Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

Já ouviu a última do povo?

Ah, o povo… do povo, sobre o povo, para o povo, sob o povo. Há povos para todos os gostos e desgostos. O problema do povo, que é sempre um problema, é, ao mesmo tempo, existir e não existir. É impossível olhar para o tudo e nomear tudo o que lhe constitui. Não constitui. É uma amálgama de percepções e experiência que torna qualquer tentativa de diálogo, ou, sendo mais sincero, convencimento impraticável.

Talvez, por isso, o povo tenha tantos especialistas bem intencionados, que não fazem, nem querem fazer parte do povo. Afinal, como é possível o observador ser o objeto? Só de começar a se questionar sobre si mesmo, ele deixaria de ser parte do que estuda, o que nos impõe a impossibilidade de uma auto análise salvadora, que, alegadamente, só foi realizada por Freud, sob o pretexto de que não havia ninguém mais para analisá-lo.

Assim, o povo, essa entidade mezzo imaginária, mezzo real, é sempre colocado sob o microscópio para analisarmos a sua crise permanente e tentar encontrar maneiras de resolver seus problemas, o que o tornariam algo que não é o povo, pelo menos como o conhecemos. Porém, por mais acuradas e inteligentes que essas percepções sejam, elas nunca ajudam o povo a deixar de ser povo, pois se há um problema típico do povo é ser povo. Então, por que iríamos querer curá-lo se, por pior que sejam as suas condições de vida, é importante que haja um povo, para que nós não sejamos parte dele, povo, e, assim, possamos estudá-lo?

Entre Dois Mundos traz esse conflito com muita delicadeza, até que se derruba sobre nós como uma avalanche de culpa e realidade. Juliette Binoche interpreta com uma exatidão relaxada a intelectual bem intencionada que, como uma espiã, faz parte, mas só por um tempo, do povo, para entender o povo e tentar ajudá-lo. A sua maior crise é começar a gostar do povo e do seu avatar, por ela escolhido, interpretado com crua sinceridade por Hélène Lambert. Como não é um filme moralista, sindicalista americano dos anos 30, não há final feliz e o conflito, emanente da falta de diálogo entre o intelectual que acha que entende e quer ajudar o povo e o indivíduo, que a intelectualidade considera representar o povo, e, assim, não teria individualidade, óbvio, não se resolve.

Mas há sequer uma chance de resolução? Eu não sei, mas me lembrei muito de Tio Vania, do Tchekhov, onde o povo da fazenda sustenta o intelectual que tem direito a pensar enquanto eles são condenados a uma vida de trabalho e desespero que só poderá ser redimida com a morte e a existência de um paraíso em que eles mesmos não acreditam mais. Entre Dois Mundos é como um Tio Vania construído a partir do ponto de vista do Professor, em que a redenção vem através da loteria, com a qual o intelectual, surpresa!, não sonha. Não admira que o Anti-intelectualismo seja a força motriz de boa parte das políticas, todas um pouco fascistas e notadamente populistas, opa!, em sua essência. O intelectual desmerece os sonhos do povo ao torná-lo o foco elitista da sua capacidade e intenção analítica.

Talvez estamos olhando para a questão errada e a pergunta que devemos fazer para iniciar esse diálogo é: qual o paraíso que o povo espera alcançar e qual o paraíso que os intelectuais almejam para ele? Enquanto não pudermos sonhar com um caminho não único, mas comum, em que esse aspecto da redenção possa finalmente ser alinhado, não há a menor possibilidade de um diálogo de igual para igual.

O que a IA pode ser e o que eu não quero ser

O problema, ou benefício, da idade é ter passado por várias ondas e perceber o quanto as ondas são ondas, mas o mar permanece o mesmo. O ser humano tende a olhar tudo como espelho, mas ao invés de se refletir nas coisas, tende a reproduzir as qualidades que espera dos objetos nele próprio. É um pouco a questão de olhar pro abismo, ele olhar de volta e você se tornar o abismo.

Quando criamos a alavanca, tudo era passível (ou desejável) de ser movido por alavancas. E, assim, nos tornamos alavancas. Lembro quando o Cibercultura,do Pierre Lévy, foi o arauto da Utopia “internética” mas passou ao largo da Distopia onde nos afundamos hoje. Acho que estamos vivendo um pouco disso com a IA. Há uma pressa em reproduzir o comportamento da ferramenta (sumarizar, responder, coletar, adaptar, imitar) assim como fizemos no início da internet (expondo, conectando, absorvendo e compartilhando). Talvez o que a gente precise é justamente o contrário: ter paciência. Deixar a IA fazer os trabalhos chatos que nos sobrecarregam e repensar qual é o nosso papel no mundo.

Na verdade, a única coisa que a IA deveria fazer, para cumprir a profecia do Keynes, é assumir os bullshit jobs que ninguém deveria fazer desde o início e nos deixar descansar. Mas o engraçado é que todo mundo parece querer entregar o filé mignon pra ela. Ou, pior, queremos competir com a máquina para fazer os trabalhos que ninguém queria fazer e trabalhar 24 horas por dia vivendo a constante síndrome de people pleasing.

Na boa, isso não é pra mim. Não quero o trabalho da IA, não quero imitar, reproduzir, organizar, ou sumarizar as coisas; o que eu quero é divagar bem devagar. Enfim, sou um fiel seguidor do conselho da Tina Fey em Only Murders in The Building:

Me perdoem o ostensivo elogio à preguiça, devem ser as férias falando. 😉

O que acontece entre o primeiro e o último suspiros?

Le dernier souffle - Dimanche 17 - 11h - Festival du Film de Muret

O ser humano é atormentado pela finitude. A expectativa de voltar a um estágio em que ele volte, com bastante ênfase no “volte”, a um suposto estado de não existência é o que move boa parte de nossas ações. A ansiedade de construir algo duradouro antes que esse fim chegue; o impulso instintivo aparentemente amoroso de deixar um legado genético sobre a terra antes que retornemos para baixo dela; a ânsia de pôr fim à existência dos que não nos deixam existir como queremos; e até as discordâncias literárias sobre o que escolhemos acreditar a respeito do que há depois, ou mesmo antes, da vida movem nossos comportamentos mais extremados e a nossa história enquanto (in)civilizações. Num mundo onde nos consideramos tão avançados, é surpreendente que, enquanto trocamos magicamente informações com toda a humanidade e transpomos enorme distâncias pelo ar, ainda não paramos para nos debruçar sobre o sentimento que nos deixa acordados desde o tempo das cavernas: o medo da morte.

Em “O último suspiro”, Costa Gravas, aos 91 anos, cinematograficamente, parece preparar-se para dar o seu. Acompanhando a conversa entre um filósofo e um médico, ele nos apresenta histórias e questionamentos sobre o que é “A boa vida”, o título bem escolhido para o português, e a boa morte.

Porém, ao sair do cinema, emocionado com o desapego de tantos personagens cativantes que aprenderam a transcender esse medo e aceitar essa natural passagem de estado que tanto tememos, foi impossível não pensar: como é possível viver uma boa vida sem torná-la um eterno exercício de cuidados paliativos? Mais importante do que saber o que é uma boa vida, ou uma boa morte, é saber “o que é bem viver?”. A vida, mais do que um objeto de estudo ou um bem ao qual nos agarramos, é uma ação que, por mais que seja exercitada todos os dias, ainda é um completo mistério para nós. Por incrível que pareça, a vida em toda a sua óbvia e inescapável exuberância guarda ainda mais dúvidas e descobertas do que a esquiva e silenciosa morte.

O herói das outras (e nossas) (a)gentes

Reflet dans un diamant mort

Impossível não lembrar de James Bond. Impossível não lembrar que é uma franquia que se transforma com as décadas e cenários geopolíticos. Impossível não lembrar o quanto ele marcou seus criadores e intérpretes. Impossível não lembrar que agora ele está nas mãos da Amazon, quase como um refém. Impossível não lembrar dos seus spin-offs, cópias e musos inspiradores. Impossível não lembrar que tudo não passava de uma grande alucinação de um velho espião aposentado, buscando relembrar seus fantasiosos tempos de juventude. Impossível não lembrar que ele, o autor, e ele, o personagem, se confundiam e se confundem. Impossível não lembrar o impacto que ambos tiveram nos costumes, na moda, na política, na revolução sexual, e até na contracultura. Impossível não lembrar. Mas não é impossível esquecer.

Por isso, Reflet dans un diamant mort, novo filme de Hélène Cattet & Bruno Forzani,  nos lembra de tudo isso, numa meditação psicodélica, onde refletimos sobre a velhice, a cultura, a espionagem, a ganância, o cinema, e até os quadrinhos. E lembramos de tudo isso como num sonho, que é meu e seu. Um sonho coletivo de um personagem que se confunde conosco, com seus criadores e recriadores.

Por isso, não esqueça de ir ao cinema para lembrar. Mas, cuidado. Não olhe por tempo demais tentando entender ou descobrir o que há por dentro ou por trás, ou a força laser do seu olhar irá destruir o que anseia admirar.

Reflet dans un diamant mort - Film (2025) - SensCritique

Fin. 😉

 

 

A menina no espelho

Toda noite, um pouco antes da hora de dormir, ela se colocava na frente do espelho, pendurado atrás da porta do seu quarto, para tentar mais uma vez se decifrar. Olhava pro seu rosto como se olhasse para uma desconhecida, perguntando-se se ela era atraente ou não. Sim, sim, respondia a si mesma, com um sorriso de canto de boca, quase querendo não acreditar no que dizia.

Fingindo ainda não estar convencida, se inspecionava da cabeça aos pés, em busca de uma verdade que sabia nunca poder encontrar. Começava pelos cabelos, pretos e curtos na altura dos ombros, que lhe davam um ar jovem apesar de não tanto quanto gostaria, nem tanto quanto ela poderia aparentar. Seus olhos, escuros, eram firmes e seguros, guardando a sua inexperiência e inocência para poucos que um dia viriam, ela esperava, a merecê-la. Do torso coberto por sua longa camiseta de dormir, que escondia as formas que, sabia, um dia, provocariam paixão e saudade, ela corria seus olhos para suas coxas, tenras e bronzeadas, que respondiam com eletricidade estática ao delicado deslizar dos seus dedos. Os joelhos, feios, sempre eles, pareciam duas velhas rabugentas, rememorando com amargura as coxas que um dia suportaram. E, enfim, os pés, artesanalmente pequenos, eram ao mesmo tempo adequados ao seu tamanho e diminutos para todas as tristezas que carregavam.

Enfim satisfeita com a promessa da sua própria beleza, ela ouvia a rua, com o som de risos e buzinas, lhe avisar do fim da sua inspeção diária e de que havia vida além do seu próprio espelho. Disso ela sabia muito bem e ansiava pelo momento em que estaria pronta para abraçar essa liberdade, mas, no momento, tudo o que lhe restava, ou bastava, era o espelho; por enquanto, até quando?, era só ela e o espelho, ou, quem sabe, só o espelho.

O Hercúleo trabalho de James Gunn

Há um antigo ditado budista que ainda causa muita controvérsia e discussão: “Se encontrares Buda na estrada, mate-o”.

Há muitas interpretações para esse koan: se você encontrar alguém que se diz Buda ou tenta parecer Buda, tenha certeza, ele não é o Buda e, por isso, deve morrer; ou, caso, por um milagre, seja realmente o Buda, você deve matá-lo, pois o que interessa não é a sua existência física, mas a sua existência enquanto espírito ou ideia; ou, numa visão moderna e jocosa, se você encontrar o Buda por aí, provavelmente ele deve ser um zumbi e, portanto, para evitar que a infecção dos mortos vivos se espalhe, sim, é melhor matá-lo.

Ontem, assisti ao James Gunn encontrar o Super-Homem na estrada e matá-lo belamente.

Não é de hoje e nem surpresa discutir o gênero de super-heróis como uma espécie de mitologia moderna. Do trabalho de Joseph Campbell com George Lucas na criação de Star Wars ao livro e documentário de Grant Morrison sobre os super-heróis como os deuses modernos, essas ideias já se tornaram senso comum. Porém, estranhamente, toda vez que se lança uma obra baseada nos super-heróis dos quadrinhos há uma grita. Os fundamentalistas decenautas ou os fanáticos marvetes fazem longas discussões sobre os méritos dessas obras derivativas, tratando desde a qualidade narrativa e técnica, até uma suposta fidedignidade aos conceitos originais dos seus santos padroeiros, quer dizer, seus super-heróis preferidos.

Enquanto assistia James Gunn fazer gato e sapato, com muito amor e carinho, do último filho de Krypton, fiquei pensando por que todo esse bafafá não se dá quando as sucessivas reinterpretações dos personagens ocorrem na sua mídia de origem, nos quadrinhos.

Por acaso, estou lendo A Obra de Arte na era de sua Reprodutibilidade Técnica do Walter Benjamin, onde, provocado especialmente pela fotografia e pelo cinema, ele discute a dessacralização da arte. Ele argumenta que no momento que a obra de arte passa a ser facilmente reprodutível ela se torna ao mesmo tempo algo do plano material, perdendo a sua aura divina, e se coloca, enquanto produto, objeto da ideologia capitalista, disponível e ansiosa pela crítica do público, o que seria inimaginável em tempos anteriores.

Antigamente, o encontro com a arte, assim como o encontro com o divino, era completamente particular e fenomenológico, como uma experiência religiosa, não passível de análise racional, crítica, ou sequer compartilhamento. A arte, enquanto experiência, existia como num religare religioso, para unir o humano ao transcendente que fora trazido à terra por autoras e autores, que só serviam como receptáculos desse poder do além.

Esse foi o tempo dos oradores e contadores de histórias, da arquitetura ligada aos templos, e do teatro como parte dos rituais religiosos. A arte, enquanto manifestação mezzo humana, mezzo divina, era aberta ao público como uma oportunidade de acessar uma verdade, ainda misteriosa, mas tornada, se não compreensível, apreensível pelos sentidos, pela nossa cognição e pelas nossas emoções.

Esses momentos catárticos de encontro com a arte provocavam até sintomas físicos, como os descritos na Síndrome de Stendhal, fazendo o público, ou quem sabe, o povo devoto, sofrer de taquicardia, desmaios, confusão mental e até alucinações só por serem confrontados por toda essa beleza excessiva.

Quando a arte se tornou reprodutível, ela perdeu essa aura e passou a ser algo a ser tratado apenas no plano do racional. Criou-se a avaliação “objetiva” da arte e, oh, heresia!, o questionamento sobre o seu custo-benefício, o qual concentra boa parte da atenção das mídias especializadas. Os autores, artistas, e atores, retirados dessa posição intermediária de arautos dos deuses, se tornaram, eles mesmos, as pequenas divindades às quais se prestavam respeito e admiração e que provocavam em seus fãs, ou fiéis, os sintomas da síndrome de Stendhal, sem a necessidade de haver qualquer contato com ou menção sequer a uma obra de arte.

Porém, mesmo com toda a atividade artística dominada pelo modelo de reprodutibilidade capitalista, há alguns bolsões de liberdade primitiva. Uma delas é o formato das histórias em quadrinhos.

Justamente por ainda não serem ainda tão incensadas como arte, as histórias em quadrinhos ainda têm mais espaço para ousar em seus formatos, (des)continuidades, e soluções narrativas. Seus autores e artistas, também pouco conhecidos, somem frente às suas criações e acaba que a revista em quadrinhos, como um poeta cantando seu poema épico, pode testar diversas iterações conflitantes em busca daquele match perfeito com o público atual, seu contexto específico, e, inclusive, espaço onde se encontrará com a obra. E é nesse encontro, repleto de canaletas entre seus quadros, que a história em quadrinhos permite que os seus leitores se insiram na narrativa gerando experiências únicas e particulares.

O cinema, por outro lado, totalmente inserido na máquina de produção capitalista, tem menos liberdade. E, quanto mais caro e mais ambicioso em seu alcance, menos liberdade tem. Os roteiristas, produtores e diretores precisam, então, dar um salto do momento sagrado e ambíguo da fonte dos quadrinhos, onde tudo é válido, e a história ou revista de um mês não precisa ter nenhum compromisso com o que ocorreu na anterior, para um modelo mais consolidado, compreensível, e que transmite a uma enorme massa a mesma mensagem. Nesse encontro não há quase espaço para o público que precisa ser totalmente absorvido pela experiência proposta na tela.

Enquanto a audiência dos poetas gregos teve acesso a um milhão e um trabalhos de Hércules, para a concisão e entendimento da nossa cultura de massa, todos esses trabalhos não podiam passar do compreensível e reprodutível número de doze.

Ontem, James Gunn, com muita coragem e sensibilidade, quebrou esse paradigma e nos deu espaço para sonhar.

Abdicando da necessidade de se tornar compreensível para um público de massa, ele construiu a sua revista em quadrinhos no cinema. Em vez de ameaçar todo o universo, aumentando cada vez mais as apostas numa mesa imaginária de desastres cósmicos, James Gunn pinçou, ao seu bel prazer, de toda a mitologia disponível, o que de mais humano lhe falava ao coração e apresentou o quadrinho que queria ler com o personagem que o Super-Homem é para ele. E, assim, com essa liberdade e desprendimento dos objetivos financeiros e de continuidade, sim, o filme não precisa fazer parte de franquia nenhuma para ser incrível, ele nos fez lembrar do que o Super-Homem significa para cada um de nós, e provocou, pelo menos em mim, um ataque de Síndrome de Stendhal, que há muito não sentia, me fazendo palpitar, perder o ar, e num determinado momento de pura ligação com humano e o divino, representado pela dualidade desse Moisés moderno, chorar.

James Gunn conseguiu o que muitos não conseguiram pois fez a parte mais difícil do trabalho: ele se deixou ser, e libertou o Super-Homem das estradas em que os estúdios insistem em aprisioná-lo. Pois o Super-Homem não é uma propriedade intelectual que vive em papéis, celuloides, ou servidores, mas uma ideia, uma sensação, e uma verdade que pertence aos nossos corações.

Ontem, James Gunn abriu o Super-Homem do seu coração para nós e nos permitiu libertar o Super-Homem que existe nos nossos. Obrigado, Gunn, por ter matado a divindade que vinha pela estrada e fazê-la renascer mais uma vez humana e divina como sempre acontece ao abrirmos uma revista em quadrinhos.