Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

[oei#32] A taxonomia dos menosprezados padrões e aprendizados do processo editorial

Quando algum “romântico” quer defender a impossibilidade de se gerir projetos editoriais, sempre evoca o famoso adágio: “livros não são commodities”. Por essa razão declaram que as atividades e estratégias da produção editorial são não só impadronizáveis, mas também incontroláveis.

Tiro meu chapéu para essa estratégia de convencimento, afinal é impossível discordar dessa afirmação. Sim, livros não são commodities; cada livro tem uma trajetória específica, atende a públicos sempre nichados, e tem particularidades e peculiaridades que o distingue dos demais. Porém isso não é justificativa para não podermos padronizar parte dos seus processos, e muito menos para não podermos utilizar os aprendizados de um projeto para otimizar outro.

O fato é que os produtos e empreendimentos editoriais, como qualquer projeto, são sempre únicos e não têm relações de identidade, mas têm de semelhança. Portanto, podemos caracterizar seus padrões e as lições aprendidas por uma série de características que permitem a sua reprodução em outros que as compartilham. E esses conhecimentos terão aplicações tanto em fases específicas dos projetos quanto em suas áreas de conhecimento.

Parte dessas características estão relacionadas aos seus públicos-alvo. Livros de mesmo gênero ou voltados a públicos similares podem compartilhar mesmos processos, desde a seleção de obras e preparação, até o marketing e distribuição. É possível também aprender com erros e acertos de projetos anteriores desde que as experiências sejam similares. Assim, por exemplo, as atividades na produção de livros didáticos, manuais de RPG, ou publicações de luxo de traduções de obras clássicas russas vão ter características próprias que podem gerar de procedimentos até check lists padronizados onde incorporaremos a experiência e a especialidade de profissionais que já passaram por “sortes”, que tentarão repetir, e “azares”, que buscarão evitar.

Isso também se aplica às especificidades dos livros enquanto produtos, sejam eles físicos ou digitais. Características relacionadas a tamanho, formato, tipo de papel, interatividade e aprimoramentos, carregarão similaridades em riscos e atividades tanto no design quanto na produção gráfica que podem se repetir de um projeto para outro.

Outro fator de semelhança entre projetos e produtos são os profissionais e partes interessadas envolvidas. Mesmas faixas etárias ou formações acadêmicas,  mesmas instituições ou agendas comerciais, ou mesmas empresas e fornecedores terão similaridades nos seus comportamentos e interesses, que podem ser cadastradas em ferramentas de CRM (Customer Relationship Management) e servir de referência para processos decisórios e criações de estratégias de relacionamento e comunicação.

Óbvio que, se não temos a cultura ou a prática de padronizar e levantar aprendizados de projetos, haverá um processo inicialmente demorado para mapear e modelar procedimentos, coletar lições aprendidas e categorizar todos esses conhecimentos para usos futuros. Porém, é sempre possível começar com pequenos passos. O mais importante deles é abandonar a fantasia do “romântico” que diz ser impossível profissionalizar a atividade editorial, mas que, secretamente, acha que tudo sabe. Ao invés de alimentar essa postura, devemos assumir com muita humildade que sabemos que não sabemos o que não sabemos. Afinal de contas, o primeiro passo para aprender qualquer coisa é ter orgulho de dizer “eu não sei”.

(Ainda) Vale Tudo?

Um dos papos mais recorrentes no Pilates é o remake de Vale Tudo. Não é surpresa que mais de metade das nossas discussões são sobre comparações entre a novela original e a atual, e, óbvio, transitam entre antagonismos irresolvíveis e consensos indiscutíveis.

No campo das unanimidades, não há dúvidas, por exemplo, que ambas as Odetes são ótimas, apesar de a atual ter deixado de ser uma vilã clássica e virar uma fada sensata torta, mais por conta da chatice dos personagens que a cercam do que por concordância ideológica; outra coisa inquestionável é a falta de habilidade da Paola Oliveira em fazer uma Heleninha decente. Um desastre tão grande que com certeza faria a Heleninha de 1989 correr atrás de uma garrafa para esquecer essa mágoa.

Já nas discordâncias, o grupo não consegue concordar sobre qual Raquel é pior (meu voto é na Regina Duarte, por várias razões in e out obra); e principalmente não há consenso na pertinência da criação de um remake. Alguns dizem que o momento político pede, pois, afinal, ainda vale perguntar se no país “Vale Tudo”, enquanto outros consideram que uma obra surgida num Brasil de 35 anos atrás não consegue ser transposta para os dias de hoje.

Raquel e Maria de Fátima no remake e na versão original de 'Vale Tudo' - Foto: Globo/ Fábio Rocha; Globo / Divulgação

Mais do que 35 anos de transformações sociais as separam

Nesse ponto específico, me encontro entre essas duas posições. Enquanto considero que deveríamos continuar a nos perguntar se “Vale Tudo”, acho que o contexto atual do país demanda muitas mudanças na novela para que ela realmente faça sentido.

A “Vale Tudo” original trata de um país saindo de uma ditadura, e perdido entre um futuro de próspera liberdade, que não se concretizou, e os vícios de corrupção e autoritarismo do passado. No universo de outrora, a luta das pessoas comuns (Ivan, Raquel etc.) contra as elites que ainda são herdeiras de um passado oligárquico (Odete, Marco Aurélio etc.) é a tônica do conflito social brasileiro.

Hoje, o contexto é bem diferente. Ao invés de estarmos saindo de uma ditadura, estamos lutando para não voltar para uma. A elite continua a mesma, mas estava há anos se escondendo atrás de uma pauta falsamente progressista para agradar acionistas e fazer propagandas hipócritas. Porém, com um país mais polarizado, essa máscara cai. Libertos da necessidade de esconder suas reais intenções, os vilões acabariam surpreendendo os mocinhos que, ingenuamente, por anos poderiam ter considerado eles seus aliados.

As relações, tanto de poder quanto emocionais, entre os personagens seriam diferentes, assim como a conclusão da história. Enquanto na primeira Marco Aurélio foge do Brasil cheio de dinheiro, nessa para que ele precisaria fugir? Era bem capaz de se tornar político, coach picareta, ou, quem sabe?, os dois.

A impressão é que, nesse ínterim, entre as duas versões, tanto o país como o nosso estado de espírito mudaram muito. Se antes havia esperança na dúvida de se realmente “Vale Tudo”, hoje a desesperança se alimenta da certeza de que, sim, “Vale Tudo”. E somos nós, que mesmo sem dinheiro, queremos fugir como o Marco Aurélio de um país que não nos acolhe mais. Talvez, uma das decisões mais importantes que deveriam ter tomado na novela de hoje seria trocar o tema “Brasil” por algo mais representativo da aceitação debochada da nossa realidade. Que tal “Vale Tudo” de Tim Maia e Sandra de Sá?

No Pilates, todos concordamos que a pertinência do tema da novela é indiscutível, mas a teia de relações sociais do país mudou e  impactou as ambições de seus participantes. A novela não pode, assim, permanecer com o mesmo plot, nem com os mesmos arcos. Ah, e ninguém me convence que Bella Campos não poderia ser uma influencer trambiqueira por conta própria, sem precisar recorrer ao golpe do baú. Já a pobre da Maria de Fátima original, que nunca poderia ser modelo, apesar de toda a maldade, merece pelo menos um pouquinho da nossa afeição. Seja como for, se há algo que transcende todos os gaps sociais e históricos no Brasil é a malandragem.

Mas isso é papo para a próxima sessão de Pilates.

[oei#31] A gestão de projetos editoriais e seus múltiplos produtos experienciais

Mais do que gerar atrasos e prejuízos a todo o setor, a resistência do mercado editorial em implementar uma cultura de gestão de processos e projetos também estimula a falsa ideia de que o livro é o único ou principal produto dos seus projetos de publicação. Não é à toa que quando vemos pesquisas, análises, cenários, e outlooks sobre o Mercado Editorial, elas sempre recebem uma alcunha que reforça estarem falando do “Mercado do Livro”.

O mercado editorial, como o conhecemos, nasceu, sim, do livro, mas hoje, convenhamos, não se limita a ele. O próprio livro se tornou um objeto de difícil definição, e suas múltiplas variações (digital, áudio, jogo etc.) falam com tantos públicos, e dependem de tantas atividades e fluxos diferentes, que, muitas vezes, uma das poucas coisas que têm em comum é serem produzidos, ou financiados por editoras.

Essa ambiguidade do conceito do livro acaba nos paralisando conceitualmente numa busca infrutífera pela sua essência. Em vez disso, ela deveria nos libertar da ideia de que ele é o produto único ou principal dos projetos editoriais. Assim poderíamos encarar o valor que sua compra, seus diversos usos, e eventual leitura realmente geram. O livro, não podemos esquecer, é um meio, nunca um fim.

O comprador do livro, que, atentem, nem sempre é um leitor, não se satisfaz apenas com o produto, mas com o que ele traz para ele. Mesmo os bibliófilos compulsivos, como eu, que os compram como esporte, têm uma satisfação com a “caça” para o qual o livro também é simplesmente um meio.

Por isso, quando vamos falar da gestão dos projetos de publicação, precisamos, antes de tudo, entender qual é o público e o que ele espera que venha a surgir do seu encontro com o livro. Se atender a essa expectativa for o principal objetivo do projeto, o livro ainda será um produto importantíssimo, mas não o único, numa cadeia de experiências que se complementarão para entregar o valor esperado pelo seu público-alvo.

Essa compreensão é condição sine qua non para uma melhor definição das especificações do livro, das suas estratégias de comunicação e marketing, e, inclusive, para definir quais serão as metodologias mais adequadas para gerir os processos e o projeto que o concretizarão.

Por exemplo, um livro com o propósito de promover uma agenda política não precisa ser um best-seller, mas deve impactar os leitores certos. A sua lucratividade não será o único critério de sucesso, seja para o autor ou para a sua editora. Já um livro de caráter experimental será bem-sucedido pelo seu impacto em futuras publicações, o que o tornará, a longo prazo, um sleeper hit, ou um clássico cult, que terá um retorno financeiro menos imediato, porém mais duradouro, e carregado de capital social e de imagem. E cada projeto precisa de uma metodologia adequada para facilitar o atingimento de seus objetivos específicos.

Enquanto continuarmos a olhar para o mercado editorial simplesmente como o mercado do livro, só a implementação de uma cultura de projetos não nos permitirá ter melhores resultados. Precisamos também nos libertar dos objetivos monotemáticos que todos os fluxos editoriais parecem ter: maior volume de vendas e maximização do lucro.

Apesar de compartilhar uma série de atividades padrão, cada processo editorial é único; os livros dos quais eles derivam são únicos; seus produtos relacionados são únicos; e, somente ao considerar isso junto aos valores e à responsabilidade social da indústria, conseguiremos definir objetivos e metodologias de gestão alinhadas às suas características particulares. Só com esse match entre a prática de gestão de projetos e o modelo de negócios, as editoras atingirão os resultados que realmente as farão descobrir e desenvolver suas identidades e funções únicas, tanto comerciais, quanto sociais.

Para começar essa jornada, o primeiro passo é superar nossas ideias pré-concebidas sobre nossos clientes, sobre nossos objetivos, e até a compreensão do que fazemos. Talvez assim finalmente aceitaremos que, enquanto gestores de projetos, somos mais do que “simples” criadores e comercializadores de livros; somos verdadeiramente designers e produtores de experiências.

Corações e Mentes

Uma vez, no meio de um pacote de livros, me enviaram, de surpresa, dois squishy toys insólitos: um coração e um cérebro. A princípio não fiz nada com eles, mas, com o passar dos anos, eles acabaram assumindo funções bem específicas. O cérebro está no meu trabalho, em perfeito estado, ao lado do Gênio dos Smurfs, para não me deixar esquecer que é preciso, sim, usar a cabeça, mas sem querer ser esperto demais; já o coração, ah, coitado!, ficou solto pela minha casa, sem função definida, até que os gatos o acharam. Depois disso, ele some e reaparece, quando menos se espera, num estado cada vez pior.

Sempre que esbarro de surpresa com ele pelo chão, coberto de mordidas e pelos de gato, me pergunto se, enquanto meu cérebro tá lá preservadinho no trabalho, eu não estaria olhando para um vodu do meu próprio coração, mais estropiado a cada dia. Normalmente, o pensamento me passa direto pela cabeça e não volta. Porém, hoje, depois de reaparecer sem aviso, quase irreconhecível na boca da minha gata, resolvi guardá-lo num lugar seguro para protegê-lo das unhas e mandíbulas dos gatos e das ansiedades geradas pelas minhas superstições.

Óbvio que tudo isso não passa de uma manifestação dos meus medos da morte, e da patente discrepância de atenção que dou ao meu conhecimento e às minhas emoções, mas vai quê? Não custa nada usar o cérebro para proteger o coração.

Dez de paus ou a Lista de Afazeres para as (não) férias

Dez de Paus

  • Verificar os azulejos e tijolos no quartinho dos fundos que sobraram de uma obra da qual não fizemos parte
  • Pedir para os porteiros levarem os azulejos, se eles não servirem para terminar aquela obra da cozinha de 3 anos atrás, que o condomínio ainda não terminou
  • Carregar os azulejos (surpresa!, não servem) até a porta de serviço para os porteiros levarem
  • Comprar emplastro Sabiá para a dor nas costas
  • Ir no médico pra ver essa dor nas costas que não passa
  • Marcar massagem Ayurveda para diminuir a dor nas costas
  • Remarcar a massagem para depois das férias (surpresa!, a massagista esqueceu das próprias férias)
  • Comprar mais emplastro Sabiá
  • Marcar data com o porteiro chefe para o condomínio finalmente terminar a obra feita na cozinha
  • Lembrar ao porteiro chefe da data marcada na semana que vem
  • Remarcar a data marcada para depois das férias (surpresa!, ele não lembrou)
  • Ponderar se a dor nas costas é física, mental ou espiritual
  • Tirar um tarot pra tentar definir a origem da dor e fazer uma reza braba só por prevenção
  • Pesquisar o que significa o dez de paus (surpresa!, não foi surpresa alguma)
  • Buscar a menina na casa da amiga em Saquarema
  • Comprar um apoio lombar para aguentar a viagem de ônibus
  • Ativar plano B: emplastro Sabiá
  • Levar a menina e a amiga no shopping e esperar as duas passearem
  • Tentar encontrar um lugar onde dê pra esperar confortavelmente
  • Esperar nas cadeiras duras do coworking elas continuamente remarcarem o horário de ir embora
  • Sim, mais um pouco de emplastro Sabiá
  • Tentar organizar os horários de estudo e sono da menina antes de ela voltar a estudar
  • Passar as tardes forçando ela a fazer os deveres e as noites tentando fazer ela dormir
  • Dormir no sofá da sala para vigiar a hora em que ela vai dormir
  • Ficar com insônia enquanto o resto da casa dorme
  • Renovar o estoque de emplastro Sabiá
  • Marcar o conserto das persianas
  • Pedir aos porteiros para levarem os entulhos que sobraram do conserto das persianas
  • Carregar, eu mesmo, os entulhos do conserto até a porta de serviço
  • Comprar mais emplastro Sabiá
  • Marcar uma outra massagista Ayurveda para dar um fim na dor nas costas
  • Cancelar a massagem marcada (a segunda massagista, surpresa!, teve um imprevisto no dia)
  • Adivinha? Mais emplastro Sabiá
  • Dar uma olhada no e-mail do trabalho para adiantar o que for possível no dia antes de voltar
  • Suspirar ao ler os e-mails e jogar na megasena, torcendo pra não precisar mais ir trabalhar (surpresa!, não acertei uma dezena sequer)
  • Verificar o que faltou de fazer nas férias e colocar na lista das férias que vem
  • Levar a menina na escola e ir trabalhar
  • Não começar mais férias com listas de afazeres (surpresa!, não vai rolar)
  • Ah, pesquisar se dá pra ter overdose de emplastro Sabiá

O Sebo como Esporte de Contato

Pra não se render totalmente às redes sociais e não tornar os espaços físicos simples locais de retirada de livros, as livrarias independentes têm oferecido uma agenda de eventos regulares para levar os clientes às suas lojas. A Berinjela promove mensalmente um sábado de descontos que gera filas no subsolo do Edifício Marquês de Herval; a Alento e a Janela apostam em clubes do livro, lançamentos, cursos, e leituras de obras pelas próprias autoras; e a Baratos continua agitando com seus shows e discotecagens. Já a Jacaré, com um espaço menor, apostou em sábados analógicos, em que as novas aquisições não são divulgadas nas redes sociais e precisam ser conferidas in loco.

Esse sábado, fui resolver uns lances pelo Largo do Machado e decidi dar uma passada lá. Cheguei na Galeria Hollywood Center uns 5 minutos antes da abertura e já tinha gente esperando. Um jovem casal hipster, que conversava relaxadamente, e uma senhora de calça animal print, casaco marrom vintage, e um cachecol exagerado pro quase frio que assola o Rio de Janeiro, agarrada na bolsa com tanta tensão que parecia querer mostrar ostensivamente que não tinha nada a ver com o casalzinho atrás dela na fila.

O livreiro surgiu de uma sala de dentro da loja e começou a acender as luzes do estabelecimento. A senhora, pra marcar território deu dois passos à frente. Quando ele virou a chave para abrir a porta, ela já fez menção de entrar, mas ele saiu e fechou a porta na cara dela para levar o cavalete de divulgação da loja pra frente da galeria. Ansiosa, ela quase se colou na porta de vidro, batendo o pé, contando os segundos que ele levaria para voltar. Nessa hora, um cara de camisa do Bangu, trazendo a tiracolo um menino de uns 8 anos, se juntou a nós.

O menino, sem perceber o que estava rolando, se colocou ao lado da porta pra entrar. O pai, já sentindo o cheiro de raiva que emanava da senhora de calça de leopardo, tentou tirar o menino de perto dela, mas foi lento demais. A coroa já deu uma bundada na criança pra mostrar de quem era o primeiro lugar na fila.

Logo o livreiro voltou e finalmente abriu a loja. A mulher avançou pro balcão central e começou a colocar livros e mais livros embaixo dos braços. Eram tantos livros que ela parecia um polvo tentando salvar incunábulos de um incêndio na Biblioteca Nacional. Eu e o restante do pessoal deixamos ela avançar sôfrega pelas pilhas tentando encontrar não só o que ela queria ler, mas, aparentemente, o que ela também não queria que lêssemos. Me coloquei em frente a uma das pilhas, que ela já tinha esquadrinhado, e fui curtindo os livros com calma, lendo quartas capas, orelhas e prefácios, para saber não só o quê, mas se realmente iria comprar alguma coisa. Óbvio que essa lentidão ia me causar problemas.

Depois de ter passado todas as pilhas em revista, ela resolveu verificá-las novamente só pra ter certeza de não ter deixado nada pra trás. Recomeçou sua jornada pela pilha ao meu lado e segundos depois queria avançar pra minha. Resolvi traçar ali o limite e não arredei pé.

Ela, ansiosa, nem pensou em me pular, com medo que eu levasse no seu lugar alguma preciosidade, e ficou de olhos arregalados batendo pé ao meu lado. Só de sacanagem, reduzi a minha velocidade. Cheguei ao ponto de voltar a alguns livros pelos quais já tinha passado só de birra.

Ela não aguentou de ansiedade e, quase metendo a cabeça embaixo do meu sovaco, começou a puxar livros pra colocar embaixo dos seus. Nessa hora, como um assassino pego em flagrante levantei as mãos e a deixei alimentar sua compulsão consumista pseudoliterária. Quando acabou com a minha pilha, continuou até terminar a sua segunda rodada.

Enfim, ofegante e com olhar triunfante, ela se encaminhou com suas compras pro balcão. Não resisti e fui lá ver que diabos valia tanto esforço, deselegância e violência. Me espantei: os livros mais recentes da Isabel Allende e da Giovanna Madalosso; Pobre Marinheiro do Sammy Harkham;  algo do Amos Oz; uns três ou quatro livros da Agatha Christie; e alguns pockets de romances metidos a espertinhos do início dos 2000, meio na linha de Melancia, Becky Bloom e Bridget Jones; nada que ela não pudesse encontrar com calma em qualquer livraria ou mesmo em outros sebos com preços até menores.

Depois de pagar, ela saiu esbarrando nos outros clientes, sem falar nada com ninguém, e sumiu de vista.

Quando saí da loja, fiquei pensando o que justificava esse tipo de comportamento? Provavelmente ela não vai ler esses livros, pelo menos não todos, nem todos por agora. Então pra que essa angústia? Aí me caiu a ficha: ela era só mais uma entusiasta do comércio enquanto esporte.

Sob a menor indicação de escassez, por mais artificial que ela possa ser, o senso de urgência se instaurou no âmago da sua alma e ela reagiu como se estivesse lutando pela sua sobrevivência. Exatamente como os atletas são movidos pela ilusão gerada pelas competições esportivas, seu único propósito era vencer, vencer e vencer.

Será que eu deveria ter lhe avisado que ninguém mais estava competindo nesse torneio que só rolava na cabeça dela? Por enquanto, melhor, não. Quando o sebo passar a distribuir luvas de boxes para os clientes, talvez seja mais seguro lhe dar esse toque.