A resolução incumprível

Fora as resoluções de sempre que eu não cumpro (emagrecer, melhorar a alimentação, me exercitar, etc), esse ano fiz mais uma que será impossível de cumprir: não comprar livros em 2021.

Sim, já sinto os dedos apontados pra mim e os risos de deboche na minha direção. Ok, ok, podem rir, não posso negar, é realmente hilário. Já se recompuseram? Ótimo, ótimo. Continuando…

Não sei se vocês sabem mas cumpro fielmente o Tsundoku e tenho mais livros do que consigo ler. Por isso, como até a minha filha de 6 anos já notou, a casa tem mais livros do que ela comporta. A situação é tão crítica que preciso de espaço em outros lugares para armazená-los. Tenho 3 prateleiras na casa da minha mãe com livros que ficaram no caminho das minhas diversas mudanças; no meu escritório, tenho duas pilhas de livros basicamente relacionados ao trabalho, e dos quais estou com saudades e afastado desde março; e até os livros que deixo nos sebos dos amigos são regularmente visitados, sempre na esperança de que ainda não tenham sido vendidos.

Viver entre livros é parte essencial da minha vida. Não à toa fui sócio de dois sebos e hoje em dia uma das minhas atribuições profissionais é gerenciar uma biblioteca. Não é só querência, é vocação.

Por isso, confesso, é bem estranho que eu faça uma resolução como essa. Logo eu que adoro parafrasear o Luís Fernando Veríssimo dizendo que ter mais livros do que se consegue ler é confiar na imortalidade. Mas há uma boa razão pra isso. Explico.

Nos últimos tempos, como muita gente, notei que meu foco e minha atenção para ler diminuiram. Culpei as redes sociais e cortei seu uso; culpei a pandemia e criei estratégias para me concentrar melhor; mas nada adiantou: continuei comprando mais e lendo menos. E muito disso porque boa parte das minhas relações reais e virtuais são baseadas em livros e ler.

A ansiedade para tomar parte de uma conversa que envolvia algo que eu não havia lido gerava uma urgência artificial para consumir. A compra do livro servia como um sedativo, a espera da entrega era uma distração, mas essa pequena odisséia não se concretizava com a leitura, e eu acabava simplesmente incluindo mais um item na infindável lista de “para ler”.

Outra coisa que percebi é que facilidade de acesso começou a tornar a minha leitura errática, pois, se um livro era mencionado no texto ou o tema me remetia a um outro, eu facilmente pulava de uma leitura para outra como se estivesse seguindo uma cadeia interminável de links. E, para selar essa tumba, o excesso de opções, na internet e até mesmo dentro de casa, tornava a tarefa de escolher a próxima leitura impossível.

Assim, para ler mais e melhor, resolvi que em 2021 não comprarei mais livros. Com essa resolução, aliada ao isolamento social, espero gerar uma redução artificial de oferta para ler o que já tenho em casa e, como acontecia no final dos 80 e 90, ter descobertas fortuitas com coisas interessantes que não planejei encontrar. E, se me lembro bem, foi assim que forjei boa parte das minhas preferências e paixões literárias.

Mesmo sabendo que não chegarei incólume ao final do ano, tenho certeza que será uma experiência interessante e me fará refletir melhor sobre a informação que consumo de forma geral. Afinal, vai ser impossível não precisar adquirir um livro ou outro, mas, prometo, não comprarei livros se não for extremamente necessário. O que “extremamente necessário” significa? Bom, não pensei nisso ainda. Esses critérios eu ainda preciso definir com mais clareza…  recomendam algum livro que me ajude a fazer isso?

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