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As Helenas do Leblon versus o(s) revolucionário(s) da São Salvador

Por uma dessas coincidências quase folhetinescas, nesse domingo, eu amanheci no Leblon, exatamente no dia seguinte à morte de Manoel Carlos. E nada disso foi motivado pelo passamento do novelista mais importante do bairro. Eu estava no prolongamento ficcional de Ipanema para um compromisso marcado com antecedência: minha última aula do curso de meditação transcendental às 8 da manhã. Programa mais Helena do Leblon, impossível.

Óbvio que ao saltar na praça Antero de Quental, a minha percepção já estava completamente maculada pela perda. Assim, pelo caminho do curso, meus olhos passaram a procurar tudo o que fizesse coro ou contradissesse a obra do Maneco.

Primeira dissonância: a população de rua. Invisível nas novelas, ela acordava ostensivamente sob as marquises, na frente da saída do metrô, se espalhando pelo bairro em profusão, mas de forma discreta e recolhida. Para tentar me seduzir a tornar a realidade brutal mais próxima de uma cena deletada de Laços de Família, um homem sem teto, vestindo um tubinho vermelho colado ao corpo, se fazia de guarda de trânsito, organizando o já tumultuado cruzamento entre a Ataulfo de Paiva e a Bartolomeu Mitre. Por sorte não foi atropelado. Até quando vi.

Primeira ressonância: o silêncio quase figurativo. Era cedo, mas havia movimento pelas ruas. Bastante. Pessoas passando com compras de supermercado; pessoas indo para praia; pessoas conversando sem fazer barulho, como se fizessem figuração para uma cena que, eu sabia, estava lá, mas não conseguia precisar. Para resolver o mistério, fiz com os olhos o caminho que a cenografia, os figurinos, e a iluminação pareciam me indicar e, enfim, encontrei a cena de Maneco: um jovem casal com um carrinho de bebê tirando uma selfie com o filhote. Detalhe: os três de óculos escuros.

Durante a meditação, precisei ficar desviando das Helenas do Leblon que surgiam como pensamentos intrusivos no meio do meu mergulho pelas águas profundas do meu inconsciente. Como elas conseguiam se manter financeiramente se eram tão pouco profissionais em suas carreiras? Por que todas eram mães tão tóxicas que não percebiam como prejudicavam tanto suas filhas ao mimá-las? O que as levava a se envolver por tanto tempo com indivíduos imoralmente priápicos até aceitarem o amor das bem-aventuradas moscas mortas que se humilhavam por elas? Por que todas suas amigas eram pobres, conseguiam morar no Leblon e tinham namorados/maridos impotentes? O que lhes dava o direito de serem patroas tão racistas e por que nunca foram denunciadas por suas empregadas domésticas? Ah, e, por último, por que diabos o Maneco afirmava serem elas inspiradas por Helena de Tróia? Homero me salve!

O curso acabou, me deixando ainda com um zumbido mezzo troiano mezzo leblonense nos ouvidos. Novamente à mercê da Ataulfo de Paiva, já com o dia alto, Leblon veio com força total para cima de mim. Pessoas bem-vestidas tomando brunch em mesas nas calçadas sem serem importunadas; pessoas aparentemente cultas lendo jornais de papel ou discutindo livros cuidadosamente dispostos entre mimosas e croissants; pessoas veranis fazendo compras modestas em pequenos comércios que, com certeza, não têm como pagar o aluguel do metro quadrado mais caro do Brasil; pessoas saídas de sites de fofoca, acompanhantes, ou notícias estacionando carros, atravessando ruas, sendo banais. Sim, esse foi o retrato 3×4 que o Leblon me apresentou como identidade pós morte do seu criador: uma cena super produzida de cinema sobre banalidades sem propósito.

Sem me encaixar naquele cenário e sem saber o que fazer por ali, peguei o metrô e fui me refugiar onde eu fazia sentido como pessoa. 17 minutos e 7 estações de metrô depois, eu estava na praça São Salvador. O chorinho já começava a tocar seus primeiros acordes; as primeiras garrafas de Heineken do dia começavam a ser abertas; e os primeiros revolucionários de ar-condicionado enfrentavam um sol infernal nas mesas dos bares e nas calçadas planejando as últimas revoluções que nunca iriam acontecer.

Frente a todo esse espetáculo, que eu, de certa forma, também ajudo a ressignificar em contos e crônicas, me perguntei: quem sou eu para falar mal do Maneco e de seu bairro inventado? Não é porque eu não me sinto à vontade na barriga do seu cavalo leblonense que eu não faça parte do mesmo exército que busca resgatar Helenas ficcionais que nunca poderão ser salvas. Sim, o curso acabou, mas ainda tenho muito para meditar.

Morte à Comédia Romântica, Longa Vida à Comédia de Amor

Desculpa avisar, gente, mas o romantismo morreu. Sim, os aspectos de ingenuidade e paixão que ligávamos ao amor, desde os exageros mórbidos do ultrarromantismo até romances água com açúcar que caracterizaram o gênero por décadas e séculos, não passam mais pelo nosso teste de suspensão de realidade. Porém isso não quer dizer que não possamos ter excelentes obras que falem sobre o amor.

Amor e romantismo, é importante lembrar, não são sinônimos. Nós simplesmente encaixávamos tudo dentro de um mesmo gênero em prateleiras de livrarias, videolocadoras, serviços de streamings, e lojas virtuais, e passamos a acreditar que essa relação de proximidade era de identidade. Não, não é.

Por mais que o romance tradicional hoje possa parecer datado e seus tropos não façam mais sentido (afinal, quem ainda acredita, além da Glória Perez, em amor impossível ou “proibido”?), as histórias sobre amor, inclusive as comédias, continuam não só relevantes, como super atuais e necessárias.

Ontem encarei uma sessão dupla de comédias românti… quer dizer, de amor, que provam esse meu ponto.

A primeira foi a comédia espanhola Volveréis. O filme conta a história de um casal madrileno em processo de separação, saudável e amigável, eles não cansam de nos lembrar, que, seguindo uma ideia ao mesmo tempo estapafúrdia e sedutora do pai da moça, resolvem fazer uma festa de fim de relacionamento. Enquanto os preparativos da festa e os avisos de separação a amigos e familiares rolam, o quase ex casal tenta organizadamente tratar das partes práticas dos começos das suas novas vidas de solteirice. Em momento algum da história se discute a razão do fim do relacionamento, nem vemos qualquer animosidade realmente marcante entre eles. A relação parece apenas ter se esgotado. Talvez por isso, os amigos e familiares não aceitem tão bem esse fim quanto o casal aparenta aceitar, e propõem constantes questionamentos que eles evitam responder. O humor da situação vem justamente do pragmatismo do casal e da performance do fim maduro e equilibrado do relacionamento que é exacerbada pelo filme dentro do filme, estrelado pelo namorado e dirigido pela namorada que adentra a narrativa “real” do casal.

“Sim, estamos estamos nos separando, mas estamos ótimos”

O segundo foi Follamente, em português, O Primeiro Encontro, um filme italiano sobre, conseguem adivinhar?, o primeiro encontro de um possível futuro casal, num sábado à noite, durante uma final de futebol, para um jantar romântico(?) na casa da mulher. Apesar de estarem sozinhos em cena por quase todo o filme, as vozes em suas cabeças, quatro para cada um, representando diferentes aspectos de suas personalidades (o sexual; o racional; o romântico, olha quem apareceu por aqui; e o desequilibrado) discutem impelindo ou impedindo as suas ações. Além disso, em seu refúgio, o encontro também é invadido pelas vidas pregressas dos, torcemos, futuros namorados na figura de filhos e antigos relacionamentos fracassados. Apesar do protagonismo dos diálogos internos, aos poucos, a comunicação direta entre eles começa a acontecer, permitindo até que essas facetas de suas personalidades saiam de suas cabeças para falarem umas com as outras.

O diretor cercado pelas vozes das cabeças das protagonistas

Além de serem excelentes comédias muito atuais e realistas, dentro de toda a fantasia que propõem, os filmes ainda carregam uma outra similaridade: tratam o amor como um trabalho de construção. Seja no trabalho social e emocional do fim do relacionamento, como no trabalho psicológico e de autoanálise do seu início, ambos os filmes e casais explicitam que, mais do que paixões avassaladoras, os amores ou, se preferir, romances precisam de esforço, dedicação e delicadeza para funcionar ou, ao menos, existir.

Para quem já tinha achado que o amor era um fotograma fora dos cinemas, desde Como Perder um Homem em 10 Dias, a execrável comédia romântica(?) que transformou o amor num job precarizado, ver essas histórias em que se relacionar é, sim, um trabalho, mas um trabalho de amor, dá até um quentinho no coração. Quem diria que no final de 2025 poderíamos voltar a ter esperança no amor cinematográfico?

Da New Yorker ao SNL: Os 100 (ou 50) melhores (e mais élitistas*) anos da nossa cultura

2025 se vai com dois marcos: os 100 anos da New Yorker e os 50 anos de Saturday Night Live. Curioso que ambas as criações estejam ligadas a um humor inteligente (e, em algumas épocas, élitista*); tenham um forte e bem intencionado (mas atrapalhado) criador por trás (Harold Ross e Lorne Michaels); e são localizadas na cidade de Nova York (a nossa Roma moderna, ou, quem sabe?, Roma seja a nossa Nova York antiga).

Óbvio que a comemoração dessas datas não passou em branco no cinema. Tivemos um belo documentário sobre os 100 anos da New Yorker, The New Yorker at 100, onde, por meio dos preparativos para o seu centenário, vemos a importância da publicação para, sem exagero, o mundo, enquanto resgatam todas as demais mudanças que a revista impulsionou na sociedade americana e, por que não?, na cultura ocidental. Já para celebrar os 50 anos do SNL, Jason Reitman roteirizou e dirigiu Saturday Night, um retrato caótico e revelador (porém proposital) da primeira exibição e da descoberta da vocação do programa icônico.

Ambos os filmes são, qual remédio?, peças de propaganda, mas, com a finesse que a inteligência que representam pede, não economizam nos problemas enfrentados por essas revistas semanais (impressa e televisiva). E é justamente nos seus aparentes erros que se encontram seus maiores acertos.

Tanto a New Yorker como o SNL surgiram de agremiações de “desconhecidos” sem um claro propósito que não fosse produzir algo interessante, bem humorado, e pertinente para os seus tempos. E esses tempos, devido às suas longevidades, souberam lhes ser tanto cruéis como benevolentes.

Com o passar dos anos as empreitadas e os envolvidos nelas foram mudando, mas souberam manter vivas as essências mínimas que as constituem: estrutura e design simples e reconhecíveis; forte pegada contra-cultural; formação de uma comunidade quase hermética de leitores e espectadores; contribuidores emergentes, especialmente do cenário underground; e um esmero displicente com a mudança do que aí está.

Talvez a longa vida da New Yorker e do SNL fale mais sobre esse último século do que sobre elas mesmas. Vivemos de 1925 pra cá, com todas as dificuldades, uma era razoavelmente democrática onde era possível ser inteligente e engraçado fazendo troça com o establishment, enquanto ensaiávamos propostas de novas formas de viver em sociedade. É impressionante o poder que essas revistas tiveram para mudar nossos costumes, nossas formas narrativas, e até a nossa política.

Por mais incrível e maravilhante que isso possa parecer, é impossível não pensar: o que estaremos comemorando nos próximos 100, ou, sendo mais realista, 50 anos? Continuaremos tendo essas duas instituições sólidas para agradecer e congratular? Teremos novas criações em 2025 que conseguirão provocar o mesmo tipo de impacto e sobreviver por tantos anos?

Não sei, não sei. Mas, infelizmente, temo que não.

Semana passada numa conversa com Maurício Gouveia, proprietário e livreiro da Baratos, discutimos a inabilidade da nova geração em se posicionar de forma rebelde frente ao que há. Ao contrário do deboche e da ousadia do SNL e da New Yorker, na opinião do Maurício, o que vemos hoje são jovens conformados, usando apenas as ferramentas procedurais que lhes foram oferecidas pra tentar lutar por uma normalidade falsa que nunca existiu, mas que eles parecem acreditar que funciona.

A princípio não concordei, mas, depois de ver os dois filmes, me caiu uma ficha: onde estão os movimentos contra-culturais de 2025?

Tanto a New Yorker, como o SNL, surgiram como obras contra o que vigia na época: a América rural para a New Yorker, representada pela velhinha de Dubuque, e o Pesadelo no Ar Refrigerado, tornado carne no Impeachment de Nixon, para o SNL. O mesmo pode se dizer de muitos outros movimentos: a Nouvelle Vague, que comemorou os 65 anos de Acossado com um filme sobre a produção dirigido pelo Richard Linklater; os quadrinhos punk com Love & Rockets; os Beatniks; e por aí vai.

O fato é que Saturday Night Live e The New Yorker tiveram e tem importância pois são mais do que simples revistas, são movimentos ou reflexos das expectativas de mudança da sociedade. Por isso ainda tem impacto, ecoam as suas mensagens além de seus espaços midiáticos, e permanecem até hoje, na vida real e na nossa memória, como salvaguardas de ambientes criativos para as lutas artística e social.

E.B. White, se liga: não se pede demissão de um movimento.

Olhando para o nosso deserto conceitual onde o máximo de movimento com o qual conseguimos nos comprometer é um twittaço (ou seria Xiszaço?) ou um fim de semana sabático das redes sociais, eu lamento pelo nosso futuro. Será que a distopia que vivemos é tão inescapável que não sabemos ou não temos mais como tirar sarro da cara dela seja por texto, imagem, vídeo ou áudio? Será que há saída para essa nossa impotência contra-cultural?

Espero sinceramente estar errado, mas, pelo andar da carruagem, é bem capaz que em 2075 e em 2125 não haja mais nada a se comemorar. Os nossos movimentos parecem ter cessado e a nós e às futuras gerações só restarão a escuridão e o silêncio.

A não ser que você tenha alguma ideia doida a compartilhar. Bom, sou todo ouvidos, e, cá entre nós, tenho umas também pra te mostrar. Então, vamos nos juntar pra falar besteira e reclamar dos outros e da vida? Pera lá! Posso estar enganado, mas não é assim que os movimentos começam?

*Seguindo a regra da New Yorker e respeitando a origem francesa da palavra elite, quer dizer, élite, a mantive acentuada, mesmo que vocês não gostem. A revolução também se faz com acentos, sabia?

A bolsa contra a opressão do Plot

Li hoje pela amanhã “A Teoria da Bolsa de Ficção” da Ursula Le Guin. A sugestão do ensaio principal do livro, acrescido de dois ensaios complementares de outras autoras sobre o texto inicial, é que o modelo narrativo do “Herói” carrega em si uma ideologia baseada na morte, no conflito, algo quase (ou totalmente) belicista. Em contraposição a esse modelo patriarcal, ela sugere o modelo da bolsa que, ao contrário da seta apontando ameaçadoramente em direção ao futuro, recolhe as histórias e personagens num espaço de acolhimento focado no presente.

É um belo e provocador pensamento, mas os milênios de costume com a opressão do plot que encaminha a história sempre para a resolução de uma contenda, normalmente em busca do retorno a um estado normal, que de normal não tem quase nada, tornam esse exercício de re ou desconstrução muito desafiador.

Fiquei me perguntando onde poderíamos encontrar sinais desse modelo e logo me veio à mente Jacques Tati com seu Monsieur Hulot, cujas férias eu estava curtindo ontem.

Aos moldes do que Le Guin sugere, nas obras  de Tati as histórias apenas se acumulam, sem conflito, propósito ou contenda a se resolver. São justamente apanhados temáticos de experiências, filmadas a uma média distância, que lhe permitem escolher para onde olhar e no que fixar a sua atenção. Pode não haver um propósito norteador, mas essa experiência estética, como a vida, está carregada de sentidos a se abraçar, como itens espalhados randomicamente dentro de uma bolsa mágica. Extrapolando, ainda dentro do cinema, parece que o mesmo pode se aplicar ao neorrealismo italiano, à Nouvelle Vague, e a outros movimentos de cinema independentes. A escolha pela contemplação e reflexão parece ser bastante natural quando não ficam cerceando nosso campo de visão com cores berrantes, explosões ou super close-ups.

No caso da literatura, um outro exemplo, lido esse ano, do qual me lembrei, foi Esboço da Rachel Cusk. Nesse livro rola a mesma sensação de observar a vida e caminhar por entre histórias nas quais podemos nos aprofundar mais ou menos, ao nosso bel prazer, sem a ansiedade de um fato ou trajeto narrativo conclusivo que estabeleça um lado “vencedor”. Se formos buscar formatos mais alternativos, seja entre Burroughs, Borges, Burgess, Calvino, ou mesmo entre os Beatniks, ou o povo da Oulipo, encontraremos ainda mais belas bolsas a vasculhar.

A verdade é que, escondidas em toda essa balbúrdia sem sentido de som e fúria, talvez estejamos cercados de mais bolsas que imaginávamos. Só precisamos (re)aprender a reconhecê-las e intencionalmente sair à sua busca ou mesmo a criá-las.

 

As reformas e contrarreformas da Mitologia da DC Comics

Quando as mitologias (e as religiões), como a DC, se tornam Propriedades Intelectuais as coisas se complicam.

Porém, no início, tudo é festa. Os mitos e lendas se avolumam, sem controle, ou regra. Num dia as concubinas dos deuses estão grávidas, no outro, era tudo um sonho. Na manhã seguinte os filhos que não nasceram surgem do futuro, e, juntos com os pais, presumidos, salvam o mundo, até descobrir que seus pais eram de outra dimensão. Já viu onde isso vai dar…

Os fiéis antigos, confusos com essas múltiplas versões, param de participar dos rituais; novas religiões concorrentes seduzem as congregações abandonadas; as novas gerações não conseguem se inteirar da complexa cronologia ou entender as referências teológicas das crenças originárias; e, então, alguém descobre que mobilizar as pessoas em torno de narrativas é poder, político, financeiro, e cultural.  E, óbvio, ninguém quer abrir mão desse poder. É nesse momento de caos que a crença orgânica, quase animista, começa a ser encarada como propriedade de um grupo.

Aí vêm as reformas. As externas, daqueles que se apropriam dos conceitos iniciais por se acharem os verdadeiros crentes na palavra divina; e as internas, dos que comandam os grupos e instituições construídas ao redor dessas histórias, buscando manter os atuais fiéis e arregimentar novos.  Os reformistas, dizem que é tudo em nome da fé, mas, se não tivesse dinheiro envolvido, provavelmente nada aconteceria. Ou, pelo menos, não aconteceria dessa forma.

A DC vive isso há anos. Desde a Era de Prata, nos anos 50/60, quando recriou seus heróis originais; na Crise nas Infinitas Terras; na morte do Super Homem, e na quebra da coluna do Batman; nas reativações da Crise; no 52; e, enfim, agora, no universo Absolute. Li as primeiras edições de Batman, Super Homem e Mulher Maravilha. Não são ruins, tá, são até legais, mas a cada quadro, a cada página eu ficava me perguntando: “Pra quê, senhor? Pra quê?”.

Há de fato uma necessidade quase religiosa de rever os velhos mitos à luz dos novos tempos para novos públicos? A intenção puramente comercial justifica essas constantes recriações? Ou essa é uma tentativa sobrenatural dos mitos não morrerem manifestada pela vontade de sacerdotes/autores e fiéis/leitores? Ou, pelo contrário, uma insistência em manter vivo algo que já deveria ter morrido ou sido esquecido? Não sei, não sei, mas, nessas horas, acaba que a escolha preguiçosa e desleixada da Marvel de manter sua cronologia um caos completo parece até ser ética. (Cá entre nós, não é)

Ah, Super Homem, por que não ficaste morto nos anos 90? Senhor, eles realmente não sabem o que fazem…

Mas dessa vez, pelo menos, fizeram uma Mulher Maravilha com cara de grega.