O Reveillon que (não) houve

Ontem foi estranho, mas muito bom. Acostumado, mas resistente, às infindáveis comemorações de anos novos passados, comemorar esse reveillon em casa, só com a minha mulher e minha filha, foi um alento. Já tínhamos feito isso uma vez de 2013 pra 14 em BH, mas a menina ainda estava na barriga, e no ano passado viramos o ano só nós três mas em São Paulo. Essa foi a primeira em casa com ela do lado de fora.

Confesso que esse foi um dos poucos pontos positivos da pandemia. Como não podíamos aglomerar, não precisei me arrumar, não tive que me preocupar com a logística da ida, com estratégias de volta, onde dormir caso tudo desse errado, que cerveja levar, nem como impedir que outros as tomassem; vocês sabem, o de sempre. Mas ontem não teve o de sempre. Éramos só nós com uma ceia pequena mas bem gostosa, uma quantidade suficiente de cerveja boa, e o direito de fazer o que quiséssemos.

E foi aí a porca torceu o rabo. Como se perguntava o famoso filosófo Alexandre Pires: o que íamos fazer com essa tal liberdade?

Eu não sabia, mas já estava me sentindo livre o suficiente para considerar que podia cochilar até às 23:30 e pedir pra ser acordado para “ver” a virada. Minha mulher e minha filha, por outro lado, estavam meio indóceis. Tenho certeza que festeiras e rueiras como elas são, estava sendo bem difícil para elas.

Para compensar o isolamento, resolveram transformar a casa numa festa. Decoraram tudo com estrelas, luzes, guirlandas e umas bolas que insistiam em não ficar penduradas onde deviam. Montaram também colaborativamente uma playlist improvisada no Youtube onde o Rock BR dos anos 80 competia com o KPop atual num conflito moderado por uma estranha combinação de New Wave/Punk Gótico e Funk Carioca.

No início até que funcionou, mas um determinado momento alguém perguntou que horas eram e caímos na real que ainda teríamos muito tempo pra matar até a virada. O fato é que o Reveillon sem aglomeração, sem pessoas chatas e sem as complicações que o Reveillon normalmente tem é uma festa onde não há muito a se fazer.

Eu e minha filha resolvemos descer pra portaria do prédio e ver como estava a movimentação na praça São Salvador, onde desconfiávamos haveria uma festa ilegal. Não havia. Uns 10 gatos pingados e 3 ambulantes tentavam criar um clima de animação, mas falharam. Voltamos para casa e continuamos a colocar música alternadamente transformando a playlist, que pouco sentido fazia, numa ecletíssima trilha sonora de novela dos anos 90. Comemos um pouco, ligamos para pessoas, conversamos sobre o que se passou em 2020 e o que esperamos fazer em 2021, mas o tempo não passava. Aí a sabedoria infantil da minha filha sugeriu:

– Posso botar o pijama meia hora antes do ano novo?

Não vimos por que negar. Assim, simplesmente aceitamos que esse Reveillon era só um exercício de esperar o tempo regulamentar até o ano virar. Óbvio que deu até uma certa excitação nos dois minutos finais de 2020, mas o grito de um cara num megafone mandando a besta fera que foi eleita presidente indo tomar na parte da anatomia de onde saem seus “pensamentos” e comentários nos lembrou que muitos dos problemas de 2020 ainda vão ser herdados por 2021.

2021 chegou, nos abraçamos, beijamos e desejamos o melhor uns para os outros. Da mesma forma que fazemos todos os dias, mas um pouco mais alcoolizados e melhor vestidos. Nessa hora me lembrei de um artigo mezzo sério mezzo piada que rolou na New Yorker esse mês sugerindo o cancelamento eterno do Reveillon. E comecei a lhe dar uma certa razão.

A virada do ano se tornou um evento místico/motivacional obrigatório que demanda muito mais exacerbação de papéis sociais do que emoção verdadeira. Vê só: abraços exagerados em gente que você muitas vezes só vê no reveillon; desejos de sucesso, saúde e prosperidade padrão para todo mundo, desde os desafetos secretos até os afetos declarados; uma sensação brutal de urgência artificial por conta de uma data que, no frigir dos ovos, é só a véspera da circunsição de cristo; enfim, não há muito o que se comemorar. Mas até aí, nenhuma festa tem justificativa pra acontecer.

Porém, mesmo que o hábito continue, afinal festejar é preciso, talvez a pressão por comemorar o reveillon mereça ter um alívio. Não comemorar o Reveillon deveria ser uma opção aceitável, ao invés de uma surpresa taxada com um estigma social exagerado. Vamos ver se em 2021, espero eu, já vacinados, poderemos fazer, sem medo de julgamento social, a escolha de ficar apenas com os nossos mais próximos sem fazer nada, como fomos, no meu caso, agradavelmente obrigados nesse Reveillon. Eu não me incomodaria. E você?

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