Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

Acho que agora já basta de filmes de super heróis

Hoje o fandom teve mais uma agradável notícia: Vingadores 3, que a princípio se inspirará na saga Guerra Civil, contará com a distinta participação do Homem Aranha. Depois de anos preso na Sony junto com os X-Men, e após duas desastrosas sequências à trilogia de Sam Raimi, o Aranha se une novamente ao resto do universo Marvel.

Em meio aos urros de alegria e aos pequenos orgasmos do povo no twitter, não me escapou um grupo de fãs empolgados com a possibilidade de uma versão cinematográfica de Guerras Secretas. Nessa hora percebi que já tínhamos ido longe demais. Depois da aparição de Thanos e a histeria frente a uma possível versão do Desafio Infinito, saga da qual nunca ouvi um ser humano falar bem, agora estão achando bom uma versão da deplorável maxissérie Guerras Secretas?  Continue lendo

A fronteira

Decidido a finalizar o trabalho da semana anterior e fotografar campo e contracampo de todas as estátuas urbanas da orla da zona sul, tomei a difícil decisão de atravessar a fronteira. A dificuldade da decisão não se devia à distância, qualidade de acesso ou qualquer barreira física. O que realmente me assustava, e assusta, quando preciso atravessar a fronteira, é o choque cultural. A fronteira entre Copacabana e Ipanema/Leblon, mais que uma fronteira física, é uma fronteira conceitual; espiritual, quase.

Tanto é assim que a área onde um bairro começa e o outro termina é uma pororoca de idéias e emoções. Bares tradicionais e sujos são, ao mesmo tempo, elegantes e caros; pequenos locais que testemunharam momentos glamourosos vivem na infâmia; galerias alternativas dependentes das últimas novidades nunca saem de moda; e tudo culmina numa termas na rua Cunning que, como dizem alguns conhecidos, gourmetizou a prostituição. Essa distância entre Copacabana e Ipanema, de meras centenas de metros físicos, é na verdade contada em anos luz ideológicos.

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Campo e Contracampo

Campo e contracampo – O campo é o espaço que é focalizado pela câmara. Já o contracampo é uma sucessão de tomadas ou planos mostrando ora um, ora o outro interlocutor de um diálogo. (fonte)

Hoje em dia não é difícil achar pelas ruas estátuas mescladas ao cenário urbano. Ao  invés de estarem montadas em inatingíveis pedestais, como outrora,  as figuras dos mais recentes homenageados compartilham o espaço da cidade conosco, simples mortais. Seja numa mesa de bar, num banco de praça ou num canto de uma calçada, lá estão elas,  mostrando que são gente como a gente e, em contrapartida, prontas a terem suas “privacidades” invadidas por curiosos e turistas que muitas vezes nem sabem quem elas representam. Um momento TV Fama do moderno urbanismo.

Hoje de manhã, me perguntei o que esses habitantes imóveis da cidade, tão fotografados e observados, teriam como vista. O que seus olhos de bronze estariam observando enquanto eram observados? Como seria para eles serem não os objetos dos voyeurs, mas serem eles mesmos os voyeurs da cidade? Se as estátuas são o nosso campo, qual seria o contracampo?

Peguei uma bicicleta e fui lá matar a minha curiosidade.
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Vamos pro bar?

No meio da madrugada, os insones do twitter tem as melhores conversas. Dessa vez quem puxou o tema foi o @gut0. No meio da leitura do The Great Good Place, fui obrigado a responder:

Sou, como muitos devem saber, um entusiasta dos bares. Passei de 62,3 a 78,4% do meu curso universitário em um deles. E lá, sou obrigado a confessar, aprendi muito mais sobre psicologia do que em muitas das cadeiras acadêmicas. Contudo, acho que hoje em dia, excetuando-se um local ou outro, os bares perderam o seu aspecto de Ágora. Não são mais o espaço público para conviver, conhecer, aprender, duvidar e inovar. Culpo a McDonaldização iniciada pelo Belmonte, mas, na verdade, preciso culpar você. Sim, você. Você que acha mais importante ter um atendimento padronizado e empadinha circulando no salão do que conviver com o caos edificante que os bares de verdade nos oferecem.

Afinal, para ter momentos mágicos, conversas revolucionárias, mudanças de vida e inovações sensacionais é preciso sair da zona de conforto. Coisa que essas franquias de butekos(sic) não oferecem. Muito pelo contrário. Elas estão mais para incubadoras do que para bares.

Desprovidos desse espaço público, muitos de nós se viram para as redes sociais. Nesse ambiente, muitas vezes estéril do bendito soro da verdade, tentamos simular os papos que rolariam nos bares de outrora. Por exemplo, a conversa do vídeo anterior poderia ser reinterpretada dessa maneira:

wanda chinaski

Concordo, não tem o mesmo glamour, mas funciona. Um pouco.

E os momentos de iluminação surgidos da agressividade mal dirigida dos nossos amigos? A cena clássica do Bar Esperança poderia acontecer assim:

passarinho1 passarinho2

zeca1

passarinho3passarinho4

zeca2 Nessa seca de bons bares, quando nos afastamos uns dos outros, fisica e espiritualmente, talvez as redes sociais por piores que forem, sejam a nossa única saída. Para falarmos; para sermos ouvidos; para chorarmos nossas pitangas; e para buscarmos o ser humano do outro lado. É, aquele. Aquele ser humano que muitas vezes não encontramos no trabalho nem em casa. Aquele ser humano que como nós está no limbo, entre o pessoal e o profissional, doido pra falar e, dadas as condições certas, pronto para nos escutar. Nem que seja pra nos ouvir reclamar do bar em que a gente bate ponto:

ana_bar_tweet

Je suis Charlie… comme si, comme ça

Agora que já passou a comoção inicial e as camisetas “Je suis Charlie” já começaram a sair de moda, dá pra começar a sentir qual é a verdadeira opinião da população sobre o fato. Ao invés de uma defesa da liberdade de expressão e, consequentemente, do modelo liberal ocidental que deveria nos pautar, vejo surgir, no meio dos comentários de revolta contra o ato terrorista, o famoso “eles pediram”.  Sim, pode prestar atenção. Lá, escondido, entre os “Que absurdo”, “Como isso foi acontecer” e “Coitados”, o povo solta um “junto com os cartunistas morreram vários inocentes” ou o mais comum “também, olha só com quem eles foram mexer”. Continue lendo