Hoje em dia, para evitar qualquer papo político, a única opção que resta em conversas com pessoas com as quais temos pouca intimidade é falar de filmes e séries. Mesmo assim, não conseguimos escapar do conflito gerado por posições engessadas e estanques. Sim, é triste, mas não podemos nos esconder dessa realidade. Na política e no entretenimento: somos fãs de polarização.

Enquanto alguns tentam falar da qualidade ou da sua apreciação pessoal dos filmes, outros insistem em evocar a fidedignidade, seja a conceitos, personagens, obras em que foram baseadas, estruturas narrativas e/ou estéticas. Enfim, Fidedignidade. Assunto complexo. Quero dizer, vai ser fidedigno a que?

Se pegar os personagens de filmes de super herói, já dá pra ver como o pessoal complica essa questão. Batman, por exemplo, do trabalho inicial do Bob Kane, que dizem não foi tão original assim; passando pela fase do Bat-Mite, alguém lembra dele?, dos anos 60; e avançando por Neil Adams, Frank Miller e as abominações dos anos 90 provocadas pelo inexplicável sucesso da Image, você tem uma tonelada de referências para se basear. E olha que nem mencionei a fase do Grant Morrison. Ops, tarde demais…

Se nem histórias em quadrinhos conseguem manter essa tal fidedignidade a supostos conceitos originais dos personagens, por que cobramos perfeição de qualquer outra obra de arte? Acho que isso tem um pouco a ver com uma virada de chave que rolou em diversas relações humanas e institucionais causada pelo mito de “O Cliente tem sempre razão”.

Antigamente, a gente, pelo limite de opções, era obrigado a consumir o que estava disponível ou despender energia física e libidinal para conseguir o que buscava. Afinal, ler um livro específico, ver um filme mais difícil de encontrar, ou ter que acompanhar um programa na TV síncrona requeriam planejamento e, algumas vezes, esforço.

Lembro de ter rotina rígida e objetiva de visita a sebos de discos e livros; frequentar cinemas escondidos na Tijuca para assistir a filmes dos anos 30 e 40; e ser sócio de mais de 50 locadoras de vídeo, do Leblon ao centro da cidade, muitas por conta de um só filme. Tanto investimento me fazia aproveitar melhor todas as experiências, de forma existencial e menos crítica. A busca não era pelo melhor, mas pelo mais interessante. E se não fosse interessante, a gente dava um jeito de fazer ficar interessante.

Isso não nos tornava complacentes com a baixa qualidade do entretenimento mas razoavelmente tolerantes e envolvidos. Era como se fosse nossa responsabilidade NOS divertirmos. A pergunta era: o que podíamos tirar de melhor das experiências que vivenciávamos?

Quando a quantidade de conteúdo disponível começou a aumentar e o nível de esforço para encontrar o que queríamos diminuiu, a preocupação e o trabalho passou a ser de curadoria. Atualmente, investimos nosso tempo e dinheiro em buscar as experiências que consideramos melhores, a.k.a. mais adequadas aos nossos gostos.

Nessa loucura de encontrar o entretenimento certo para o momento certo, viramos escravos de listas de 10 mais, 10 menos e 10 mais ou menos. É o inferno particular do protagonista de Alta Fidelidade. Só nos justificamos como seres humanos se provarmos que temos não só bom gosto mas um gosto melhor do que o dos outros. Enfim, tudo tem que ser perfeito, pois, afinal de contas, nós merecemos. Certo?

Nesse cenário, o ônus da diversão passou do espectador para o produtor. Não somos mais capazes de apreciar todas as experiências e dar-lhes significado pessoal. É como se houvesse uma tentativa de mostrar uma verdade oculta em tudo e que é nossa função avaliar se ela foi bem sucedida ou não. Pra isso o produto deve estar completo, posicionamento político, comercial, religioso, espiritual, estético e o escambau, para ser convenientemente consumido. Afinal, não sou eu que estou pagando? Então, divirta-me! Preciso lembrar? O cliente tem sempre razão.

O outro lado da moeda é que isso gera uma ansiedade brutal que te impele a acompanhar o processo de desenvolvimento das obras desde a criação para se assegurar que no fim terá a experiência perfeita e orgiástica que esperava. Buscamos uma originalidade impossível de se atingir; respeito e homenagem a obras que tem tantas interpretações quanto leitores ou espectadores; ousadia e inovação em equilíbrio com o cumprimento estrito das regras do McKee, Monomito, da estrutura de 3 atos e afins. Ficamos chatos pacas. Até nas coisas mais insignificantes. E conversamos sobre isso quando queremos escapar de falar de política?

Me questiono se as futuras gerações perderão a capacidade de experienciar a suspensão de descrença e a substituirão pela crítica imediata e lacradora tornando a obra apenas um pretexto para mostrar sua superioridade intelectual sobre o outro. Talvez a única maneira de evitar esse terrível futuro seja consumir menos, se importar menos com o que está em voga e buscar os seus interesses mais primais. Um belo exercício de humildade. Quase utópico. Melhor ficar vasculhando o Netflix por aquele filme perfeito que mostrará ao mundo como você é mais… mais… você sabe. Não sabe?

Enquanto isso, como continua impossível falar de política, não vamos contradizer os críticos amadores de plantão. Vamos apenas fingir que ouvimos os conhecidos enquanto esperamos sair a próxima alcatra no churrasco.

“Ah, você gosta do Tobey Maguire como Peter Parker mas prefere o Tom Holland como Homem Aranha? Tá, tá. E acha que nos filmes da Marvel o Aranha é coadjuvante, enquanto nos da Sony ele era o protagonista? Sei. Sei. Eu? O que eu acho? Sei lá. Acredita que eu nunca pensei a respeito?”

Assim, sabe?, exatamente como fazemos quando falam de política com a gente.

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