Ir ao conteúdo

Os Sinais

Ninguém entendia por que, apesar de todas as tragédias, ela continuava lendo os jornais, mas ela tinha uma boa razão para fazê-lo. Perdidos entre os desmandos de ditadores; misturados aos sinais de crescimento da ganância e da ignorância; escondidos atrás das mortes pela peste, pela fome e pela guerra provocadas pelos insensíveis que não paravam de falar em Deus; lá estavam eles: os sinais.

– Apesar dos pesares, se a gente olhar direitinho, dá pra encontrar coisas que nos dizem que a vida pode ser melhor- se defendia.

Uma vez foi uma série de notícias curtas sobre uma flor que só se abre uma vez ao ano. Primeiro, três linhas mencionando a expectativa pela sua abertura; depois, uma entrevista com um biólogo do jardim botânico garantindo que ela abriria em breve; seguida de um informe meteorológico nada animador que poderia comprometer esse acontecimento; e, enfim, uma série de fotos coloridas da flor aberta sendo visitada por muitas pessoas e uma reedição da crônica do Rubem Braga, Flor de Maio. Como ela dizia, sinais.

Outra vez foi a história de um cachorro perdido. Mostraram a mobilização da comunidade em busca do cãozinho de uma criança; um cronista contou com leveza e emoção a biografia do cão; houve um grande estímulo à adoção de animais abandonados; e, pra encerrar com um final feliz, noticiaram o reencontro do cão com a criança para aquecer os nossos corações. Como ela dizia, apesar das tragédias, sinais.

Ao contrário do que possa parecer, ela não era alienada. Ela lia o restante do jornal. Encarava o mal para depois terminar com o bem. Defendia, inclusive, que o jornal seguisse por uma linha de crescente otimismo, com as piores notícias na primeira página e as boas notícias, os sinais, na última.

– Pra dar um pouquinho de esperança pra gente no final- justificava.

E os sinais não vinham de fatos apenas. Podiam aparecer num poema escondido entre duas colunas policiais; numa tira em quadrinhos que quase ninguém mais lê; ou mesmo num dos desafios das palavras cruzadas.

– Não sabem a palavra que eu li hoje: temperança. A virtude de quem é moderado. Aprendi hoje, tá nas palavras cruzadas. Que beleza- se encantava.

Um dia ela acordou mal, achou que fosse um resfriado, mas antes do sol se pôr sua vida se acabou, como se fosse uma das boas notícias que ela tanto amava ler.

Os amigos contrataram o cronista da história do cachorro para escrever seu obituário. Ele seguiu uma linha comparando a vida dela com a bela flor de maio que só se abre uma vez ao ano e como ela era ao mesmo tempo surpreendente e mal entendida. O texto ficou tão bonito que muita gente participou de uma vaquinha e publicou a homenagem no jornal.

Hoje, numa segunda-feira, sem boas notícias na economia, na política, na saúde e até nos esportes, lá estava ela no jornal, como uma pérola. Representando ao mesmo tempo a tristeza que tivemos de perdê-la e a alegria de termos tido a oportunidade de conviver com ela. Ela, tão fascinada pelas pequenas boas notícias da vida, como não podia deixar de ser, se tornou uma delas.

Publicado emBlog

Seja o primeiro a comentar

Fala aí

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.