Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

Por que não voto em Aécio…

Não votarei em Aécio, nem em Dilma. Estou fora do meu domicílio eleitoral. Mas, apesar de admirar o plano real como a maior e melhor aplicação do condicionamento clássico de Pavlov já perpetrado numa população, confesso que tenho um certo problema com o PSDB. Talvez não com o PSDB, mas especialmente com quem o apoia. Atualmente.

O PSDB clássico, pra quem não lembra, surgiu quando o PMDB foi invadido pelos exilados do PDS. O povo do PDS sentiu que não dava mais pra ditadura e capitaneados por Sarney, Maciel e afins foram pro PMDB que precisava de uma força dos coronéis pra sustentar o governo civil. O PMDB virou o que virou e a ala do PMDB tradicional formou o PSDB. A princípio era pra ser um partido pragmático, voltado pra política como ciência. Claro que isso escondia a ideologia tecnocrata que foi necessária para arrumar a economia nos anos 90 e, ninguém pode negar, fez o seu trabalho.

Não sei quando, mas provavelmente quando o Millôr abandonou as páginas da Veja ou quando o Paulo Francis morreu, um grupo muito doido começou a se alinhar com o PSDB. Alinhar é maneira de dizer; começou a se apropriar dos sucessos e posturas da política ecônomica para introduzir a reboque uma agenda conservadora pacas. Logo no PSDB, partido do FHC, o Eduardo Jorge Sorbonne Roots. Aí começou a aparecer um cara do Opus Dei aqui, um Reinaldo Azevedo dalí e, algumas edições da Veja depois, o PSDB ganhou a imagem que tem hoje.

Os originais do PSDB não entraram nessa discussão. Se você for prestar bem atenção no discurso do partido, ele é um discurso puramente econômico. O resto, pra esse grupão de economistas da PUC, é o resto. Além disso, nesse mundo de cada pessoa, um voto; qualquer apoio é bem vindo. Contudo essa omissão ideológica me parece deveras perigosa. Especialmente pois esse grupo de leitores da Veja é antiintelectualista; se acha parte de uma nobreza corporativa mas, cá entre nós, não aguentaria 2 rounds da meritocracia de mercado capitalista que dizem defender; e tem uma agenda retrógrada a beça no que se refere a direitos sociais.

Por mais que me alinhe com uma política econômica mais liberal, não posso votar num pessoal que deixa qualquer um entrar na sua festa. Sabe como é? Fui criado num colégio beneditino e já dizia o sábio, e malandro, São Bento: dize-me com quem andas que te direi quem és. Eu? Eu não sou um deles nem um desses. Graças a Deus.

Por que não voto em Dilma…

Não votarei em Dilma, nem em Aécio. Estou fora do meu domicílio eleitoral. Mas me divirto quando leio as justificativas de voto das pseudo-celebridades da cultura brasileira. Personalidades as chamam, como se nós, pobres mortais, não as tivéssemos. A ingenuidade das declarações de ambos os lados realmente é tocante e mostra como estamos carentes de intelectuais de fato.

A última que li foi especialmente interessante pois convivi por quase um ano com um dos depoentes. Lembro de uma vez em que estávamos andando na Nossa Senhora de Copabana quando ele me parou muito preocupado:

– Tem um real?
– Tenho- respondi.

Tirei o real (em nota, já faz tempo isso) do bolso, lhe entreguei e num piscar de olhos o vi repassá-lo a um mendigo que passava e, pasmem, não tinha pedido nada. O mendigo ficou feliz. O depoente sorria como se tivesse salvo uma vida. Só eu não estava satisfeito. Na hora, pensei em questionar por que ele estava fazendo caridade com o meu dinheiro, mas, pelo bem das relações que tinha com ele e demais envolvidos, deixei pra lá. Acreditei que ele iria me pagar no futuro. Ledo engano. Nunca me pagou. Assim como a mãe dele fez uma incrível dívida com meu telefone e nem fez menção de pagar. A caridade (com o dinheiro alheio e em benefício próprio) era, depois fiquei sabendo, marca de família.

Descobri na reportagem que ele votará em Dilma. Taí, além da distância geográfica, tenho mais uma razão pra não votar nela. Pode crer, eles devem ter o mesmo estilo de fazer caridade. Disso já estou cheio. E sem dinheiro pra pagar.

Vamos parar com essa ironia toda?

Uma das coisas que realmente me deixa fulo da vida é ver algumas palavras sendo usadas no sentido “errado”. Não que eu me incomode com a falta de capacidade de comunicação das pessoas, ache maldade da parte delas ou considere a ignorância algo fatal. Minto, eu me incomodo e muito. Mas o que mais me incomoda nessa situação é o momento novilíngua onde as palavras vão perdendo o significado e qualquer coisa significa tudo ou nada. Ao mesmo tempo. Ou seja, eu falo qualquer coisa e a sua obrigação é me entender porque… bom, você sabe como é.

Ironia é uma das palavras que mais sofre com isso. Que eu me lembre, ironia sempre foi uma declaração falsa que procura expor uma verdade às vezes com propósitos cômicos. É, pelo menos a wikipedia concorda comigo.

Contudo, o que a gente mais vê é ironia sendo usada com o sentido de coincidência cômica e cósmica que presume humor por parte da “vida” ou do destino. Um exemplo: o tweet do Jason Alexander.

Isso, meu caro George, não é ironia, tá mais pra Sincronicidade.

Não sei exatamente quando a Ironia virou essa mixórdia de sentidos, mas culpo muito a Alanis Morissete e sua música Ironic onde todas as situações que ela conta e canta não tem nada de irônico. São apenas situações onde algo de bom acontece e algo ruim está atrelado a isso gerando uma descoberta significativa.

Nesse caso, nem sincronicidade serve. Tá mais pra Zemblanity, palavra que infelizmente ainda não tem tradução.

Pensando bem, talvez a intenção dela não tenha sido má. Talvez ela queria dizer que a vida estava agindo com ironia, mas, cá entre nós, isso não passa de outra tentativa de tentarmos entender o outro desconsiderando as palavras que ele usa pra se comunicar. Ou seja, porque os outros são preguiçosos como emissores, sempre seremos indulgentes como receptores?

Não, me desculpe, eu me recuso. Acho importante preservar a nossa língua, seja ela qual for, e, quando necessário, devemos, sim, criar palavras que venham a expressar novos conceitos que ainda não são atendidos pelos atuais termos e…

Ah, a quem estou tentando enganar? É inútil. As pessoas vão continuar falando qualquer coisa e nós vamos fingir entender para manter essa ilusão de comunicação. Mas por que devemos nos preocupar? O mais importante é preservar a sensação de comunidade e união entre as pessoas sejam quais forem as palavras que estivermos usando. Enfim, não importa o que eu diga, nem o que você compreenda desde que a gente se entenda, né?

O bom é que vemos como isso tem dado certo na história humana. Mesmo sem compreender o que estamos falando, vivemos nesse idílico mundo pacífico e colaborativo sem crime, guerra ou opressão.

Sim, a propósito, isso foi uma ironia. Sacou?

40 anos de luto

“- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
– Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.”
Pneumotórax – Manuel Bandeira

Sete e cinquenta e nooooooove….Oito! E assim, acalentando a minha filha, cheguei aos 40 anos. Algo que sempre me pareceu, senão impossível, bastante improvável. Pra dizer a verdade, esse sentimento não é inédito. Sempre pensei que nunca atingiria determinadas idades. Aos quinze, sentado no Bob’s do Edifício Avenida Central, enquanto lia Sonhos de uma Noite de Verão, depois de comprar uma penca de vinis, me congratulei: “OK. Você chegou até aqui, mas, sério, aos 18 não deve chegar”. Aos 18, bebendo sozinho num “piano-bar” de Copacabana enquanto assistia à reprise de uma das últimas lutas do Mike Tyson, não conseguia me convencer: “Dezoito. De-zoi-to! Meu Deus. A mim não restam nem 3 anos de vida…”. Aos 21, deitado no sofá de casa, assistindo a Um Dia em Nova York sem conseguir dormir, tentava me acalentar: “OK. OK. Até aqui foi assim. Não pode piorar. Ou pode?”. Estranhamente não tive crise aos 30. E, agora, aos 40, recém completados há 46 minutos, a sensação mista de agonia e aceitação é intrigante.

Como disse Victor Hugo, os 40 são a velhice da juventude, e os 50 são a juventude da velhice. Ou seja, sou um velho para os jovens e uma criança para os velhos. Essa condição paradoxal de não pertencer a lugar nenhum é quase um luto. Um luto bem real quando vejo que estou 40 anos mais perto da morte do que quando nasci. Mais experiente, é verdade, mas menos envolvido. Não há mais ligação real com os tempos passados e o futuro, ah, o futuro, esse ainda não chegou. O que fazer?

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O que esperar quando não se está esperando?

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Cada um tem a meritocracia que merece (ou aceita)

Montagem

Meritocracia, uma promessa (vazia) de todos

Meritocracia é uma daquelas palavras engraçadas que, livres de julgamento moral, vão adquirindo um caráter positivo ou negativo com o seu uso. O mesmo aconteceu com qualidade. Se você for lá na sua origem, vai descobrir que qualidade é apenas aquilo que qualifica. O sentido de qualidade como um qualificativo de caráter positivo foi sendo criado, alguns diriam distorcido, pelo seu uso. E hoje, sempre que se fala em qualidade, pensamos em características positivas. Com meritocracia aconteceu a mesma coisa.

Meritocracia é um sistema de gestão onde aqueles que tem o poder (cracia) o recebem por conta de seus méritos. Hoje, seja nas campanhas políticas ou dentro das empresas, vemos os líderes bradando que irão instituir a meritocracia ou que suas instituições funcionam como uma. Quando eles dizem isso, procuram apenas dizer que as pessoas com méritos irão ser recompensadas com o poder. O problema nesse discurso é que é impossível instituir uma meritocracia, pois, cá entre nós, todas as instituições são meritocráticas. Continue lendo

Um dia de filhos e filhas

Estranhamente, depois de 11 anos da morte do meu pai, só consigo me recordar de um dia dos pais que passei ao seu lado. Logo eu, que tenho memória pra tudo que é besteira, não consigo me lembrar de mais do que um dia dos pais com ele. Dias das mães, Natais, Reveillons, lembro de muitos, mas, do dia dos pais, só esse.

Era um domingo frio mas de sol. Cruzei boa parte da cidade vazia de ônibus até a feira do livro para comprar o presente do meu pai, mais um volume das memórias de Churchill, e fui para a casa dele para almoçarmos. Ele estava, como quase todos os dias depois da operação do seu câncer, de pijama, sentado numa poltrona. Claramente deprimido. Algo que eu percebia, mas toda a sua família negava. Dei seu presente, que ele abriu sem muito entusiasmo, e nos abraçamos, também sem muita emoção, enquanto meu pai fazia sua imitação clássica do Chacrinha: “Aquele Abraaaaaaaço”. Fiquei ao seu lado assistindo à TV. Depois de almoçarmos brevemente, na época ele já não tinha muita vontade de comer, o que acabou por custar a sua saúde e sua vida, fui embora. Continue lendo