Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

A luz

Remamos. Remávamos.

Não esperávamos mais nada quando, com os braços já cansados de tanto remar no escuro, sem saber exatamente se todo o nosso esforço verdadeiramente levava o barco, se não ao nosso destino, a alguma costa, ela brilhou.

No meio da noite sem estrelas, uma luz, enorme, mas discreta, resoluta, mas fugidia, nos fez lembrar que íamos para algum lugar, que havia alguém a nos esperar, e que algo desejava que chegássemos lá.

A luz, piscando, aparecia, e desaparecia, mas tinha um lugarzinho constante no meio da nossa escuridão.

-É um farol?
-Não! É uma estrela.
-Ou, quem sabe, é uma embarcação que veio nos resgatar…

Não tínhamos certeza de nada, mas tínhamos um rumo. Mesmo desejando coisas diferentes, todos nós queríamos chegar juntos ao mesmo lugar. Nas costas desse novo universo haveria possibilidades para que todos os sonhos se realizassem. Nas costas desse novo universo os nossos braços e mentes cansadas seriam recompensadas por todas essas diferentes esperanças que, esperávamos, não fossem vãs.

Remávamos. Remamos.

Dança da chuva

Pediu uma água no balcão da boate e foi recebida com incredulidade:

-Água?
-É, água.
-De que tipo?
-Normal.
-Do filtro ou mineral?
-Se tiver do filtro… é de graça, né?
-É, mas não tem.
-Então, por que ofereceu?
-Sei lá, não estou acostumada a servir água.

Pegou a garrafa da mão relutante da bartender e se encaminhou para a pista. No caminho, foi parada algumas vezes:

-Água?!
-É.
-Tá tudo bem?
-Tá, por que não estaria?
-Não sei, não estou acostumada a te ver bebendo… água.

Tentou dançar, mas, entre uma música ou outra, sempre tinha alguém pra se surpreender:

-Água?
-Porquê? Algum problema?
-Não, não. Deixa quieto, não está mais aqui quem falou.

O ápice foi quando a história da água chegou ao DJ que, num misto de zoeira e indignação, não se furtou a dedicar a ela um remix tribal house de Água Mineral da Timbalada, emendando na versão do Biquini Cavadão pra Chove Chuva do Benjor.

Sob os risos de toda a boate, ela, de saco e bexiga cheias, saiu puta da boate em direção à sua casa. No trajeto, como não podia deixar de ser, choveu, e ela, louca pra mijar, dando mais um motivo a quem a criticava, aproveitou pra se aliviar vestida, no meio da rua.

Quem disse que havia um limite pro quanto alguém pode ficar molhada? Quem disse que a dança da chuva não funcionava?

“Chove chuva, chove sem parar…”

[oei#09] Os (des)enobrecimentos gráficos que tornam o livro (m)eu

Na minha infância, quando pintava uma grana extra em casa, comprávamos livros. Enciclopédias, coleções, livros grandes em capa dura com letras douradas e fitilhos. A coisa era tão séria que, mesmo não sendo religiosos, tínhamos uma enorme bíblia, de capa dura imitando couro, com douração trilateral, sobre um suporte de leitura no meio da sala. Minha mãe, ateia convicta, se explicava:

– É pelas ilustrações do Doré.

Não era exatamente essa, mas dá pra ter uma ideia de como era preciso concordar com ela.

E fazia suas críticas:

– Se bem que eu ficaria feliz em tirar aquela foto desse reaça do João Paulo II da introdução.

Vai entender…

Graças ao Círculo do Livro, e suas edições “especiais”, cresci acostumado com as ditas encadernações de luxo. Enquanto o povo era obrigado a viver com livros em brochura, de bolso, sem orelhas e colados, eu ganhava de aniversário coleções em capa dura, costuradas, e envernizadas de Monteiro Lobato e Sherlock Holmes.

O detalhe do Saci fazia toda a diferença, mas, confesso, a edição grampeada da Brasiliense fazia mais a minha cabeça

Eram bonitos de se ver, mas, confesso, muitas vezes abria mão de ler o Shakespeare na edição de obras completas em papel Bíblia que tínhamos em casa para enfiar no bolso de trás da calça, uma edição fininha, de capa vermelha, quase se desfazendo da Ediouro.

– É por comodidade- eu mentia.

Era por amor.

Quantas noites passamos sonhando juntos…

Aquela pequena edição de Sonhos de uma Noite de Verão me acompanhava nos pontos de ônibus, nas esperas nos Fast Foods, e era “vagabunda” o suficiente para ser anotada à exaustão. Como dizia o Stanislaw Ponte Preta, era “vaca, porém honesta”.

Cercado por edições raras e caras, sendo vigiado super egoicamente pelo Freud gravado em ouro e fogo na capa preta da sua coleção da Imago, eu construí, quase em segredo, uma coleção de pequenos livros, muitos de bolso, resgatados em sebos, feiras do livro, e saldos, que representava a minha forma de amar os livros: sem pompa, sem circunstância, mas com muito fervor.

Aqui estou, mais um dia, sob o olhar psicanalítico do vigia

Por isso, quando tocava a capa fosca e rugosa dos meus pockets de ficção científica da DelRey e cheirava seu miolo quase florestal, o texto adquiria um gosto diferente daquele que as edições sérias e sem vincos de manuseio da Hemus me proporcionava. O texto podia ser quase o mesmo, mas o livro e a experiência eram outras. Por consequência, eu também era diferente quando as lia.

Hoje, depois de muito penar pela fantasia das edições de luxo, eu sei, o livro nobre não é o que passou por acabamentos mais caros, mas o que foi cuidadosamente pensado para ser não mais meu, mas mais eu.

Boca de Urna

O Brasil pode ter mais de 150 milhões de eleitores, mas para a família Campos Pinto quem decide as eleições mesmo é o primo Gui. Desde a primeira eleição pra presidente pós ditadura, quando a família se digladiava entre o plantel de candidatos afoitos pra ser o primeiro presidente eleito de forma direta depois de décadas, ele, do alto dos seus 16 anos, desvirginou seu título e acertou na mosca quem ia ser eleito:

-Sei não, mas esse janotinha do caçador de marajás é bem capaz de levar esse lance. Vou cravar logo nele.

Se votou ou não votou, ninguém sabe, mas a mística foi criada. Ele não só adivinhava a pessoa que ia ganhar a eleição, como também votava nela. Além disso, se mudasse de ideia, ela não ia se manter no poder; o que se comprovou quando saiu nas passeatas de cara pintada em apoio ao impeachment.

Depois de acertar algumas eleições municipais, em 94, ficou bastante tempo na corda bamba, mas, no fim das contas, disse que ia de FHC:

-O Lula vai ter seu momento, mas não é agora.

Bisou FHC em 98, mas, em 2002, não teve dúvida. Contra o Serra, era Lula desde criancinha, mesmo sem nunca ter sido.

-Acho que já tá na hora do operariado entrar no poder.

Não era um especialista em política, nem um partidário. Mudava de voto sem uma razão clara; se arrependia, como todo ser humano; e tinha momentos em que preferia não se manifestar:

-Dessa vez era melhor ninguém ganhar mesmo.

Mas, mesmo sem declarar voto, todo mundo achava que a pessoa em quem ele depositasse sua confiança, e seu voto seria eleita.

Quando a polarização apertou pós 2015, ele se afastou total de política. Mas, como cabos eleitorais em campanha de boca de urna, os parentes o puxavam de um lado e do outro querendo suas previsões e seu voto. Convidavam ele para jantares, viagens, passeios, sempre com outros pretextos, mas no meio dessas oportunidades sempre queriam saber:

-Então, Gui, em quem você vai votar desta vez?

Ele aceitava os convites, mas se limitava a dar suas opiniões, em geral negativas, sobre todos os candidatos e dizer:

-Desta vez tá difícil. Ainda estou analisando.

Os últimos anos foram particularmente difíceis para a família Campos Pinto. A vó Mercedes parou de falar com a tia Heloise; e o Ruizinho deu um piti depois da eleição pra prefeito de 2020 e se indispôs com todo mundo. Mas se havia uma pessoa que ainda tinha trânsito livre em todos os núcleos familiares, não importando suas afiliações políticas, era o primo Gui.

Nesta eleição, os ânimos estão mais acirrados do que nunca. Até os parentes de outras cidades querem saber em quem ele votaria se morasse lá. Mas, sem muita explicação, o primo Gui se refugiou em Paquetá e não atende ninguém a não ser em caso de vida ou morte, bolão de megasena da virada, ou festa com boca livre.

Semana passada fui visitá-lo e, como não sou da família, tomei a liberdade de perguntar, não em quem ele ia votar, mas por que ele tinha se isolado. Ele me respondeu:

-Cansei disso tudo, amigo. Dá muito trabalho manter o controle da política brasileira.

Medalha de ouro

Depois de três dias firmes na promessa de não fumar, recaiu. Ou quase.

Acordou agitado, no meio da noite, com a garganta coçando e a língua dormente por um cigarro; de um sonho sobre um bar de jazz com buffet de café da manhã em que todos ainda podiam fumar em espaços públicos e fechados. Bons tempos, bons tempos.

Foi nos esconderijos tradicionais, onde guardava maços para descumprir suas próprias resoluções de não mais fumar, mas não encontrou nem uma guimba de Medalha de Ouro, seu mata rato preferido. Da janela, procurou as luzes dos botequins debaixo do seu prédio, mas parecia que todos estavam fechados. Só lhe restava, de esperança, a banca 24 horas da esquina da Barão do Flamengo. Se ela não tivesse cigarros, ou, por um milagre infernal, estivesse fechada, teria que ir até ao posto da Ruy Barbosa ou da Farani. Ato que envolvia, na sua opinião, maiores riscos para a sua saúde do que um possível câncer de pulmão.

Colocou um short, chinelos, uma camiseta rasgada, que o confundisse com a população de rua local, e, no bolso, levou apenas o dinheiro contado pra dois maços. Celular, documentos, carteira, por precaução, ficariam em casa.

Passou pela portaria discretamente para não acordar o porteiro nem passar vergonha de sair vestido de cosplay de mendigo. Atravessou a praça do Largo do Machado quase marchando, num misto de bravura e medo que, esperava, fosse protege-lo de possíveis assaltantes. Acelerou o passo na rua do Catete e já da entrada, fechada, do metrô, conseguiu ver a luz branca da banca. Havia uma esperança, havia uma esperança.

Atravessou o sinal aberto entre as poucas motos de entregadores de aplicativo que cortavam o asfalto, jogando gás carbônico na atmosfera, e levavam as últimas refeições  cheias de ingredientes ultra processados aos insones, e em dois pulos estava no seu destino.

Atravessou a pequena multidão de boêmios que fumavam seus últimos cigarros e tomavam a saideira na banca depois que os bares do Flamengo já tinham fechado, e, de dedo em riste, revelou seu desejo ao mundo:

-Tem Medalha de Ouro maço?

-Tem. Branco ou Vermelho?

-Vermelho!

O jornaleiro trouxe o maço de Medalha de Ouro vermelho, e, desconfiado do cliente maltrapilho, o segurou à distância até ver o dinheiro. Ele entendeu o recado e buscou a grana no bolso. Não encontrou. No seu lugar havia apenas um furo. Assim como a camisa, seu short também estava rasgado.

Nem se dignou a explicar nada. Abaixou a cabeça e, entre os boêmios, que bebiam e fumavam, se deixou caminhar para casa, olhando para o chão, na esperança de encontrar o dinheiro perdido. Não encontrou.

Chegou na portaria do prédio e lembrou que esqueceu de trazer a chave. Bateu no portão e nas grades de ferro, mas o porteiro nem se abalou. Que remédio? Teria que esperar ele acordar naturalmente ou algum morador sair pra trabalhar na madrugada. Se não tivesse perdido o dinheiro, não saía da sua cabeça, pelo menos poderia esperar fumando, como naquele velho tango: “Fumar es un placer/ Genial, sensual/ Fumando espero”…

Sentou-se na escadaria do edifício e tudo o que podia sentir era ódio. Ódio de si, por fazer tanto esforço pra se matar; ódio da raça humana, por fazer tanto esforço pra se matar entre si. A extinção, pensou, devia ser um esporte olímpico, com categorias tanto coletivas, como individuais. Todas as nações, e todos os seres humanos empatariam em primeiro lugar. Medalha de Ouro para todos nós.

Livre. Nunca. Mais.

Acordou resoluto. Já não tinha mais nada a perder. Faria o que lhe desse na telha. Consequências, boas ou ruins, nada significavam ; não eram ganhos, nem perdas; eram apenas experiências.

Mal levantou da calçada, foi interpelado por um policial. Não lhe deixou terminar a sua cantilena agressiva. Não tinha culpa, nem medo para lhe orientar as ações, então lhe deu um beijo no rosto e um abraço fraterno.

Deixou o policial boquiaberto, para embarcar num ônibus que chegava no ponto. Entrou pela porta da frente e pediu carona ao motorista. Recebeu de volta uma risada e um chute na barriga que o jogou de volta à rua. O motorista, ainda rindo, arrancou o ônibus, e saiu atirando impropérios.

Não se deixou abater, e caminhou, mesmo sem saber pra onde ir. Na quarta esquina resolveu parar. Ir ou não ir significavam a mesma coisa. Então, para que andar? Sentou embaixo de uma marquise, fechou os olhos e, mesmo não estando cansado, dormiu.

Os sonhos lhe escaparam enquanto as pessoas desviavam dele na rua. Não era um objeto, nem um agente; estava se tornando apenas um elemento do ambiente.

Quando acordou, já era noite. Na rua vazia, um grupo de jovens, ao mesmo tempo ameaçadores e frágeis, se aproximou dele com pedaços de pau e garrafas. Sem dizer uma palavra, começaram a espancá-lo.

Ele não reagiu. Viver ou morrer nada significavam. Tudo era o mesmo. Tudo era diferente. Estava, enfim, imune às expectativas das consequências. Da vida? Talvez.

Sua visão foi se tornando cada vez mais vermelha e turva. Sentiu o ar lhe abandonar pela última vez, e sorriu um sorriso sem dentes. Finalmente estava livre, como tudo o que nada quer.

Feliz, triste; não fazia mais diferença. Não fazia. Mais. Nunca fez. Nunca fará. Nunca. Mais.

Livre.