Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

Charlie Hebdo e a Censura Mortal

Quando fiquei sabendo do atentado à Charlie Hebdo, estranhamente me lembrei de um episódio que me aconteceu há uns dois anos.

O andar onde eu trabalhava em Belo Horizonte ia ser reformado. Fomos forçados a nos abrigar temporariamente num outro andar da empresa e a encaixotar tudo que não fosse de uso diário. Um trabalho chato e cansativo.

No processo de encaixotamento já vislumbrávamos que havia muita coisa a ser jogada fora. Em nome da presteza, o momento 5 S foi deixado para depois. Findas duas semanas de dividir mesas e estações de trabalho com pessoas que não queriam e nem tinham a menor obrigação de realmente nos receber, nosso andar ficou pronto e a mudança de volta foi feita.

Descemos nós, nossos computadores, alguns itens de uso diário e as caixas. Muitas caixas. Além de abrí-las e guardar seus conteúdos nos seus novos esconderijos, precisávamos separar o que seria jogado fora e o que seria doado. Nesse processo uma das maiores atribulações era o que fazer com materiais sigilosos que estavam encadernados com espiral. Eu, infelizmente, rapidamente peguei a manha e separava espirais e papéis com facilidade para que o conteúdo realmente delicado pudesse ser triturado. As espirais, sem uso, eram jogadas numa caixa de papelão para depois se avaliar a possibilidade de reciclagem. Não preciso dizer que o trabalho ficou todo pra mim.

Depois de uma tarde inteira de rasgação de papel e retirada de espirais, sentei na minha estação de trabalho e tive uma epifania. Aquela cena, espirais emboladas numa caixa de papelão, daria uma bela escultura. Continue lendo

Qual é o porquê de tanto porquê?

Não me ajudou muito na vida ter uma mãe existencialista que estudava filosofia, um pai galhofeiro que não tinha respeito por nenhuma instituição estabelecida e estudar num colégio católico de disciplina rígida. Para dizer a verdade, não só não ajudou como complicou muito.

Enquanto todos os alunos, desde a mais tenra idade, baixavam a cabeça para as ordens e os dogmas, eu os questionava. Até os 10 anos isso era considerado bonitinho. O pior que faziam era passar a mão na minha cabeça e dizer: “Que menino revoltado, hein?”. Desmereciam minhas reclamações e observações e continuavam com a ladainha que, hoje desconfio, nem eles mesmos acreditavam.

Quando fiz 10 anos a situação complicou um pouco. Eu já não era só um menino revoltado. Estava me tornando um pré adolescente questionador e perigoso. Para complicar um pouco a situação, minha educação na época estava sob o comando do melhor exemplo do proselitismo e nepotismo: minha professora de matemática era a filha fanática religiosa e recém formada do diretor do colégio. Continue lendo

Medo e Alívio em Las Vegas, quer dizer, em 2014

“The way does not lead between, but embraces. It is both cheerful play and cold horror.” — Carl Jung

Nas redes sociais e nas ruas, o consenso parece ser que 2014 foi um péssimo ano. Pessoalmente, não gosto de atribuir valor a construções ficcionais. Um ano não tem como ser bom ou ruim. O ano que vem, por exemplo, também não vai ser melhor nem pior. O que pode acontecer é calhar que a maioria dos fatos num dado período de tempo seja mais ou menos agradável. E só. Já o ano em si… ele não tem significado. A não ser aquele que lhe atribuímos.

Por mais que não goste de fazer isso, sou humano. Sim, podem acreditar. Pra piorar leio quadrinhos, ficção científica e fantasia regularmente; jogo RPG; e mantenho relações emocionais com seres ficcionais. Sim, sou um escravo emocional da ficção. Incluindo aquela que chamam de Vida. Exatamente como você. E que atire a primeira pedra quem nunca se emocionou lendo ou vendo um filme que ama. Portanto, nesse momento de retrospectiva forçada, começo a valorar o ano que passou numa tentativa fútil de prever o que ocorrerá em 2015. A minha conclusão? Para mim 2014 não foi bom nem ruim. 2014 foi um ano marcado por grandes momentos de medo e alívio. Continue lendo

A Odisséia Carioca

Assim como os londrinos anseiam pelos raros dias de sol nos quais poderão se desnudar nos parques e se deixar banhar pelos seus raios, a maioria dos cariocas anseia pelo frio. O meu primeiro dia não quente após a minha volta à cidade foi ontem.

A chuva varou a noite e deixou o clima ameno pela manhã. Uma heresia para o panteão dos deuses cariocas só preocupados com sol, mar, praia, chopp e futvolei. Uma benção para um herético como eu. Graças ao alívio climático, eu podia botar em ação o meu plano de ir ao trabalho de bicicleta. Continue lendo

There and Back Again

Giro a chave e abro a porta. Ela range e emperra. Minha mão resvala num parafuso solto na fechadura e me corta. Sem sangue. Entro na casa. Ela, cheia de caixas de papelão fechadas. Retrato da bagagem física e emocional que carrego pela vida. Eu, cheio de malas. Retrato do apego às poucas realizações e vícios que consegui manter.

Jogamos as malas no parco espaço vazio entre as caixas e começamos a inspeção. Nenhuma casa, por mais que a visitemos antes da mudança, parece a mesma depois que você se mudou. Uma surpresa aqui, outra alí, mas, aparentemente, iremos conseguir viver lá. Quer dizer, aqui. O antigo aqui agora é lá. Estamos de Volta de Novo. Antes de qualquer coisa, uma olhada pela janela para ver se o mar ainda está no seu lugar. Ufa, está!

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Ah, mar! Ô, mar!

Deixamos as malas e saímos pelas ruas para ver o quanto da nossa vida mudou. Ou melhor, o quanto do bairro mudou depois que a nossa vida mudou ao deixarmos a cidade quatro anos atrás. Visitamos o velho botequim. Os mesmos clientes, os mesmos funcionários. Todos estamos mais velhos, mais gordos, mas, estranhamente, mais tranquilos. Algumas lojas nunca mudam e somos saudados por pessoas que ainda lembram de nós. Mesmo sem saber exatamente de onde ou de quando. Algumas, lojas e pessoas, sumiram como se nunca houvessem existido. Questionamos a nossa própria existência nesses últimos quatro anos. Será que nesse período nunca existimos para Copacabana?

Cada esquina, cada rua, cada banca de jornal é um marco de lembranças, cheias de significados vazios, criadas por corações saudosos. Somos memórias ambulantes, esperando um momento fatal quando seremos definitivamente esquecidos. Para nós, fazemos um passeio de resgate pelo passado e recebemos mais um aviso da nossa mortalidade. Para nossa filha, tudo é novidade e vida. Anos de distância separam nossas motivações e destinos, mas Copacabana une nossas experiências.

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Até o Bar Vedete é novidade.

Em busca de consolo, nos voltamos à praia e ao mar, os únicos espaços imutáveis no bairro. Nossa filha, boa mineira como é, enfrenta a água congelante para ter o tão esperado encontro com o azul infinito desse marzão. Como diria Tales de Mileto: tudo água. Como diria o 14 bis: Foi assim / Como ver o mar (…) Não tive a intenção / De me apaixonar.

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Mineiros e o mar, como opostos, se atraem.

Refrescados pela balsâmica água salgada de Copacabana, tomamos o calçadão para voltar ao nosso novo lar. De repente, um encontro fortuito com um conterrâneo da nossa pequena. Quieto, tranquilo, como muitos mineiros, esse ilustre exilado nunca põe os pés na areia apesar do enorme amor que tem pelo mar. Nossa filha não entende essa opção. Talvez algo da nossa carioquice lhe tenha sido passado pelo DNA.

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“Ô, seu Carlos, vamos deixar de mineirice e curtir o mar?”

Quase chegando ao nosso prédio, a fome nos impede de continuar. Paramos numa casa de sucos. Coisa que, por mais que se copie por aí, não existe em lugar algum como as daqui. No balcão aquecido, uma pizza carioca. Meio mozzarella, meio calabresa. Os únicos sabores que fazem sentido. Massa grossa e fofa. Queijo de má qualidade e borrachudo. Orégano? Sim, por favor. Em excesso. Um clássico. Pedimos uma fatia e um copo de mate. A cobrimos de ketchup e comemos dividindo os pedaços entre nós três. O sabor de infância não deixa dúvidas: finalmente voltamos pra casa.

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Yes, we Ket-Chup!

Saciados, voltamos pro apartamento. Na janela, aproveitando a vista enviesada do mar, penso em Bilbo. O que será que ele sentiu ao voltar ao condado depois de todas as suas aventuras. É claro que ele perdeu sua respeitabilidade, mas será que a riqueza e a sabedoria compensaram?

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Uma pitada depois de ajudar a matar o dragão

Ao contrário de Bilbo não consegui deter Smaug. Ele ainda governa a montanha solitária na minha terra média. Mas fico feliz de ter feito o que podia para livrar os anões e a cidade do lago de seu terrível domínio. Ainda acho que falta pouco para que Bard finalmente apareça e crave a flecha fatal na besta. Talvez, eu tenha apenas abandonado a aventura, um pouco mais rico e um pouco mais sábio, antes do seu fim. Talvez ainda haja aventura a rolar.

Mesmo se houver, não é mais minha aventura. Agora é hora de, como fez Bilbo, descansar. Escrever minhas memórias. Compartilhar a sabedoria e a riqueza que essa aventura confusa e inesperada me trouxe. Mas nem tudo são flores. Toda aventura lança sobre o aventureiro uma pequena maldição. Aturdido, olho para a minha filha e penso se ela terá como Frodo a força para carregar o Um Anel que eu trouxe à reboque nessa busca.

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“Deixa de preocupação, pai. Eu consigo me virar.”

Com essa charmozice mineiroca, tenho certeza que ela não terá grandes problemas.

Dorothy tem razão: “Não há lugar como o lar”.

Meu problema com essa eleição

Acompanhei essa eleição com muita atenção. Mesmo sabendo que não iria votar, quis ler e buscar por trás da cortina de fumaça da propaganda eleitoral por que diabos estamos lutando. É, lutando. Nas redes sociais, nas mesas de bar, nas festas de criança, nos restaurantes a quilo no intervalo de almoço do trabalho; estamos lutando. Ferozmente. Os ânimos, ninguém pode negar, estão elevados e há agressividade em cada vírgula não pronunciada. Essa eleição, mais do que qualquer outra que vivenciei, parece expor uma fratura na nossa sociedade. E ela vai muito além do bipartidarismo fake PT-PSDB. Se ouvirmos apenas as vozes mais radicais de ambos os lados, como uma grande generalização, óbvio, podemos considerar esse conflito político(?) como uma grande luta de ratos famintos.

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Por que os ratos lutam?

De um lado os ratos que apoiam o PT pois consideram que os ratos da classe média/alta(?), para manter seus benefícios e sua upper hand, não querem apoiar os ratos mais pobres a subir de vida, aumentar sua capacidade de consumo e melhorar seu nível educacional. Para eles é uma luta para equalizar os competidores.

Do outro, os ratos que apoiam o PSDB. Esses consideram que os ratos mais pobres estão tomando a parte que lhes é devida como verdadeiros(?) produtores de riquezas. Os programas assistenciais devem ser reduzidos, modificados ou abolidos para focar em melhorar as condições de produção e só assim, por mérito próprio, os ratos mais pobres terão condições reais e justas de competir. Para eles é uma luta para equalizar o ambiente de competição.

Se os argumentos de ambos os lados forem expressos de forma sensata e sem radicalismos, não é difícil concordar com as duas vias. As razões de todos são válidas. Afinal, como bem dizia um grande amigo meu, todo mundo tem razão: sua própria razão.

Dado que ambos os caminhos são adequados, a discussão dessa eleição seria sobre qual deles é mais adequado para o ATUAL contexto. O que é melhor? Capitalizar os blue collar ou dar mais condições de investimento para os white collar. Sim, se formos pensar de uma maneira bem industrial, o conflito que se estabelece na manufatura Brasil é entre os operários e os executivos. Quem deve ser priorizado e quem deve ser preterido nesse momento para o bem coletivo?

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Um conflito antigo e eterno ao mesmo tempo

Infelizmente não é esse o tom da conversa. Aparentemente, cada grupo de ratos parece supor que o outro quer a sua extinção total. Ao invés de discutirmos acordos, propostas e estratégias para a convivência desses grupos nesse ambiente desigual, estamos defendendo com unhas, dentes, tweets e posts no facebook a nossa própria sobrevivência.

Apesar de compreender essa rixa, estranho muito que uma terceira parte pareça estar fora do conflito. É, onde estão os donos da fábrica nessa discussão?

Enquanto os trabalhadores (operários e executivos) lutam, se tornando vigias e torturadores uns dos outros, os donos das fábricas estão só esperando qual lado(?) vai ganhar para influenciá-lo e dobrar suas propostas ao seu favor. No final dessa luta, os dois lados perdem, mesmo que haja pequenos avanços para fazer valer a ilusão de que foi feita uma escolha.

Por isso, antes de discutir com seu amigo, colega, inimigo ou mesmo com um completo estranho, lembre, vocês dois estão do mesmo lado e toda essa eleição não passou de uma bela distração e de uma terrível maneira de cansar os ratos, nos colocando para lutar ao invés de atacarmos àqueles que realmente nos oprimem. Dessa maneira, quando e se, um dia, todos nós, os ratos, resolvermos lutar contra os verdadeiros opressores, estaremos cansados o suficiente para nos tornar presa fácil dos gatos que eles tão bem sabem usar.

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Nessa versão de Tom & Jerry, Tom leva vantagem

Enfim, meu grande problema com essa eleição é que ela não tem nada de mudança de política. Nem pra mudar mais do mesmo, nem pra mudar o que há. É apenas uma pequena discussão de como manter viva essa arena de competição fictícia. Ambos os lados apoiam a mesma cartilha: dinheiro, consumo, culto à personalidade, ignorância, violência, repressão, poder e competição. Como na Fazenda dos Animais, estamos apenas escolhendo quais porcos irão manter escrito na parede do nosso estábulo o mandamento que até hoje domina as nossas relações: “4 pernas bom, 2 pernas melhor”.

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Todos somos iguais, mas..