A Psicossomática das Máquinas

Tenho um grande amigo, e antigo sócio, que é um fiel crente na psicossomática. Impossível não ser. Num mundo fisicamente cada vez mais protegido, excetuando um vírus fora de controle ou outro, é normal que a fonte de boa parte de nossas doenças passe a ser emocional. Mas ele era fervoroso além da conta. Pra ele, tudo era psicossomático. E místico.

Quando ficava com frieira era um sinal de que estava pisando onde não devia. Quando precisou usar aparelho e sua boca sangrava quando falava demais era um sinal de que devia ficar calado. Quando seus triglicerídeos passaram, e muito, do padrão era um sinal de que estava ambicionando mais do que devia ou conseguia controlar. Não só ele acreditava que todas as doenças tinham fundo psicossomático, como acreditava que elas faziam parte de uma narrativa mística, espiritual, sei lá, que o alertava sobre o presente para proteger o seu futuro.

Era difícil não acreditar nele. Em geral, gente criativa e carismática, como é o seu caso, mesmo quando não escreve profissionalmente,  sabe como nos fisgar com as suas narrativas. E nós, que escrevemos, acabamos sendo as vítimas mais fáceis de seduzir.

Eu comecei a rezar tanto na cartilha dele que passei a acreditar numa variação um pouco mais bizarra das suas idéias: a psicossomática das máquinas. Ele dizia que não só o nosso corpo manifestava esses sintomas emocionais/místicos, como também as máquinas que eram ligadas a ele também sofriam. Ele não só professava isso como apresentava provas.

Toda vez que a nossa empresa assumia compromissos além do que a gente dava conta a casa dele tinha um problema de infiltração:

– Viu? Tá aí. Tamos cheios de trabalho e tá saindo pelo ladrão.

Sua relação com seu VHS, sim, isso tem tempo, era um capítulo a parte. Quando não conseguia rebobinar as fitas era um sinal de que precisava lembrar de algo importante que estava ignorando. Quando não conseguia adiantar os filmes, por outro lado, era visão do futuro que lhe faltava.

Nas poucas vezes que tentei questionar essa ideia radical, ele sacava um Pierre Levy e encerrava o assunto:

– Não são as máquinas que tem sintomas, elas é que passaram a fazer parte do nosso corpo. Somos ciborgues. Ciborgues!

Impossível discutir com ele, ainda mais quando comecei a sentir isso na pele, e na máquina. Uma vez passei 4 meses viajando a trabalho direto dando treinamentos do Rio Grande do Sul ao Amazonas e quando finalmente voltei pro escritório meu computador não ligava de jeito nenhum. Diagnóstico da TI: a fonte de energia secou. A minha e a da máquina.

Recentemente tive mais uma prova que esse meu amigo talvez não seja tão louco quanto parece. Desde que entrei de férias estou numa baixa de energia total. Consigo relaxar, ficar sem fazer nada, mas não descansar, do verbo tirar o cansaço, nem consigo recuperar a minha energia. Estranhamente meu celular entrou na mesma vibe. Demorava pra carregar, descarregava rápido, e, enfim, teve um problema qualquer na conexão de alimentação que sugou a sua bateria pra nunca mais. Ontem fui obrigado a comprar um novo.

Cheguei em casa, o botei pra carregar e nada. Tentei novamente e recebi o aviso:

Ao invés de pensar em falta de sorte, perseguição espiritual ou o que seja, lembrei do meu amigo e da psicossomática das máquinas. Óbvio que o problema não é a máquina, sou eu. Sou eu que estou exaurido pelo trabalho remoto, pela pandemia, por viver num país governado por loucos. Não admira que não consiga recuperar a minha energia. A preguiça, nesse caso, é quase uma estratégia de defesa contra esse baixo astral.

Daqui a pouco vou lá hoje trocar o celular e ver se algo mudou em mim. Afinal, se a questão é minha, se algo não mudar na minha postura, o celular vai continuar sem funcionar. Que a cura comece! Posso contar esse texto como parte do processo psicoterápico? Obrigado por me ouvirem, doutores.

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