Você está num Uber e no meio do túnel velho, o motorista, distraído no celular, quase atropela um mendigo caminhando no meio dos carros. Vocês reclamam. Por que diabos ele está alí? Bêbado? Drogado? Não, o motorista proclama. Ele provavelmente tá fazendo alguma besteira. Tentando evitar ser pego pela polícia que não poderia parar no meio do túnel em alta velocidade. Um bandido. Se for atropelado só vai trazer problema pra uma pessoa de bem. Pra uma pessoa de bem.

Antes que o carro chegue na Voluntários, o assunto, sabe se lá como, vira uma discussão sobre o plebiscito do Desarmamento. O motorista, mesmo sem argumentos, defende que todos devem andar armados. Isso. Você ouviu bem. Ele não disse ter o direito de andar armados, mas que todos tenham armas.

Você tenta argumentar que o ideal… O ideal não interessa, ele corta a sua linha de pensamento. O ideal tá muito longe e nunca vai chegar. Vocifera um pouco mais e continua evocando a sua fantasia de ruína: e se um bandido entrar na sua casa e quiser matar e estuprar a sua mulher, a sua mãe, a sua filha? Quem vai te proteger? Você TEM que ter uma arma. Os bandidos tem. O cidadão TEM que se defender. TEM que se defender.

Em menos de 10 minutos de corrida, você, infelizmente percebe, foi jogado no reino da barbárie.

Você se cala, mas ele continua com suas fantasias de dominação e controle. Você sabe que ele está errado, mas não pode negar as suas razões para pensar o que pensa. A ignorância dos meios e a imoralidade dos fins não desqualificam as motivações. E motivações não nos faltam. A todos nós.

Falta de segurança, de dinheiro, de lisura, de respeito, de educação, de honestidade, de competência, de perspectiva; de amor. É, de amor. E, como a criança carente que não acredita que o amor seja possível, vivemos advogando que apenas o ódio e a violência sejam a solução do mundo. Seja a violência da direita ou da esquerda. Afinal não há nada mais que isso no mundo, certo? Qual a nossa saída se só há ódio e rancor?

Enquanto ele fala e você se espanta por discordar totalmente dele mas entender totalmente os seus motivos, só consegue pensar nos Titãs responsáveis por popular a Terra com homens e animais: Prometeu e Epimeteu.

Enquanto Prometeu, o previdente, de visão longa, pensava com cuidado em como cada criação devia ser, Epimeteu, de visão curta, que só pensa depois de fazer, distribuía com pressa as qualidades entre os animais. Quando chegou a hora de dar qualidade aos homens, Epimeteu já tinha distribuído tudo e Prometeu, frente às negações de Zeus, foi obrigado a roubar o fogo sagrado dos deuses para ofertar a humanidade. Prometeu continuou protegendo a humanidade e por isso acabou aprisionado no topo do monte Cáucaso, tendo seu fígado devorado diariamente por um corvo. Epimeteu também foi punido e nos puniu: desposou Pandora que foi responsável por liberar o mal sobre a humanidade como uma retaliação de Zeus contra os homens, nos deixando apenas a esperança.

Enquanto ele fala e você se espanta por discordar totalmente dele mas entender totalmente os seus motivos, só consegue pensar como vivemos num mundo de Epimeteus.

Não temos visão a longo prazo para pensar nas qualidades que queremos desenvolver no futuro. Olhamos a resolução dos problemas do presente como um fim em si mesmo e não como um passo a mais em direção ao que queremos da nossa vida comunitária. Nos rendemos a paixões inflamadas, guiados pelo desejo e pelo medo, sem temor de libertar todo o mal existente sobre as nossas próprias vidas. Somos obtusos, tolos e, como Epimeteu, por conta de nossas ações nos tornaremos pais de Prophasis, o espírito da desculpa.

Enquanto ele fala e você se espanta por discordar totalmente dele mas entender totalmente os seus motivos, só consegue pensar como seria fácil agirmos como Prometeu.

Ter calma e comedimento em nossos pensamentos, falas e atos. Pensar no que desejamos para o futuro e não apenas no que nos incomoda ou seduz no presente. Encarar os difíceis momentos que vivemos e os aparentemente intransponíveis obstáculos que enfrentamos como parte do caminho para esse mundo melhor e não como pontos finais de nossas histórias. Arriscar e nos sacrificar pelo bem comum, por acreditarmos que o destino da humanidade, o nosso destino, é sermos diligentemente criativos e não simplesmente preguiçosos joguetes dos nossos instintos.

Seria fácil, concordo, mas não o fazemos. Porquê? Pois nos falta visão e paciência para descobrir. Descobrir o que desejamos. Descobrir quem queremos ser.

Ou temos visão curta e  sofremos com a nossa iniciativa atrapalhada, ou somos de visão longa e nos tornamos vítimas do bem que queríamos espalhar pelo mundo. Somos uma contradição. Para sempre Prometeus e Epimeteus. Quem sai aos seus não degenera.

O Uber chega ao seu destino e você se despede. O motorista agradece por te-lo ouvido. Você sorri. Ainda há esperança. Talvez numa próxima oportunidade você possa colocar a sua visão para ele. Talvez numa próxima oportunidade ele possa ouvi-lo. Talvez, numa próxima oportunidade, vocês possam verdadeiramente conversar. A esperança, já sabemos, ainda está lá no fundo da caixa de Pandora. E por pior que as coisas estejam, nós, Prometeus e Epimeteus desse mundo que nós mesmos complicamos, ainda podemos contar com ela.

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