Anarquismo antisocial é possível?
Como o Thoreau, hoje, eu só quero uma casa no campo

Acho que já deu. Eu já conheço os seus gostos musicais, os clipes que você gosta, e até aqueles que te dão vergonha de adorar; você já matou o seu e o meu tempo criando novelinhas com as pessoas que aparecem do lado esquerdo do seu Profile no Facebook, fez karaoke colaborativo nas mensagens do seu mural e ambos já caímos nas promoções fakes que rolam nos twitters da vida. Enfim, depois de tanta abertura e amizade 24 por 7, nossa relação esgotou.

E como podia ser diferente? Desde o Orkut, alguém ainda lembra dele?, nós já estávamos enchendo o saco uns dos outros. Primeiro com aqueles testimonais cheios de falsa emoção, e depois participando daquelas comunidades que não levavam a lugar algum, discutindo quem eu “Como ou Não Como” ou como (ôpa!) todos odiamos segunda feiras. O básico. Falando o óbvio e fútil sem fronteiras de espaço ou tempo. Coisa de amigos. Afinal, você sabe, a internet é pra isso: unir as pessoas.  Será?

Até é, mas vou te falar, a Internet me fez descobrir que não quero me unir às pessoas, ou a grande parte delas. Não quero saber de suas vidas, não quero participar de suas histórias, campanhas políticas ou apolíticas, conhecê-las a fundo ou opinar sobre o seu futuro. Quero conviver com elas. No mundo real. De maneira controlada, quando me der na telha, bem de vez em quando. E rede social, acredite, não é convivência. É como viver num sitcom. Daqueles bem ruins.

As redes sociais estão mais próximas da vida do Seinfeld do que da vida (pré-internet) de uma pessoa comum. Toda vez que se manifesta, você não se sente na obrigação de ser engraçado ou pelo menos espirituoso, seja em foto, texto, vídeo ou áudio? Você e seus amigos “convivem” num nível de intimidade tão extremo que a primeira pergunta que você se faz é: O que diabos estou fazendo com essas pessoas?  Além disso, você tem, não um, mas centenas de vizinhos como o Kramer? Gente que entra na sua casa, onde a porta se encontra permanentemente aberta, para fazer comentários doidos ou comer da sua geladeira, sem permissão ou pudor? E, o pior, se você fechar a porta, todos viram o clássico episódio, as coisas não melhoram.

O típico "facebooker"
Kramer: cutuco, corrente, solicitação de jogos e marcação de foto em que você não aparece. Só pra começar

Eu, você, seu amigo no facebook, seu follower no twitter, e todo mundo que já recebeu um CD da American Online sabemos disso, mas a gente não aprende. Ao invés de fecharmos todas as nossas contas e arcamos com o silêncio digital, continuamos firmes e fortes nesse monólogo coletivo nonsense. Parece que somos forçados pela ansiedade gerada pelo sermo interruptus (papo interrompido) a falar sozinhos, esperar pela resposta alheia e comentar assuntos com os quais nada temos a ver, ansiando pela salvadora palavra do outro que nos livrará da solidão. Cá entre nós? Continuamos tão sozinhos como antes, só que mais barulhentos.

Se não conseguimos nos livrar desse vício cold turkey, de uma só vez, sugiro a criação de uma rede antissocial. Isso mesmo. Uma rede antissocial. Ao invés de adicionar amigos, você já entra nela sendo amigo de todas as pessoas. Seu trabalho, então, é bloquear as pessoas que te desagradam. Assim, bem zen, sem culpa ou constrangimento, buscando o silêncio e solidão necessárias a audição dos nossos próprios pensamentos. Os mais “bem-sucedidos” serão aqueles com amigos na casa das dezenas ou das unidades, e os mais discretos e pertinentes terão as melhores chances de permanecer nessas redes de relacionamentos. Ao invés de “me adiciona”, ouviremos “não me bloqueie”. O engraçado é que os que disserem isso serão os primeiros a serem bloqueados. Na rede antissocial, os carentes serão punidos com o silêncio. E, assim, o mundo voltará ao eixo.

Acha essa proposta elitista? Acertou. Claro que é. O meu afeto não é pra ser dado pra qualquer um, só por que eles me deixam constrangidos com seus pedidos de atenção. Nem pasteurizado em listas de localização ou graduação de amizade. Isso não existe. As relações humanas são orgânicas e não merecem ser divididas por redes sociais ou círculos arbitrários, nem limitadas por número de caracteres.

Mas a quem estou enganando? A rede antissocial nunca vai decolar. A maioria das pessoas precisa das redes sociais, por razões óbvias, e o resto de nós, entusiastas da solidão, somos agregados a elas pelas mesmas razões que vamos a festas de crianças com as quais não convivemos ou aos famigerados encontros de confraternização do trabalho. Por pura obrigação e falta de coragem de dizermos “Posso ficar sozinho?”.

Por outro lado, se você realmente é um entusiasta da rede antissocial, tenho uma sugestão: dê um unfollow ou unfriend um amigo por dia. Antes de começar, é óbvio, se livre todos os agregados mais afastados e menos importantes. Depois, elimine uma pessoa importante por dia, mas, para não partir o coração do pobre sujeito, lhe mande uma mensagem de “adeus” digital explicando por que a sua presença/contato virtual não é suficiente para suprir suas necessidades sociais e por que lhe agradaria muito mais aumentar o seu convívio com ele no mundo real. Cruel? Claro que não. Eu mesmo gostaria de receber mensagens com essas informações de várias pessoas. Você não tem essa curiosidade também?

Esse método para se livrar das redes “sociais” realmente é mais demorado que o modelo Cold Turkey, “I hate myself and I wanna die(virtualmente) “, mas, com certeza aumentará o seu vínculo com as pessoas que importam no mundo real. E é isso que importa, não?

I hate myself and I wanna... You know.
Kurt, você não entendeu direito o que é esse lance de Orkuticídio

Se não concorda, pode ficar a vontade de me dar unfollow. A realidade penhorada agradece.

6 Replies to “A rede antissocial

  1. Texto sensacional. Uma filosofia de vida, e eu não vou dizer que devia ser seguida por todos, por que, né, cada um que cuide da sua como achar melhor. Um grande abraço.

  2. Lisandro, parabéns pelo texto e pela sua filosofia de vida . Convivência social .ainda é e continuará sendo outra coisa l…… Grande abraço , Antônio ,

  3. Fala Lisandro! Quanto tempo! Vc sumiu das redes sociais aí não nos encontramos mais… não podia perder essa oportunidade de fazer esse trocadilho sem graça, há!

    Cara, bom texto. Mas acredito que haja uma maneira de encontrar um bom balanço. Eu não sou frenético de rede social, mas curto. Principalmente na minha situação, amigos e família estão distantes 12.000 Km – aí a tal da rede social ajuda bastante a “socializar” com eles. Nada como uma foto aqui, um comentário ali, e um bom beijo cheio de saudades deixados no seu post. Cara depois de uma certa idade e distância, esse negócio de sentimento afeta mesmo. Dói.
    Aí os Feicibuqui da vida, zapzap, tuiter, Instagram e tudo mais ajudam mesmo a te deixar próximo do que gosta. Afinal até aquela Tia mais distante e com pouco acesso a tecnologia tem um treco desses. Incrível, todos sabem usar uma coisa ou outra.
    Claro que tem aqueles que irritam, mas removo eles sem muita piedade. E assim vou filtrando o que gosto e transforme meus canais sociais em alguma coisa realmente útil. Informações das minhas bandas preferidas, lugares, jornais, pessoas e por aí vai. Posso viver sem tudo isso, sim claro. Mas que é útil pra caramba abrir somente uma rede e ver tudo ali que vc gosta, isso é. Nos tempos de Netscape e Altavista era um verdadeiro saco achar o que queria.

    Na minha opinião, as redes sociais somente afloram o que todo ser humano tem de mais comum e latente desde os primórdios da humanidade: a necessidade de realização instantânea. Nos tempos de 2.000 AC e nas civizações seguintes, realização tomava tempo. Tiveram alguns que exterminaram raças inteiras, conspiraram durante décadas, roubaram, influenciaram e tudo mais de ruim que se pode fazer. Hoje basta um “curtir”.

    Abcs

    Anderson

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