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A vassoura atrás da porta

Receber é uma arte. Expulsar também. E nisso meu pai era um mestre; na segunda arte, quero dizer.

Quando as visitas passavam do tempo que ele considerava regulamentar, ele se recolhia no quarto sem falar com ninguém. Algumas vezes, no caminho para a cama, depois de levar copos e pratos ruidosamente para a pia, ele varria a sala, esbarrando de propósito nos pés dos convidados, e depositava a vassoura atrás da porta, como mandava a superstição. Mas, para ele, isso nada tinha de místico, era apenas um sinal para que os convivas se ligassem, se levantassem e nos deixassem em paz.

Se mesmo assim eles não se tocassem, ele ia dormir. Ao invés de colocar o seu pijama, ele, nesses dias de festa, preferia dormir de cueca. Tentava tirar um pequeno cochilo e se as vozes dos convidados ou o som da música continuassem a incomodá-lo, ele ia tomar um copo de leite quente para tentar atrair o sono. No caminho da cozinha, passava de cueca pela sala como se estivesse sozinho em casa:

– Opa, não imaginava que vocês AINDA estivessem por aí- dizia, fingindo surpresa, e seguia para cozinha para esquentar o leite que o faria dormir.

Quando chegava nesse ponto, ninguém insistia em continuar na festa e todos partiam. Como disse, meu pai era um mestre.

Às vezes, quando caio na asneira de convidar alguém para a minha casa, vejo como herdei a intenção, mas não a técnica do meu pai.

Enquanto as pessoas tendem a se alimentar do contato humano, eu tendo a me exaurir. Depois das 10 da noite ou depois de 2 horas de interação, o que vier primeiro, sinto vontade de me recolher. Cá entre nós, já foi o suficiente. Depois desse tempo, em geral, as conversas se tornam mais altas, mais repetitivas e mais esquecíveis. Ou seja, não há nada que vamos falar hoje que não possa ser silenciado ou deixado para amanhã.

Nessa hora, se estou na rua ou numa casa alheia, eu simplesmente parto, sem avisar a ninguém. Algumas vezes, mesmo com pessoas à minha frente, eu simplesmente viro as costas e vou embora, sem dar nem tchau, o que, eu sei, é feio a beça.

Se o encontro é na minha casa, eu, ao contrário do meu pai, não tento expulsar ninguém. Eu simplesmente começo a agir como se estivesse sozinho. Coloco a TV numa série que estou assistindo; vou pro escritório trabalhar; abro um livro e fico lendo na sala; ou vou pro quarto, me deitar para assistir um VHS ou um DVD. Em geral, uns 10 minutos depois de entrar nesse modo, eu durmo e deixo a casa na mão dos convidados. Como tenho sono pesado, ao contrário do meu pai, não preciso de leite quente nem de passar de cueca na sala para ignorar as pessoas que insistem em socializar comigo.

Hoje em dia, em algum momento- não sei exatamente quando, afinal já estou dormindo-, o pessoal se liga e vai embora por conta própria. Quando eu era mais novo ainda tinha a surpresa de encontrar gente conversando na sala ou na cozinha quando eu acordava perto do amanhecer ou de esbarrar com alguns corpos esparramados pelo chão e pelos sofás com o sol já alto. Sei que pode parecer um abuso que se aproveitem da minha casa dessa forma, mas não tenho ninguém a culpar a não ser eu mesmo que, sabendo como sou, ainda me submeti a essa ideia idiota de que teria a habilidade e a arte de receber.

O fato, eu descobri, é que não existem visitas chatas, mas anfitriões relutantes. Então a culpa é toda nossa por insistir em fazer algo que não queríamos fazer desde o primeiro momento. Por isso, como os proverbiais filhos de Vinícius, agora eu sei, visitas, melhor não tê-las, mas, se não tê-las, a quem vamos expulsar para exercitar nossos vis instintos anti sociais?

Publicado emEnsaios

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