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Mulher Solteira, quer dizer, Casada procura Empregada

(sim, contém spoilers, mas como ninguém lê isso aqui, nem sei por que estou avisando)

Tem certas coisas que dão saudades. Uma delas é a finada sessão de pré-estreia nos sábados à meia noite no Star Ipanema. Não importava o filme, lá estava eu e uns amigos abnegados, na fila, tentando comprar ingresso para assistir antes do restante da população a histórias que nem sempre valiam a pena serem assistidas depois, mesmo na TV.

Os tempos mudaram. Há muito não existem mais pré-estreias de verdade. Os filmes têm soft openings, começando a ser exibidos antes do lançamento em diversos horários e salas de cinema diferentes. E o Star Ipanema? Nem fala nisso, que me dá gatilho, foi substituído, como muitos cinemas de rua, por uma Casa & Vídeo que nem sei se ainda permanece lá.

Um dos filmes que me lembro vivamente de ter assistido numa dessas pré-estreias foi o Mulher Solteira Procura. Na época eu tinha uma paixonite adolescente pela Jennifer Jason Leigh, e juntar ela com a Bridget Fonda, numa obra do Barbet Schroeder, diretor de O Reverso da Fortuna e Barfly, tornou a pré-estreia uma questão de honra para mim.

Sim, eu já sabia que não seria um bom filme, mas ele atenderia a uma série de necessidades inconscientes que eu tinha na época e, como antigamente, gosto era uma questão privada, não tenho vergonha de confessar, até que curti a experiência ao ponto de ler o romance em que se baseou e reassistir algumas vezes no VHS.

Em 1992, uma queria virar a outra

Hoje, fui a um dos poucos cinemas de rua que ainda temos no Rio: o São Luiz, que, como o Star, fica dentro de uma galeria que finge ser shopping. Mesmo sem querer, para tornar a experiência mais analógica, em vez de comprar o ingresso na Internet, dessa vez comprei no próprio cinema como fazia na época da pedra lascada. O filme? Tá, não era uma pré-estreia, mas um filme que já está há muito tempo em cartaz e quase todo mundo já viu: A Empregada, thriller dirigido por Paul Feig, que serve de veículo para Sydney Sweeney e Amanda Seyfried.

Engraçado que, por outras razões, durante a exibição eu não parava de pensar em Mulher Solteira Procura. As similaridades entre as histórias não são tantas, mas alguns pontos de contato geram reflexões interessantes sobre as mudanças no papel feminino na sociedade, nas suas representações na mídia, nas relações de companheirismo e poder entre as mulheres e com os homens dos anos 1990s para cá.

Em ambos os filmes mulheres parecidas fisicamente, ou tratadas como tal, vão morar juntas, e há diferenças de poder entre elas, que geram relações tóxicas, motivadas por inveja e segredos. Óbvio que há nas histórias movimentos de troca de papel que não saem como o previsto, porém a resolução e a origem dos conflitos nas histórias diferem, o que mostra o que mudou, e, também, o que não mudou.

Em 2025, é o olhar masculino que tenta torná-las iguais

Sim, a competição entre mulheres ainda existe e suas relações são carregadas de comparações negativas especialmente nos papéis tradicionais familiares e sociais, porém a causa desses conflitos e a sua resolução mudou nesses 30 anos. Como se estivéssemos utilizando a técnica dos 5 porquês, para identificar as causas raiz dos problemas, estamos nos aprofundando nas razões que geram essas animosidades desnecessárias que destroem a sororidade e trazendo resoluções diferentes para resolvê-las. Em 1992, relação entre as mulheres se tornava perigosa por traumas familiares, com uma explicação psicanalítica rasteira; em 2025, é a masculinidade tóxica e o sexismo estrutural, se aproveitando de múltiplas fragilidades, que jogam as mulheres umas contra as outras, na busca justificada, mas egoísta, pela sobrevivência individual.

Óbvio que os cenários e estilos são diferentes. Mulher Solteira se pretende como um thriller mais sério e se passa numa terceira onda, quase pós, feminista; enquanto A Empregada parece até mais retrógrado com um bando de trad wives oprimindo uma trabalhadora precarizada, mas tem mais humor, nada surpreendente se tratando de um filme do diretor de Missão Madrinha de Casamento.

Agora se tem uma coisa que realmente uniu os dois filmes foi o prazer de vê-los no cinema e com um público vivo reagindo a sustos e viradas de roteiro. Como toda a história de vingança e libertação, é sempre melhor vivenciá-la em grupo. Rimos juntos das partes despropositadamente cômicas, nos assustamos juntos com os perigos vividos pelas protagonistas, e vibramos em uníssono com as suas vitórias. Assim, como fiz em 1992, saí do cinema, ciente que não foi um filme bom, mas, mesmo assim, curti demais.

Aproveitei a livraria aberta no caminho de casa e comprei o livro para vivenciar novamente a sua história. Afinal, quando as mulheres conseguem se libertar das relações e dos algozes que as oprimem, mesmo na ficção, de uma certa maneira, nos libertamos todos.

Agora, estou curioso para ver, espero, novamente num cinema de rua e com uma plateia animada, como esse mesmo conflito será representado daqui a uns anos. Qual será o novo porquê que precisaremos enfrentar em prol da sororidade?

O Comunismo Punk Rocker Decolonial de Superman

Essa semana, num grupo do Whatsapp, compartilhei algumas imagens da 2a. edição de Absolute Superman e surgiu a inevitável pergunta: “O Superman virou comunista?”.

Taí algo difícil de responder, especialmente considerando a trajetória de quase 90 anos do herói.

Superman foi criado por dois jovens judeus, filhos de imigrantes, e vítimas de antissemitismo  nos estertores da Grande Depressão. Originalmente não era o escoteiro azulão que a maioria de nós identifica. Ele era um vigilante, mal visto pela polícia, que lutava contra os gangsters e políticos corruptos que infestavam Metropolis e os Estados Unidos. Na Segunda Guerra foi usado na luta contra o fascismo e o nazismo, sempre se posicionando ao lado dos, como brincávamos quando crianças, fra(s)cos e (c)o(m)primidos.

O mais interessante é notar que a sua criação bebe em fontes sempre relacionadas a conceder poder ou liberdade aqueles que são alvo das forças tirânicas, desde o jocoso fisiculturista Charles Atlas, que prometia aos meninos fracos poderem revidar contra seus bullies, até Moisés, que, vindo de uma família de judeus escravizados, foi criado pela realeza egípcia até se tornar o libertador do seu povo. Com base nessas referências, a história do Superman sempre foi ligada a proteger aqueles com menos recursos, poder, e possibilidades.

Charles Atlas contra a opressão dos ratos de praia

É claro que a figura foi usada ideologicamente. À beça. Dos anos 1950 aos 70, quando os Estados Unidos se proclamavam os grandes libertadores do mundo, lá estava ele defendendo A Verdade, A Justiça e o American Way of Life. Mas nos 1970s a porca torceu o rabo, e, como todo mito, Superman teve que se adaptar ao seu ambiente.

Depois do escândalo de Watergate, a confiança dos americanos em suas próprias fantasias ficou abalada, o governo passou de aliado à vilão, e Superman foi instado a tentar resgatar o sentimento patriótico. Foi nesse momento quando surgiu a versão seminal de Christopher Reeve, cercada de bandeiras estreladas, defendendo o “presidente” no salão oval e, inclusive, devolvendo a cúpula à Casa Branca, destruída por Zod no segundo filme da franquia. Porém, mesmo com tanta propaganda, era claro que algo havia mudado.

Lex Luthor, interpretado cômica e genialmente por Gene Hackman, não era mais aquele protótipo de cientista hipertecnológico com jeitão de Soviete Supremo. Ele era um esperto cientista, sim, mas que ambicionava se tornar um grande empresário do ramo imobiliário (como um certo presidente fascista e laranja que conhecemos). Seu plano maléfico era enriquecer com as terras baratas que comprou no deserto da Costa Oeste americana, que hipervalorizariam após ele jogar um míssil nuclear na falha de San Andreas. Essa crítica ao “sonho americano” teve seu apogeu cinematográfico no fraco “Superman: Em Busca da Paz”, em que ele, indo além da luta contra o crime, se empenha na missão de acabar com o arsenal nuclear do mundo.

Nos quadrinhos essa mudança foi ainda mais contundente. Lex Luthor se tornou um empresário respeitado vivendo no limite da legalidade, que eventualmente se torna presidente nos anos 1990s (como são incríveis esses paralelos). Essa supremacia Luthor, somando-se a outras questões, acaba levando Superman, na defesa da sua condição de imigrante, ainda em prol do povo mas contra o status quo, à abdicar da “cidadania” americana que, cá entre nós, ele nunca teve.

No século XXI, as mudanças continuaram e em maior velocidade. Refletindo a confusão dos Estados Unidos, e do mundo, sobre como se organizam as novas estruturas de poder, Lex Luthor virou um pastiche de Mark Zuckerberg, na interpretação de Jesse Eisenberg, que inclusive interpretou o vilão, quer dizer, fundador do Facebook em a Rede Social. E nos últimos anos, vimos até o Superman ser tratado como inimigo do governo americano, na péssima versão do Zack Snyder, e, recentemente, se proclamar um punk rocker sob a competente e reverente direção de James Gunn.

O mal absoluto sempre é relativo ao mal do momento

O que enfim nos leva à nova versão (comunista?) do Superman Absolute.

Nessa nova releitura, ao contrário da mitologia tradicional, Superman não é filho da nobreza de Krypton, mas de sua classe trabalhadora, e vem para a Terra com a missão de libertar os humanos da opressão que ele mesmo sofreu em seu planeta natal. Lois Lane faz parte das forças paramilitares de uma corporação que domina e precariza imensas quantidades de pessoas para extrair riquezas do nosso planeta, mas começa a se afeiçoar a esse revolucionário que seus chefes perseguem. Com esse set up, talvez chamar ele de comunista seja anacrônico. Para usar um termo mais na moda, talvez ele seja decolonial.

O engraçado é que, quando comecei a organizar esse pensamento, me lembrei muito do jogo de RPG da DC nos anos 1980s. Nele os personagens, além de seus atributos físicos e poderes, tinham motivações. Alguns buscavam justiça, como o Batman, outros estavam ali pela diversão ou por terem que arcar com poderes indesejados, mas o Super tinha uma motivação bem peculiar: fazer o bem.

Mas o que diabos é fazer o bem? Simplificando pacas, fazer o bem é ser ético. E agir eticamente irá variar dependendo do mal que nos cerca. Em uma época, é lutar contra esquemas de corrupção policial e governamental; em outras, é derrubar ditaduras; mais pra frente é desarmar ou alimentar o mundo; ou, como agora, é simplesmente ter o coração aberto e confiar nas pessoas e ser decolonial, lutando pelos povos oprimidos pela ganância e exploração da natureza e do trabalho precarizado.

Alimentar o povo do Rio de Janeiro é a epítome de fazer o bem

Por isso, respondendo à pergunta do colega, não acho que essa nova versão seja um Superman comunista. Só estamos vivendo num mundo em que relacionamos parecer ser “comunista” ou punk rocker com ser “bom”, e, assim, o Super, como símbolo dessa bondade, se adequa às nossas fantasias de salvação.

Luto, memória e (i)mortalidade

No seu livro Imortalidades, Eduardo Gianetti asperge uma discussão em robustas gotas sobre como lidamos com a morte. Se espelhando um pouco no modelo de O Mal Estar na Civilização de Freud, ele sugere como estratégias mais comuns para encarar o nosso inevitável destino: crer que há algo depois da ou na própria vida que lhe conceda um propósito externo; deixar um legado para que futuras gerações evoluam a partir dele e, por que não?, também celebrem o que você construiu; viver o momento, numa busca desenfreada pelo prazer mundano ou se entregando à plenitude mística do presente; e, enfim, algo não previsto por Freud, literalmente tentar viver pra sempre, seja congelando seu cérebro, através de clonagem, ou fazendo o upload da sua consciência para o mundo digital.

Apesar das estratégias terem contextos e ferramentas diferentes, todas almejam um mesmo objetivo: a manutenção perene da consciência. E é aí que a questão emperra um pouco pra mim. O que diabos é essa tal consciência? Consciência é ter a percepção de um EU separado do mundo? Consciência é uma espécie de alma que nos torna únicos? Consciência é apenas a oportunidade de interagir de forma proposital com a realidade, tendo “ciência em conjunto” com os elementos que circulam ao nosso redor? Ou, num movimento inverso, consciência é poder desfrutar da experiência do seu mundo interior?

Fica claro que a consciência, em todas as suas possíveis manifestações, tem um ponto central: o ego. A diferenciação, a separação entre um mundo interno e externo, a agência proposital, a possibilidade de exercer a sua posição sobre o mundo e como uma criança frente a um cimento fresco poder escrever sobre ele o seu nome.

Sempre tentando permanecer “forrever” (sic)

Se a nossa consciência depende dessa separação do nosso ambiente, no qual se incluem outras consciências, o que nos diferencia é justamente o que nos permite ter um mundo mental à parte, que promove diferentes ações e reações na nossa relação com a realidade. E esse mundo exclusivo é uma direta consequência das experiências únicas que vivemos: nossos traumas, conquistas e imaginações; tudo o que sentimos, passamos, sofremos; e, especialmente, aquilo que significamos sobre o que sentimos, passamos e sofremos. Afinal, se fôssemos uma grande massa única compartilhando as mais diferentes experiências, como ocorre com a humanidade na série Pluribus, poderíamos considerar sermos uma consciência de fato?

A consciência é, assim, um ato egoísta. Para ser diferente do resto do mundo, o que você vive precisa ser só seu, e o cofre que protege essa riqueza única é a memória. Se o valor de toda a nossa consciência reside na memória, perdê-la pelo tempo, por morte, por doença, ou pelo apagamento social/político, é uma verdadeira ameaça à vida. Esquecer ou ser esquecido são como morrer.

Enquanto assistia a Train Dreams, percebi que boa parte dos filmes indicados ao Oscar esse ano tratam dessa relação entre memória, luto, e (i)mortalidade.

Em Hamnet, a memória do filho morto é preservada pela sublimação do luto na forma de um legado inquestionável; em O Agente Secreto, uma cadeia de múltiplos lutos precisa ser trabalhada a partir de uma perspectiva histórica para a preservação de uma consciência de indivíduo, família e nação; em Valor Sentimental, as diversas relações das ascendências com a morte lutam por serem discutidas para curar os relacionamentos ainda existentes; e em Train Dreams, que suscitou essa reflexão, a memória se infunde com a natureza, deixando as nossas marcas sobre o ambiente que degradamos e que, em reação, se defende e vinga(?) de nós.

Somos mais do que o registro das nossas passagens?

Cada um desses filmes se esmera em trazer reflexões sobre como a nossa busca pela permanência e pela resolução dos lutos passados (ou futuros) se torna constitutiva não só de uma memória e consciência individuais, mas coletivas, se estendendo por gerações familiares, por florestas, pelo teatro e pela história de nações.

Não é surpresa que o ato de lembrar esteja tão em voga. Num mundo em que o excesso de informação faz um dumping do valor de todas as experiências, em que confundimos a vivência dos outros com as nossas, em que a história é distorcida por propósitos vis, e em que o mundo externo retira nosso tempo de viver em nossos mundos internos, o que está em risco não é apenas a nossa atenção, mas a memória que justifica a nossa consciência e representa a nossa vida. Por isso, é tão importante valorizar como lidamos com o que lembramos do que é e do que foi; do que é meu, seu e nosso; e do que nos define como seres humanos.

Talvez, para complementar o belo livro de Gianetti, além da preservação da consciência, precisemos nos debruçar sobre como fazer de nossas memórias objeto de perpetuação. Quem sabe, em vez de lutar pela impossível vida eterna (física, mental ou social), tenhamos mais sucesso e mais tranquilidade nas nossas existências ao mirar na preservação da memória. “Ser ou Não Ser”, sim, é a questão, mas lembrar e ser lembrado talvez seja o mais próximo que possamos chegar dessa desejada permanência.

As Helenas do Leblon versus o(s) revolucionário(s) da São Salvador

Por uma dessas coincidências quase folhetinescas, nesse domingo, eu amanheci no Leblon, exatamente no dia seguinte à morte de Manoel Carlos. E nada disso foi motivado pelo passamento do novelista mais importante do bairro. Eu estava no prolongamento ficcional de Ipanema para um compromisso marcado com antecedência: minha última aula do curso de meditação transcendental às 8 da manhã. Programa mais Helena do Leblon, impossível.

Óbvio que ao saltar na praça Antero de Quental, a minha percepção já estava completamente maculada pela perda. Assim, pelo caminho do curso, meus olhos passaram a procurar tudo o que fizesse coro ou contradissesse a obra do Maneco.

Primeira dissonância: a população de rua. Invisível nas novelas, ela acordava ostensivamente sob as marquises, na frente da saída do metrô, se espalhando pelo bairro em profusão, mas de forma discreta e recolhida. Para tentar me seduzir a tornar a realidade brutal mais próxima de uma cena deletada de Laços de Família, um homem sem teto, vestindo um tubinho vermelho colado ao corpo, se fazia de guarda de trânsito, organizando o já tumultuado cruzamento entre a Ataulfo de Paiva e a Bartolomeu Mitre. Por sorte não foi atropelado. Até quando vi.

Primeira ressonância: o silêncio quase figurativo. Era cedo, mas havia movimento pelas ruas. Bastante. Pessoas passando com compras de supermercado; pessoas indo para praia; pessoas conversando sem fazer barulho, como se fizessem figuração para uma cena que, eu sabia, estava lá, mas não conseguia precisar. Para resolver o mistério, fiz com os olhos o caminho que a cenografia, os figurinos, e a iluminação pareciam me indicar e, enfim, encontrei a cena de Maneco: um jovem casal com um carrinho de bebê tirando uma selfie com o filhote. Detalhe: os três de óculos escuros.

Durante a meditação, precisei ficar desviando das Helenas do Leblon que surgiam como pensamentos intrusivos no meio do meu mergulho pelas águas profundas do meu inconsciente. Como elas conseguiam se manter financeiramente se eram tão pouco profissionais em suas carreiras? Por que todas eram mães tão tóxicas que não percebiam como prejudicavam tanto suas filhas ao mimá-las? O que as levava a se envolver por tanto tempo com indivíduos imoralmente priápicos até aceitarem o amor das bem-aventuradas moscas mortas que se humilhavam por elas? Por que todas suas amigas eram pobres, conseguiam morar no Leblon e tinham namorados/maridos impotentes? O que lhes dava o direito de serem patroas tão racistas e por que nunca foram denunciadas por suas empregadas domésticas? Ah, e, por último, por que diabos o Maneco afirmava serem elas inspiradas por Helena de Tróia? Homero me salve!

O curso acabou, me deixando ainda com um zumbido mezzo troiano mezzo leblonense nos ouvidos. Novamente à mercê da Ataulfo de Paiva, já com o dia alto, Leblon veio com força total para cima de mim. Pessoas bem-vestidas tomando brunch em mesas nas calçadas sem serem importunadas; pessoas aparentemente cultas lendo jornais de papel ou discutindo livros cuidadosamente dispostos entre mimosas e croissants; pessoas veranis fazendo compras modestas em pequenos comércios que, com certeza, não têm como pagar o aluguel do metro quadrado mais caro do Brasil; pessoas saídas de sites de fofoca, acompanhantes, ou notícias estacionando carros, atravessando ruas, sendo banais. Sim, esse foi o retrato 3×4 que o Leblon me apresentou como identidade pós morte do seu criador: uma cena super produzida de cinema sobre banalidades sem propósito.

Sem me encaixar naquele cenário e sem saber o que fazer por ali, peguei o metrô e fui me refugiar onde eu fazia sentido como pessoa. 17 minutos e 7 estações de metrô depois, eu estava na praça São Salvador. O chorinho já começava a tocar seus primeiros acordes; as primeiras garrafas de Heineken do dia começavam a ser abertas; e os primeiros revolucionários de ar-condicionado enfrentavam um sol infernal nas mesas dos bares e nas calçadas planejando as últimas revoluções que nunca iriam acontecer.

Frente a todo esse espetáculo, que eu, de certa forma, também ajudo a ressignificar em contos e crônicas, me perguntei: quem sou eu para falar mal do Maneco e de seu bairro inventado? Não é porque eu não me sinto à vontade na barriga do seu cavalo leblonense que eu não faça parte do mesmo exército que busca resgatar Helenas ficcionais que nunca poderão ser salvas. Sim, o curso acabou, mas ainda tenho muito para meditar.

Morte à Comédia Romântica, Longa Vida à Comédia de Amor

Desculpa avisar, gente, mas o romantismo morreu. Sim, os aspectos de ingenuidade e paixão que ligávamos ao amor, desde os exageros mórbidos do ultrarromantismo até romances água com açúcar que caracterizaram o gênero por décadas e séculos, não passam mais pelo nosso teste de suspensão de realidade. Porém isso não quer dizer que não possamos ter excelentes obras que falem sobre o amor.

Amor e romantismo, é importante lembrar, não são sinônimos. Nós simplesmente encaixávamos tudo dentro de um mesmo gênero em prateleiras de livrarias, videolocadoras, serviços de streamings, e lojas virtuais, e passamos a acreditar que essa relação de proximidade era de identidade. Não, não é.

Por mais que o romance tradicional hoje possa parecer datado e seus tropos não façam mais sentido (afinal, quem ainda acredita, além da Glória Perez, em amor impossível ou “proibido”?), as histórias sobre amor, inclusive as comédias, continuam não só relevantes, como super atuais e necessárias.

Ontem encarei uma sessão dupla de comédias românti… quer dizer, de amor, que provam esse meu ponto.

A primeira foi a comédia espanhola Volveréis. O filme conta a história de um casal madrileno em processo de separação, saudável e amigável, eles não cansam de nos lembrar, que, seguindo uma ideia ao mesmo tempo estapafúrdia e sedutora do pai da moça, resolvem fazer uma festa de fim de relacionamento. Enquanto os preparativos da festa e os avisos de separação a amigos e familiares rolam, o quase ex casal tenta organizadamente tratar das partes práticas dos começos das suas novas vidas de solteirice. Em momento algum da história se discute a razão do fim do relacionamento, nem vemos qualquer animosidade realmente marcante entre eles. A relação parece apenas ter se esgotado. Talvez por isso, os amigos e familiares não aceitem tão bem esse fim quanto o casal aparenta aceitar, e propõem constantes questionamentos que eles evitam responder. O humor da situação vem justamente do pragmatismo do casal e da performance do fim maduro e equilibrado do relacionamento que é exacerbada pelo filme dentro do filme, estrelado pelo namorado e dirigido pela namorada que adentra a narrativa “real” do casal.

“Sim, estamos estamos nos separando, mas estamos ótimos”

O segundo foi Follamente, em português, O Primeiro Encontro, um filme italiano sobre, conseguem adivinhar?, o primeiro encontro de um possível futuro casal, num sábado à noite, durante uma final de futebol, para um jantar romântico(?) na casa da mulher. Apesar de estarem sozinhos em cena por quase todo o filme, as vozes em suas cabeças, quatro para cada um, representando diferentes aspectos de suas personalidades (o sexual; o racional; o romântico, olha quem apareceu por aqui; e o desequilibrado) discutem impelindo ou impedindo as suas ações. Além disso, em seu refúgio, o encontro também é invadido pelas vidas pregressas dos, torcemos, futuros namorados na figura de filhos e antigos relacionamentos fracassados. Apesar do protagonismo dos diálogos internos, aos poucos, a comunicação direta entre eles começa a acontecer, permitindo até que essas facetas de suas personalidades saiam de suas cabeças para falarem umas com as outras.

O diretor cercado pelas vozes das cabeças das protagonistas

Além de serem excelentes comédias muito atuais e realistas, dentro de toda a fantasia que propõem, os filmes ainda carregam uma outra similaridade: tratam o amor como um trabalho de construção. Seja no trabalho social e emocional do fim do relacionamento, como no trabalho psicológico e de autoanálise do seu início, ambos os filmes e casais explicitam que, mais do que paixões avassaladoras, os amores ou, se preferir, romances precisam de esforço, dedicação e delicadeza para funcionar ou, ao menos, existir.

Para quem já tinha achado que o amor era um fotograma fora dos cinemas, desde Como Perder um Homem em 10 Dias, a execrável comédia romântica(?) que transformou o amor num job precarizado, ver essas histórias em que se relacionar é, sim, um trabalho, mas um trabalho de amor, dá até um quentinho no coração. Quem diria que no final de 2025 poderíamos voltar a ter esperança no amor cinematográfico?

Da New Yorker ao SNL: Os 100 (ou 50) melhores (e mais élitistas*) anos da nossa cultura

2025 se vai com dois marcos: os 100 anos da New Yorker e os 50 anos de Saturday Night Live. Curioso que ambas as criações estejam ligadas a um humor inteligente (e, em algumas épocas, élitista*); tenham um forte e bem intencionado (mas atrapalhado) criador por trás (Harold Ross e Lorne Michaels); e são localizadas na cidade de Nova York (a nossa Roma moderna, ou, quem sabe?, Roma seja a nossa Nova York antiga).

Óbvio que a comemoração dessas datas não passou em branco no cinema. Tivemos um belo documentário sobre os 100 anos da New Yorker, The New Yorker at 100, onde, por meio dos preparativos para o seu centenário, vemos a importância da publicação para, sem exagero, o mundo, enquanto resgatam todas as demais mudanças que a revista impulsionou na sociedade americana e, por que não?, na cultura ocidental. Já para celebrar os 50 anos do SNL, Jason Reitman roteirizou e dirigiu Saturday Night, um retrato caótico e revelador (porém proposital) da primeira exibição e da descoberta da vocação do programa icônico.

Ambos os filmes são, qual remédio?, peças de propaganda, mas, com a finesse que a inteligência que representam pede, não economizam nos problemas enfrentados por essas revistas semanais (impressa e televisiva). E é justamente nos seus aparentes erros que se encontram seus maiores acertos.

Tanto a New Yorker como o SNL surgiram de agremiações de “desconhecidos” sem um claro propósito que não fosse produzir algo interessante, bem humorado, e pertinente para os seus tempos. E esses tempos, devido às suas longevidades, souberam lhes ser tanto cruéis como benevolentes.

Com o passar dos anos as empreitadas e os envolvidos nelas foram mudando, mas souberam manter vivas as essências mínimas que as constituem: estrutura e design simples e reconhecíveis; forte pegada contra-cultural; formação de uma comunidade quase hermética de leitores e espectadores; contribuidores emergentes, especialmente do cenário underground; e um esmero displicente com a mudança do que aí está.

Talvez a longa vida da New Yorker e do SNL fale mais sobre esse último século do que sobre elas mesmas. Vivemos de 1925 pra cá, com todas as dificuldades, uma era razoavelmente democrática onde era possível ser inteligente e engraçado fazendo troça com o establishment, enquanto ensaiávamos propostas de novas formas de viver em sociedade. É impressionante o poder que essas revistas tiveram para mudar nossos costumes, nossas formas narrativas, e até a nossa política.

Por mais incrível e maravilhante que isso possa parecer, é impossível não pensar: o que estaremos comemorando nos próximos 100, ou, sendo mais realista, 50 anos? Continuaremos tendo essas duas instituições sólidas para agradecer e congratular? Teremos novas criações em 2025 que conseguirão provocar o mesmo tipo de impacto e sobreviver por tantos anos?

Não sei, não sei. Mas, infelizmente, temo que não.

Semana passada numa conversa com Maurício Gouveia, proprietário e livreiro da Baratos, discutimos a inabilidade da nova geração em se posicionar de forma rebelde frente ao que há. Ao contrário do deboche e da ousadia do SNL e da New Yorker, na opinião do Maurício, o que vemos hoje são jovens conformados, usando apenas as ferramentas procedurais que lhes foram oferecidas pra tentar lutar por uma normalidade falsa que nunca existiu, mas que eles parecem acreditar que funciona.

A princípio não concordei, mas, depois de ver os dois filmes, me caiu uma ficha: onde estão os movimentos contra-culturais de 2025?

Tanto a New Yorker, como o SNL, surgiram como obras contra o que vigia na época: a América rural para a New Yorker, representada pela velhinha de Dubuque, e o Pesadelo no Ar Refrigerado, tornado carne no Impeachment de Nixon, para o SNL. O mesmo pode se dizer de muitos outros movimentos: a Nouvelle Vague, que comemorou os 65 anos de Acossado com um filme sobre a produção dirigido pelo Richard Linklater; os quadrinhos punk com Love & Rockets; os Beatniks; e por aí vai.

O fato é que Saturday Night Live e The New Yorker tiveram e tem importância pois são mais do que simples revistas, são movimentos ou reflexos das expectativas de mudança da sociedade. Por isso ainda tem impacto, ecoam as suas mensagens além de seus espaços midiáticos, e permanecem até hoje, na vida real e na nossa memória, como salvaguardas de ambientes criativos para as lutas artística e social.

E.B. White, se liga: não se pede demissão de um movimento.

Olhando para o nosso deserto conceitual onde o máximo de movimento com o qual conseguimos nos comprometer é um twittaço (ou seria Xiszaço?) ou um fim de semana sabático das redes sociais, eu lamento pelo nosso futuro. Será que a distopia que vivemos é tão inescapável que não sabemos ou não temos mais como tirar sarro da cara dela seja por texto, imagem, vídeo ou áudio? Será que há saída para essa nossa impotência contra-cultural?

Espero sinceramente estar errado, mas, pelo andar da carruagem, é bem capaz que em 2075 e em 2125 não haja mais nada a se comemorar. Os nossos movimentos parecem ter cessado e a nós e às futuras gerações só restarão a escuridão e o silêncio.

A não ser que você tenha alguma ideia doida a compartilhar. Bom, sou todo ouvidos, e, cá entre nós, tenho umas também pra te mostrar. Então, vamos nos juntar pra falar besteira e reclamar dos outros e da vida? Pera lá! Posso estar enganado, mas não é assim que os movimentos começam?

*Seguindo a regra da New Yorker e respeitando a origem francesa da palavra elite, quer dizer, élite, a mantive acentuada, mesmo que vocês não gostem. A revolução também se faz com acentos, sabia?