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Dr. Molon e Mr. Moro

No caminho para o trabalho, Marco esbarrou com um bando de gente balançando bandeiras de apoio à candidatura de André Ceciliano ao senado. Bem ciente das contradições do PT carioca, ele, só de zoação, resolveu gritar “Molon!” pra dar umas boas risadas. Para seu espanto, quando abriu a boca, do fundo da sua garganta saiu um longo e sonoro:

– Mooooro!

As pessoas à sua volta se viraram procurando quem poderia ter dado esse grito tão sem propósito em pleno Largo da Carioca. Profundamente envergonhado, e sem entender como esse engano podia ter acontecido, ele tampou a boca com a mão e, de cabeça baixa, foi para o trabalho quase em marcha atlética, esperando não ter sido reconhecido.

O dia no trabalho foi bem pesado, mas o ato falho da manhã não lhe saiu da cabeça. Por que diabos teria gritado “Moro”? Fazia tempo que nem pensava no ex-juiz curitibano mezzo-bolsonarista mezzo-soprano. O que esse engano podia significar? Pensou em comentar com alguns amigos do trabalho, mas ficou com medo de escandalizar os progressistas ou, pior, aproximar os liberais na economia e conservadores nos costumes que escondiam seu fascismo atrás do discurso “não converso sobre política”. Segurou a onda, ficou quieto e guardou o assunto para falar com a Suzette quando chegasse em casa.

Durante o jantar, enquanto comiam os restos de pizza do dia anterior, ele finalmente tirou do seu peito o peso do acontecimento da manhã:

– Pô, Suze, nem imagina o que aconteceu hoje. Eu vi uns caras apoiando o André Ceciliano e resolvi gritar o nome do Molon pra tirar uma com eles, mas acabei gritando Moro. Que louco, né?

Suzette interrompeu a mordida da pizza no meio, pousou ela no prato e balançou a cabeça desconsolada.

– Tudo bem, Suze? – Marco estranhou.

Ela sorriu forçado e levantou um dedo, como se pedisse pra falar em sala de aula:

– Tudo, amor. Só um minutinho que eu preciso fazer uma ligação.

Suzette saiu da mesa, digitou algo no celular e começou a falar no canto da sala:

– Sim, doutor. De novo. Começou. Não, não. Foi só um sintoma pequeno. Sim, sim. O que eu faço, então? Hum, hum. Vocês chegam aqui quando? Ótimo, ótimo. E, enquanto isso, o que eu faço? OK, OK. Vou tentar, vou tentar. Venham logo, por favor. Muito obrigada, muito obrigada.

Intrigado, Marco a questionou:

– Suze, com quem você estava falando?
– Com ninguém, amor. É que eu lembrei de uma coisa e…
– O que é isso? Vai impor sigilo de cem anos aqui em casa? Olha só, não quero ninguém aqui em casa compactuando com essa postura de comunista.

Suzette arregalou os olhos e o próprio Marco percebeu que havia algo errado. Ia falar bolsonarista e da sua boca saiu “comunista”.

– Suze, você viu? Aconteceu de novo. Amor, me ajuda. Não sei o que está rolando comigo.
– Calma, amor. Senta aqui no sofá e vamos assistir algo pra você relaxar. Isso, senta. Respira fundo. Deixa eu ligar a TV. Daqui a pouco começa Pantanal…
– Ótimo, estou mesmo precisando relaxar. Pode botar aí na Globolixo, amor.

Ao ouvir aquela palavra brotar da sua boca, Marco teve certeza de que estava tendo um derrame ou algo parecido. Só isso podia explicar essa troca de palavras. O que mais podia justificar ele estar falando como um fascista?

– Suze! Me ajuda, acho que estou tendo um treco. Suze, o que está acontecendo comigo?

Suzette, muito séria, não se moveu.

-Suze, vem cá! Por que você não me ajuda?

Suzette suspirou e se encaminhou para a estante de onde tirou um celular escondido por trás da coleção de livros do Chico Buarque.

– Marco, fica calmo, você não está morrendo, nem nada. Mas se prepara pro que eu vou te mostrar. Pode ser um bruta choque pra você.

Ela sentou ao seu lado e começou a mostrar para ele um álbum de fotos onde Marco, vestido de camisa do Brasil, daquela amarelinha, sorria extasiado.

– O que é isso, Suze? De que Copa é isso? Tem anos que eu não uso essa camisa, porque….
– Exato, Marco. É exatamente o que você está pensando.

Ela continuou avançando pelas fotos e ele começou a identificar a praia de Copacabana, as faixas pedindo o Impeachment, e, surpresa total, numa delas ele mesmo carregava um cartaz pedindo intervenção militar e o fim do STF.

– O que é isso? Isso só pode ser fake news- se indignou.- Eu nunca…
– Calma, Marco. Eu também caí nessa.

Nas próximas fotos ele e Suzette apareciam abraçados com uma bandeira do Brasil fazendo arminha com a mão.

– NÃO! Isso não! Tudo menos isso. ISSO NÃO.
– Marco, a gente errou. Eram tempos complicados. A economia tava uma bosta, tinha a lava a jato, aquela série do Padilha no Netflix, e no Jornal Nacional toda hora aparecia aquele cano cuspindo dinheiro. A gente foi na onda. Eu já aceitei isso e mudei de ideia, mas você parece que não aceitou essa inconsistência política e, vez outra, tem esses surtos quando relembra que foi…
– Fui o que, Suze?
– Bolsonarista.
– Bolsonarista? Logo eu que fiz campanha pro Lula?
– Em 2002, sim. Mas em 2014, olha só…

Na próxima foto lá estava Marco abraçado com Aécio Neves.

– Para, Suze! Você está me assustando.
– Calma, amor. Fica calmo. Vez ou outra você tem esses surtos mas eles passam e você esquece de tudo e volta a ser uma pessoa normal.
– Mas por que isso acontece?
– Bom, tem algumas teorias. Dizem que pode ter a ver com a economia. Quando ela vai bem, você apoia qualquer governo que estiver rolando; quando vai mal, você segue na direção oposta. Mas ninguém tem certeza do que causa isso. Alguns dizem até que é uma doença crônica. Uma espécie de característica comum da classe média…
– Mas eu sou de esquerda, Suze. Gosto de Chico Buarque, tenho todos os discos do Caetano, li até os livros da Márcia Tiburi.
– Não leu, Marco. Assim como não leu os do Olavo, quando ficava de direita.
– Eu nunca tive livros do Olavo.
– Não?

Suzette se levantou e abriu uma gaveta no rack da TV. Lá dentro, sob um fundo falso, estava exatamente o que Marco não queria ver: livros do Olavo de Carvalho, DVDs de versões estendidas de Tropa de Elite e um bando de CDs de cantores sertanejos.

– NÃO! EU NÃO POSSO SER BOLSOMINION! NÃO, NÃO POSSO! ISSO É MENTIRA. MENTIRA!

Enquanto Marco gritava de joelhos lamentando a própria sorte, a campainha tocou e Suzette abriu a porta de entrada. Dois enfermeiros enormes entraram na casa, sem pedir licença, agarraram Marco, lhe deram uma injeção e o levaram embora numa camisa de força. Uma médica, que ficou parada na porta, deu algumas indicações para eles e se aproximou de Suzette. Vendo o celular com as fotos de Marco sobre o sofá, ela perguntou:

– Por que você mostrou as fotos para ele?
– Não tive saída. Ele começou a surtar achando que ia morrer.
– Entendo, mas, atenção, só use isso em último caso.
– OK, OK. Será que ele melhora rápido? Esses surtos estão ficando cada vez mais comuns.
– É, parece que o quadro está evoluindo negativamente, mas vamos torcer que ele demore pra ter outro episódio.
– Quando ele volta pra casa?
– Acho que antes do fim de setembro ele já estará em casa.
– Antes de 2 de outubro ele já vai estar aqui? Quer dizer que vai ele poder votar?
– Bom, votar, ele até pode, o problema é em quem. O problema é em quem.

Publicado emFicção

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