Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

Como você escolhe um livro?

No meio do horário do almoço, em mais uma visita a comatosa Leonardo da Vinci, um amigo do trabalho, involuntariamente me acompanhando à loja, me lançou essa pergunta. Fiquei em silêncio, chocado com a dúvida. Sem saber o que dizer, retruquei:

– Como assim?
– Como você escolhe um livro? – ele suspirou e deu um meio giro apontando as estantes, agora, semi-vazias da loja.

Ficou claro para mim que para o meu amigo a pergunta era óbvia e, portanto, merecia uma resposta tal qual. O que ele não sabia é que a pergunta não era de maneira alguma óbvia e, portanto, podia ter um leque quase infinito de respostas. Afinal, antes de perguntar o como, para chegarmos a o que escolher, é preciso saber por que você quer escolher um livro.

Escolher um livro, como escolher qualquer coisa, pode ter um sem número de motivações. Você pode escolher um livro para presentear alguém; para atacar alguém na forma de um presente, como um cavalo de troia de papel; para se mostrar mais inteligente do que realmente é; para fingir a humildade que não tem; para buscar uma informação específica; para ser surpreendido com algo que não conhece; para confirmar aquilo que já sabe; e até para se sentir ofendido. E para cada motivação há um método, um como, especialmente adequado.

Por exemplo, a escolha direcionada em busca de informação quase nunca requer diversas visitas a lojas físicas. Numa simples busca na internet, achou o preço mais barato, o frete mais rápido, e pimba, tudo resolvido. Querer ser surpreendido é diferente. Esse caso requer paciência. É preciso contar com a sorte e caminhar pela ruas em busca de lojas que não conhece e se permitir ser seduzido por capas e evitar a todo custo qualquer contato com o conteúdo da obra. Escolher um livro é quase como decidir ter um filho. As maneiras são tão diferentes  quanto escolher esperma para inseminação artificial e esperar o amor da sua vida para tentar a concepção.

E quando você, como eu, trabalhou com livros, a situação piora. Nós, livreiros, da ativa ou em recuperação, fomos infectados pelas mais diversas e estranhas motivações  contraídas dos clientes que tivemos. Tenho livros, por exemplo, que foram lidos completamente nas livrarias e só comprados anos depois como lembranças de uma época. Tenho livros que nunca li, escolhidos pelas dedicatórias em seu interior. Tenho livros comprados pelo ódio que tenho ao autor ou por respeito a pessoas que, por mais que admire, sei que escrevem mal. Livros que escolhi na estante de amigos, pedi emprestado e, sob a cumplicidade das vítimas, nunca devolvi. Tenho livros que são espelhos, escolhidos quando buscava afirmação. Tenho livros que são portais para outros mundos, quando queria fugir. E livros que são auto sabotagem para testar minha resolução ou provocar o meu fracasso.

Em alguns casos, para encontrar o que procuro, preciso ler a contra capa. Em outros é necessária uma grande pesquisa sobre a obra e o autor antes mesmo de colocar o livro nas mãos. Em certos casos, o abandono na estante é o fator decisivo. Em outros, encontrar algo escondido que não deveria ser encontrado é o que faz a diferença. Em alguns, a capa basta. Em outros, a falta de capa é que decide. Fatores demais. Respostas demais.

– Então, como você escolhe livros?- o colega insistiu
– Não sei- enfim desisti e respondi honestamente.- Não sei.

Ele sorriu e entendeu:

– Imaginei.

Nesse dia não escolhemos nada. O que sempre é uma opção.

Eles não estavam lá

Anteontem, infelizmente, foi mais um dia do orgulho Nerd, ou dia da toalha, ou seja lá como chamam o dia que as lojas online escolheram para dar desconto em quadrinhos, ficção científica, fantasia e jogos em geral. No trabalho, graças aos newsletters das amazons da vida, todos me importunaram com essa história o dia inteiro:

– Viu que hoje é o dia dos NERDS?
– Tem promoção em várias lojas. Você tem o quê? Playstation ou XBOX?
– Não vai querer comprar nenhum jogo? Nem quadrinhos? Ih, deixou de ser Nerd?
– Você prefere Star Trek ou Star Wars? É aquele com o Spock? Ah, é o outro com o robozinho gay…
– Como é nome daquele lance mesmo? Caverna do Dragão? Sabia que no último episódio… Como assim não tem último episódio?

Acho ao mesmo tempo estranho e louvável que o Status Quo tente nos subornar com descontos para símbolos que nada significam para eles. Alguns acham que esse dia é um sinal inequívoco, assim como as séries de TV sobre cultura pop e as inúmeras e plastificadas adaptações de super heróis para o cinema, da vitória dos Nerds. Não é. Sério, não é. O Julio Matos quase conseguiu resumir toda a ambiguidade do meu sentimento sobre o dia de ontem num tweet:

O única coisa com a qual não concordo com o Julio é considerar que existe cultura Nerd. Não existe. Não existe grupo Nerd. Não existe ser Nerd. O tal ser Nerd é ser o outro. Sempre foi e sempre será um termo pejorativo. Ser Nerd é ser o estranho. Aquele que não faz parte do que é apreciado pelo Status Quo.

Parece até que o povo esqueceu de A Vingança dos Nerds. Na fraternidade Lambda Lambda Lamba, se não se lembram, além dos CDFs, tínhamos os imigrantes, os negros, os homossexuais. Todos aqueles que eram execrados pelo Status Quo. Uma fraternidade dos excluídos. Logo, chamar algo Nerd  de Mainstream é como propor a criação do partido anarquista brasileiro. Uma contradição em termos.

Nerds

Não somos apenas brancos, heterosexuais de classe média que gostam de tecnologia

O fato é que nós, os considerados Nerds, não fazemos parte de um grupo único. Portanto, não somos algo cooptável. Não podemos ser O Mainstream, pois o que nos define é estar do lado de fora. Somos os piratas que nunca quiseram ser almirantes. Sim, isso é possível. É difícil acreditar mas alguns seres humanos não querem o poder. Se faz parte da sua índole buscar aceitação externa, acho que você não está no lugar certo…

A maioria não entende, mas somos simplesmente pessoas com experiências incomuns. E valorizamos isso. Somos pessoas que não fizeram, nem fazem parte do que aí está. Por isso é simplesmente horrível que continuamente tentem reduzir nossas experiências a um dia, a piadas internas, a podcasts com mascates escandalosos, a produtos de consumo de massa, a uma (má) subliteratura comercial ou mesmo a uma  palavra de quatro letras que não significa nada. N-E-R-D.

Esse reducionismo institucional de uma imensa rede de relações e de um enorme grupo de culturas diversas e ricas a um só nome chega a ser criminoso. Mas é natural. Afinal é mais fácil agrupar tudo o que não é você num grupo só. Seja ele algo a ser temido ou a ser ridicularizado. O Status Quo precisa disso para justificar a sua união.

Mas, realmente, o que mais me incomoda nessa comercialização do “nerdismo” é a propriedade com que somos estereotipados.  Eles, que nunca estiveram na nossa situação, nunca tiveram e ainda não tem o direito de ao mesmo tempo definir o que acham que devemos ser e ignorar o que realmente somos. Eles, cá entre nós, nem ao menos sabem do que acham estar falando. Olham para pessoas diferentes, com diferentes experiências e visões de mundo e preferem tratar tudo isso como uma coisa só. Por isso, na minha opinião, o melhor é que se calem. O tal dia do Nerd, não se enganem, não é uma homenagem, mas uma afronta a tudo o que vivemos.

Afinal de contas, quem são eles para falar do que e de quem somos? Eles não estavam lá. Eles nunca estiveram.

Eles não estavam lá quando nossos pais, por conta das sucessivas crises econômicas, só podiam nos dar quadrinhos como presentes de Natal e nós adorávamos. Eles não estavam lá quando os X-MEN passaram da RGE para a Abril e a Tempestade deixou de ser chamada de Centelha. Eles não estavam lá quando a Globo começou a publicar Akira, Sandman e Moonshadow, contribuindo com a nossa maturidade emocional. Eles não estavam lá quando visitávamos compulsivamente a EBAL durante seu longo processo de falência buscando as edições em tamanho gigante do Flash com os Novos Deuses e do Super Homem contra o Muhammad Ali. Eles não estavam lá na abertura da primeira Bienal de Quadrinhos maravilhados com o Horus de Bilal dominando todo o salão principal da Casa França Brasil. Eles não estavam lá.

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Esse foi em Portugal, mas dá pra ter uma idéia

Eles não estavam lá quando descobrimos Isaac Asimov. Não estavam lá naquele verão em que a Biblioteca Machado de Assis não tinha Tolkien, Clarke, Howard ou Lovecraft suficientes para saciar a nossa fome de mundos imaginários. Eles não estavam lá quando encontramos uma pilha de livros da coleção argonauta num sebo infecto no fim de Ipanema. Eles não estavam lá vasculhando os catálogos do Círculo do Livro em busca de Bukowski, Kerouac e Burroughs. Eles não estavam lá quando lemos Valis, Os Clãs da Lua Alfa, O Homem do Castelo Alto e nos perguntamos junto com Philip K. Dick até que ponto a nossa realidade é real. Eles não estavam lá.

círculo do livro

O verdadeiro prêmio era ler

Eles não estavam lá quando fizemos nossa primeira ficha de D&D (um elfo, claro); nem quando tolamente colocamos a cabeça numa fresta de porta entreaberta só para sermos decapitados por um troglodita escondido. Eles não estavam lá quando fazíamos versões desses jogos por não termos acesso aos originais; quando usávamos peças Bingo para jogar porque não tínhamos dados de vinte, oito, dez ou doze faces; nem quando passávamos os fins de semana no escritório dos nossos pais tirando xerox dos jogos que alugávamos no Além da Imaginação em Niterói. Eles não estavam lá quando lançaram a segunda, a terceira, a quarta (AAARGH!), nem a quinta edições. Eles não sabem nem do que estamos falando quando discutimos sem conclusão possível sobre qual delas é a melhor. Eles não estavam lá.

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O desenho foi baseado no jogo e não o contrário!

Eles não estavam lá quando passávamos meia hora carregando um jogo de uma fita cassete para um TK 85. Eles não estavam lá sentados em salas de espera de escritórios esquisitos no centro da cidade para comprar disquettes de 5″ 1/4 com jogos para nossos MSX. Eles não estavam lá quando carregávamos monitores de cá pra lá para jogarmos Wolfeinsten à cores. Eles não estavam lá atropelando pessoas em versões piratas do Carmaggedon. Eles não estavam lá esperando 12 horas para o DC Universe instalar. Eles não estavam lá quando compramos o OUYA com o pretexto de apoiar o software livre. Eles não estavam lá.

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Jogar é simbolizar

Eles não estavam lá quando fazíamos dever de casa extra sem esperar recompensas. Eles não estavam lá quando criamos um jogo de tabuleiro sobre a guerra do Vietnam para a aula de história contemporânea. Eles não estavam lá apanhando de metade da turma por sugerir ingenuamente que a prova de Cultura Clássica fosse baseada num texto em francês arcaico mencionado na segunda edição do Advanced Dungeons & Dragons. Eles não estavam lá na biblioteca do colégio durante as férias esperando os nossos amigos que estavam em recuperação para jogar RPG. Eles não estavam lá quando o professor de geometria nos deixou fascinados com o triângulo de Sierpinski e nos estimulou a ler o livro do Benoit Mandrelbrot (que também tinha a ver com o Watchmen). Eles não estavam lá.

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Meias dimensões e teoria do caos antes do café da manhã

Eles não estavam lá tentando se conectar à Compuserve e à Illuminati Online com nossos modems de 2400 bauds. Eles não estavam lá trocando idéias com o Hiro na área de RPG da BBS da CentroIn. Eles não estavam lá quando a nossa melhor fonte de links e sites eram revistas importadas encontradas nas livrarias dos aeroportos. Eles não estavam lá gerenciando fóruns de discussão sobre RPG ou escrevendo resenhas e artigos para a Jogos.com.br antes do estouro da primeira bolha. Eles não estavam lá no Napster, Geocities,  Blogspot, Reader, nem no Wave. Eles não estavam lá apagando as luzes de nossos sites contra SOPA e PIPA. Eles não estavam lá.

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Você não conhece o Hiro? Não acredito!

Eles não estavam lá carregando mesas e cadeiras pela UERJ para realizar a RPG RIO. Não estavam mestrando Teenagers from Outer Space para quarenta pessoas ao mesmo tempo. Eles não estavam em ônibus indo para São Paulo, Minas, e outras cidades do Brasil para participar de feiras, convenções de RPG, comprar fanzines e quadrinhos independentes. Eles não estavam lá participando da Quero Jogar RPG, testando jogos de tabuleiro ou criando-os nos desafios do Faça Você Mesmo e do Game Chef. Eles não estavam lá. Não estavam mesmo. E nunca irão estar.

rpgrio

Sim, eu fui e ajudei a organizar

Por isso, eles não podem falar de quem somos. Nem decidir quando é o nosso dia. Eles não podem continuar nos chamando de Lambda, Lambda, Lambda, Poindexter, Urkel, Cú de Ferro, Dark, Punk. Gótico, Geek, Nerd, Estranho, Whisky-zito,Visconde de Sabugosa, Mestre dos Magos ou Sheldon Cooper em troca de descontos em tralhas, que, na real, não precisamos. Eles não podem usar um termo pejorativo como uma piada, uma brincadeira entre amigos. Algo que, pelo que me lembre, nunca fomos. A pergunta que fica é: quando o insulto destruidor se tornou apenas uma maneira engraçadinha e inocente de referência? E, pior, quando aceitamos isso assim com um sorriso nos lábios? Me perdoem, nesse ponto, tenho que concordar com o Giltônio:

giltonio

O pior é que essa multidão querendo carregar uma bandeira supostamente em nosso(?) nome é formada apenas por Jocks consumidores de cultura pop ruim. Gente que comprou a versão resumida de Vingadores, e de tudo mais que é possível encaixar em duas horas e pouca de audiovisual; gente que se acha dono de Mad Max porque gosta de citar Cúpula do Trovão e odeia que a Furiosa seja a verdadeira protagonista do novo filme; gente que espalha ódio em fóruns, redes sociais e caixas de comentários pelo simples prazer de humilhar o outro; gente que ofende mulheres, homossexuais, cosplayers, furries, e todos que forem diferentes deles por se acharem donos de um hobby ou da Internet. Gente que não domina assunto algum, mas ao mesmo tempo se considera dono de tudo. Em resumo, um bando de idiotas.

Enfim, nada mudou. Os Nerds podem ter se vingado no filme mas o mundo real, esse, não mudou. O mundo sempre foi dos Jocks. A única diferença agora é que eles citam o Mochileiro das Galáxias, Senhor dos Anéis e Homem Aranha, mas continuam rindo de nós. Abertamente. Com a nossa anuência. Na nossa época éramos inclusivos. Muito me dói perceber que nossos hobbies foram dominados e transformados em ferramentas de opressão. Gente se dizendo parte de coisas que realmente não ama para exercer fraternidades de terror. A nossa “cultura” mencionada pelo Julio, se existisse, não foi oficializada ou aceita, mas reduzida e ridicularizada. Se transformou em mais uma ferramenta de ódio. Por isso, não se engane, nós, os verdadeiros excluídos, continuamos do lado de fora. Os “patrões” apenas se apropriaram de alguns dos nossos brinquedos.

Nesse dia da Toalha, jogamos a nossa.

Os bons selvagens digitais

Quase toda semana, aparece por aí uma matéria exaltando a sabedoria dos nativos digitais. Colocamos aqueles nascidos pós ano 2000 num pedestal e consideramos que, como bons selvagens digitais d’aprés Rosseau, eles nasceram não só com o entendimento técnico como também com o aparato ético necessário para lidar com a tecnologia.

Não caiam nessa lorota. Isso é o mesmo que considerar que o povo que nasceu pós revolução sexual é aberto e respeita a pluralidade ou que os nascidos depois do fim da ditadura no Brasil são democratas de carteirinha. Muito pelo contrário. É só ver essa galera nova reprimida e careta pra perceber que certos movimentos normalmente geram o efeito oposto.

Por isso, vamos parar com essa postura. Isso não só nos levará a receber conselhos idiotas de ingênuos úteis como põe uma carga enorme nas costas de quem ainda não tem a noção de como lidar com isso. Além disso, não esqueçam: bom selvagem não existe. Hobbes já sabia disso.

Bom mocismo Zona Sul

Sábado. 9 e 57 da noite. Os bares na orla de Copacabana estão lotados. E com fila de espera. O menino que vende chiclete usa isso a seu favor, enquanto dribla os garçons que insistem em espantá-lo. Vende um chiclete aqui, leva um passa fora alí, consegue rodar um salão de restaurante inteiro sem ninguém importuná-lo. Fatura. Devagar, mas bem. Os seus minutos são cheios de altos e baixos. Não há tempo para lamentar nem para comemorar. Só há tempo para agir.

Entra em mais um bar. Os garçons ocupados com o movimento não o notam. Avança pelas mesas. Não. Não. Não. Não, muito obrigado. De nada. De nada? No outro lado do bar, uma mesa com uma mulher, um bebê e uma menina. Mais ou menos da sua idade. Mesa boa. Os bebês costumam amolecer as pessoas e os corações. Usa as pilastras para se esconder dos garçons, enquanto caminha o mais rápido que pode até a mesa. Chega ao seu destino.

– Vai um chiclete? Uma ajudinha, por favor?

A mulher o ignora e levanta ninando o bebê que começa a chorar. Perdi, perdi, pensa. Mas insiste com a menina:

– Um chiclete? Uma ajuda?

A menina olha para ele séria, franze os lábios e cruza os braços com uma expressão de pena.

– Pode vir aqui mais perto, por favor?- ela convida.

Ele atende. Ela quase encosta a boca no seu ouvido e começa a falar:

– Sabia que trabalho infantil é crime?
– Ahn?
– Crime. É, crime. Eu vi na televisão. Você devia estar estudando, brincando. Esses são os direitos das crianças. Você não devia estar trabalhando. Olha, não vou comprar o chiclete mas vou te dar uma coisa melhor…
– O quê?
– Um conselho. Fala com os teus pais que eles estão cometendo um crime quando te colocam pra trabalhar. Fala pra eles. Se quiser, vê na internet qual é a lei. Aposto que vai resolver o teu problema. Entendeu o que eu disse?
– Entendi?
– Bom, tomara que sábado que vem você possa estar em casa brincando e não vendendo chiclete. Tá bom? Então, ó, boa sorte, tá?
– Tá.
– E não esquece meu conselho, viu?

O menino se afasta da mesa chocado, esfrega o ouvido para limpar os perdigotos da menina e sai do bar sem olhar pra trás. A menina toma um gole de coca-cola e sorri triunfante. Fez uma boa ação hoje. O menino entra no próximo bar e continua a vender seus chicletes procurando evitar clientes malucos dessa vez. Tomara que tenha essa sorte.

Sábado. 10 e 23 da noite. No balanço geral, nenhum problema social foi resolvido em Copacabana. Apesar de todos os esforços do bom mocismo zona sul há alguns males que conselho sozinho não consegue curar. Uma pena. Uma pena.

Danem-se os idos de março

Na última semana, por e-mail, nas rodas de café, nas conversas entreouvidas no transporte coletivo, por mensagens de What’s app, estou sendo bombardeado por “indiscutíveis” sinais do apocalipse iminente. Ontem, um amigo, que considerava politicamente sensato, me mandou essa mensagem de áudio:

Fiquei decepcionado e preocupado. Se até uma das cabeças mais razoáveis que conheço está sucumbindo a esse terror barato, as coisas realmente não vão lá muito bem. A mensagem, como tantos outros boatos que circulam por aí, segue ipsis litteris casos que estudei na cadeira de psicopatologia: alucinação extracampina (algo acontece na floresta amazônica, longe dos olhos de todos; um alerta sempre dado por uma terceira pessoa não presente); delírios de perseguição (grupos guerrilheiros com mais de 20 mil armas; guerra civil iminente); e o delirio de ruína (tudo vai ser “trancado” (oi?); confisco como na época do Collor). Meus professores com certeza apostariam num diagnóstico claro de paranoia.

Saí às ruas com isso na cabeça. No caminho encontrei 3 blitzes. Uma antes e outra depois do mesmo túnel! Vejam só!? Meu sogro me ligou para reclamar que em São Paulo todos os caixas eletrônicos estão sem dinheiro. Tentei confirmar a informação e percebi diversos bancos com o autoatendimento fechado. Confesso, pressionado pela força da profecia autorealizável, comecei a me deixar infectar pela paranoia.

Que paranoia com os idos de março, Júlio.

Que paranoia é essa com os idos de março, Júlio?

E dá para evitar? Como já disse o Zizek, a fantasia com o apocalipse tem lá a sua sedutora função redentora. Quando nos encontramos numa situação desagradável da qual não conseguimos sair, um evento mágico ou fantástico que acabe com o que há sempre pode ser melhor que a indecisão ou a tensão presente. E estamos nesse momento horrível. Não há como negar isso.

Corrupção, seca, aumentos de energia, volta da inflação, demissões em massa. Quem quer viver nesse mundo? Melhor que ocorra algo, qualquer coisa, para nos tirar dessa realidade. Mesmo que seja para nos levar para uma pior. Será que o ISIS atua no Brasil? Calma, calma, perguntei só por curiosidade.

O problema é que ninguém pensa no momento depois do apocalipse. Ninguém pensa no que acontece depois da revelação divina que joga o mundo antigo para escanteio. Se um mundo acaba, outro começa. E como será esse novo mundo? Com isso ninguém quer lidar. Mas, lembre, já lidamos com isso antes.

Lembro, por exemplo, do dia seguinte ao confisco do Collor. Sim, sou velho. Fui lá eu e meu pai para uma fila de chocados e descontentes na frente do Bradesco tirar os 5o dólares a que tínhamos direito. Depois daquele trauma meu pai passou a dividir o dinheiro em 20 poupanças diferentes como se isso fosse resolver a questão. Um amigo, que casou semanas depois do ocorrido, conta que durante a festa os convidados ficaram sentados imóveis olhando para o vazio como se sofressem de síndrome de stress pós traumático enquanto o dj tocava ininterruptamente “Pintura Íntima”. Meu antigo sócio, que perdeu uma empresa por conta do confisco, teve pesadelos recorrentes com a Zélia até o começo dos 2000. Eróticos, dizem as más línguas. Ficamos traumatizados, sim, mas sobrevivemos.

E sobreviveremos agora. Aconteça o que acontecer, sobreviveremos. Talvez mais pobres, talvez mais tristes, mas certamente mais sábios. E não há preparação para isso. Afinal, só peru morre de véspera.

Isso me lembra um causo do livro 30 anos essa noite. No primeiro de abril de 64, Paulo Francis, crente que seria o primeiro a ser preso pela ditadura, se refugiou no apartamento de um amigo com várias garrafas de uísque. Depois de 3 dias, ressaqueado, ele emergiu de seu bunker, e, para a sua surpresa, encontrou a vida continuando normalmente. Como podia? Dominados pela ditadura, estávamos todos agindo como se nada houvesse ocorrido. A lição é: não há anomia que sempre dure, nem normalidade que nunca se acabe.

Assim, me recuso a me deixar infectar por essa paranoia. Mas vai que… Vai que o quê? Tá, rola o confisco e você malandramente guardou seu dinheiro embaixo do colchão. O povo todo fudido e você bem. Na boa, isso, além de não ser jeito de viver, é uma das origens dos problemas que temos hoje em dia.

Vamos viver, não pelos outros, mas apesar dos outros e, paradoxalmente, com os outros. A felicidade que buscamos não está no que nos é externo, mas em nós mesmos. E não há 13, 15 ou 45 que irão me dizer como me sentir.

Por isso, não me importa se você saiu às ruas no dia 13, se sairá hoje ou se muito pelo contrário. Peço apenas que lide melhor com o presente e dê mais valor ao que pode realmente pode fazê-lo feliz. Se seguíssemos esse conselho, pode crer, não estaríamos nessa situação hoje. Frances Ha sabe disso.

Já te contei por que amo Copacabana?

Deixa eu te falar…

A briga começa como a maioria delas começa. O cansaço pesando pelo tardar da noite ou pelo despontar da madrugada; os ânimos exaltados pelo álcool e pelos resultados do futebol de meio de semana; a depressão inescapável de ter que conciliar, no dia seguinte, a ressaca iminente com um trabalho que não nos valoriza. Junte a isso um engano, um tropeço, uma palavra mal entendida, ou, até mesmo, um pequeno esbarrão e está pronta a confusão.

Os envolvidos se estranham. Olhares tortos, palavras tortas. O primeiro empurrão. Dessa vez, intencional. Se abre espaço no meio do bar e, em uma dança orquestrada, os brigões se afastam e se aproximam, mostrando o quanto querem lutar por sua honra e o quanto acham que o outro deve desistir.

As tentativas de intimidação surgem furiosas de um lado e do outro. Os outros clientes do bar, movidos pela demonstração de agressividade gratuita, começam a se sentir obrigados a tomar partido. Primeiro os amigos e conhecidos se posicionam. Depois as lealdades. Pelo time de coração. Pelas posições políticas. Por afinidades que ninguém consegue explicar. O que era uma briga entre duas pessoas vira uma inimizade ancestral entre facções.

Nisso entra em jogo o terceiro time. O time do deixa disso. Desmoralizado, sem entender bem o que se passa e sem argumentos para convencer a turba enfurecida, eles tentam impedir o inevitável com palavras de ordem e chavões inúteis:

– Pô, pessoal!
– Onde já se viu…
– Vocês são tão amigos.
– Vamos lá! Vamos fazer as pazes?
– Vamos parar com isso? POR FAVOR?!

Nesse balé desengonçado, o dono do bar, como o tocador de pratos de uma orquestra caótica, espera o momento certo de chamar a polícia. Objetivo: resguardar a integridade do seu empreendimento perdendo o mínimo de clientes. Sabe que, infelizmente, nunca agirá no momento certo. Na confusão, alguém esbarra numa garrafa que cai no chão gongando o início da luta.

Os ânimos se acirram. Os iniciadores da confusão aproximam seus rostos e respiram bufando um na cara do outro. Falta pouco para tudo degringolar. Apenas um tapa. Um cuspe. Um olhar mais feio. Então…

– Olhem lá!- alguém grita da porta do bar.

Alertas pela adrenalina gerada nas preliminares da briga, todos se viram. Caminhando onde os carros deveriam passar, cinco mulheres, para dizer a verdade, meninas, lindas, no primor da sua juventude, tomam a rua numa passeata misteriosa. Rindo e languidamente apressadas, elas caminham pelo meio da avenida com destino e origem ignorados. Apenas um detalhe: todas estão vestidas de havaianas. É. Havaianas. Com colares de flores de papel crepom; tops imitando cocos; arranjos exagerados nos cabelos; e saias de palha plástica colorida. E, para completar, de pés inexplicavelmente descalços. Alheias à briga, elas flanam faceiras, se dando empurrões e cutucos assim como os brigões. Só que, no caso delas, sem agressividade, apenas com cumplicidade.

No bar, homens e mulheres, inebriados por sua presença, respiram fundo tentando sentir o seu perfume. Sentem. Ou imaginam que sentem. Não faz diferença. E sorriem. Verdadeiramente.

As teorias começam a surgir. Assim como as dúvidas. Quem são elas? De onde vem? Para onde vão? O que diabos estão fazendo aqui? À essa hora?! As dúvidas e curiosidades são muitas e suficientes para distrair todos do conflito que parecia ser tão necessário resolver.

As meninas dobram a rua e somem a caminho da praia. Como um perfume marcante, seu riso ecoa nas paredes dos prédios nos lembrando da sua existência, até que some num silêncio ensurdecedor. De um momento para o outro, aquilo que parecia tão real e tão correto deixa de existir de fato.

Todos baixam as cabeças. Não sabem mais o que fazer. Alguns se sentam, aturdidos. Outros aproveitam para pagar a conta e escapar à francesa da confusão. Alguns, magoados pelo sumiço das meninas, lembram da briga e transformam a sua frustração em agressividade, retomando o conflito. Os brigões, mesmo sem clima, voltam às suas posições iniciais. Podem até apanhar mas nunca desistirão daquilo em que acreditam. Se perguntam sem resposta: qual era mesmo a razão da briga? Voltamos ao começo.

Os envolvidos se estranham. Olhares tortos, palavras tortas. Antes do novo primeiro empurrão, uma surpresa.

Despontando no início da rua, uma sexta havaiana, não tão bonita, mas infinitamente mais charmosa, corre esbaforida atrás de suas amigas, deixando seu colar cair pelo caminho.

– Me esperem. ME ESPEREM!

O bar inteiro é obrigado a cair na gargalhada. Os brigões, envergonhados com a sua postura, se abraçam e oferecem, mesmo sem dinheiro suficiente, pagar a conta um do outro. O dono do bar suspira por ter escapado por pouco da decisão entre proteger a estrutura do bar e manter a clientela. Os outros clientes agora dão razão à turma do deixa disso e os parabenizam por tentar manter a paz.

– Paz. Amor. Beleza. Assim não é melhor de se viver?- sentenciam e fecham o caso.

As saideiras são pedidas e o mais empolgado dos clientes, sempre há um deles, sai correndo pelo meio da rua atrás das meninas com o colar abandonado na mão. Depois da meia noite, busca por sua Cinderela havaiana.

– Ei, espere por mim também. ESPERE POR MIM!

Já te contei por que amo Copacabana? Deixa eu te falar…

A briga começa…