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A máquina do (não) impossível

Um dia, umas semanas atrás, na volta de buscar minha filha no colégio, paramos na loja de brinquedos e lá estava ela: a máquina. Vocês conhecem a máquina, todo mundo conhece a máquina. Uma grande caixa retangular; a parte inferior de metal, em geral pintada de vermelho; a parte superior envidraçada; na frente, na altura da cintura, um joystick e um coletor de notas e moedas; e dentro dela, vocês sabem, uma garra de metal e uma enorme quantidade de bichos de pelúcia. Pequenos e grandes; coloridos e engraçados; fofos e tentadores. Tremi.

Eu já conhecia a máquina. Encontro com ela desde os anos 90. Nem sempre de forma amistosa. A primeira vez, nunca vou esquecer, foi no Barra Shopping. Em vez de ir jogar no fliperama, vi um pessoal lutando contra ela, e por lá parei. E não é porque goste de bichos de pelúcia. Não gosto. Só me senti desafiado. Todo mundo jogava uma ou duas moedas e saía revoltado dizendo:

– Essa máquina é impossível.

Me apaixonei.

A dificuldade assumida, a desistência alheia, a sensação de me jogar obsessivamente atrás de um objetivo que não me interessava só pra provar que era possível, tudo na máquina me dizia: fui criada pra você.

Comecei como todo mundo. Comprei umas poucas fichas, tentei, não consegui, me frustrei e saí revoltado. Mas, ao contrário dos outros, eu voltei. Uma, duas, várias vezes.

A minha obsessão em vencê-la era tão forte que, lembro, se formou uma platéia atrás de mim, o que só aumentou a minha determinação. Eu não era mais um desafiante solitário, eu era o representante do sonho de todo um povo.

Enfim, depois de gastar quase todo o meu dinheiro, consegui. A garra se lançou naquele mar de pelúcia e resgatou de lá um pequeno urso azul que dei a uma menina que acompanhava a minha batalha. Recebi de recompensa apenas um beijo na bochecha e o sentimento de ter feito algo que todos consideravam impossível.

Desde então, toda vez que a encontro, é a mesma coisa. Eu a desafio e, eventualmente, depois de muita persistência, a venço.

Porém, desde que a minha filha nasceu, eu não a via. Até esse dia.

Depois de assistir a alguns pais saindo do colégio com seus filhos tentarem vencê-la e repetirem o mesmo comportamento que vejo desde a primeira vez que a encontrei, minha filha pediu:

– Posso jogar na máquina, papai?

Como dizer não? Como dizer sim?

Fiquei dividido. Um lado meu queria agradá-la, mas outro não queria vê-la frustrada. Um lado meu queria jogar junto com ela, mas o outro tinha medo que ela ficasse tão obcecada quanto eu. Ela insistiu:

– Papai, posso jogar?

Cedi aos meus desejos mais primais e assenti. Mas,dessa vez, o desafio tinha um gosto diferente. Eu não só queria vencer a máquina, eu precisava vencê-la.

Esperei mais algumas pessoas afrouxarem a massa compacta de bichinhos dentro da máquina, coloquei 5 moedas no coletor e instruí a minha filha. Ao invés de buscar o bicho que deseja, mais importante é tentar os que são mais fáceis de agarrar. Para essa escolha, a posição é mais importante que o tamanho ou o formato. Os bichos de cabeça grande parecem fáceis, mas, mesmo quando agarrados, caem com facilidade da garra. O ideal é mirar nos que estão na horizontal, de preferência com a barriga pra cima. E, estando nessa posição, se você tiver escolha, busque os mais ao centro da máquina e os menores.

Ela me olhou sem entender, mexeu a garra sem foco, e disse:

– Vou tentar o polvinho.

Um erro. A garra desceu, ficou bloqueada por uma parede compacta de outros bichos e mal arranhou a superfície do bloco de pelúcia.

– Máquina maldita- a amaldiçoou.

Fui obrigado a intervir e ensinar pelo exemplo. Minha mão tocou o joystick e me senti como há 30 anos atrás. A eletricidade, a emoção, o propósito. Encontrei um burrinho de barriga pra cima. Levei a garra até em cima dele, chequei pelo lado se ela estava alinhada na outra coordenada, esperei a garra parar de balançar e apertei o botão. A garra desceu em câmera lenta. Um pai nos assistia com o filho e comentou:

– Filho, deixa essa máquina pra lá, isso é mó engana trouxa.

Não me senti ofendido. Ele tinha razão. Era uma máquina para trouxas, mas apenas os que não a conheciam podiam ser chamados assim.

A garra alcançou a superfície do mar de bichinhos e se encaixou diretinho em volta do burrinho. Quando ela começou a subir, o burrinho estava solidamente preso nela. Com alguns sobressaltos acompanhamos a garra vir até seu local inicial para se abrir e nos entregar nosso prêmio.

Minha filha delirava, enquanto o pai que nos assistia estava boquiaberto. Deveria estar aprendendo alguma lição com isso, mas qual ela era? Não sei.

A garra soltou o burrinho e nós o pegamos. Minha filha o levantou acima da cabeça como um troféu, enquanto as pessoas se reuniam ao nosso redor.

Uma mãe me ofereceu uma ficha para pegar um bichinho para a filha dela.

– Desculpe, assim é muita pressão. Eu não sou mágico pra conseguir pegar toda hora- declinei.

Ainda tínhamos 3 fichas. Eu precisava continuar.

– Papai, agora o polvinho- minha filha indicou.

Como já tinha pego um, achei de bom tom seguir a sua sugestão. Mesmo não conseguindo pegá-lo, eu já sairia no lucro. Acionei a garra e fui atrás do polvinho. Na primeira vez, o movi um pouco, mas quase não o tirei do lugar. Na segunda consegui levantá-lo, mas ele logo caiu e se virou exatamente como eu queria: de barriga pra cima. Na terceira, todos estavam aguardando a finalização da minha partida: minha filha, o pai descrente, a mãe preguiçosa, e seus filhos. A tensão e o silêncio eram quase palpáveis. Movi a garra para a última tentativa. Acertei sua posição, conferi a coordenada, esperei a garra parar de balançar e apertei o botão.

Dessa vez a garra foi como um raio. Caiu pesada sobre os bichinhos e, para a minha surpresa, agarrou não um, mas dois polvinhos. O povo, quer dizer, minha filha, o pai, a mãe, e seus filhos, aplaudiu entusiasmado. Quando minha filha os pegou, ofereceu um para cada uma das crianças que nos assistiam.

– Você já me deu um, papai- se explicou sem necessidade.

Minha missão estava cumprida. Como desafiante e como pai.

Desde então, quando voltamos do colégio, sempre faço o máximo para evitar o caminho que passa pela loja de brinquedos. Não por medo de falhar nem para evitar ceder às minhas obsessões. Por mais que fique tentado a me botar à prova novamente, acho melhor manter a mística que o impossível sempre pode ser possível. Sempre.

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