Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

Entre a Lei e a Norma

Em toda festa à fantasia, seja nas de halloween, carnaval, ou mesmo nas sem um propósito específico, ela sempre ia vestida de Xerife. Se atochava numa roupa de cowboy dois números menor que o dela; colocava um chapéu de couro marrom; apoiava nos quadris um coldre com revólveres de plástico; e metia no peito, bem na altura do coração, uma estrela brilhante. Estava pronta pra ser a Xerife da festa.

Quando lhe perguntavam por que sempre repetia a mesma fantasia, ela retrucava:

— Repetir não, respeitar o meu nome. Com essa alcunha que mamãe me deu, que outra fantasia eu poderia vestir?

Ela tinha uma certa razão. Pra alguém chamada Norma, ir pras festas vestida de Cowboy fazia todo o sentido. Especialmente quando ela sacava seus revólveres e repetia o slogan que aprendeu quando estagiou na Associação Brasileira de Normas Técnicas:

— Onde não existe a Lei, existe a Norma.

Era perfeito, não?

Calhou que essa história da fantasia, com slogan e tudo, começou a circular, e algumas outras Normas começaram a ser questionadas por que não se vestiam de Xerife. Não adiantava darem mil explicações, sempre eram obrigadas ouvir a mesma ladainha:

— Pô, mas você ia ficar ótima de Xerife.
— Cara, o slogan diz tudo.
— Na boa, não faz todo o sentido?

Claro que fazia, mas todo mundo tem, ou pelo menos deveria ter, o direito de ir às festas com a fantasia que mais lhe agradasse. No início, as Normas resistiram, mas, pouco a pouco, uma a uma, elas foram aderindo.

— Uau! Eu não te disse?
— Ficou incrível! É a tua cara!
— Vai, agora fala o Slogan! Vai ser per-fei-to.

Em breve, a fantasia de Xerife foi se tornando uma indicação para todas as Normas. Porém, quando a disseminação da prática atingiu um determinado nível, as exceções começaram a ser alvo da indignação dos outros convidados:

— Ué? Cadê a fantasia de Xerife?
— Eu pensei que…
— Olha, era melhor que você….

Em pouco tempo, o que era norma social passou a se tornar obrigação, quase uma lei.

A Norma original, quando viu a sua ideia, antes, também, original, ser tão imitada, começou a se incomodar. Resistiu na sua fantasia e no slogan, esperando que as demais Normas cansassem da onda, mas parece que a moda veio mesmo pra ficar. Assim, vencida, como não queria parecer mais uma, apesar de ter sido a primeira, ela simplesmente abandonou a fantasia e passou a ir às festas vestida de várias coisas diferentes. Quando lhe perguntavam por que abandonara o figurino, tinha outro slogan na ponta da língua:

— O objetivo principal da Norma, queridos, é quebrar a Norma.

E, assim, como não podia deixar de ser, mais uma vez, para o prejuízo de todas as outras Normas, a Norma criou uma nova norma.

[oei#12] A obviedade de se colocar uma letra após a outra

“Escrevemos uma palavra após a outra até terminarmos”Neil Gaiman

O pré-requisito, para se seguir a dica aparentemente óbvia de Neil Gaiman, é colocar uma letra depois da outra para se construir as palavras que virarão arte. E se estamos falando de texto, ele precisa estar representado graficamente. Essa representação visual das palavras e das letras que as compõem depende de algo que é ao mesmo essencial e (quase) invisível no texto, seja ele impresso ou digital, e para a qual deveríamos dar mais atenção: a sua tipografia.

Boa ou ruim, fácil ou difícil, simples ou complexa, a tipografia utilizada num texto e as combinações entre elas, quando consideramos os diversos elementos de um livro, são sempre uma escolha. Uma preocupação aparentemente óbvia é buscar a legibilidade, facilitando a identificação dos seus elementos, e a leiturabilidade, buscando o conforto na leitura. Porém a tipografia, mais do que simplesmente facilitar o contato com o significante visual que nos permitirá absorver os significados do texto, pode conceder mais significado ou profundidade a ele. A fonte, como intermediária na relação da leitura, tem o poder de ser o anfitrião, guia e orador do conhecimento e das experiências que o texto deve lhe trazer. Por exemplo…

Que fonte será uma melhor guia na nossa viagem ao País das Maravilhas?

As diferenças podem parecer pequenas mas, óbvio, fazem diferença

Que fonte será uma melhor professora para nos ensinar sobre as regras do baseball?

Clareza e objetividade para um esporte quase matemático

Que fonte (ou conjunto delas) nos permitirá entrar na mente de uma adolescente e experienciar seus conflitos e dúvidas?

A confusão pós adolescente de Cecília Madonna Young expressa tipograficamente

Que fonte nos levará ao futuro sem deixar de nos remeter ao som (e à música) que a violência podem suscitar?

papa oom mow mow, sacou?

As escolhas das fontes sempre parecem óbvias, depois de feitas, mas saber por que as escolhemos é um elemento importantíssimo para permitir que decidamos qual será o guia mais adequado para os nossos leitores. A tipografia, mais do que funcionalidade, tem, muitas vezes ocultas, mas óbvias ideologias. Não é óbvio?

Nirodha

Nos seus últimos momentos, a vida toda, ao contrário do que dizia o senso comum, não lhe passou pelo olhos; mas foi quase isso. O que ele viu foi um trailer insosso e cheio de spoilers, resumindo o que ele nunca entendeu sobre si mesmo. Pra começar, o amor dos pais lhe foi justificado por questões biológicas, químicas, e comportamentais, totalmente reforçadas pelo hábito e pelos ritos sociais. Seu primeiro amor, descobriu, nunca foi verdadeiro, mas apenas fruto da conjunção da elevação da carga hormonal da adolescência com uma dose exagerada de romantismo de segunda geração. Sua carreira, coitado, nunca foi uma escolha, mas uma série de coincidências misturadas a preguiças e omissões. Seus sucessos, tão vangloriados como conquistas, apenas um misto de sorte e oportunidades não tão bem aproveitadas o quanto poderiam. Seus fracassos, fontes intermináveis de sofrimento inútil, nada mais que a consequência de desejos totalmente justificáveis que escondia de si mesmo. Enfim, tudo a que deu importância não passou de ilusão; porém, tudo que ignorou também não era diferente. Enfim, a vida, se é que ela podia ser chamada assim, era só uma ilusão. Ao invés de lhe desesperar, essa revelação lhe apaziguou: quando não há nada além da ilusão, o que podemos chamar de real? Quando tudo é ilusão, ela não se torna real? Intrigado, e surpreso, pelo paradoxo, riu baixinho, deu seu último suspiro, e descansou feliz, desejando que tivesse descoberto essa verdade, ou, quem sabe, mentira, antes. Ascendeu.

Fatores ocultos

-Então, qual é a sua defesa?
-Defesa?
-É, o que você tem para argumentar que justifique o que fez? Que fator levou você a agir como agiu?
-Fator?
-É, qual foi o fator que o motivou a fazer o que fez? Você pelo menos sabe que estava errado?
-Errado?
-Claro, errado. Por isso eu preciso da sua justificativa. Explicações não bastam. Preciso saber o que motivou o seu comportamento, não explicações post facto. Tudo o que você disser tem que ser apenas ipso facto. Fatores objetivos! Objetivos!
-Fatores? Post Facto? Ipso Facto? Não estou entendo nada. Eu nem sabia que estava errado.
-Não? Impossível. É tão óbvio! Como você pode não saber que estava errado?
-Sério, não sei. Pra dizer a verdade, não sei nem de qual facto, ipso, post, whatever, que você está falando.
-Que absurdo! Você faz o que faz, e tem a cara dura que não compartilhar ao menos um fator que o tenha motivado, ao menos uma explicação…
-Não era justificativa?
-Isso, justificativa… justificativa para o que fez. E agora vem me dizer que nem sabe do que estou falando.
-Isso. Exatamente, isso. Não tenho a menor ideia do que você está falando.
-Que absurdo! Que absurdo!
-Me desculpa, mas posso fazer uma pergunta?
-Você, totalmente errado, ainda me vem com pedidos?
-Desculpa, mas acho que, dentre tantos fatores, esse vai ser um dos fatores mais importantes nessa discussão.
-Tá bom! Que remédio? Pode fazer a sua pergunta, pode fazer.
-Você sabe do que está falando?
-Como assim?
-Você sabe o facto, quer dizer, o fato em que agi errado e gerou esse mal estar todo?
-Eu…
-Você sabe? Sabe?
-Bom, quer dizer, eu não sei, mas tenho certeza que alguém sabe.
-E quem sabe?
-O quê?
-Você pelo menos sabe quem sabe?
-Bom, não… mas posso verificar pra você. Mas o que isso tem a ver com fato de você estar errado? Como isso pode ser um fator importante nessa discussão?
-Talvez nem seja, mas, você não pode negar, esse desconhecimento sobre o tal fato não deixa de ser, sim, o fator mais interessante de toda a nossa discussão….
-(…)
-Então…
-Tá, fato! Esse fato, sim, pode ser um fator…