Obrigado, meu irmão

Tenho escrito obituários demais.

Ainda me lembro do dia em que nos conhecemos. Eu tinha saído de um colégio experimental e caí de paraquedas na pré alfabetização de uma escola protestante tradicional. No primeiro dia, você, acompanhado de uma ganguezinha, que nunca mais vi, me abordou:

– Veio de saia, novato?

– Não. Isso se chama bermuda. Bermuda.

Nos tornamos amigos.

Compartilhamos as primeiras revistas em quadrinhos. Brigamos pois você preferia a Elektra e eu, a Sharon Carter.  De Socos. Como as crianças de seis anos que éramos: pulando numa cama que quebrou. Quando o estrado ruiu, caímos rolando de rir. Você tinha razão, Elektra era melhor.

Você me acompanhou no período em que minha mãe teve câncer de útero e eu, aos seis anos de idade, não sabia o que seria da minha vida. A menina mais bonita da escola, pela qual éramos ambos apaixonados, foi visitá-la no hospital. Você disse:

– Que sorte que sua mãe teve câncer.

O pior é que eu entendi o que você queria dizer.

Concorremos para entrar no mesmo colégio no ensino fundamental mas você bombou, pois, como de costume, levantou pra ver a minha prova. Quando entrei na nova escola, perdi o contato com todo mundo, menos com você. Continuamos amigos. Éramos filhos únicos, mesmo que seu pai tivesse dois filhos grandes do primeiro casamento, e nos considerávamos irmãos. Éramos irmãos.

Passamos aniversários juntos. Anos novos juntos. Vimos o flamengo ser campeão mundial juntos quando eu ainda torcia pra futebol. Dormíamos o tempo todo um na casa do outro, mas quando eu ia pra sua sempre acontecia uma tragédia. Uma vez você rachou a cabeça e precisou tomar pontos na madrugada, na outra engoliu, sabe-se lá como, uma corrente.

Jogamos Atari, Alerta Vermelho, Scotland Yard, Marvel Super Heroes, Call of Cthulhu, quando desistiu do RPG porque morreu, enquanto o jogador que desmaiou de susto sobreviveu. Jogamos Escrete. É, você tinha aquele jogo rarão criado pelo Chico Buarque. Mas só jogávamos a parte de comprar e vender jogadores. O resto era chato.

Quando chegamos à adolescência não nos afastamos, pelo contrário, o cinema reforçou nossos laços. Você já dava sinais que seria o que se tornou: crítico de cinema. Ou como a gente costumava te chamar: a crítica especializada. Fizemos parte do Hollywood Connection, aquele clube de cinema bacana onde a gente curtia as cabines para a crítica; pegamos o período do auge da Miramax e do Festival do Rio, onde emendávamos 4 sessões consecutivas de cinema. Você às vezes ia até além e assistia a tudo sem pudor. Desde que fosse bom, afinal, como você não nos deixava esquecer:

– Alta cultura é alta cultura. O resto é bonde do tigrão.

Uma vez esbarrou comigo no Cervantes antes de uma dessas maratonas e comentou que a do dia era do Festival de Cinema Gay e Lésbico. Um popular te questionou se o filme que ia ver era gay ou lésbico. Você respondeu envergonhado:

– Gay.

Graças ao seu gosto refinado fomos obrigados a assistir a uma pá de filmes com você. Uns ótimos, outros,umas bombas, como um filme francês longo, lento e chato chamado Contos Imorais. Quando reclamamos dele no chopp pós cinema, você foi categórico:

– Vocês não sabem o que é erotismo.

Todo mundo te conhecia no circuito de cinema alternativo do Rio. Na locadora do Estação inclusive nos chamavam de Gêmeos, Mórbida Semelhança. Uma vez fizeram uma matéria no jornal contigo por conta da mania de entrar, de graça, no cinema para ver os trailers. Na reportagem você revelou a sua outra mania chata pacas de ir pro cinema com a gente e sentar separado, declarando:

– Com amigos ou namorada, só quando for assistir ao filme pela segunda vez.

Quando questionado sobre a tal namorada, gritou exasperado:

– É uma namorada virtual! Virtual!

Você inaugurou a era do amor líquido antes do Bauman.

No começo dos anos 90 você fez parte da criação do Bocão do Oscar, evento que ainda nomeia o grupo de Whatsapp dos nossos amigos. Como você não comemorava aniversário, a entrega do Oscar era a nossa festa pra você. Era o dia em que a gente te curtia na plenitude. Você exacerbava as suas idiossincrasias sobre onde sentar, e tomava ódio de quem pegava o seu lugar; perdia a linha e pulava na piscina; ou, uma vez só, exagerou na dose e acabou desmaiando da mistura de álcool e remédio pra dormir.

Nos tornamos jovens adultos e, além da festa do Oscar, a gente continuou acompanhando a vida um do outro. Você foi, óbvio, meu padrinho de casamento; quando abri o primeiro sebo, você estava lá com um mural dedicado à sua arte onde a gente colocava as suas críticas hilárias sobre a programação da TV publicadas na finada Tribuna da Imprensa; quando resolvi abrir o segundo, você foi um dos sócios. Numas férias minhas assumiu a loja e foi obrigado a lidar com um escândalo de uma sub-celebridade, filmado pelo TV Fama, porque a gente tinha uma placa na vitrine proibindo a entrada de ex Big Brothers. Por isso te peço desculpas.

Há alguns anos atrás sua mãe morreu e esse foi um puta baque pra você. Lembro que foi como se tivesse caído de repente na idade adulta, coisa para a qual não estava preparado de verdade. Na saída da cremação da sua mãe, eu peguei uma carona com uns amigos dela. No caminho eles me perguntaram:

– Como o João vai se virar sozinho agora?

Não se virou, ecoando a sua proverbial resposta a nossa pergunta sobre o que faria quando sua mãe morresse:

– Conto com vocês.

Você contou, a gente esteve lá, mas depois de 10 anos de uma lenta e repentina queda, você morreu.

Eu tentei retomar o contato  com você durante essa queda e tive o privilégio de te ver mais umas vezes, mas não soube como te ajudar. Uma culpa que vou carregar pra sempre. Agora fica a saudade, a frustração de, por conta do CoVid, não poder lhe prestar uma última homenagem, e a lembrança da última mensagem que te mandei e não tive resposta:

“Fala, amigo,

Quanto tempo. Posso fingir que é normal, um desencontro aleatório do mundo, caminhos diferentes e afastados, por conta de compromissos e mudanças de vida; em parte é, mas também não é.

Você meio que sumiu. Por conta própria. E eu, mesmo sentindo a sua falta, fiz pouco esforço para te encontrar, talvez por medo de te incomodar, não entender o que você está passando ou simplesmente ter poucas ideias de como lhe ajudar. Uma parte medo, uma parte vergonha. Como quase tudo.

Saiba que estou aguardando o seu retorno ao nosso meio. Um cara que sempre admirei e que foi, em boa parte, um interlocutor para as minhas doideiras mesmo quando não estava presente. Se puder, e quiser, dê um alô, marque um chopp, um almoço, um telefonema. Quero saber como você está e como podemos retomar o nosso contato.

Esperando que você esteja bem, um abraço do seu amigo de sempre,”

Esperando que você esteja bem. Onde estiver.

Esperando que você esteja melhor. Onde estiver.

Um abraço do seu amigo de sempre.

Um abraço do seu irmão

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