Romeu e Julieta para a meia idade

Mês passado, no Clube do Livro de Teatro comandado pela Joana Poppe, fizemos a leitura de Romeu e Julieta e confesso que estou ainda impactado. Não pelo plot, óbvio. Já tinha lido a peça há muitos anos e as diversas adaptações ou derivações não nos deixam esquecer a história: jovens apaixonados vindos de famílias rivais lutam contra tudo e todos e, surpresa, pagam com as suas próprias vidas pela esperança infrutífera de realizar seu amor.

O que me surpreendeu dessa vez foi que, frente a essa aparentemente bela e inspiradora história, digamos, romântica, só consigo ver um alerta e uma crítica enormes à insanidade que é essa construção que chamamos de amor.

Sim. O amor romântico é uma construção social. Ainda na época de Shakespeare, por exemplo, a maioria dos casamentos e relacionamentos não eram guiados pelo tal amor. Se você tinha dinheiro, posses ou poder ia casar por conta de acordos e alianças; se não tinha, ia casar basicamente com quem estivesse lá e a sua família indicasse. Existia tesão, desejo e afins, claro, mas o tal amor, como o concebemos hoje, não era a justificativa padrão para a união entre as pessoas, mas sim uma novidade que lhe prometia ser arrebatado pela paixão e agir de forma irresponsável e prejudicial com você e com a sua comunidade. Exatamente como prometem alguns comerciais de carro ou fast food hoje em dia.

Em pleno século XXI, parece até estranho desnaturalizar o amor romântico já que a maioria da humanidade, excetuando as mocinhas das novelas da Glória Perez, pode escolher livremente seus parceiros regulares, pseudo-permanentes ou ocasionais. Ao contrário do que acontece em Romeu e Julieta, hoje em dia, o tal do amor romântico, como motivador para os relacionamentos, não é mais surpresa, virou commodity e não suscita conflitos significativos ou objetivos.

A situação chegou a tal ponto que se olharmos bem para as atuais comédias românticas elas não são sobre os problemas que o amor gera, pois ele não gera mais problemas, mas, sim, se a escolha do objeto amado é eficiente e eficaz. Ou seja, são obras sobre gestão do tempo e consumismo. Estarei fazendo o investimento certo nesse objeto libidinal? Vou perder meu tempo ou desgastarei minha imagem? Esse produto é o fit certo pro meu perfil?

Já em Romeu e Julieta a banda toca de forma diferente. Romeu, em busca de uma outra garota que não corresponde o seu interesse, uma tal de Rosalina, vai ao baile da família rival, se encanta com Julieta e depois de trocarem meia duzia de belas palavras são tomados por uma paixão arrebatadora. Para eles não há escolha. E, sem escolha, assim eles agem.

O engraçado é que agora, como um velho em formação, achei totalmente despropositada toda a confusão criada por essa paixão. Sei que, quando jovens, os hormônios e a falta de paciência e experiência fazem tudo parecer urgente e vital. Tanto que o tal conflito entre os Montéquios e os Capuletos me pareceu dessa vez bem controlado depois das ações do Príncipe, e só continuava mesmo por conta de alguns jovens membros das famílias rivais. Ou seja, mais uma vez, tudo culpa da juventude.

Pra piorar, você precisa lembrar que Julieta só tem 13 anos e consegue fazer Romeu perder a cabeça totalmente em dois dias. Ela o convence a se casar com ela em segredo, o joga no meio de uma luta com seu primo, cuja morte não lhe abala em nada, e ainda conspira com um Frei para fingir um suicídio e se livrar da família. No mínimo ela parece uma megerinha mimada, mas não estaria errado considerá-la também como um projeto de sociopata.

E o Romeu, cá entre nós, também não é boa bisca. Desde o início da peça é apresentado como um sátiro interessado em qualquer rabo de saia, lembrem da Rosalina, que, cego por uma paixão arrebatadora por uma sociopata de 13 anos, joga a cidade num conflito sem fim, mata o primo da namorada, provoca a morte do Mercúcio, seu grande amigo e única voz sensata da cidade, é exilado, volta escondido, mata o prometido da sua esposa, e se mata sem nem pensar duas vezes. Imagino que se tivesse demorado uns dois dias a mais no exílio talvez tivesse deixado Julieta de lado por uma nova paixão. Mas isso é só uma conjectura.

Talvez eu esteja ficando velho, mas não achei nada disso bonito, nem romântico. Achei temeroso e preocupante. Talvez esse sentimento venha de um medo crescente que a gente vai adquirindo com a idade dos ímpetos da juventude, afinal, já sofremos o suficiente para saber que, como dizia Steve Allen, as tragédias insuperáveis da vida se somadas ao tempo não passarão de comédias.

Enfim, depois de ler Romeu e Julieta, só tenho um conselho aos jovens do mundo: não envelhecei, pois é ruim pacas; mas, por favor, pelo menos tenham um pouco de paciência. Com o passar dos anos vocês aprenderão que encarar a vida como comédia é bem melhor do que como tragédia.

Por falar nisso, fiquei me perguntando: o que diabos aconteceu com a Rosalina? É, a menina sensata que deu o bolo no Romeu. Aposto que teve uma história de vida muito mais feliz e interessante que a dos inconsequentes de Verona. É, “O que aconteceu com Rosalina?”, taí uma peça que eu gostaria de assistir.

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