[oei#49] A leitura como conexão nas ágoras energéticas do comércio do livro

Na minha adolescência, quando comecei a me interessar por tarot, tive a sorte de fazer amizade com uma menina que jogava baralho cigano. Ela morava com duas primas, uma tia, uma amiga, meio que refugiada dos pais, e a mãe, que, por acaso, era escritora, numa comunidade totalmente feminina e mística. Toda vez que elas tiravam cartas para mim ou eu tirava cartas para elas, sempre insistiam em pagamento. Nem que fosse um real, ou, na época, cruzeiro.

— Não é ganância- explicavam. — Como eu fiz algo por você, e você, algo por mim, a energia precisa circular.

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No início da minha vida adulta passei por uma situação financeira ruim e, por vergonha de pedir ajuda, precisei vender a minha biblioteca. Fui ao sebo Mar de Histórias que era perto de casa e ofereci meus livros.

— O que você tem para vender? – o saudoso Marcelo Lachter me questionou.

— De literatura tenho bastante Bukowski, Kerouac, Burgess, Borges, Burroughs; muita ficção científica e fantasia, Sterling, Gibson, Tolkien, Lovecraft, King, Clarke, Asimov; quadrinhos até demais, de Marvel a DC, passando por um bando de independentes, Miller, Moore, Eisner, Morrison, Manara, Bilal, Pazienza; uma boa leva de biografias políticas estrangeiras, Kennedy, Nixon e afins; além de uma penca de RPG e as obras completas de Freud.

— Sério?

— Sério.

Marcamos uma data e ele foi junto com Maurício Gouveia para inspecionar a minha seleção. Lembro que a situação foi tão difícil para mim que pedi a uma amiga para acompanhar o processo. Enquanto eles passavam o pente fino nas minhas estantes, eu pedia licença para ir chorar no quarto por estar perdendo o trabalho de uma vida (de 25 anos, mas ainda assim).

Eles ofereceram um valor que considerei justo, eu aceitei sem regatear e meus livros foram viver em outro lugar sem mim.

Quando minha situação financeira melhorou, comecei a visitar a Mar de Histórias para tentar recuperar parte da minha coleção. Levava, quando possível, alguns amigos para que eles também levassem pedaços de mim para as suas estantes. Nessas visitas os laços entre mim, Marcelo e Maurício se estreitavam a cada papo e compra.

No fim do ano, Marcelo me convidou para tomar um café e me ofereceu uma sociedade com ele e o Maurício na livraria que se tornaria a Baratos da Ribeiro. Aceitei, mas não deixei de querer saber o porquê dessa honra:

— Nunca compramos uma biblioteca tão boa e eclética como a sua. Era como se você já gerenciasse uma livraria em casa.

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Depois de vender minha parte na Baratos e passar alguns anos como empreendedor no mercado de treinamento e desenvolvimento, me deu a louca e resolvi abrir um novo sebo. Era o que eu amava, não? Nada mais óbvio que devotar, mesmo com dificuldade, a minha vida ao que realmente me tornava completo. Assim nasceu o Le Bon Sebon.

E quanta dificuldade. Mesmo num ponto que prometia ser bom, numa área rica e cultural da cidade, por conta de vários erros em premissas do nosso planejamento e por uma boa quantidade de azar, falimos em menos de um ano. Quando tomei a decisão derradeira de fechar a livraria, chamei novamente o Marcelo para comprar o nosso estoque e tentar reduzir o nosso prejuízo. Dessa vez não chorei, mas sofri da mesma forma.

Depois de fecharmos o negócio, mais uma vez justo e sem regatear, Marcelo me abraçou e me disse:

­— É um prazer ter comprado duas bibliotecas tão boas de você, e uma honra que você tenha me escolhido para acolhê-las.

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Desde então, abandonei o comércio de livros como vendedor e me tornei apenas não um consumidor, palavra que eu odeio, mas um cliente, ou, melhor, um freguês contumaz. Mais do que um comprador, sou um frequentador de livraria, o proverbial chato que cola no balcão falando mal e bem das mercadorias, ou, nos termos mais populares, um rato de sebo.

Frequento regularmente as livrarias no entorno da casa e do trabalho, conheço os livreiros pelo nome e, em alguns casos, eles também conhecem o meu e o(s) meu(s) gosto(s).  Não é raro que receba mensagens por e-mail e whatsapp deles sobre lançamentos ou descobertas que podem me interessar. E, em geral, estão certos.

Essa relação, essa troca de energia, é algo que as redes sociais e livrarias digitais tentam construir, mas ainda não chegaram lá. As editoras montam clubes de livro online sobre suas obras para construir essas conexões, mas essas tentativas formais não conseguem (ainda) capturar a organicidade do papo em pé entre os livros e nem reproduzir o encontro fortuito entre antigos conhecidos que buscavam a mesma obra ou novos, futuros amigos que, ouvindo os papos um e do outro, descobriram ter um gosto similar.

Essas ágoras digitais erram no humano quando tentam acertar no comercial. As livrarias e editoras precisam, sim, vender para manter suas sustentabilidades financeiras, mas esquecem que a conexão que eles geram é o verdadeiro objetivo dessa transação comercial.

A conexão com o autor, com o qual, concordando ou discordando, nos maravilhamos pela qualidade da sua prosa, das suas ideias, de seus argumentos ou da sua sensibilidade. A conexão com os outros leitores que tornam o espaço físico ou virtual um ponto de encontro; com os livreiros que se tornam nossos mentores e sparrings intelectuais; e com os próprios livros que, como tesouros cheios de mistérios, capturam nossas expectativas e nossa admiração.

Assim, toda vez que vou a uma livraria, como se estivesse jogando tarot na minha adolescência, ou vendendo ou comprando bibliotecas, faço sempre, por menor que seja, uma troca energética e comercial. E, como um Sísifo feliz camusiano, continuo no contínuo exercício de reconstruir a minha biblioteca que um dia será, por minha vontade ou não, mais uma vez desconstruída.

Uma biblioteca de livros, uma biblioteca de energias e relações. Uma biblioteca que se expande, como um rizoma, entre todos aqueles que amam os livros e a humanidade. Uma biblioteca infinita quase borgesiana que se sustenta nas relações que se formam entre os que escrevem, os que editam, os que vendem, os que compram, os que leem e os que revendem os livros de suas bibliotecas aos sebos para manter em constante fluxo essa fantástica energia libidinal e editorial da leitura.

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