Arquivo do Autor: Lisandro Gaertner

Sobre Lisandro Gaertner

Escritor, roteirista, game designer e especialista em aprendizagem. Mais informações na BIO.

A morte do Cão e o anúncio do Ministro

Quando eu tinha uns 11 anos, ganhei de presente um Beagle. Foi uma alegria. O cachorro era maravilhoso: bonito, esperto e sapeca na medida certa. Motivado pela minha obsessão por Conan Doyle, dei-lhe o nome de Holmes. Ao mesmo tempo em que me divertia em ser perseguido por ele no aterro do Flamengo como um menino de 6 anos, curtia passear com o Holmes na rua e ver as meninas parando para acarinhá-lo e flertar comigo. Foi o melhor companheiro para a minha transição de criança para adolescente.

Infelizmente, depois de dois anos de muita alegria, ele caiu doente. Entra e sai do veterinário, ninguém descobria o que acontecia. Cancer, envenenamento, depressão; as teorias eram muitas, mas conclusão? Nenhuma. Isso não diminuía a dor que sentíamos ao vê-lo, antes tão alegre e bonito, definhar de tristeza.

Um sábado de tarde, meu pai me chamou e decretou:

– Vamos passar essa tarde com o Holmes, antes de ele morrer.

Sentamos na sala e tentamos fazê-lo brincar. Sem sucesso. Fazíamos carinho, mas ele não respondia. Num último arroubo ele se levantou, mas aparentemente ficara cego, e ricocheteava nos móveis tentando se agarrar à vida. Antes que pudéssemos aninhá-lo, ele caiu, golfou sangue e morreu.

Agora,  enquanto acompanho a crise política, só me lembro do Holmes. Vigio os noticiários online esperando nomeações de ministros e acompanhando os movimentos do judiciário como o menino que assiste seu cachorro morrer. Assim como aconteceu com o Holmes, ainda havia dentro de mim uma esperança que o Brasil não morresse, mas sei que era vã.

Meu pai, na sua sabedoria, já sabia que o máximo que podíamos fazer era homenagear aquele que nos fez feliz. Mesmo que estivessem corroídos internamente e envenenados, Holmes e o Brasil não mereciam ser lembrados por seus últimos momentos. Cegos, débeis, morrendo por razões misteriosas e ao mesmo tempo completamente aparentes.

Depois que Holmes morreu, meu pai o enrolou num lençol, deitou meu cachorro numa bolsa de palha e o levou para destino ignorado. Nunca discutimos o que aconteceu. Foi enterrado? Incinerado? Não queríamos saber. Tudo o que importava era que ele não estava mais lá.

Lembro do Holmes e penso no Brasil. Teremos um enterro tão desrespeitoso como o de Holmes? Quando nossos animais e países de estimação morrem, como podemos lidar com o luto de forma respeitosa? Alguém pode me responder? Eu não consigo pensar em nada. Só no Holmes. Só no Holmes.

Talvez só me reste comprar um cachorro.

Ecos

No meio da madrugada, o barulho da máquina de escrever elétrica me acordou. Segui o zumbido futurista do deslizar da esfera metálica da IBM até o quarto da minha mãe. Sob uma fraca luminária ela se esforçava para escrever curvada sobre aquela grande peça de metal verde. Fiquei ao seu lado por pelo menos uns 5 minutos antes que ela se desse conta da minha presença.

– Te acordei, filholo?

Ela me colocou no colo e me levou de volta pra cama.

– Desculpa, filholo, mas enquanto não terminar de escrever essa tese vou ser obrigada a passar as noites com o Umberto Eco.
– Quem é Umberto Eco?
– É um homem que eu não sei se amo ou odeio.

*

A greve da UFRJ levou as aulas mais uma vez para janeiro. Eu estava de férias do colégio, mas minha mãe não tinha com quem me deixar. O que fazer? Leva o menino pra faculdade. Ela me sentava no final da turma e eu passava as tardes vendo o povo discutir coisas que eu não entendia e, confesso, ainda não entendo direito.

Naquele dia foi diferente. De noite minha mãe me entregou um livro vermelho e grosso e me disse:

– Pra você não ficar boiando amanhã, lê das páginas 84 à 127.

Eu li. O livro falava dos números perfeitos, da arquitetura do paraíso, das falhas de Deus e como o homem não conseguia entendê-lo. Era isso que era a tal da Filosofia?

No dia seguinte assisti ao seminário dela sobre O Nome da Rosa me sentindo o tal. Não boiei tanto e lembro de até ter a empáfia de fazer perguntas. Nascia em mim o verme do esnobismo intelectual.

*

Fizeram o filme de O Nome da Rosa. Todos do colégio fomos assistir. Naquela época ou íamos ao cinema, ver o que estivesse passando, ou ficávamos de castigo assistindo ao Chacrinha. Pra alguns, que tinham suas chacretes preferidas, nem era castigo.

Duas horas depois de franciscanos versus beneditinos, saímos do filme em choque. Menos pelos peitos da Valentina Vargas, mais por descobrirmos que estudávamos no colégio dos vilões do filme.

– Putz, esses beneditinos são filhos da puta há muito tempo- chegamos à conclusão entre um chicken mcnugget e outro.
– Pois, é. O filme é medieval mas retrata igualzinho o que a gente vive hoje.
– Isso. Vivemos num labirinto de livros perseguidos por monges pervertidos.
– É.
– É.
– É.
– Não. Não. Não.
– Como assim, não?
– Vocês não entenderam nada. Não somos os franciscanos. Nós somos os beneditinos.

E no silêncio da concordância nos descobrimos como os vilões que ainda somos.

*

Meu sócio estava recebendo a sobrinha da namorada australiana  para passar o Réveillon no Rio. Quando ela cansou de praia, Cristo, botequim e Pão de Açúcar, ele me ligou pedindo ajuda:

– A menina diz que gosta de ler. Traz uma porra desses teus pockets em inglês aí pra ela.

Coisa difícil escolher livros pros outros. Especialmente para quem não se conhece.
Depois de duas horas de considerações, me decidi: O Pêndulo de Foucault.

Entreguei o livro pra menina. Dois dias depois, durante um almoço no trabalho, o meu sócio me devolve o livro.

– Uau, ela já leu?
– Nada. Nem chegou na página 10. Falou que era baboseira intelectual. Sabe como é? Australiana.

Fui vencido pelo anti-intelectualismo anglo saxão.

*

Quarta de cinzas. Um dos meus amigos de colégio me chama prum churrasco na sua casa. O resto da galera fura e sem ter muito o que fazer além de tomar cerveja e comer carne, acabamos passando a revista na biblioteca dele. Numa das estantes mais altas, uma cópia de O Nome da Rosa.

– Putz. É teu?
– Não. Alguém deixou aqui.
– Lembra do filme?
– Lembro. Lembro. Filme bom. Livro meeerda.
– Mas e o…
– Os peitos da Valentina Vargas?
– Não. O lance de descobrirmos que éramos os vilões do filme.
– Ah, isso. Esquece. Hoje em dia não dá pra ficar assumindo esse tipo de símbolo em público.

*

Umberto Eco morreu. Lembro que comprei O Número Zero e ainda não li. Assim que amanhecer vou procurar nas estantes. Vejo o quanto a minha casa se tornou um pequeno mosteiro beneditino. Labirintos de livros e armadilhas para os incautos em busca do saber/prazer. O quanto disso se deve a ele? Ou o quanto disso eu atribuo a ele?

Os símbolos, no fim da história, não parecem ter sentido na medida em que eles só se justificam pelo poder que tem de nos tornar símbolos para nós mesmos. Como os monges lambemos livros envenenados em busca de algo que não está lá. Vivemos em cidades cenográficas que fingimos ser reais.

Enquanto digito essas palavras numa extensão para o Chrome que simula o som de uma máquina de escrever, recebo um e-mail do EReaderIQ  avisando que o Cemitério de Praga está em promoção na Amazon. O e-book. Algo que Umberto Eco tanto odiava. Será um sinal de que ele, como ideia, está finalmente morto? Ou será que apenas estou transformando essa serendipidade em mais um símbolo vazio?

Compro o livro. Os símbolos e os signos que cuidem dos seus próprios significados.

Alegria, Alegria!

O excesso de festividades e essa alma celebrativa do brasileiro escondem uma grande melancolia. É só andar pelas ruas num dia como hoje para notar. Depois da grande festa, as pessoas se movem lentas, sem destino, passando por terríveis crises de consciência. Ressaqueadas. Física e moralmente.

Alguns mais guerreiros continuam a se intoxicar tentando voltar àquele estado inebriado de felicidade. É inútil e apenas esconde a vontade secreta de ficar infeliz. Mas mesmo assim tentamos.

Um casal de idosos, bêbados, abraçado numa esquina é estimulado por uma menina:

– Beija ela! Beija. Ela não vai lembrar de nada. Tá bêbada.
– Bêbada, nada- defende o consorte.

Se beijam. Provavelmente não lembrarão de nada.

Na padaria, lotada, um sujeito passa apertando mãos:

– I’m hungry. Tengo hambre. Tô com fome.

A miséria de fato e da espírito está globalizada.

Ele tenta pegar o dinheiro da mão de um gringo.

– Sorry, bro. No money.

O malandro não se abala e passa para o próximo da fila. Mais um poliglota humilhado.

A sensação é de que o brasileiro acha que alguém está sempre lhe devendo algo, que a razão da sua desgraça está no outro e não nele mesmo. Parece que lhe impediram de entrar na Igreja e quem entrou é obrigado a lhe ajudar. Afinal quem tem graça deve dá-la aos desgraçados.

E não há graça, nem riso que aplaque essa sensação. Por isso vamos festejar.

Um amigo que trabalhava com dependentes químicos uma vez me disse:

– O que o alcoólatra mais anseia é pelo momento da ressaca.

Assim é o brasileiro. Festeja pois quer ficar triste e não aceita a sua própria tristeza. Com a ressaca terá motivo para encarar o mal que lhe aflige, fingindo que é culpa do álcool. Não é só patético, é covarde.

Acho que já está mais do que na hora de elaborarmos esse luto e podermos festejar para ficarmos verdadeiramente felizes e não para encobrir a tristeza que não aceitamos.

Deve ser uma sensação mágica. Não lembro de ter experimentado. Sou, antes de tudo, um brasileiro.

Vim aqui lhe contar algo sobre 2016

Segunda feira, 6 da tarde. Os amigos se reúnem para o Chandon Sunset, evento bacana onde assistimos juntos na praia de Ipanema o pôr do sol, entre taças de espumante, para eles, e cerveja, para mim. Apesar do que dizia a previsão, o tempo, apesar de bem nublado, se mantinha estável. A bruta chuva prometida era ainda apenas uma promessa.

A cada rajada de vento ou pingo renegado, o povo murmurava entre si:

– Não vai chover. NÃO VAI CHO-VER.

Dito e feito. Choveu.

Mesmo sob um dilúvio, como muitos que estavam na praia, não arredamos pé. A chuva veio. A chuva foi. A chuva voltou. Ventou forte. Mas, graças a Deus, não rolou nenhum raio. Enfim ela acabou.

Comemoramos a nossa resiliência e perseverança. Alguém comentou:

– É preciso aguentar a chuva para ver o pôr do sol.

Tem razão. Tem razão.

*

Último almoço de trabalho do ano, Sushi e Kirin para engolir um ano difícil mas vitorioso. Mesmo que nos pênaltis. Conversamos sobre os acertos e erros do ano e, especialmente, sobre a falta de previsibilidade do ano que vem. Murmuramos entre nós:

– Tudo pode acontecer. TU-DO PO-DE A-CON-TE-CER.

Na hora de pagar o banquete a quilo de meia hora, o cartão alimentação, sinal da nossa sorte corporativa, é negado. A conta passou R$0,11 do que tinha pra esse mês. A caixa não se furtou a me dar o desconto. Com a boleta na mão, ela disse:

-Taí. Zeradinho pro ano que vem.

Tomara. Tomara.

*

No botequim da esquina, as famílias se reúnem para o último chopp do ano. Contam suas histórias de dureza e também as de superação. As crianças brincam na rua, enquanto os adultos, mesmo esperançosos, temem o que futuro trará para elas.

Na volta de mais um passeio no quarteirão com a minha filha, percebo que o celular que tinha deixado na mesa sumiu:

– Você não estava aqui?
– Fiquei o tempo todo. Não será que caiu no caminho?
– Não. Deixei aqui.

Procura. Procura. Não acha. Todos lamentam e alguém lembra de um velório em que um amigo se confundiu ao cumprimentar o colega cuja mãe tinha morrido:

– Vão-se as mãos, ficam-se os anéis.

Rimos. O que é perder algo material?

*

Por que estou lhe contando isso?

Sou um fiel crente na quarta dimensão. Vejo e acredito que o Universo está sempre nos mandando sinais. Para mim, fica evidente que o recado de agora é: o que é do passado lá deve ficar. E, complementando, a vida em 2016 será nova e, Oxalá, boa!

Por isso, vamos deixar 2015 para trás e viver 2016 como um novo começo. Um começo de relações, trabalhos, sonhos, conquistas, histórias e tudo mais que faz a vida ser boa.

Como dizia J.G. Balard: Eu resumiria o meu medo do futuro em apenas uma palavra: chato.

Vamos ter um 2016 interessante e divertido.

Por isso estou lhe contando isso.

Ah, e para avisar que estarei sem celular até o começo do ano que vem.

Por que precisamos acabar com Roberto Carlos

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Nesse período natalino, é só ligar a televisão para esbarrarmos com a onipresença de Roberto Carlos. Quando não temos a sua decrépita imagem na tela, são artistas da moda bajulando-o com frases feitas em forma de oração; ou novas estrelas da música ofertando ritualmente a sua energia vital ao cantor moribundo; ou jornalistas tentando inutilmente nos convencer da importância que ele nunca teve; ou subcelebridades que não conseguiram participar desse funeral anual lamentando estarem fora dessa festa nacional.

A onipresença de Roberto Carlos, na comemoração do nascimento de Cristo, é bem pertinente e serve como um belo contraponto, pois, como a comemoração do aniversário de alguém que já morreu há dois milênios, se trata do velório eterno de uma ideia que se recusa a morrer. Uma ritual de negação que nos impede de fechar o luto pela morte do tal proclamado “rei”.

Roberto Carlos, assim como a ditadura, sua irmã gêmea espiritual, morreu em meados dos anos 80. Mas, ao contrário dela, se manteve em coma, sustentado por aparelhos, por mulheres gordinhas, de óculos e por caminhoneiros, até que voltou a uma não vida e vaga pelos nossos natais e transatlânticos como um zumbi, evocando sentimentos de melancolia e saudades de controle. Cultuar o rei, assim como cultuar a ditadura, é acreditar numa nostalgia inútil e sadomasoquista. Se a ditadura fingia que iria nos ensinar a crescer e votar, apud Pelé, Roberto Carlos fingia que ia nos ensinar a amar.

Com sua postura pseudo sexy e sua manifestação ostensiva de uma masculinidade de romance barato, ele criou o AI-5 do romantismo. Promovida por esse arauto da ditadura emocional toda uma cultura de cafés da manhã, cavalgadas, cabelos encaracolados e metáforas sexuais de botequim se formou. Presos a essas crenças, passadas de pai e mãe para filhos, continuamos infantilizados e sem autonomia para escolher como amar. Assim como ainda não entendemos a democracia e esperamos que a salvação venha de políticos, ainda continuamos proferindo as músicas do “rei” como uma oração em busca do amor que acreditamos não merecer.

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Terrorista do romance ostentação

Precisamos nos livrar dessas saudades do macho alfa da ditadura. Precisamos destruir esse ícone psicosexual do mau caratismo bem intencionado. Precisamos saber que fomos e ainda somos vítimas de um esquema para tornar a todos nós vítimas e canalhas. Como a ditadura não nos ensinou a crescer, Roberto Carlos não nos ensinou a amar. E, enquanto continuarmos ritualizando a sua não morte todos os anos, não seremos livres para cometer nossos próprios erros e continuaremos a acreditar que o amor, a liberdade e a maturidade emocional são coisas que estão nos outros e não em nós mesmos.

O que me preocupa em JJ Abrams

Ao contrário de uma pá de amigos que, respondendo ao hype da sua própria maneira, estão esperando que The Force Awakens seja uma bomba, tenho plena confiança que o filme será excelente.  JJ Abrams, não podemos negar, tem  imensa sensibilidade e um admirável respeito com materiais ditos clássicos, sejam eles franquias ou gêneros, ao mesmo tempo em que injeta novidades  tornando-os algo novo e interessante. Repito, não me preocupo com The Force Awakens. O que me preocupa é o que vem depois.

Abrams, todos também sabemos,  nunca foi um maratonista. Sua especialidade é mesmo a curta distância. Entrega um produto excelente num curto prazo mas tem pouco fôlego. Infelizmente isso é fatal nos tempos de hoje. A indústria do entretenimento é feita ao mesmo tempo de repetição e novidade. Por isso é importante que o mesmo produto seja estendido à exaustão para maximizar o lucro. Aí é que ele se embanana. Seja em Felicity ou mesmo em Lost, e agora vemos isso no trailer do próximo Star Trek, ele claramente perde o interesse no meio do caminho. As histórias se perdem, ganham contornos bizarros, e  simplesmente ofendem aqueles que foram cativados por elas em seus inícios.

Não sei a razão disso. Talvez seja uma revolta inconsciente de um artista realmente artesanal. Talvez seja o cansaço de continuar trabalhando numa mesma coisa. Talvez ele não tenha força para lutar contra os interesses das companhias e ceda onde não deveria. Talvez ele simplesmente tenha baixa capacidade de concentração. Não sei. O que realmente me preocupa não é o que verei em poucas horas no cinema. Meu maior medo é me apaixonar por novos personagens, amar ainda mais os antigos, e ver tudo ir por água abaixo em dois anos.

Acha que estou exagerando? Reflita sobre os links abaixo e me responda: isso não é o trabalho de um cara que simplesmente deixou pra lá?

How lost should have ended

How Felicity lost its shit

Não espanta que a música tema do trailer de Star Trek seja SABOTAGE.