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Mês: janeiro 2015

Campo e Contracampo

Campo e contracampo – O campo é o espaço que é focalizado pela câmara. Já o contracampo é uma sucessão de tomadas ou planos mostrando ora um, ora o outro interlocutor de um diálogo. (fonte)

Hoje em dia não é difícil achar pelas ruas estátuas mescladas ao cenário urbano. Ao  invés de estarem montadas em inatingíveis pedestais, como outrora,  as figuras dos mais recentes homenageados compartilham o espaço da cidade conosco, simples mortais. Seja numa mesa de bar, num banco de praça ou num canto de uma calçada, lá estão elas,  mostrando que são gente como a gente e, em contrapartida, prontas a terem suas “privacidades” invadidas por curiosos e turistas que muitas vezes nem sabem quem elas representam. Um momento TV Fama do moderno urbanismo.

Hoje de manhã, me perguntei o que esses habitantes imóveis da cidade, tão fotografados e observados, teriam como vista. O que seus olhos de bronze estariam observando enquanto eram observados? Como seria para eles serem não os objetos dos voyeurs, mas serem eles mesmos os voyeurs da cidade? Se as estátuas são o nosso campo, qual seria o contracampo?

Peguei uma bicicleta e fui lá matar a minha curiosidade.

Je suis Charlie… comme si, comme ça

Agora que já passou a comoção inicial e as camisetas “Je suis Charlie” já começaram a sair de moda, dá pra começar a sentir qual é a verdadeira opinião da população sobre o fato. Ao invés de uma defesa da liberdade de expressão e, consequentemente, do modelo liberal ocidental que deveria nos pautar, vejo surgir, no meio dos comentários de revolta contra o ato terrorista, o famoso “eles pediram”.  Sim, pode prestar atenção. Lá, escondido, entre os “Que absurdo”, “Como isso foi acontecer” e “Coitados”, o povo solta um “junto com os cartunistas morreram vários inocentes” ou o mais comum “também, olha só com quem eles foram mexer”.

Charlie Hebdo e a Censura Mortal

Quando fiquei sabendo do atentado à Charlie Hebdo, estranhamente me lembrei de um episódio que me aconteceu há uns dois anos.

O andar onde eu trabalhava em Belo Horizonte ia ser reformado. Fomos forçados a nos abrigar temporariamente num outro andar da empresa e a encaixotar tudo que não fosse de uso diário. Um trabalho chato e cansativo.

No processo de encaixotamento já vislumbrávamos que havia muita coisa a ser jogada fora. Em nome da presteza, o momento 5 S foi deixado para depois. Findas duas semanas de dividir mesas e estações de trabalho com pessoas que não queriam e nem tinham a menor obrigação de realmente nos receber, nosso andar ficou pronto e a mudança de volta foi feita.

Descemos nós, nossos computadores, alguns itens de uso diário e as caixas. Muitas caixas. Além de abrí-las e guardar seus conteúdos nos seus novos esconderijos, precisávamos separar o que seria jogado fora e o que seria doado. Nesse processo uma das maiores atribulações era o que fazer com materiais sigilosos que estavam encadernados com espiral. Eu, infelizmente, rapidamente peguei a manha e separava espirais e papéis com facilidade para que o conteúdo realmente delicado pudesse ser triturado. As espirais, sem uso, eram jogadas numa caixa de papelão para depois se avaliar a possibilidade de reciclagem. Não preciso dizer que o trabalho ficou todo pra mim.

Depois de uma tarde inteira de rasgação de papel e retirada de espirais, sentei na minha estação de trabalho e tive uma epifania. Aquela cena, espirais emboladas numa caixa de papelão, daria uma bela escultura.

Qual é o porquê de tanto porquê?

Não me ajudou muito na vida ter uma mãe existencialista que estudava filosofia, um pai galhofeiro que não tinha respeito por nenhuma instituição estabelecida e estudar num colégio católico de disciplina rígida. Para dizer a verdade, não só não ajudou como complicou muito.

Enquanto todos os alunos, desde a mais tenra idade, baixavam a cabeça para as ordens e os dogmas, eu os questionava. Até os 10 anos isso era considerado bonitinho. O pior que faziam era passar a mão na minha cabeça e dizer: “Que menino revoltado, hein?”. Desmereciam minhas reclamações e observações e continuavam com a ladainha que, hoje desconfio, nem eles mesmos acreditavam.

Quando fiz 10 anos a situação complicou um pouco. Eu já não era só um menino revoltado. Estava me tornando um pré adolescente questionador e perigoso. Para complicar um pouco a situação, minha educação na época estava sob o comando do melhor exemplo do proselitismo e nepotismo: minha professora de matemática era a filha fanática religiosa e recém formada do diretor do colégio.