Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

[oei#13] Super Cortez contra o baixo astral do monopólio amazônico

Semana passada, a discussão que mobilizou os book tubers foi a aprovação da lei Cortez na Comissão de Educação do Senado. Por incrível que pareça, apesar de todos eles começarem seus discursos alertando o público para não acreditarem nos falsos “paladinos” que estão se propondo a salvar as livrarias pequenas contra o monopólio da Amazon, só ouvi comentários contrários à lei. Onde estão os tais defensores da lei de quem eles tanto falam?

Aparentemente não no You Tube, já que os próprios influenciadores do livro não teriam como se colocar contra quem é o maior financiador dos seus próprios negócios. Apesar desse óbvio conflito de interesses, não dá pra negar que eles tem razão em parte dos seus argumentos. O projeto de lei não é uma solução boa para o problema que ele se propõe a resolver, pois o paciente (a cadeia de valor do livro) pode estar doente demais para receber o tratamento, não ter uma estrutura sólida que consiga ser salva, e o suposto remédio vai gerar impactos que virão como um boleto cruel para o próprio público leitor pagar. Em suma, a lei tem tanto efeito colateral que pode até matar o paciente que diz querer curar.

Mas isso não quer dizer que o problema não exista. Sim, a Amazon tem o monopólio da venda de livros, aqui e em outros países, alcançado por práticas de dumping e pela excelente cadeia de distribuição com a qual consegue atender lugares onde não há (e não haverá) livrarias por muitos anos. Por isso, sim, é importante fazer algo a respeito, mas defender a lei como ela está é atender a uma bolha privilegiada que tem acesso a livrarias e dinheiro para comprar nelas.

Eu sou um desses privilegiados. Só no meu bairro temos 4 sebos e uma livraria. No quarteirões em volta do meu trabalho tenho acesso à quase 10 livrarias, tanto de novos, como de usados. Para mim não seria esforço aderir a lei, sendo que já faço conscientemente a escolha de comprar nesses espaços, em detrimento da Amazon, que só uso quando não encontro os livros nelas.

Porém, como dizem, a lei deveria ser para todos e, como a tendência dessa é prejudicar a maioria, em especial o público de baixa renda que gosta de ler, vive longe dos grandes centros, e não tem acesso a livrarias, ela não é uma boa lei. Ou seja, a lei Cortez não resolve o problema e ainda pode afastar leitores, gerar queda de renda para editoras, prejudicar seu fluxo de caixa, e promover a pirataria no caso dos livros digitais.

O que fazer? Não sei. Ações globais e “radicais” num país desigual e de proporções continentais nunca dão resultados bons ou duradouros apesar de serem bons alertas para problemas reais. Sei que pode parecer ingenuidade, mas ainda acho que as ações pequenas e localizadas, mesmo que de alcance menor e mais lentas, podem resolver melhor a questão a longo prazo.

Na minha opinião, o erro da lei é tentar competir com o monopólio no que ele é melhor: preço e distribuição. O que deveríamos, lei ou não, é nos esmerar no que as livrarias tem de melhor e de essencial: a construção da comunidade, algo que a Amazon, apesar de todo dinheiro gasto com book tubers, book tokers e avaliações, nunca conseguirá fazer.

As livrarias à minha volta fazem isso. Elas se aproximam dos seus leitores, com shows de samba e de rock, cursos de reparo de livros e filosofia, eventos de contação de histórias e debates com escritores locais. Afinal, o negócio da Amazon é vender (e entregar) o livro como commodity, enquanto a função da livraria é, ou, pelo menos, deveria ser, apoiar e fomentar a comunidade de leitores.

E o que você pode fazer a respeito? Quando chegar o dia 4 de novembro e seu dedo nervoso estiver ansioso pra consumir o que quer que seja que a Amazon esteja vendendo com descontos predatórios na Black Friday, vá às livrarias da sua cidade, às suas bibliotecas, e, se não houver nada disso, se reúna com seus amigos leitores, e celebrem o que nos une: o amor pela leitura. Afinal o que nos torna leitores não é comprar, é ler. Deixe o consumo desenfreado motivado por aparentes preços baixos para os acumuladores, nós merecemos mais.

O eterno ciclo

Renascimento

O império, enfim, renasceu. Porém isso não foi surpresa. Seu destino auspicioso já estava escrito na sua origem. Seus fundadores, egressos do império anterior, com o qual tinham aprendido tudo de bom e de mal que o poder pode proporcionar, estavam, desde seus primeiros passos, destinados à gloria. Evitando os erros do passado, e almejando repetir os acertos dos seus antecessores, ele construíram uma versão melhorada e, alguns dizem, definitiva de como o poder deve se estabelecer de maneira justa e igualitária entre todos os que são verdadeiramente iguais. Sob a aclamação do povo, os fundadores, já idosos, passaram, assim, a tocha às novas gerações que iriam perpetuar a sua grandeza. Essa era a exaltação não só desse, mas de todos os outros impérios que antes dele vieram e dos quais eram descendentes, diretos e indiretos. Nas praças públicas, nas igrejas, nas montanhas e planícies, a voz das pessoas ecoava o momento histórico. Diziam, cantavam, oravam, com fé e esperança, que o Poder, na forma como fora originalmente concebido pelos deuses para ser exercido pelos seres humanos, enfim, renascera.

Vita imperium aeternum!

Morte

O império, enfim, morreu. Porém isso não foi surpresa. Seu destino trágico já estava escrito na sua origem. Seus fundadores, egressos do império anterior, com o qual tinham aprendido tudo de bom e de mal que o poder pode proporcionar, estavam, desde seus primeiros passos, destinados ao fracasso. Se esmerando em reciclar os erros do passado, e evitando repetir os acidentais acertos dos seus antecessores, ele construíram uma versão piorada e, alguns dizem, verdadeira de como o poder é: sempre injusto e desigual, privilegiando alguns canalhas, dentre todos os que deveriam ser verdadeiramente tratados como irmãos. Sob as vaias do povo, os fundadores, já mortos, foram amaldiçoados, e as últimas gerações que perpetuaram sua maldade, punidas. Esse era o expurgo final, não só desse, mas de todos os outros impérios que antes dele vieram e dos quais eram descendentes, diretos e indiretos. Nas praças públicas, nas igrejas, nas montanhas e planícies, a voz das pessoas ecoava o momento histórico. Diziam, cantavam, oravam, com fé e esperança, que o Poder, na forma como fora pervertido pelos humanos para ser exercido em benefício de poucos e no malefício de tantos, enfim, estava extinto.

Mors imperium aeternum!

[quod vita est]
[repetere]

Entre a Lei e a Norma

Em toda festa à fantasia, seja nas de halloween, carnaval, ou mesmo nas sem um propósito específico, ela sempre ia vestida de Xerife. Se atochava numa roupa de cowboy dois números menor que o dela; colocava um chapéu de couro marrom; apoiava nos quadris um coldre com revólveres de plástico; e metia no peito, bem na altura do coração, uma estrela brilhante. Estava pronta pra ser a Xerife da festa.

Quando lhe perguntavam por que sempre repetia a mesma fantasia, ela retrucava:

— Repetir não, respeitar o meu nome. Com essa alcunha que mamãe me deu, que outra fantasia eu poderia vestir?

Ela tinha uma certa razão. Pra alguém chamada Norma, ir pras festas vestida de Cowboy fazia todo o sentido. Especialmente quando ela sacava seus revólveres e repetia o slogan que aprendeu quando estagiou na Associação Brasileira de Normas Técnicas:

— Onde não existe a Lei, existe a Norma.

Era perfeito, não?

Calhou que essa história da fantasia, com slogan e tudo, começou a circular, e algumas outras Normas começaram a ser questionadas por que não se vestiam de Xerife. Não adiantava darem mil explicações, sempre eram obrigadas ouvir a mesma ladainha:

— Pô, mas você ia ficar ótima de Xerife.
— Cara, o slogan diz tudo.
— Na boa, não faz todo o sentido?

Claro que fazia, mas todo mundo tem, ou pelo menos deveria ter, o direito de ir às festas com a fantasia que mais lhe agradasse. No início, as Normas resistiram, mas, pouco a pouco, uma a uma, elas foram aderindo.

— Uau! Eu não te disse?
— Ficou incrível! É a tua cara!
— Vai, agora fala o Slogan! Vai ser per-fei-to.

Em breve, a fantasia de Xerife foi se tornando uma indicação para todas as Normas. Porém, quando a disseminação da prática atingiu um determinado nível, as exceções começaram a ser alvo da indignação dos outros convidados:

— Ué? Cadê a fantasia de Xerife?
— Eu pensei que…
— Olha, era melhor que você….

Em pouco tempo, o que era norma social passou a se tornar obrigação, quase uma lei.

A Norma original, quando viu a sua ideia, antes, também, original, ser tão imitada, começou a se incomodar. Resistiu na sua fantasia e no slogan, esperando que as demais Normas cansassem da onda, mas parece que a moda veio mesmo pra ficar. Assim, vencida, como não queria parecer mais uma, apesar de ter sido a primeira, ela simplesmente abandonou a fantasia e passou a ir às festas vestida de várias coisas diferentes. Quando lhe perguntavam por que abandonara o figurino, tinha outro slogan na ponta da língua:

— O objetivo principal da Norma, queridos, é quebrar a Norma.

E, assim, como não podia deixar de ser, mais uma vez, para o prejuízo de todas as outras Normas, a Norma criou uma nova norma.

[oei#12] A obviedade de se colocar uma letra após a outra

“Escrevemos uma palavra após a outra até terminarmos”Neil Gaiman

O pré-requisito, para se seguir a dica aparentemente óbvia de Neil Gaiman, é colocar uma letra depois da outra para se construir as palavras que virarão arte. E se estamos falando de texto, ele precisa estar representado graficamente. Essa representação visual das palavras e das letras que as compõem depende de algo que é ao mesmo essencial e (quase) invisível no texto, seja ele impresso ou digital, e para a qual deveríamos dar mais atenção: a sua tipografia.

Boa ou ruim, fácil ou difícil, simples ou complexa, a tipografia utilizada num texto e as combinações entre elas, quando consideramos os diversos elementos de um livro, são sempre uma escolha. Uma preocupação aparentemente óbvia é buscar a legibilidade, facilitando a identificação dos seus elementos, e a leiturabilidade, buscando o conforto na leitura. Porém a tipografia, mais do que simplesmente facilitar o contato com o significante visual que nos permitirá absorver os significados do texto, pode conceder mais significado ou profundidade a ele. A fonte, como intermediária na relação da leitura, tem o poder de ser o anfitrião, guia e orador do conhecimento e das experiências que o texto deve lhe trazer. Por exemplo…

Que fonte será uma melhor guia na nossa viagem ao País das Maravilhas?

As diferenças podem parecer pequenas mas, óbvio, fazem diferença

Que fonte será uma melhor professora para nos ensinar sobre as regras do baseball?

Clareza e objetividade para um esporte quase matemático

Que fonte (ou conjunto delas) nos permitirá entrar na mente de uma adolescente e experienciar seus conflitos e dúvidas?

A confusão pós adolescente de Cecília Madonna Young expressa tipograficamente

Que fonte nos levará ao futuro sem deixar de nos remeter ao som (e à música) que a violência podem suscitar?

papa oom mow mow, sacou?

As escolhas das fontes sempre parecem óbvias, depois de feitas, mas saber por que as escolhemos é um elemento importantíssimo para permitir que decidamos qual será o guia mais adequado para os nossos leitores. A tipografia, mais do que funcionalidade, tem, muitas vezes ocultas, mas óbvias ideologias. Não é óbvio?