Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

A traição do eleitor

Meu pai tinha um companheiro de FEB que de 4 em 4 anos se candidatava a vereador. Como um relógio, três meses antes da eleição municipal, lá vinha ele bater na nossa casa. Carregando um pacote de santinhos, ele fazia a longa jornada de Deodoro ao Flamengo sobre as próteses e as muletas que sustentavam seu corpo desde que perdera as duas pernas na Segunda Guerra. Seu slogan sempre mudava, mas nunca saía da linha: “Ele lutou por nós e vai continuar a lutar.”.

Se vontade contasse, ele seria o vereador mais votado do Rio de Janeiro. Com a sua pensãozinha, bancava sozinho a campanha onde prometia melhorar saúde, educação, segurança e, óbvio, a condição dos ex-combates que queria representar. Como cumpriria essas promessas? Ele não sabia, mas tinha certeza que lutaria e ganharia. Como fez na guerra.

Era um analfabeto político mas queria escrever seu nome na história da câmara municipal carioca. Como, acredito, a maioria dos candidatos que fazem a festa da democracia parecer algo mais do que o convescote sinistro ao qual comparecem sempre os mesmos malandros.

Alheio a essas maquinações que movem a política, ele fazia a sua parte, lutando voto a voto pela cadeira a qual sentia ter direito moral. Por isso de 4 em 4 anos, ele vinha ao meu pai em busca de algo mais que um voto; em busca do apoio político e da influência que meu pai fingia ter.

Eles sentavam no sofá e discutiam estratégia de campanha durante a tarde toda. Parecia até que era sério. Colégios eleitorais, locais para corpo a corpo e às usuais críticas ao material gráfico eram discutidas à exaustão, antes de avaliarem as suas chances naquela eleição. A cada ano meu pai aumentava a quantidade de votos que conseguiria para ele. Num ano eram 100, no outro 500, até que um ano chegou a prometer 10 mil.

Quando ele ia embora, após me entregar um santinho, mesmo sabendo que eu não tinha idade para votar, eu perguntava ao meu pai:

– Como você vai conseguir esses votos todos?
– Não vou- meu pai respondia.- Uns foram feitos para concorrer e outros para ser eleitos. Deixa ele se divertir com o seu papel- e ia para a cozinha jogar o pacote de santinhos na lata de lixo.

Na época da ditadura, essas promessas nunca pareciam vazias. Os dados eleitorais não eram transparentes como agora e tudo podia ficar diluído nos votos que o candidato bem intencionado conseguia com seu próprio esforço. Mesmo assim, eu sentia que a cada visita aumentava a desconfiança do amigo sobre as bravatas do meu pai.

No ano dos 10 mil, para azar do meu pai, as coisas mudaram de figura. Era fim do governo Sarney e pela primeira vez os votos seriam divulgados por seção eleitoral. Meu pai não se ligou do impacto que isso teria em suas promessas até que o candidato bateu lá em casa depois da apuração.

– Cadê os 10 mil votos que você me prometeu? – o candidato pressionou o meu pai.
– Ué, não rolou?
– Não, não rolou. Eu tive só 2732 votos.
– Ó lá, já foi um bom resultado. 2000 votos já um bom resultado. Eu corri atrás, mas você sabe como é eleitor: um bicho traíra pacas.
– Ah, é? Ah, é? É traíra mesmo. Quer ver só? Olha aqui na sua seção: nem um voto pra mim. Nem um voto. Você nem votou em mim!
– Pronto, tá explicado!
– Tá explicado o quê?
– Taí, ó. Óbvio que votei em você. Logo tá explicado. Foi fraude. Foi fraude.

O amigo depois de um momento de surpresa, se acalmou, pediu desculpas ao meu pai pela falta de compostura e partiu sem me entregar nada. Quatro anos depois ele não voltou. Ou desistiu de se candidatar ou desistiu de acreditar no meu pai.

Meu pai nunca mais falou dele. Estava esquecido como uma filipeta de eleição passada. Hoje votei e pensei como esquecerei rapidamente daqueles em que votei e em que não votei; como reclamarei daqueles que apoiei esquecendo da minha implicação em toda essa lambança. A festa da democracia sempre termina em amnésia alcoólica e ressaca moral. Meu pai tinha razão: somos traíras pacas.

Tá tudo bem

No meio da reunião, a mãe que trabalha, e não trabalham todas?, atende o telefone:

– Que é filha? Tô no meio de uma reunião. É urgente? Tá tudo bem?
– Sim, sim, mãe. É urgente, mas, como você disse, tá tudo bem.
– Se tá tudo bem, por que você está me ligando?
– É o seguinte: o vovô foi dar uma volta na rua e foi atropelado, mas tá tudo bem.
– Como assim, seu avô foi atropelado e tá tudo bem?
– Calma, mãe, tá tudo bem. Ele foi atropelado mas foi de leve. Uma kombi tava dando ré, não viu ele e só o derrubou na rua. Como eu te disse, tá tudo bem.
– Graças a Deus. Então tá tudo bem com ele? Estão em casa?
– Mais ou menos e não. Tá tudo bem, mas quando caiu, ele quebrou a garrafa de cachaça que estava carregando e se cortou bastante.
– Garrafa de cachaça? Seu avô não tinha parado de beber? E você ainda diz que tá tudo bem?
– É, parece que o vovô voltou a beber escondido. Mas tá tudo bem. Os cortes foram superficiais, já as queimaduras são mais preocupantes.
– Queimaduras? Como pode estar tudo bem, minha filha? Você está maluca?
– Tô não, mãe. Tô bem. Que nem o vovô. Vou te explicar o lance das queimaduras. Parece que ele estava fumando quando caiu e a cachaça, como era meio barata, pegou fogo quando quebrou. Mas tá tudo bem.
– Tudo bem uma pinoia. Seu avô bêbado, fumando, mesmo depois que o médico mandou ele parar com tudo? Não dá! Não dá! Em que hospital vocês estão? Vou já pra aí!
– Não estamos em hospital, não, mãe. Estamos numa delegacia, mas tá tudo bem.
– Delegacia? Delegacia? Impossível estar tudo bem. O que aconteceu?
– Parece que o vovô estava fumando maconha quando caiu e quando a polícia veio socorrê-lo, ele resistiu e acabaram encontrando uns papéis de pó com ele e o prenderam. Mas tá tudo bem? Tirando alguns hematomas, os cortes, as queimaduras e as algemas, ele tá quase novo.
– Pó? Maconha? Esse velho enlouqueceu? E você ainda vem com esse papinho de tá tudo bem? Cadê ele? Ele tá aí perto de você? Chama ele. Chama ele que eu preciso falar umas verdades pra esse doido.
– Calma, mãe. Tá tudo bem, ele tá algemado, mas vou colocar o telefone no ouvido dele. Tá, mãe? Espera só um pouquinho.
– Algemado, preso, bebendo, fumando, drogado. Que diabos eu fiz para merecer isso? Como eu posso viver assim e ainda acharem que está tudo bem?

A neta avisa que a mãe vai falar e põe o telefone no ouvido do avô. Ele diz:

– E aí, filha, tá tudo bem?

Como eu larguei o futebol (e você também pode, mas não precisa)

Olá, meu nome é Lisandro Gaertner e eu já torci pra time de futebol. Sério. Quem já me viu nos esporádicos encontros para assistir aos jogos da Copa do Mundo, enfurnado na cozinha comendo, bebendo e falando de assuntos aleatórios, enquanto o povo torce na sala, pode até não acreditar, mas, sim, eu já fui um torcedor.

Comecei a torcer, como a maioria, por influência do meu pai. Tinha uns 4 anos quando ele me deu uma camisa do Internacional. Meu pai, como todo bom gaúcho exilado, sentia prazer em não torcer para os times do Rio, apesar de secretamente ser vascaíno. O esforço, em todo caso, foi inútil. Fiquei dizendo pra todo mundo que era Colorado por umas duas semanas, até que a brincadeira perdeu a graça e, puff, não era mais Internacional. Só voltei a me interessar por futebol na Classe de Alfabetização.

Influenciado por uns maus elementos de 5 anos que ficavam perto dos balanços no recreio, comecei a torcer pro Flamengo. Minha mãe, tricolor, e meu pai, vascaíno enrustido, mesmo contrariados, apoiaram. Compraram camisa pra mim e tudo. Mas não foi tão difícil. No início dos anos 80, o Brasil inteiro tinha um caso de amor com o Flamengo. Acompanhei inclusive no meio da madrugada a final do campeonato mundial no dia, não esqueço, 13 de dezembro de 1981. Imaginem que conquista prum menino de 7 anos “ser” campeão do mundo .

Mas nem tudo eram flores. O Flamengo, apesar de ter o seu time mais lendário, também perdia. E eu sofria. De chorar. Lembro de ter ido ao Maracanã assistir a um jogo com um amigo e seus pais e voltar aos prantos para casa. Minha mãe me acalentou e plantou a semente que quase dez anos depois ia permitir a minha libertação:

– Meu filho- ela me disse-, você não pode levar o futebol tão à sério.

Você não pode levar tão à sério. Você não pode levar tão à sério.

Depois daquele dia, virei a casaca. Não tenho vergonha de admitir. Virei a casaca mesmo. Pra agradar meu pai e me livrar do sofrimento que era torcer pro Flamengo, virei Vasco.

Taí uma das coisas que mais me incomoda nos esportes de clube em geral: o estigma de virar casaca. Esse tipo de pressão para se manter ao lado de algo que não mais lhe agrada ou dá prazer é uma espécie de treino perverso para a lealdade incondicional. Se as pessoas fossem livres para virar a casaca, talvez estivessem mais acostumados a mudar de ideia sobre tudo e a nossa convivência seria bem mais harmoniosa. Posso estar exagerando mas essa é a minha opinião. Pelo menos por enquanto.

Me mantive Vasco, sem me ligar muito em Futebol, até mais ou menos os 10 anos. Novamente sob a influência de péssimos colegas de classe, voltei a acompanhar os campeonatos. O Vasco estava passando por uma boa fase na época e calhou que todos os meus amigos mais próximos também eram vascaínos. Pra ter assunto no recreio, passei a acompanhar mais os jogos e inclusive tinha carteirinha do clube do Vascaíno Doente, que era distribuída pelo radialista e, óbvio, vascaíno doente Áureo Ameno.

A carteirinha

Sim, isso é real, mas não é a minha

Essa fase durou uns 4 anos. Mesmo torcendo e acompanhando tudo o que podia, não me lembro de ter criado inimizade com ninguém ou mesmo humilhado os torcedores dos nossos fregueses na época. Torcia, mas era uma torcida mais introspectiva. O que eu curtia mesmo era ouvir rádio AM, bater papo e ler todos os jornais. Nenhuma vez nesse período fui aos estádios ou assisti a jogos com outras pessoas. Sempre tive esse espírito de viúvo aposentado que joga damas no Largo do Machado.

Um dia, chegou meu fundo do poço. O Vasco ia enfrentar o Flamengo na final do Carioca pelo bicampeonato. Depois de um jogo tenso e sem gols, aos 44 minutos do segundo tempo, Cocada, saído do banco há dois minutos, em disparada, sozinho, cravou o gol que consolidou a última vitória do Vasco sobre o Flamengo numa final de campeonato carioca até hoje. Dormi de alma lavada.

No dia seguinte, meus pais me acordaram em festa com o Jornal dos Sports e com o poster do time do Vasco. Quando me deixaram sozinho após diversas felicitações, senti um vazio tremendo. Que diabos estava fazendo com a minha vida? Minha identidade e minha felicidade eram dependentes de algo externo a mim? Será que ser Vasco era o que me definia? Não, eu não queria acreditar nisso, mas as evidências eram tremendas. Gastava uma hora por dia lendo os cadernos de esporte; mais uma hora ouvindo aos comentários da manhã; quando tinha jogo, mais duas horas; e pra finalizar uma hora de comentário esportivo noturno. Sem contar o tempo que conversava sobre futebol, mais de 20% da minha vida era devotada ao Vasco, uma entidade cujos participantes estavam pouco se lixando para salvaguardar a minha alegria e a minha saúde mental. Era muito caro para se fazer parte de algo. Escolhi ser sozinho.

Então, do dia pra noite, nunca mais acompanhei futebol nem outros esportes. Aos poucos esse meu desapego começou a se espalhar por outras áreas da minha vida e me libertou também de religião, ufanismo, posicionamento político, séries de TV e todas essas outras coisas que o povo trata como sérias mas não passam de clubinho.

Graças a Deus, não virei estraga prazeres, nem fico fazendo campanha pros outros seguirem meu caminho. Quando um grupo de amigos assiste a um jogo, até acompanho respeitosamente, mas sinto que desaprendi o futebol e quase sempre me pego fazendo perguntas imbecis. É quase como não ser católico e rezar o Credo nos casamentos em que somos convidados. Não cremos mas gostamos uns dos outros o suficiente para fingir.

Compartilho essa minha história, pois ela pode ajudar quem precisa se libertar de outras idéias ou simplesmente precisa virar a casaca. Afinal, o que descobri foi que nada que dizem de você é verdade, apenas aquilo que você mesmo acredita que você é. Por isso, saiba, você não é flamengo, botafogo, vasco, fluminense, ou mesmo brasileiro. Você pode ser quem você quiser, como quiser e ninguém tem direito de lhe criticar por isso. E você também pode mudar de ideia. Quantas vezes quiser. Garanto, em alguns momentos, virar a casaca pode ser extremamente salutar. Bom, é nisso que acredito. Pelo menos por enquanto.

Mas, cá entre nós, vou te falar, esses pernas de pau que botaram pra jogar nas Olimpíadas tão desafiando até o meu desapego. Ô, gentinha mais desclassificada, meu santo Dalai Lama. Não há zen budismo que nos permita suportar essa seleção brasileira.

Como justificar um bigode

Acho que a última vez que fiquei sem barba, bigode, cavanhaque ou afins por mais de um mês foi em setembro de 1995. Mais precisamente no dia 10 de setembro de 1995. Era um feriadão de sete de setembro e eu, prestes a completar 21 anos, recebi como presente a ida da minha mãe para um congresso. Nunca, em toda a minha vida, tinha ficado com a casa só para mim por tanto tempo.

Estava com uma viagem marcada para a pousada de um amigo em Itaúnas mas não resisti à oportunidade e desmarquei. Consegui convencer alguns amigos a desistir também e tivemos 4 belos dias da mais completa devassidão. Em todos os sentidos. Do mais filosófico ao mais mundano.

Foi um evento tão cataclísmico para a vida dos envolvidos que, acredito, naqueles dias diversas linhas do tempo alternativas foram geradas. Foi quase como assistir à criação de uma série de universos de camarote. Pra resumir, como no Gênesis, “e viu Deus que era bom”. Nos também vimos. E foi muito bom.

No dia 10 de setembro pela manhã, véspera do meu aniversário, após a longa e pesada faxina para preparar a casa para a volta da minha mãe, fui tomar banho e me olhei no espelho. Amassei a cara com uma das mãos tentando recompor o que não tinha mais volta. Aquele rosto não me servia mais. Eu era outra pessoa. Tudo o que tinha passado naqueles quatro dias não me permitia mais transitar entre uma cara limpa e com barba. Eu precisava fazer uma escolha. Naquele dia, decidi não mais me barbear e isso me mudou.

O cavanhaque começou a me acompanhar e se tornou parte do meu rosto e da minha história. Saí da faculdade, entrei no mercado de trabalho, casei; sempre de cavanhaque. Minha mulher, por exemplo, só me viu sem cavanhaque uns 6 anos depois de nos conhecermos. Foi num desses momentos de transição na vida. Minhas duas empresas fechavam as portas e eu estava prestes a ser obrigado a assumir meu primeiro emprego de carteira assinada. Um sábado de noite, durante uma reprise de um sitcom da vida, levantei da cama para ir ao banheiro, me olhei no espelho, amassei a cara e presto! estava sem barba.

Voltei para a cama, minha mulher continuava assistindo a TV. Ela lançou uns olhares de soslaio, até que finalmente perguntou:

– O que houve? Você está diferente…
– Tirei o cavanhaque.
– Ah, é… estranho.

Estranho. Fiquei recebendo esses olhares de estranheza, dela e de todos os conhecidos, por umas duas semanas e assim que a vida voltou aos eixos o cavanhaque também voltou.

Hoje passo por mais um desses momentos. Como não podia deixar de ser, um dia fui ao banheiro, me olhei no espelho, amassei a cara (o que parece essencial nesse processo de mudança) e presto! tirei o cavanhaque. Na verdade, não todo. Deixei um bigode.

Ao contrário da cara limpa que não gera muitos comentários, por mais estranha que possa parecer em quem usa barba há muito tempo, o bigode gera. Muitos mesmo. Realmente é um estilo ultrapassado. Tirando hipsters, senhores de mais de 70 anos, avó portuguesa de piada de salão e vilões de novelas steampunk, ninguém mais usa bigode. Por isso uma boa parte do tempo de quem usa bigode é gasto explicando por que está de bigode. Cá entre nós, não há explicação. Como as mulheres ficam ruivas, os adolescentes fazem piercings, e executivos em crise de meia idade resolvem tatuar o Putin na batata da perna, o bigode é apenas uma maneira de evidenciar externamente uma mudança interna. Não tem propósito. As pessoas não parecem entender isso, portanto, para satisfazer essa curiosidade que não tem explicação, inventei 10 justificativas para estar de bigode:

1. Vou interpretar Stalin num curta metragem argentino
2. Descobri que fui ator pornô nos anos 70 na última encarnação
3. Tive um sonho em que era o Groucho Marx e acordei assim
4. É obrigatório para o curso de amarrar donzelas em linhas de trem
5. Sou agente infiltrado investigando corrupção em fazendas de produtos orgânicos
6. Faço parte de uma banda cover do Village People
7. Perdi uma aposta com o barbeiro
8. Fiquei sabendo que o Adam Lambert vai sair do Queen e resolvi me candidatar à vaga
9. É uma homenagem ao pedido de prisão de José Sarney

E finalmente,

10. É uma coisa sexual, acho que você não quer saber os detalhes…

Se essas justificativas forem bem divulgadas, aposto que daqui a pouco o bigode volta à moda. Vai ver assim vocês param de me perguntar por que estou usando bigode. Por falar nisso, querem que eu explique?

A missão divina de Rui Barbosa

Já fazia mais de 90 anos que Rui tinha morrido e, excetuando a entrevista de admissão no céu, nunca fora chamado à gerência. Ele tinha ouvido falar que algumas almas estavam sendo chamadas para conversar pela direção e depois eram realocadas no purgatório ou no inferno. Isso estava deixando todo mundo de cabelo em pé. Pra piorar, quem era chamado pra conversar não voltava e como estavam no céu ninguém conseguia mais informações a respeito. Vocês sabem, fofoca é pecado.

Assim, depois de ter sido convocado, Rui amargou um bom período de ansiedade até que chegou o dia em que entrou tímido e assustado na sala de São Pedro.

– Opa, Rui, senta aí.
– Obrigado, São Pedro.
– Tudo bem?
– Pra ser sincero, não. Sabe, a gente tem ouvido falar dessas realocações e não dá para não ficar nervoso.
– Entendo, entendo. Mas a tua questão vai ser outra, Rui.
– Outra?
– É, você vai ajudar a gente.
– Se eu puder ser útil…
– Será, será. O lance é o seguinte, provavelmente você não está ligado no que está rolando no Brasil, por isso vou te atualizar. Desde 1891, o Estado e A Igreja foram separados legalmente no Brasil. Lembra? Você até ajudou nisso.
– Lembro, lembro.
– Pois, é, o lance não funcionou às mil maravilhas e tal, mas pelo menos tava controlando os abusos. Pra gente essa separação é uma mão na roda. Como diz o filho do homem: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. Não faz sentido pra gente o povo ficar tentando criar uma versão distorcida do céu na Terra. Além do mais, é tanta versão do livro de instruções e tanta interpretação errada que os que se dizem mais carolas acabam fazendo da Terra um inferno. Se eles soubessem que o Céu não tem nada a ver com o que eles imaginam…
– Foi exatamente o que pensamos na época.
– Então, hoje tem um grupo lá no parlamento brasileiro que tá começando a exagerar e a fazer o Torquemada parecer um santo. Por isso estamos revendo os processos da admissão de algumas almas por aqui. Se o povo tá se metendo no que é da Terra achando que está falando em nosso nome, acaba que o povo que tá no céu paga. Agora estabelecemos uma regra de legado.
– Regra de legado?
– É, se você produz algo, um livro, um filme, uma lei, que indiretamente faz o povo estragar a vida alheia na Terra, mesmo que tenha sido bem intencionado, tem que pagar um tempo no purgatório.
– E no inferno?
– É tem uns casos mais sinistros que tão indo lá pras profundezas, mas são exceção. O que a gente espera é que isso faça com o que povo deixe os outros em paz na Terra. Deixem as pessoas viverem como quiserem no mundo material que da questão divina a gente trata. Afinal de conta quem esses caras pensam que são? Deus?
– E como posso ajudar?
– Bom, Rui, o lance é o seguinte: vamos te reencarnar.
– Reencarnar?
– É, a gente não era muito fã de vocês positivistas mas dada a situação vamos precisar que alguns de vocês racionalistas voltem no Brasil pra botar mais ordem e progresso lá e ver se conseguem separar o Estado da religião de vez. Do jeito que tá não dá pra ficar. Somos divinos mas precisamos de razão também. E como você também era religioso, acho que vai conseguir um equilíbrio legal.
– Mas, São Pedro, não era mais fácil uma intervenção divina? Um sonho profético para esse pessoal que está pisando na bola?
– Já pensamos, tentamos e vimos que o tiro saiu pela culatra. Esse pessoal é tão ruim da cabeça que entendeu tudo errado. Sem contar com aqueles que já estão à serviço da concorrência.
– Tudo bem, mas vai levar mais de 20 anos para a gente dar resultado.
– Sei, sei, mas isso faz parte do plano. O povo também precisa sofrer um pouco para aprender que não pode acreditar em qualquer um que diz que fala em nosso nome. Até porque, cá entre nós, ninguém tem procuração para falar em nosso nome.
– E como fazemos?
– Bom, você entra na sala ao lado com o resto do pessoal que vamos reencarnar vocês daqui a pouquinho.

Rui se despede de São Pedro, entra na sala que lhe foi indicada, onde se espanta com todos os colegas e conhecidos que encontra: Benjamim, Comte, Euclides, Lemos, Roquette-Pinto, Rondon e…

– São Pedro!
– O que é, Rui?
– O que diabos gente como Dom Pedro II, João do Rio, Sérgio Porto e Vinícius de Moraes está fazendo aqui?
– Pô, Rui, com tanto racionalista, precisamos contrabalançar na emoção.

Eu te O-DÍ-O

Essa semana resolvi fazer uma experiência no Facebook e pagar pela divulgação de textos que estava publicando no meu blog. Nada demais. Como prometiam que eu alcançaria por volta de 2000 pessoas em 24 horas por apenas 4 reais, de bobeira, tentei.

Não tenho perfil nessa rede há uns 4 anos mas, como Milton Nascimento diz é “onde o povo está”, então, resolvi ver onde isso ia levar. Divulguei um texto sobre James Bond e outro sobre o Brexit. O que aprendi com a experiência?

O primeiro texto tinha uma análise bastante profunda da misoginia da franquia do 007 e teve uma boa quantidade de likes que não se reverteram nem em 10% de leitores. Em suma, o povo dá like sem ler.

O segundo texto, como tratava de um assunto do dia, teve uma boa quantidade de leitores e comentários, mas, cá entre nós, que lixo de público. Muita gente compartilhou além de dar os likes, mas quem comentou simplesmente queria destilar o seu ódio. Parece até que estão esperando para ficar indignados e mostrar que são os bastiões da moral num mundo decadente. Duvida? Dá uma olhadinha aqui:

odio
O que aprendi com a experiência? Facebook NO MORE.

Isso me lembra uma história do meu pai. Todo dia de manhã quando íamos tomar café, meu pai abria o jornal nas cartas dos leitores e desandava a rir. Uma vez perguntei do que ele ria tanto. Ele respondeu:

– Filho, um cara tem que ser muito maluco para ler um artigo, escrever uma carta, botar ela no correio e esperar quem alguém a leia.

A internet simplesmente facilitou o trabalho desses imbecis. Por mais que queira divulgar o que escrevo, descobri que aqui não é o meu lugar. Manterei a página, mas não vou esperar nem recorrer a formas de divulgação não orgânicas. Buscar público no Facebook, se não for pra bater palma pra maluco, é caminho para se estressar.

E como o meu pai bem terminava aquele papo:

– O pior maluco sou eu que leio essas cartas.

Não vou ser esse maluco.