Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

The (Kitchen Sink) Stuff, quer dizer, Pluribus

Confesso, não assisti à primeira temporada até o final, mas já no sexto episódio estou cansando. O excesso de exposição e o “mistério”, que parece uma colcha de retalhos de outros filmes (e.g.The Stuff, Soylent Green, The Quiet Earth, West World, M.I.B., etc) numa sucessiva cadeia de “oh, quem diria?”, não conseguem me prender a atenção por parecerem justamente feitos só pra isso.

Oh, Carol, Charlton Heston já tinha cantado essa pedra…

A personagem principal, da qual muita gente está reclamando, não é, na minha opinião, tão odiosa assim para ser o motivo pelo qual a série não tem graça. Ela, como o livro “sério” da Carol, é só “nice”, quer dizer, “meh!”. Se a Carol fosse mesmo uma Karen, como tem sido acusada por aí, eu acho que seria muito mais interessante. E as comparações que tenho lido com Invasores de Corpos (ou Vampiros Almas)? É sério isso?  É quase como comparar 1984 com Admirável Mundo Novo. Pluribus está muito mais próximo de O Fim da Infância do Arthur C. Clarke do que  do(s) filme(s) inspirados pelo livro do Jack Finney.

Objetivamente, meu principal incômodo é que a série perde oportunidades ótimas e atualíssimas para discutir nossas resistências para aceitar (ou lutar por) um mundo melhor e o nosso hábito em instrumentalizar o hedonismo em prol da inconsciência narcisista.  Talvez se a Carol, ao contrário do que rola, lutasse para ser integrada e não conseguisse, a metáfora seria mais forte.

Além disso, não fossem os aliens (são aliens?) vilões antropófagos bem educados, a história com certeza seria bem mais intrigante e  empolgante. Mas, pelo jeito, como os aliens (vem cá, são aliens mesmo? eu disse que não vi até o fim) , o Vince Gilligan não só quer agradar todo mundo como adora ficar explicando as coisas o tempo inteiro.

Sorry, Vince, nessa você me perdeu…

A ressurgência do sucesso mineiro

Quando eu ainda estava envolvido no mercado de RPG, sempre me espantava com as inclinações regionais dos criadores e empresas.  No Rio sempre me parecia que o pessoal buscava investir em alguma criação que chamasse atenção pelo seu capital cultural e possibilitasse retorno financeiro por editais ou na forma de status. Já em São Paulo, o que parecia pesar mais era o capital econômico e a orientação do público. Pra onde o vento soprasse mais forte, com muita eficiência e velocidade, o pessoal conseguia produzir material que atendesse às expectativas ou desejos mais pontuais, e, às vezes, efêmeros, da massa de consumidores. Mas em Minas o lance era diferente. Em Minas toda vez que eu conversava com os criadores sobre suas expectativas de retorno sobre o investimento (financeiro, de tempo e emocional) envolvido nas suas criações, a resposta que normalmente recebia era: “ah, véio, fizemos isso pois é muito doido”.

Quando vejo pra onde o mercado editorial (do qual o RPG também faz parte) se move com a IA, me pergunto se não estamos chegando num ponto de inflexão em que a maximização dos resultados se torne impossível pela pasteurização dos outputs das máquinas baseados em dados gerados pelos próprios algoritmos que os criam.

Será realmente lindo quando pudermos abraçar essa “doideira” mineira como a verdadeira forma de sucesso. Um sucesso que todos podem fazer, pois, mesmo que sejamos todos doidos, seremos sempre doidos às nossas próprias maneiras.

Mergulha!

O que o Rock nos deu e o Punk Rock popularizou, em contraposição aos megashows em arenas onde a divisão entre artistas e plateia é clara e intransponível, foi o stage diving. Um momento de pura vulnerabilidade em que a estrela se coloca na mão do seu público. Será ela amparada? Ou acabará estatelada no chão?

Ao contrário do que possa parecer isso nada tem a ver com vaidade, mas, sim, com a confiança de fazer parte de uma tribo que vai estar ali pra te socorrer. Não admira que o próprio público também se sinta à vontade de subir ao palco para se atirar sobre seus iguais. Afinal, plateia, músicos, palco, audiência, somos todos iguais; o que nos difere é apenas o papel que desempenhamos no momento.

 

View this post on Instagram

 

A post shared by Lambrini Girls (@lambrinigirlz)

“Keep your hands up and keep your phones down! If you don’t catch me, I will fucking die!”

Superman tinha razão: solidariedade e confiança são o verdadeiro punk rock!

À espera de um milagre

As maiores tragédias dos nossos tempos não são as guerras, não são as ditaduras, não é a violência enraizada nas nossas relações formais e informais: é a falta de sensação de pertencimento. Essa impossibilidade de olhar para o outro e saber como ser generoso e receber a sua generosidade é o que causa todos esses males. Em vez de terminar com as guerras com mais violência ou reagir com igual vilania às atrocidades que nos submetem, deveríamos reforçar as nossas relações mais próximas, criando uma rede de apoio que sufoque todo esse ódio, e o medo que o alimenta, para, enfim, tornar a humanidade, de fato, uma comunidade. Quando esse dia chegar, como Kevin Kelly bem nos lembra, estaremos prontos a aceitar os milagres que todos merecemos receber.

Mas, confesso, é muito difícil manter essa fé quando as bombas da ignorância e da ganância explodem ao nosso redor. A cada estrondo, a cada mentira, a cada último suspiro dado por um inocente pego no fogo cruzado desses narcisistas amedrontados, a pergunta ecoa nas nossas mentes: quando (e se) nos emendaremos?  Será que um dia teremos a coragem de abandonar o medo e caminhar a estrada não trilhada?

I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I—
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.

As lições cinematográficas não esperadas das madrugadas

Há muito tempo, quando não tínhamos um mundo de opções de distrações opiáceas para entorpecer nossas cognições e nossos sentidos, era preciso aceitar a fricção estética dos filmes ruins das madrugadas. Restritos a meia dúzia de canais que precisavam despejar os longas-metragens de qualidade duvidosa que as estações de TV precisaram comprar para adquirir os direitos de exibir os blockbusters que realmente traziam público e anunciantes, nós passávamos por uma educação cinematográfica forçada, aprendendo o que não prestava e tentando dar sentido e afeto ao que não tinha senso.

Que escola foram os filmes B da Hammer

Mas quem disse que isso era ruim? Ninguém se tornou um gênio sob uma dieta exclusiva de clássicos, Tarantino que o diga. É preciso receber doses cavalares de filmes/livros/músicas de B a Z para adquirir musculatura estética pra criar algo que preste.

Depois perguntam por que hoje em dia não se cria nada bom. Sem o gosto ruim da película ingênua, produzimos apenas gerações de imitadores em busca de um sucesso medíocre. Falta aos novos criadores, oprimidos por vergonhosas preferências irônicas, a paciência e a generosidade de saber assistir a filmes ruins. Ah, um pouco de insônia também sempre ajuda.

Morte à Comédia Romântica, Longa Vida à Comédia de Amor

Desculpa avisar, gente, mas o romantismo morreu. Sim, os aspectos de ingenuidade e paixão que ligávamos ao amor, desde os exageros mórbidos do ultrarromantismo até romances água com açúcar que caracterizaram o gênero por décadas e séculos, não passam mais pelo nosso teste de suspensão de realidade. Porém isso não quer dizer que não possamos ter excelentes obras que falem sobre o amor.

Amor e romantismo, é importante lembrar, não são sinônimos. Nós simplesmente encaixávamos tudo dentro de um mesmo gênero em prateleiras de livrarias, videolocadoras, serviços de streamings, e lojas virtuais, e passamos a acreditar que essa relação de proximidade era de identidade. Não, não é.

Por mais que o romance tradicional hoje possa parecer datado e seus tropos não façam mais sentido (afinal, quem ainda acredita, além da Glória Perez, em amor impossível ou “proibido”?), as histórias sobre amor, inclusive as comédias, continuam não só relevantes, como super atuais e necessárias.

Ontem encarei uma sessão dupla de comédias românti… quer dizer, de amor, que provam esse meu ponto.

A primeira foi a comédia espanhola Volveréis. O filme conta a história de um casal madrileno em processo de separação, saudável e amigável, eles não cansam de nos lembrar, que, seguindo uma ideia ao mesmo tempo estapafúrdia e sedutora do pai da moça, resolvem fazer uma festa de fim de relacionamento. Enquanto os preparativos da festa e os avisos de separação a amigos e familiares rolam, o quase ex casal tenta organizadamente tratar das partes práticas dos começos das suas novas vidas de solteirice. Em momento algum da história se discute a razão do fim do relacionamento, nem vemos qualquer animosidade realmente marcante entre eles. A relação parece apenas ter se esgotado. Talvez por isso, os amigos e familiares não aceitem tão bem esse fim quanto o casal aparenta aceitar, e propõem constantes questionamentos que eles evitam responder. O humor da situação vem justamente do pragmatismo do casal e da performance do fim maduro e equilibrado do relacionamento que é exacerbada pelo filme dentro do filme, estrelado pelo namorado e dirigido pela namorada que adentra a narrativa “real” do casal.

“Sim, estamos estamos nos separando, mas estamos ótimos”

O segundo foi Follamente, em português, O Primeiro Encontro, um filme italiano sobre, conseguem adivinhar?, o primeiro encontro de um possível futuro casal, num sábado à noite, durante uma final de futebol, para um jantar romântico(?) na casa da mulher. Apesar de estarem sozinhos em cena por quase todo o filme, as vozes em suas cabeças, quatro para cada um, representando diferentes aspectos de suas personalidades (o sexual; o racional; o romântico, olha quem apareceu por aqui; e o desequilibrado) discutem impelindo ou impedindo as suas ações. Além disso, em seu refúgio, o encontro também é invadido pelas vidas pregressas dos, torcemos, futuros namorados na figura de filhos e antigos relacionamentos fracassados. Apesar do protagonismo dos diálogos internos, aos poucos, a comunicação direta entre eles começa a acontecer, permitindo até que essas facetas de suas personalidades saiam de suas cabeças para falarem umas com as outras.

O diretor cercado pelas vozes das cabeças das protagonistas

Além de serem excelentes comédias muito atuais e realistas, dentro de toda a fantasia que propõem, os filmes ainda carregam uma outra similaridade: tratam o amor como um trabalho de construção. Seja no trabalho social e emocional do fim do relacionamento, como no trabalho psicológico e de autoanálise do seu início, ambos os filmes e casais explicitam que, mais do que paixões avassaladoras, os amores ou, se preferir, romances precisam de esforço, dedicação e delicadeza para funcionar ou, ao menos, existir.

Para quem já tinha achado que o amor era um fotograma fora dos cinemas, desde Como Perder um Homem em 10 Dias, a execrável comédia romântica(?) que transformou o amor num job precarizado, ver essas histórias em que se relacionar é, sim, um trabalho, mas um trabalho de amor, dá até um quentinho no coração. Quem diria que no final de 2025 poderíamos voltar a ter esperança no amor cinematográfico?