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Whats app de Posição, Whats app de Interesse

Ano passado completei 25 anos de formado no segundo grau. Um amigo com o qual ainda mantenho contato conseguiu mobilizar quase a turma toda para um churrasco de comemoração. Por mais que sentisse que não tivesse nada a comemorar, achei que era uma boa oportunidade para rever alguns amigos queridos que o tempo fez questão de afastar.

Para organizar a comunicação, a resposta do século XXI foi, óbvio, montar um maldito grupo no WhatsApp. Já antes do evento dava pra ver que as velhas rusgas e atitudes continuavam as mesmas, mas agora encobertas por um véu de “brincadeira” e ironia. Sabe como é: eu te ofendo, mas se você não consegue lidar com isso não entendeu a piada.

O mesmo valia para as discussões políticas; em geral terríveis, cheias de lugares comuns e ódio. Chegamos a pegar o período do julgamento em segunda instância do Lula, onde revivendo mais um trauma de colégio, depois de uma tentativa de elevar o nível da discussão, fui mais um vez chamado de comunista sem sê-lo. As coisas não iam lá muito bem.

Como o foco principal era o churrasco, deu pra suportar. A data do encontro chegou, comemos carne, o pessoal bebeu (eu estava fazendo um promessa que ainda não deu em nada) e, no frigir do ovos, foi extremamente legal mesmo passando o evento inteiro sóbrio. Quem não ia com a minha cara ficou ao largo ou foi presencialmente educado, e consegui rever os amigos dos quais sentia saudades. Assim sendo, perfeito. Tudo terminou com aquelas promessas objetivamente falsas, mas emocionalmente sinceras, de vamos nos ver mais e alguém sugeriu, óbvio, manter o canal de comunicação aberto no WhatsApp.

Foi aí que o troço degringolou. Pra mim.

Já não estava aguentando o papo pré churrasco e tenho um grave defeito de realmente fazer parte das coisas. Não ia conseguir simplesmente deixar o grupo no mudo rolando sem participar. Foi por esse tipo de postura que, ao invés de simplesmente deixar o Facebook pra lá, precisei cancelar a minha conta. Sim, sou desses.

Vez ou outra acabava esbarrando numa daquelas discussões de moralidade exagerada, ódio social ou sexismo “brincalhão” que simplesmente queria dizer “somos melhores que o resto do mundo”. Eu tentava me segurar, mas pirricamente acabava entrando na discussão para tentar expor um outro lado e sugerir um exercício de empatia, mas era inútil. O que acabava dando pano pra manga era justamente o uso da linguagem. Coisas como o “pirricamente” se tornavam o foco da discussão e o anti intelectualismo funcional acabava com qualquer chance de diálogo. No fim das contas, eu era taxado de complicado e metido e a discussão morria comigo na berlinda.

Chegou a um ponto em que preventivamente as pessoas evocavam meu nome como uma forma de conseguir anuência em torno de suas posições. “Melhor a gente chegar logo a um acordo senão o Lisandro vai vir aqui cagar tudo”. Em pouco tempo, eu tinha me tornado o troll embaixo da ponte do grupo de WhatsApp.

Ontem, depois de vivenciar mais um desses momentos de monólogo coletivo, deixei o grupo. Alguns amigos tentaram me fazer voltar atrás, mas não tiveram sucesso. Simplesmente não queria mais fazer parte daquilo. Tinha retomado o contato com os amigos que queria e não desejava que a experiência de estar naquele ambiente maculasse essa retomada. Enfim, não queria gastar o tempo de vida que me resta num revival do meu segundo grau com um elenco ainda mais agressivo e barulhento.

Sábias Palavras de Red

Depois de operacionalizar a minha saída, fiquei pensando por que fiquei tão incomodado com esse imbróglio. Confesso que me mantive no grupo, inicialmente, por uma curiosidade quase antropológica e para não me manter numa bolha informacional. Seria bom ouvir o que outros com posições diferentes pensam. E foi interessante, mas não acredito que seja possível ficar passivo nesses momentos. Sempre tive o ímpeto de tentar botar outras ideias na mesa e promover uma discussão, mas a resistência era absurda. Parte, não posso negar, é culpa minha. Não consigo me colocar diretamente sem explicar as minhas razões. Além disso, em diverso momentos exponho a minha ignorância e falta de posição sobre algo extensivamente; explicando em detalhes o que pensei até o momento mesmo sem ter uma conclusão em vista. Infelizmente, descobri, não sou uma pessoa de posições, sou uma pessoa de interesses. E isso pelo jeito me inviabiliza para o convívio social no século XXI.

Talvez aí resida o problema dos nossos diálogos atualmente: não conseguimos expor nossos interesses, apenas posições. Escondidos atrás de rótulos de esquerda , direita, conservador, liberal, etc, as pessoas não mais sabem o que realmente desejam, mas tem certeza absoluta que querem ganhar as discussões nas quais entram. Isso torna toda possibilidade de negociação uma fantasia cruel.

William Ury, especialista em negociação, dizia que elas podem ser divididas em dois tipos: as de posição e de interesses. As de interesses colocam na mesa com clareza os objetivos de cada parte e tentam compor um mix de interesses que seja satisfatório para os envolvidos. As de posição, que simulamos em nossos contatos virtuais, buscam a primazia da vontade de um lado sobre a do outro. Passam longe de ser uma busca de acordo e estão muito mais próximas da afirmação infantil da fantasia das nossas identidades. Um belo resumo da função das plataformas de mídia social.

Acredito piamente que precisamos reaprender a encarar as discussões como negociações. Ao invés de ignorar o que outros falam e ser surpreendido com um cenário desagradável, ou de ser simplesmente contra ou favor de, por exemplo, ideologia de gênero, lei do desarmamento, ou qualquer um desses assuntos polêmicos que ninguém entende direito mas todos tem posição a respeito, precisamos começar a pensar sobre os nossos interesses nos temas. Para isso precisamos nos livrar da nossa posição egóica e construir uma imagem de futuro que nos agrade; precisamos retomar nossos desejos. Ao invés de defender abstrações políticas e ideológicas, precisamos entrar em contato com o que e, especialmente, por que queremos as coisas. Com isso poderemos construir identidades genuínas e não arremedos de personalidade justificada pela oposição a algo que não existe.

Num cenário desses importará muito menos quem você diz ser e muito mais o mundo em que você deseja viver com os outros. E isso, enfim, nos possibilitará a negociar esse mundo melhor e mais civilizado, nos tirando desse interminável impasse do WhatsApp de Posição.

Bom, acho que ficou claro qual é o MEU interesse. Se isso LHE interessa também, adoraria discutir com você o que precisamos fazer para viabilizar essa mudança e como podemos chegar lá. Onde vamos discutir isso? Ah, você sabe onde me encontrar.

Uma dica: no WhatsApp não vai rolar.

Um lembrete pra mim mesmo sobre Belo Horizonte

Pode ser um exagero dizer isso, mas a minha clara impressão, nos quatro anos e meio como morador, é que Belo Horizonte é uma cidade mal amada. Não por que lhe faltem admiradores. Muito pelo contrário. Pelas ruas não é díficil ver pessoas vestindo camisas com os dizeres “Amo BH Radicalmente” ou proclamando seu amor pela cidade de forma apaixonada. Mas esse amor, na minha opinião, pouco se materializa. É possível inclusive ver esses mesmos apaixonados deixando a cidade todos os fins de semana pois “Em BH não tem nada pra fazer”. Estão totalmente enganados.

Parece que, como bom marido ausente, o belo horizontino médio passa tempo demais no botequim da esquina falando da cidade “amada” ao invés de cortejá-la adequadamente. E quando começa a aproveitar suas belezas se rende facilmente ao que está na moda ou faz escolhas incrivelmente erradas que só aumentam o seu desejo de ir pro sítio nos fins de semana.

Enfim, é uma cidade “taken for granted”. Suas belezas mais conhecidas são ostensivamente visitadas mas o que realmente representa a alma da cidade é tão integrado ao seu ambiente que pode até passar desapercebido ou morrer sem atenção.

Quer ver só? Todo mundo vai ao Mercado Central mas não costuma passar dos bares que formam o primeiro cinturão. Ficam espremidos entre mineiros e turistas, tomam uma cerveja ruim e saem com uma história curiosa para contar. Nessa hora o folclórico se torna o inimigo do ótimo. Isso é que deve ter levado à falência, por exemplo, o Sabores e Idéias, lojinha pequena com várias delícias (sanduíches no pão de queijo, tortas de sardinha e broas incríveis) que ainda era especializado em refrigerantes exóticos de todo o Brasil. Não sobreviveu aos bares comuns.

Mas ainda há bons lugares a visitar no Mercado. Na tabacaria Sabiá há um bom café e um belo pão de queijo com pernil; no Bar da Lôra há os pratos que fizeram a sua fama no comida di buteco, como o Pure Energy of The Blonde, ou, em bom português, pura garra da Lôra ; já o Coisas D’Hana representa bem a culinária árabe em BH; e ainda há a possibilidade de meter a mão na massa e ter aulas de culinária com a equipe do Eduardo Maya no espaço Nestlé.

Por falar no chef Eduardo Maya, agora, depois de ter saído do Comida di Buteco, ele tem  uma feira chamada Aproxima. Muito boa para provar e conhecer novos sabores e comprar produtos orgânicos.

Atualmente existem diversas feiras e eventos de rua em BH, mas normalmente sua periodicidade é o famoso quando dá e a sua localização é onde der. Vale acompanhar o SouBH para estar por dentro desses eventos. A feira Aproxima também é itinerante e de periodicidade indefinida, mas fui a ela diversas vezes no Mercado Cruzeiro, um outro espaço excelente e também menosprezado.

Pra provar o meu ponto, no Mercado Cruzeiro todo sábado tem uma bela feira de vinil, rodeada de barzinhos com cervejas artesanais, que quase ninguém conhece. Para comer, o povo costuma ir na Parrila del Mercado  que, confesso, tem uma excelente comida argentina, mas poucos se esforçam para ir ao outro lado do mercado e aproveitar os espetinhos da Espetaria do Mercado, onde você encontra espetos exóticos e chopp Backer baratinho. Até se você quiser se desentoxicar de tanta carne, no mesmo mercado tem o Formoso com delicias vegetarianas.

Acho que resumir BH à culinária mineira é um crime. Óbvio que tem coisas maravilhosas como o Xapuri e tal, mas há um mundo muito maior a se conhecer no quesito gastronomia: a Salumeria, com uma linda vista do alto da Praça da Estação; o Duke’n’ Duke, com boas cervejas, hambúrgueres e comida bem britânica; o Kobes, de carnes de caça e com o charme de ser dentro de uma garagem; o bar Seu Romão , em Santo Antônio, pertinho de onde eu morava, com petiscos razoáveis, mas com cervejas excelentes; e o Café Palhares, o lar do Kaol (que se eu nunca tivesse comido, ia perder minha carteirinha de ex-morador de BH).

Mas BH não é só comida, tem bebida também. Estranhamente, em Belo Horizonte, a aclamada Bélgica brasileira, não é tão fácil tomar as próprias cervejas locais. Alguns lugares são bem conhecidos pela quantidade de cervejas, como o Café Viena, mas não vale a pena visitá-los. A sugestão é ir às distribuidoras diretamente e levar boas cervejas para casa, ou tomar uma lá mesmo. Os dois melhores lugares que encontrei são o Tonel , perto da Savassi, e o Mamãe Bebidas na fronteira entre Floresta e Santa Tereza.  Uma outra opção bem legal é fazer o beer tour do Rodrigo Lemos e conhecer as cervejarias e diversos bares legais num mesmo dia. O preço é bem em conta para o que oferece. Mas também é quando der, onde der.

Culturalmente, os belzontinos médios também conhecem muito pouco da cidade. Enchem as peças estreladas por atores globais e as exposições badaladas mas, fora o usual (KM de Vantagens Hall, Palácio das Artes, SESC e etc), há uma clara preguiça em se ocupar novos espaços ou privilegiar os antigos. Assim, você não os vê nas noites de sexta no Edifício Maleta curtindo os sebos e os bares moderninhos que abriram na sua varanda, nem visitando a tradicional Cantina do Lucas; eles não vão ao Teatro Giramundo; não frequentam a Galeria do Rock (é, não é só em São Paulo que tem); não conhecem o museu dos brinquedos; não vão à Biblioteca Estadual Luis Beça, que tem peças e eventos interessantes; nem vão ali do lado no Espaço do Conhecimento da UFMG, que tem inclusive um planetário; não costumam ir no Belas Artes para curtir um filminho, a livraria e o bistrô; e muito menos iam no falecido Nelson Bordello ou na festa Alta Fidelidade ou ainda tem um preconceito eterno com o belo inferninho que é A Obra. Quando vamos aos arredores da cidade, a coisa piora: não conhecem as cervejarias de Nova Lima; não foram comer Fondue no Topo do Mundo;  e, pasme, a grande maioria que conheci nunca foi no Inhotim. É de doer o coração.

O povo fica tão enfurnado nos carros, nos shoppings, nas próprias casas e nos botequins que a impressão é que o que há de mais belo na cidade vai morrendo à míngua por falta de carinho.

Mas ainda há salvação. Existem muitos que amam a cidade de fato e mesmo os que andam pelo mau caminho podem ser salvos. Por isso acho que o maior gesto de amor à Belo Horizonte é não só aproveitá-la plenamente, mas especialmente apresentá-la a todos que puder. E aqueles que já moram nessa linda cidade e não a conhecem de fato são os primeiros que devem ser resgatados.

Amar BH radicalmente é isso. Sair às ruas e descobrir o que a cidade tem a oferecer com o misto de desconfiança e encantamento que só o mineiro consegue ter. Foi isso o que descobri. Foi isso o que BH me ensinou. E foi por isso que essa cidade tanto me encantou. E talvez por esse amor é que ela tenha sido o lugar que o destino escolheu para a minha filha nascer.

Espero que essas dicas me ajudem a redescobrir a cidade.  Não esqueça de me dizer depois o que você encontrar de novo por lá!

Bom carnaval!

Memento Mori

Diz a lenda que quando um general romano voltava pra capital do império coberto de glórias, durante a parada triunfal realizada em sua homenagem, um escravo ficava ao seu lado sussurrando em seu ouvido: “memento mori… memento mori…“.

Não consigo ver os políticos, pseudo intelectuais e celebridades, bazofiando seu poder e suas vitórias ilusórias na TV, na imprensa e nas redes sociais, sem me sentir como aquele escravo e sem pensar alto: “memento mori… memento mori...”.

Na época do império romano, a função desse escravo era lembrar ao general que, apesar de todas as suas vitórias, ele ainda era mortal e todas as suas conquistas seriam passageiras; e, por isso, não havia motivo para vaidade ou orgulho. Por essa razão eles eram obrigados a ouvir: “memento mori… memento mori…“.

Hoje, infelizmente, isso não funciona mais como naquela época. Não porque deixamos de ser mortais ou porque nossas obras permanecerão para sempre. Muito pelo contrário. Tudo o que criamos é ainda mais transitório e importa cada vez menos para a história da humanidade. Mesmo assim parece que ninguém mais entende quando dizemos: “memento mori… memento mori…“.

Ao contrário do que parece, a princípio essa não é uma questão de falta de entendimento; é uma questão filosófica. Enquanto no império romano, as pessoas seguiam preceitos estoicos ou relacionados ao cristianismo primitivo, hoje vivemos um hedonismo iluminado, em que o pragmatismo e as conquistas da razão são colocadas a serviço do prazer sem fim. Por isso, por mais que sejamos lembrados da nossa mortalidade a todo momento, a interpretação é diferente quando ouvimos: “memento mori… memento mori…“.

Hoje, quando somos lembrados da nossa transitoriedade, só pensamos em aproveitar ao máximo antes que a morte chegue. Pensamos que, se nada é permanente, porque deveríamos deixar algo em pé depois que nos formos? Pra que ser humildes? Pra que respeitar os outros? Vamos esgotar tudo e todos com o nosso poder pela nossa simples satisfação pessoal. Afinal de contas: “memento mori… memento mori…“.

Mas essa é uma interpretação errada. Isso não é memento mori; sequer é carpe diem. Isso está mais para clepto diem: uma busca desenfreada pela satisfação pessoal através do abuso de poder sobre o outro. Isso não é uma lembrança de que somos mortais, mas, ao contrário, é uma negação dessa verdade. Isso é o oposto de “memento mori… memento mori…“.

Isso é roubar sem parar mesmo quando não tem mais onde guardar ou como gastar. Isso é provocar polêmicas vazias só para estimular uma adoração sem propósito. Isso é maltratar pessoas em nome de uma liderança inexistente. Isso é colocar países em conflito para reafirmar uma masculinidade poente. Isso é tratar cônjuges como troféus, filhos como soldados, e vizinhos como gado. Isso é estender a altos custos uma vida sem significado só pelo prazer de exercer um poder que nada cria e só destrói. Isso é o que me faz gritar para esses ouvidos surdos de razão: “MEMENTO MORI! MEMENTO MORI!

Mas sou uma voz pequena; sem força; sem poder. Por isso, como escravo de mim mesmo, e ciente de que vou morrer, preciso encontrar energia para lutar pelo que acho certo e tornar esse mundo um lugar menos pior. Assim, mesmo desesperançoso, suspiro em meus próprios ouvidos, as palavras que todos devemos lembrar:

Memento mori…

Memento mori…

Memento…

Mori.

E sonho que essas palavras cheguem certeiras aos ouvidos que precisam ouvi-las.

Memento Mori.

7 de outubro de 2018 – O renascimento de Lula

Hoje, 7 de outubro de 2018, enquanto milhões de eleitores se encaminham às urnas para definir o futuro do país, só há uma pergunta: quem imaginava no dia 23 de janeiro o rumo que o país tomou nesses últimos meses? Quem imaginava as guinadas que a história política do Brasil deu?

Primeiro foi a absolvição de Lula. No dia 24 de janeiro, por 2 votos a 1, Lula foi absolvido da acusação de corrupção passiva. Segundo os desembargadores que concordaram com a defesa, não havia provas. Apesar de todo o terrorismo das redes sociais, a expectativa de que o país fosse entrar em conflito não se concretizou. Óbvio, ocorreram alguns confrontos entre manifestantes contra e a favor de Lula, mas nada que indicasse um aquecimento das hostilidades já existentes. Os oponentes inclusive declararam que era melhor concorrer com Lula do que transforma-lo num mártir. A batalha mudou do campo jurídico para o eleitoral.

Com a sua absolvição a campanha para presidente realmente começou. Livre desse impedimento legal, o ex-presidente intensificou a sua exposição. Começou a percorrer o país e levar multidões atrás dele, tentando mais uma vez evocar a Coluna Prestes, inclusive através de uma aproximação com as forças armadas. Alguns analistas políticos começaram a criticá-lo e a vislumbrar que, numa possível vitória, Lula iria tornar as forças armadas mais atuantes na proteção dos seus “direitos” de governar. Uma ditadura eleita, era o termo usado para definir essa estratégia.

A oposição, ou melhor, as várias oposições a um presidente ainda não (re)eleito continuaram batendo cabeça umas contra os outras, enquanto Bolsonaro se consolidava como a única alternativa à volta de Lula. As pesquisas indicavam a possibilidade de um segundo turno, com uma chance razoável da eleição ser decidida a favor de Lula já no primeiro. Os apoiadores do ex-presidente comemoraram, mas eles não esperavam o que aconteceu no dia 3 de março.

3 de março. Um dia que, como na morte de Senna, todos lembram onde estavam. Um dia que todos recordam o que faziam quando ouviram a notícia do atentado.

Lula saía de uma reunião com correligionários em Recife quando um paranaense chamado Gustavo Lebre se aproximou do ex-presidente e desferiu 3 três tiros em seu abdômen e depois se matou, antes que os populares conseguissem para-lo.

Pelos relatos de conhecidos e de acordo com a investigação policial, Gustavo não tinha ligação com grupos extremistas, nem com partidos políticos. Como muitos nas redes sociais, era só uma pessoa que vociferava ódio contra o PT. Aparentemente o crime não foi planejado. Gustavo estava a trabalho na capital pernambucana e, depois de uma noite de bebedeira nas ladeiras de Olinda, comprou uma arma com bandidos locais e executou o crime. Não deixou nenhum registro das suas intenções. Como disse o delegado responsável pela investigação, “podia ser qualquer um de nós”. Qualquer um de nós.

Lula foi gravemente ferido, ficou por dois dias a beira da morte, mas resistiu. Em coma, mas resistiu. Isso gerou um rebuliço na corrida presidencial. Alguns tentaram buscar os votos que seriam de Lula, enquanto outros tentaram transformar o atentado em um indício do “desejo das ruas”. Mesmo com Lula aparentemente fora da disputa, a eleição continuava orbitando em volta de sua figura.

A confusão que já estava estabelecida desde a sua absolvição piorou. Marina e Ciro firmaram uma aliança para se contrapor a Bolsonaro que ainda tinha dificuldades de buscar aliados políticos, apesar dos bons resultados nas pesquisas. Além disso, os candidatos celebridades começaram a pipocar em partidos pequenos que buscavam maior exposição para eleger deputados e senadores.

O coma de Lula se estendia sem um horizonte. A mídia, depois de um mês acompanhando diariamente as declarações dos médicos, começou a deixar o ex-presidente de lado para se concentrar na eleição. Assim, no dia 4 de junho, Lula, sem aviso ou preparação, acordou, ou, como declararam alguns, renasceu.

Lula simplesmente abriu os olhos e sem demonstrar nenhuma sequela, no mesmo dia, ainda na cama do hospital, fez o seu pronunciamento pela união da nação.

Numa versão Youtube da Carta ao Povo Brasileiro, Lula conclamou a população a deixar as hostilidades de lado e buscar um meio termo para construir uma nova visão de país que fosse mais inclusiva, independente de orientações políticas.

As reações foram contraditórias. Enquanto alguns, mesmo entre os apoiadores de Lula, consideraram o vídeo apenas uma manobra política, outros, mesmo entre os que pediam a sua prisão, viram uma tentativa sincera de resolver a crise política que parecia interminável. Seja como for o vídeo foi um sucesso, desbancando até Simone & Simaria e Anitta do posto de vídeo mais assistido no Youtube.

As pesquisas eleitorais começaram a perceber uma migração de votos de Bolsonaro para Lula e de votos de Lula para outros candidatos de centro esquerda. Na classe política, a popularidade do vídeo gerou um movimento diferente fazendo convergir diversos oponentes em direção a Lula mesmo que fosse para “discutir como promover a tal união da nação”.

Apesar da fila de antigos aliados a sua porta, surpreendentemente, o primeiro político que Lula pediu para ver foi Bolsonaro. O encontro que era pra ser discreto acabou amplamente coberto pela imprensa, mas não ficou claro o que os dois principais concorrentes ao cargo conversaram. Uma semana depois, Lula anunciou, sem o aval do PT, que queria Bolsonaro como vice em sua chapa.

O racha que estava claro na população atingiu o PT, mas como já estava encerrado o período de filiação aos partidos para a eleição, poucos saíram do partido, temendo perder a oportunidade de concorrer. Um pequeno grupo, liderado por Suplicy, abandonou o PT e prometeu fazer oposição ao “casuístico e abjeto casamento” mas não conseguiu mobilizar a população.

Os demais candidatos começaram a buscar se unir embaixo de uma mesma bandeira mas as discordâncias eram muitas e enfraqueceram qualquer tentativa de oposição real. O beijo da morte veio no início de agosto, logo antes da campanha televisa, quando a chapa Lula e Bolsonaro apareceu nas pesquisas pela primeira vez como vencedora já no primeiro turno.

Frente a esse cenário, o governo executivo se adiantou e Temer se reuniu com Lula, informalmente iniciando a transição de governo antes mesmo das eleições. Nesse dia declarou-se a continuidade de Meirelles na Fazenda e um pré-ministério dividido entre figuras emblemáticas de grupos minoritários e de esquerda, e indicações retiradas de grupos conservadores e militares.

A campanha prosseguiu sob gritos quase inaudíveis de “Lula Golpista”, enquanto os memes dominavam o noticiário político, especialmente o pedido de desculpas público de Bolsonaro a Jean Wyllys no Altas Horas, em que os dois terminaram chorando abraçados.

Procurando preservar a sua vantagem e evitar levantar a incoerência patente da chapa, Lula e Bolsonaro não compareceram aos debates. No último, Ciro Gomes incorporou Brizola e implorou a população: “Vamos juntos dizer Não. Não! Escolha qualquer um, mas não escolha esses dois. Vamos dizer um não rotundo contra tudo o que eles fizeram com esse país nos últimos 16 anos, para que não soframos por mais 16.”

Mais foi inútil. Na última pesquisa do DataFolha, Lula e Bolsonaro tinham mais de 52% das intenções de voto no primeiro turno, tornando-os virtualmente os novos governantes do país.

O que viveremos agora? Não há como prever. Como não tínhamos como prever tudo o que ocorreu nos últimos 7 meses, não temos como dizer o que ocorrerá nos próximos dias quiça nos próximos anos.

Mas não considere que você está indefeso frente ao que virá. A resolução da mais surpreendente campanha dos últimos tempos depende simplesmente do que você dirá nas urnas hoje. E assim será sua também a responsabilidade pelo que ocorrerá nos próximos 4 anos. Por isso, não vote bem nem mal. Apenas vote com a sua consciência e com o seu coração. Não há mais nada que possamos pedir de você, Brasil, além da sua empatia e da sua inteligência. Que elas nos guiem para tempos melhores.

Bom voto.

Os livros dos Jós e o livro de Jô

No segundo semestre de 2017 estranhamente me peguei lendo biografias, ou melhor, autobiografias de comediantes. A primeira foi uma sobre o caso de amor de Jerry Lewis e Dean Martin. Uma bela história de amizade que reproduz com muita sinceridade e doçura o velho “boy meets boy, boy loses boy, boy gets boy back thanks to Frank Sinatra”. A segunda, um livro de auto-ajuda do José Vasconcelos– sério!- que serve muito bem como a autobiografia que ele nunca escreveu. Entre um capítulo e outro, enquanto explica as leis cósmicas do sucesso e como atingi-lo, Zé Vasconcelos dá um show de humildade contando os problemas que passou na vida e como lidou com eles. A terceira foi a surpreendente e telegráfica autobiografia de Rodney Dangerfield. Contada em pequenos parágrafos, diretos e contundentes, como as piadas em seus shows de stand up, Dangerfield, como os demais, trata os problemas e tristezas que viveu, e a falta de respeito da qual sempre foi vítima, com muita sabedoria e bom humor. A quarta, uma coletânea dos textos e apresentações de Bill Hicks– se nunca ouviu falar dele, pode procurar agora- que se tornou o único registro da sua curta e excepcional vida. E, pra fechar o ano, li o Livro de Jô.

Pra começar, vou te dizer que nunca topei muito o Jô. Assistia ao Viva o Gordo quando pequeno, achava algumas coisas legais, mas não me falava ao coração como a Chiclete com Banana, o Casseta Popular e o Planeta Diário que tínhamos nas bancas. Era um humor velho que não parecia pra minha geração. Quando ele saiu da Globo e foi pro SBT montar seu talk show, após amargar mais um período de personagens anuais e esquetes, não achei nada demais. Enquanto todo mundo babava nas suas entrevistas, eu já sentia que os seus melhores momentos eram justamente aqueles em que não deixava o entrevistado falar e ele próprio se entrevistava. Era um show de ego que não me agradava. Quando, nos anos 90, ele foi alçado informalmente à posição de maior “intelectual” brasileiro, achei que era só mais um sinal da nossa indigência cultural. Em suma, nunca fui um fã.

Mas, confesso, estou ficando velho e indulgente. Graças aos samples do Kindle, tenho me dado a chance de conhecer coisas que facilmente passariam ao largo da minha pequena atenção. Pedi o sample, li e mordi a língua. Fui fisgado pela sua história.

Como a maioria dos outros comediantes que li esse ano, ele não teve uma vida fácil. Houve, claro, momentos de fartura, mas há sempre no ar sinais de azares repentinos, tragédias anunciadas e temores que se tornam reais. Nada diferente da vida de qualquer um de nós. Nada diferente de qualquer comédia. A diferença das biografias normais é como eles lidam com isso. Não há sensação de sentido, mérito, recompensa ou insatisfação. Não há vitórias, derrotas ou missões. Os comediantes apenas olham para a vida como uma sucessão de histórias curiosas, boas ou ruins, mas desprovidas de sentido e razão. Coisas para observar, estranhar, fazer graça e rir.

É nessas horas que me questiono se há um verdadeira diferença entre a tragédia e a comédia.

Enquanto o drama é puro Stanislavski, a comédia é basicamente brechtiana- favor não dar uma de deputado carioca e confundir com Bertoldo Brecha- na medida em que pede do seu ator um distanciamento consciente do personagem e da situação. Ao mesmo tempo a comédia estimula no espectador esse mesmo distanciamento da ação e dos comportamentos exibidos que são apenas um espelho da vida daqueles que os assistem. Enquanto o drama pede envolvimento e emoção, a comédia te permite observação e reflexão. Sobre o mundo, sobre os outros e, principalmente, sobre nós mesmos.

Por isso, acho que o nome do livro não poderia ser mais apropriado. Sei que pode parecer apenas um trocadilho safado, e é, mas comparar Jó e Jô traz uma sugestão interessante. Jó não era apenas um sofredor resignado que nos prova que Deus sempre está certo no fim, se crermos nele e o temermos. Jó era um comediante. Ao contrário de nós, que recebemos a história completa, ele não tinha como saber o seu final, e, mesmo assim, mantinha a sua postura de distanciamento. Não podia ser um simples caso de fé cega. Nós, humanos, somos poços de dúvidas. Com Jó não devia ser diferente. E se terminasse na amargura? E se Deus, no fim das contas, não existisse? E se no fim tudo não passasse apenas de uma piada? Mesmo frente a todas essas dúvidas com as quais convivia, ele conseguiu se afastar das agruras que sofria e, mesmo sendo acusado pelo seu infortúnio pelos próprios amigos, dizia: “Podem parar. Eu sei que não pequei. Agora quanto a razão pela qual estou sendo punido? Não tenho a menor ideia”. Enquanto os seus amigos buscavam uma razão para tudo e agiam com seriedade, ele deixava as coisas acontecerem e nos trazia mais dúvidas do que certezas.

Na vida que Jô conta acontece o mesmo. A mãe perde os dedos e se consola por poder pedir desconto a manicure. O pai perde tudo mas mantém a dignidade, e quando perde um negócio por não se corromper, aliviado, consegue dormir melhor. A ditadura se instaura, e ele dança em cima da mesa da redação do jornal. Seu filho nasce, mas sua felicidade dura apenas 40 minutos, findando com a descoberta  de uma doença genética. Uma série de pequenas tragédias que se tornam comédia pelo distanciamento e pela certeza de que não há certeza de nada.

Então, me digam, não é essa a função de um verdadeiro comediante? Nos fazer rir de nós mesmo frente aos infortúnios que levamos a sério demais? Nos permitir suportar a falta de sentido com a força do riso? Afinal, se a vida não passa de uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, sem sentido algum, por que devemos nos preocupar?

Se eles não se pré ocuparam, acho não devemos nos pré ocupar também. Nós, esse bando de Jós.

Natal no estilo Bitcoin/Blockchain

A família de alguns amigos, como muitas famílias numerosas formadas por assalariados, recorre ao expediente do amigo oculto na festa de Natal. É uma maneira de todos receberem um presente ao mesmo tempo que permite que ninguém ganhe algo muito melhor do que o outro. Sabem como é: Égalité, Fraternité, Pavê. Ou pá comê.

Mas é óbvio que uma hora cansa. Depois de uma década, aquela mesma história de descrever seu amigo pra os outros adivinharem deixa de ser divertida e passa a ser constrangedora. Seja pela repetição das mesmas características, nem sempre positivas, seja pela tentativa de injetar originalidade numa coisa tradicionalmente careta. É quase como trocar o apresentador de A Praça é Nossa toda semana esperando que isso vá mexer na essência dos esquetes. Simplesmente um fracasso anunciado.

Mesmo assim, eles persistem e tentam os mais diversos formatos para dar uma variada: amigo oculto de roubar presente; de comprar presente genérico e sortear na hora; inimigo oculto. Nem sempre com sucesso.

Esse ano inventaram um esquema realmente diferente. Cada um comprava um presente para si mesmo e quem o sorteou pegava o presente da árvore e fazia o tradicional lance da adivinhação. Entendeu? Confesso que eu não. Ainda tinha um lance que cada um precisava dar 50 reais, caso a pessoa não tivesse comprado o presente, que era o valor máximo combinado. Boiou ainda mais? Eu idem.

Mesmo com essa complicação toda eles botaram em prática. A primeira vítima tirou os 50 reais do bolso, buscou o presente na árvore, encontrou, fez a brincadeira da adivinhação, o povo acertou, deu o presente com a nota ao seu amigo agora não mais oculto e passou a vez. O outro seguiu o mesmo ritual e assim foi até que o presenteado foi o patriarca da família.

Do alto da sua imponente irreverência, ele seguiu o ritual só se furtando de passar a nota de 50 ao seu amigo. Logo, alguém apontou o erro. E pior que foi o genro:

– Aí, meu sogro, você pegou presente da árvore?
– Peguei.
– Ficou com ele?
– Fiquei.
– Então tem que passar essa nota pra frente. Libere a grana aí, sogrão.
– Não entendi. Quer dizer que ninguém vai ficar com o dinheiro?
– Se tiver presente pra todo mundo, o dinheiro fica com o último.
– Perá lá. Mas quem deu o dinheiro foi o primeiro- a tia se intrometeu.- Não era ele que devia ficar com o dinheiro?
– É- o primeiro se manifestou.- O dinheiro tem que voltar pra mim.

Aí o povo começou a discutir as regras. Pensaram em refazer toda a ordem. Alguém tentou resgatar sem sucesso o e-mail com as regras. Alguns presentes foram devolvidos pra árvore, mas depois recuperados. Enfim uma bagunça total. E, sem que ninguém se tocasse, os 50 ficaram no bolso do sogro que discretamente foi pra sala de tv.

Lá seu neto, que já tinha dado e recebido seu presente, estava assistindo ao jornal.

– Tá assistindo a que, netinho?
– Uma matéria de economia sobre BitCoin, Blockchain, esses troços.
– Que diabos é isso?
– Não sei se entendi direito, mas pelo que vi até agora Bitcoin parece um sistema de trocas de valores virtuais sem um operador central que registra todas as transações realizadas através desse tal de Blockchain, numa espécie de livro caixa virtual.
– Jesus. Isso funciona?
– Sei lá. Provavelmente não. E o amigo oculto? Terminou?
– Ainda não, o povo tá lá tentando entender como o blockchain de presentes fez o bitcoin de todo mundo desaparecer.