dar ordens, como se numa guerra. Ligar a TV na sala dos fundos; informar aos clientes que a sala estava disponível para quem quisesse acompanhar as notícias; trocar os livros da vitrine por tudo que tivéssemos sobre Oriente Médio, terrorismo e história americana recente; e aumentar o preço de todos os Alcorões que tivéssemos em estoque. Em frenesi, eu gritava no telefone pra motivar a equipe:

– Roma está caindo! Roma está caindo!

Fiquei em pé em frente a TV, dividido entre voltar a reler Watchmen e ir logo pra loja. Afinal, todos precisam assumir seus postos durante uma emergência. Para resolver o meu dilema, a torre atingida pelos aviões não resistiu e caiu. Vi e revi aquela cena por minutos na TV e ainda a vejo na minha mente. Atingido emocionalmente por aquela nuvem de poeira e pelas toneladas de aço de concreto do World Trade Center, não pensei duas vezes.Tomei um banho, botei os volumes de Watchmen que faltavam ler numa mochila, e parti pro trabalho.

A loja estava lotada. Na sala dos fundos as pessoas se espremiam para acompanhar o que acontecia no mundo, mesmo que agora fossem só replays e comentários. Todos tinham teorias e opiniões. Graças a Deus ainda não existiam redes sociais.

O sócio que me substituiu me lembrou que um dos outros sócios estava visitando a irmã em Washington. Comentou que tentaram falar com ele mas não conseguiram completar a ligação. Agora já era público o ataque ao Pentágono e que as comunicações nos e com os Estados Unidos estavam suspensas ou bloqueadas. Lembrei de alguns amigos que estavam por Nova York. Fiquei com vontade de ligar para eles, mas pelo jeito só nos restava rezar para que estivessem bem. 

Liguei pra minha mãe pra comentar sobre o ataque e ela aproveitou para confirmar o meu jantar de aniversário no mexicano da Cobal assim que a loja fechasse. Liguei pra minha namorada pra saber como ela estava e ficamos durante um bom tempo discutindo o que estávamos fazendo quando ficamos sabendo dos ataques e planejando o que faríamos depois do jantar. O turno da manhã acabou e precisei assumir a loja. 

O movimento continuou firme e forte. Quando começaram a anunciar os rumores sobre o envolvimento de Osama bin Laden, já tínhamos vendido quase tudo relacionado ao tema, desde os Alcorões majorados até aquelas besteiras sobre a Guerra do Afeganistão da Bibliex. O mundo como o conhecíamos estava ruindo, mas ainda havia gente no Rio de Janeiro disposta a tentar entender o que estava acontecendo. Era um mundo diferente. Um mundo que acabou naquele dia.

Quando anoiteceu, as pessoas, ainda aturdidas, começaram a se recolher. A sala de TV ficou vazia e alguns poucos clientes regulares vindos do trabalho apareceram na loja para saber como estávamos. Era como se todos nós estivéssemos em Nova York naquele dia. Era como se todos nós fôssemos vítimas daquele ataque. O que não deixava de ser verdade.

Minha namorada chegou do trabalho, esperei a saída dos últimos clientes, fechei a loja e fomos pra Cobal, encontrar a minha mãe. Quando chegamos no mexicano, Bush filho dizia na TV, sem meias palavras, que o mundo ia se tornar um estado global totalitarista mas, abalados com a queda do World Trade Center, não prestamos atenção. E olha só onde fomos parar por esse momento de distração.

Tentando ignorar o avião na torre, passamos a noite comendo tortillas, bebendo micheladas e discutindo como seria o mundo no dia seguinte. Ninguém tinha ideia, nem cantaram parabéns para mim.

Cansado, suspendi os planos pós jantar, me despedi da minha mãe, e fui pra casa com a minha namorada. Quando me deitei, lembrei dos Watchmen lidos pela metade. Deixei minha namorada cair no sono e fui pra sala retomar a leitura. Tudo parecia diferente. Sem gosto. As conspirações imaginárias e filosóficas do Alan Moore não conseguiam mais competir com a realidade brutal do instinto de morte e desejo de poder do Dick Cheney.

Deixei as revistas não lidas sobre o sofá, deitei na cama e abracei minha namorada rezando para que o amanhã fosse melhor. Fui parcialmente atendido. Nos casamos, temos uma filha maravilhosa e vivemos com muito amor e harmonia. Já o mundo… vocês sabem como está.

Quanto à tradição ela morreu. Nunca mais reli Watchmen e, também, nunca mais tive um aniversário só meu. E Roma? Ao contrário da minha previsão, Roma não caiu; ainda. Ainda.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

*

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Close