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Bye, Bye, Brazil

Tive duas oportunidades, meio sem querer, de conhecer boa parte do Brasil.

A primeira foi por ingenuidade.

Eu tinha 20 anos, relia compulsivamente On The Road desde os 17, e, espremido entre a adolescência e a fase adulta, e paralisado pela falta de perspectiva que os anos 90 e a minha faculdade eternamente em greve me geravam, eu só queria ir embora. Pra onde? Não sei. Eu não tinha um plano. Podia ser pros anos 40/50, pra rota 66, pra qualquer lugar. Como eu disse, foi in-ge-nu-i-da-de.

Guardei durante um semestre 800 reais e combinei com uma colega de faculdade que em janeiro de 1996 iríamos rumar para a Rodoviária Novo Rio e pular no primeiro ônibus que estivesse pra sair. Faríamos o mesmo nos demais destinos até o dinheiro acabar. Um sonho. Ela consentiu, eu acreditei, e na hora H, ou quase, ela pulou fora. Como disse, in-ge-nu-i-da-de.

Frustrado, comentei com uns amigos dos planos furados e um deles, que tinha carro e carteira de motorista, mesmo que vencida, se prontificou a participar da aventura. Outros dois que também nada tinham a fazer naquele verão se apresentaram e completaram a tripulação. E lá fomos nós quatro, num Uno, sem uma carteira de motorista válida, do Rio ao Piauí e de volta em um mês e um dia. O motorista se tornou nosso desafeto, um dos tripulantes ficou no Piauí, e o outro se tornou padrinho da minha filha.

Sem precisar entrar em detalhes, foi uma viagem que mudou a minha existência. Mas bastou. Me tornei uma nova pessoa, terminei a faculdade, comecei a trabalhar, abri 3 empresas, e me tornei, aos trancos e barrancos, adulto. Era hora de ficar em casa, no Rio, de onde não saí, pelos próximos 10 anos.

Aí veio a segunda oportunidade. Saindo de uma falência humilhante e complicada, fui obrigado aos meus trinta e poucos anos a trabalhar pela primeira vez de carteira assinada. Parecia um garoto velho obrigado a colocar calças curtas e voltar pra escola. Mas não foi ruim.

Uma das minhas primeiras tarefas foi dividir um roteiro de treinamento pelo Brasil com um colega. Ele dividiu a missão irmãmente:

– Pra ninguém ficar sobrecarregado, vamos pegar cada um o mesmo número de cidades. Aqui, ó, eu vou pra Salvador, você vai pra Açu. Eu vou pra Recife, você pra Coari. Eu pego as cidades na linha verde do Nordeste e você faz o ABCD paulista. Combinado?

– Combinado.

Era um sujeito generoso. Mesmo que não intencionalmente.

Graças a essa divisão, conheci o sertão, os pampas, as cidades industriais paulistas, andei de canoa pelo rio Amazonas, visitei as cidades petrolíferas do litoral do sudeste, os estaleiros do sul do país, e as minas de Minas e os portos no norte. Fiz amigos, conheci novas realidades e, com orgulho, fiz a minha parte pra melhorar um pouco o país.

Durante 8 anos, nessa e numa outra empresa, fazia trajetos loucos e conduzia treinamentos e reuniões de troca de conhecimento nos mais distantes rincões do Brasil. Enquanto uns iam pra Vienna, apresentar trabalhos acadêmicos baseados nos meus esforços, eu não me incomodava de trabalhar durante feriados em Ourilândia. Sou um sujeito humilde, mas um pouquinho ressentido. Deu pra notar?

Depois dessa loucura, mais uma vez cresci e aquietei. Virei os 40, tivemos a nossa filha e voltamos pro lugar de onde viemos.

Agora, olhando o futuro através da nesga de céu que a janela da casa que o meu pai me deixou permite, não vejo horizontes para esse país que eu desbravei.

Nunca fui fã da bandeira ou da camisa de futebol, mas hoje tenho nojo do significado que os grupos fascistas lhe impuseram. Nunca acreditei em políticos profissionais, nem em partidos, afinal política se faz na mesa de bar, mas toda vez que vejo menção ao nome Brasil ou alguém cantarolando o hino dá vontade sair do recinto.

A apropriação messiânica desta terra, que nunca teve a ambição de fazer sentido ou ter um propósito, a tornou inóspita. O Brasil era, foi, pra mim, um lugar de descoberta, de alegria, de crescimento, de emoção, de maturidade, de trabalho, de surpresa e de introspecção. Agora, esse país, do qual pessoas cheias de ódio falam nas ruas e na TV, se tornou o pretexto para a opressão e para o genocídio de quem o tornava melhor justamente por não fazer nada por ele. No melhor estilo taoísta, o caminho dessa terra era muito melhor quando não havia destino. A sua melhor missão era simplesmente (não) ser.

Agora que Aldir Blanc morreu, impossível não lembrar que o “Brazil não conhece o Brasil”. Nem eu, que andei pacas por ele, o conheço. Quem dirá esses sujeitos gananciosos e mal intencionados buzinando pelo direito de passar o fim de semana em Miami às custas do trabalho e das vidas alheias, dentro de caminhonetes importadas balançando bandeiras verde amarelas made in China?

E, assim, em respeito a memória desse Brasil que definha, eu penso que essa ideia insistentemente nascedoura de Brazil deveria morrer também. Vamos rachar a terra, separar tudo isso, antes que as lembranças dela se tornem amargas e fatais demais.

Vamos viver em nossos condados, e lembrar, sem saudades de quando essa terra era uma só, e sem alimentar as falsas esperanças de um rei Artur que venha reuni-la mais uma vez.

Vamos, após o isolamento social, voltar aos botequins e discutir uma ideia de país, ou melhor, de países sem messianismos ou destinos manifestos. A ideia de um conjunto de terras diversas e amigas, uma nação nem melhor, nem pior, mas, como o Salgueiro, apenas diferente. Sob vários deuses e acima de ninguém. Assim, como o Brasil já foi e não é mais.

Bye, bye, Brasil. A última ficha caiu.

Nome e Sobrenome

Oi, tudo bem? Podia fazer o meu crachá de novo? É que o meu nome tá errado. Onde? Aqui, ó. É LisanDRO e não LisanDRA. OK. OK. Sem problemas. É um erro comum. Não é a primeira nem a última vez que vai acontecer comigo. Também, cheio de Lisandra por aí e quase nenhum Lisandro. A não ser na Argentina. Lá o nome é bem mais comum. 

E o pior, sabia?, é que Lisandra não faz o menor sentido. Sério. Afinal, ANDRO é homem. É, não tem ANDRA. Meu nome, por exemplo, é LIS-ANDRO. Lis, flor; andro, homem; Homem Flor em grego. De onde? Coisas da minha mãe. Ela queria botar em grego: Lysander. Sei lá por quê. Tinha uma história que o Lisandro grego, o original, foi um espartano que, cheio de esquemas, conseguiu dominar Atenas. Lisandro, o tirano de Atenas. Doido, né? 

Uma vez li um artigo de um psicanalista italiano falando que a escolha do nome tem a maior implicação no nosso comportamento, porque é o indicativo das expectativas dos pais. E eles tendem a te criar tentando cumprir essas expectativas. Aí eu fico pensando: qual era a expectativa da minha mãe? Que eu dominasse através da astúcia uma comunidade rival que se gabava justamente da sua inteligência? Expectativa nada difícil de cumprir, né? 

O meu sobrenome? Pra quê? Ah, pro crachá novo. Se prepara: Gaertner. Deixa eu soletrar. G-A-E-R-T-N-E-R. Complicado, né? Com primeiro e último nomes desse jeito, não tem como acertarem. A pronúncia ainda é complicada: Guértiner. O pessoal lê e diz Gaértiner. Mas eu nem ligo. Tem um tio da minha mulher que eu conheço há 20 anos e me chama de Leandro até hoje. Vou me ligar com o sobrenome? 

Não, o sobrenome não é alemão. Na época que a minha família veio pra cá nem tinha Alemanha ainda. No máximo é Austro-Húngaro. É nome de cristão novo, sabe? Os judeus pra fugir das perseguições trocavam seus nomes pra nome de árvore ou de profissão. Gaertner, por exemplo, é Jardineiro. E eu ainda sou Oliveira, da parte da minha mãe. Dupla ascendência judaica. Pra complicar a minha vida um pouco mais, estudei num colégio católico mega rígido e na adolescência era apaixonado por uma judia. Vivia falando que ia me converter, mas, cá entre nós, não ia ter coragem de passar pela circuncisão já adolescente. Imagina só. Punk.

Como? É, traduzindo o meu nome é Homem Flor Jardineiro. Não, não foi pensado. Mas a coincidência é legal. Será que sou o jardineiro de mim mesmo? Acho que todo mundo tem essa função de se regar e se alimentar, como se fôssemos plantas conscientes. Engraçado, nunca tinha pensado nisso. É uma maneira interessante de ver a vida.

Bom, o crachá tá pronto? Obrigado, querida. Pera ai. Acho que você errou de novo. É LISANdro, e não LISSANdro. Desculpe pedir pra corrigir de novo, mas você sabe como é… Não vai dar trabalho? Que bom. Obrigado.

Calma aí. Escrever CHATO é sacanagem. Pô, a culpa não é minha. Preciso te lembrar que não fui eu que escolhi meu nome? Eu sei que é complicado mas não fui eu que escolhi. Ei, ei, não precisa me chamar de Tirano. Tá bom, eu levo esse crachá com LisANDRA mesmo. Pô, por que tanta complicação só por conta de um nome e de um sobrenome? Onde já se viu? Por falar nisso, qual é o teu nome?

Por que precisamos de Picard

Quando Star Trek foi criado a comoção foi grande. Num mundo extremamente polarizado e a beira da extinção nuclear, éramos confrontados e desafiados por uma série de TV a imaginar um futuro bem diferente. Um futuro sem dinheiro, sem preconceitos, onde a maior força militar da Galáxia era voltada a exploração de novos mundos e civilizações. Exploração, não. O duplo sentido não favorece a explicação da sua missão. Busca ou, melhor, encontro são palavras mais adequadas. Seu propósito era propiciar o encontro entre entes diferentes em busca pela paz.

Óbvio que havia ranços do passado. O conflito com os Klingons e o caráter belicista da Frota Estelar estavam sempre lá para nos lembrar que, embora estivéssemos no caminho certo, não podíamos nos descuidar.

O mundo mudou e Star Trek mudou junto. Nos anos 80, com o fim da Guerra Fria, 25 anos após o movimento dos direitos civis nos Estados Unidos, parecíamos mais próximos desse mundo ideal. Por isso foi tão providencial termos a Nova Geração. E Jean Luc Picard.

Picard, ao contrário de Kirk, sempre propenso a lutar e deixar seus instintos tomarem decisões precipitadas, era ponderado e sábio. Um líder e ao mesmo tempo um team player. Um humanista. Enquanto na Geração Clássica, o mundo ainda meio que buscava ser a utopia que ele era destinado a se tornar, em a Nova Geração assim já o éramos e o desafio era manter esse sonho. Vivíamos numa versão fantasiosa do que os anos 90, com seus mercados comuns, liberação dos costumes, internet e livre expressão, diziam ser.

Os anos passaram. O mundo mudou, assim como Star Trek.

Como qualquer ficção científica, ela espelhou o nosso mundo atual, mas aos poucos foi esquecendo a sua missão de nos fazer olhar pra frente. Esqueceu que seu destino era servir de exemplo e não exaltar o Status Quo. Esqueceu que seu destino não era glorificar as desventuras de um Kirk adolescente ouvindo Beastie Boys, nem transformar Kahn num terrorista sem charme ou sexualizar e imbecilizar Spock. Seu destino não era a comédia, nem a ação. Seu destino ainda era a reflexão. Por isso, precisamos de Picard.

Num mundo novamente polarizado, onde a caricatura se tornou a realidade e a ignorância é exaltada, precisamos lembrar. Precisamos lembrar que o mundo de paz e união que sonhamos é possível, mesmo que a Frota Estelar tenha se tornado populista e corrupta. Precisamos lembrar que todos são iguais, inclusive as formas de vida sintéticas. Que os nossos inimigos, como os Romulanos, podem dormir sob o nosso teto em paz. Que o mundo, que hoje parece tão confuso e ameaçador, pode ser, sim, melhor. E que a Terra é azul e não é plana.

Por isso é tão providencial que Picard e suas Lembranças, no primeiro episódio dessa nova série, venham nos resgatar e ensinar. Ensinar que só com respeito aos antepassados e com amor aos descendentes conseguiremos reconstruir a Utopia perdida dos anos 90 e da Nova Geração. E, assim, entre sonhos e memórias nos vinhedos Picard ouviremos o chamado que nos permitirá “ir aonde nenhum ser humano jamais esteve”. Mais uma vez.

A invasão dos críticos amadores

Hoje em dia, para evitar qualquer papo político, a única opção que resta em conversas com pessoas com as quais temos pouca intimidade é falar de filmes e séries. Mesmo assim, não conseguimos escapar do conflito gerado por posições engessadas e estanques. Sim, é triste, mas não podemos nos esconder dessa realidade. Na política e no entretenimento: somos fãs de polarização.

Enquanto alguns tentam falar da qualidade ou da sua apreciação pessoal dos filmes, outros insistem em evocar a fidedignidade, seja a conceitos, personagens, obras em que foram baseadas, estruturas narrativas e/ou estéticas. Enfim, Fidedignidade. Assunto complexo. Quero dizer, vai ser fidedigno a que?

Se pegar os personagens de filmes de super herói, já dá pra ver como o pessoal complica essa questão. Batman, por exemplo, do trabalho inicial do Bob Kane, que dizem não foi tão original assim; passando pela fase do Bat-Mite, alguém lembra dele?, dos anos 60; e avançando por Neil Adams, Frank Miller e as abominações dos anos 90 provocadas pelo inexplicável sucesso da Image, você tem uma tonelada de referências para se basear. E olha que nem mencionei a fase do Grant Morrison. Ops, tarde demais…

Se nem histórias em quadrinhos conseguem manter essa tal fidedignidade a supostos conceitos originais dos personagens, por que cobramos perfeição de qualquer outra obra de arte? Acho que isso tem um pouco a ver com uma virada de chave que rolou em diversas relações humanas e institucionais causada pelo mito de “O Cliente tem sempre razão”.

Antigamente, a gente, pelo limite de opções, era obrigado a consumir o que estava disponível ou despender energia física e libidinal para conseguir o que buscava. Afinal, ler um livro específico, ver um filme mais difícil de encontrar, ou ter que acompanhar um programa na TV síncrona requeriam planejamento e, algumas vezes, esforço.

Lembro de ter rotina rígida e objetiva de visita a sebos de discos e livros; frequentar cinemas escondidos na Tijuca para assistir a filmes dos anos 30 e 40; e ser sócio de mais de 50 locadoras de vídeo, do Leblon ao centro da cidade, muitas por conta de um só filme. Tanto investimento me fazia aproveitar melhor todas as experiências, de forma existencial e menos crítica. A busca não era pelo melhor, mas pelo mais interessante. E se não fosse interessante, a gente dava um jeito de fazer ficar interessante.

Isso não nos tornava complacentes com a baixa qualidade do entretenimento mas razoavelmente tolerantes e envolvidos. Era como se fosse nossa responsabilidade NOS divertirmos. A pergunta era: o que podíamos tirar de melhor das experiências que vivenciávamos?

Quando a quantidade de conteúdo disponível começou a aumentar e o nível de esforço para encontrar o que queríamos diminuiu, a preocupação e o trabalho passou a ser de curadoria. Atualmente, investimos nosso tempo e dinheiro em buscar as experiências que consideramos melhores, a.k.a. mais adequadas aos nossos gostos.

Nessa loucura de encontrar o entretenimento certo para o momento certo, viramos escravos de listas de 10 mais, 10 menos e 10 mais ou menos. É o inferno particular do protagonista de Alta Fidelidade. Só nos justificamos como seres humanos se provarmos que temos não só bom gosto mas um gosto melhor do que o dos outros. Enfim, tudo tem que ser perfeito, pois, afinal de contas, nós merecemos. Certo?

Nesse cenário, o ônus da diversão passou do espectador para o produtor. Não somos mais capazes de apreciar todas as experiências e dar-lhes significado pessoal. É como se houvesse uma tentativa de mostrar uma verdade oculta em tudo e que é nossa função avaliar se ela foi bem sucedida ou não. Pra isso o produto deve estar completo, posicionamento político, comercial, religioso, espiritual, estético e o escambau, para ser convenientemente consumido. Afinal, não sou eu que estou pagando? Então, divirta-me! Preciso lembrar? O cliente tem sempre razão.

O outro lado da moeda é que isso gera uma ansiedade brutal que te impele a acompanhar o processo de desenvolvimento das obras desde a criação para se assegurar que no fim terá a experiência perfeita e orgiástica que esperava. Buscamos uma originalidade impossível de se atingir; respeito e homenagem a obras que tem tantas interpretações quanto leitores ou espectadores; ousadia e inovação em equilíbrio com o cumprimento estrito das regras do McKee, Monomito, da estrutura de 3 atos e afins. Ficamos chatos pacas. Até nas coisas mais insignificantes. E conversamos sobre isso quando queremos escapar de falar de política?

Me questiono se as futuras gerações perderão a capacidade de experienciar a suspensão de descrença e a substituirão pela crítica imediata e lacradora tornando a obra apenas um pretexto para mostrar sua superioridade intelectual sobre o outro. Talvez a única maneira de evitar esse terrível futuro seja consumir menos, se importar menos com o que está em voga e buscar os seus interesses mais primais. Um belo exercício de humildade. Quase utópico. Melhor ficar vasculhando o Netflix por aquele filme perfeito que mostrará ao mundo como você é mais… mais… você sabe. Não sabe?

Enquanto isso, como continua impossível falar de política, não vamos contradizer os críticos amadores de plantão. Vamos apenas fingir que ouvimos os conhecidos enquanto esperamos sair a próxima alcatra no churrasco.

“Ah, você gosta do Tobey Maguire como Peter Parker mas prefere o Tom Holland como Homem Aranha? Tá, tá. E acha que nos filmes da Marvel o Aranha é coadjuvante, enquanto nos da Sony ele era o protagonista? Sei. Sei. Eu? O que eu acho? Sei lá. Acredita que eu nunca pensei a respeito?”

Assim, sabe?, exatamente como fazemos quando falam de política com a gente.

O Presidente Pescador

Não sei pra vocês, mas, pra mim, parece que os últimos seis meses estão sendo uma tragédia atrás da outra. Primeiro Brumadinho; depois os atiradores que mataram as crianças na escola em Suzano; some a eles o aumento das mortes de cidadãos por policiais, a estagnação da economia, a decadência do sistema de saúde, a deterioração da infraestrutura do país, o aumento do desemprego, e, presto, todas as distopias, que pagamos pra ver nas plataformas de streaming, estão começando a ter uma versão Live Action no Brasil.

Você pode dizer que é falta de fé ou, bate na madeira, azar, mas não é. Falta de fé só nos deixa sem esperança e sem forças e o, bate na madeira, azar é um evento negativo aleatório pelo qual não temos culpa e sobre o qual não temos controle.

O que vivemos tá mais pra maldição. É, maldição. Um conceito judaico cristão relacionado ao ato de desejar ou receber um infortúnio por algum motivo específico. Ao contrário dos revezes do, bate na madeira, azar, a maldição tem uma relação de culpa e similaridade ao que a motivou.

E o que tem motivado essa maldição? Todos os atos e intenções do governo. Não sacou a ligação? O “governo” diz que as leis ambientais são um estorvo pra nação, Brumadinho; o “governo” afirma que é preciso aumentar a quantidade de armas em circulação, Suzano; o “governo” afirma que é preciso facilitar a vida dos empresários e diminuir direitos dos trabalhadores para aquecer a economia, ela estagna; o “governo” afirma que é preciso endurecer a ação policial, o exército fuzila com 80 tiros um cidadão. Em suma, cada intenção dos poderes estabelecidos é paga com um simples lembrete da ignorância que guia o seu discurso.

Isso só me lembra a história do Rei Pescador.  

Percival, durante a busca do Santo Graal, entra num reino governado por um monarca ferido. Esse rei recebeu uma lançada nas suas entranhas e nada consegue fazer além de ficar sentado num barco, pescando, à espera de alguém que lhe faça a pergunta que irá lhe curar. É nesse barco que Percival vê o rei pela primeira vez.

O rei lhe indica o caminho do seu castelo e lá, Percival assiste a uma estranha procissão. A corte traz ao rei muitos presentes, tentando satisfazer todos os seus desejos, mesmo que, segundo interpretações psicanalíticas, ele seja impotente. Já a sua corte recebe as benesses que são negadas ao rei, o que aumenta a sua dor. Essa tentativa fracassada de agradar ao rei doente torna o próprio reino um reflexo das suas doenças. A terra é amaldiçoada pela impotência de seu rei. 

Percival pensa em fazer uma pergunta ao rei para curar o reino, mas foi educado a não fazer perguntas impertinentes, e desiste, partindo em direção a Camelot. 20 anos se passam. O reino, como o rei, definhou e se tornou esquecido de todos. Um dia, durante as suas peregrinações, Percival vê novamente o rei em seu barco. Finalmente, ele descobre qual é a pergunta que deve ser feita para curar o rei e seu reino.

A pergunta, como a própria lenda, tem muitas versões. Alguns dizem que a pergunta é sobre o Graal e quem o serve, outros sobre como o rei se feriu ou sobre o seu sofrimento. Em todos os casos há sempre um questionamento a respeito da origem da dor e qual é o seu remédio.

Nós temos um Presidente Pescador.


Um homem ferido, sem poder, lutando para satisfazer desejos vis que tornam a sua terra um lugar amaldiçoado. Um homem que odeia os que são diferentes dele, estimula a violência e não consegue se levantar para olhar além das suas professadas ignorâncias. Um homem que precisa responder a uma pergunta:

Qual é a dor que o fez assim?

E essa pergunta não deve ser feita só ao “rei” mas ao seu reino. Qual é a dor que está tornando tantas pessoas intolerantes e mesquinhas? O que está fazendo as pessoas odiarem o conhecimento e a ciência para justificar o extermínio de pessoas e ideias? O que está matando esse reino e o seu povo?

Qual é a dor que nos fez assim?

Enquanto não conseguirmos realizar esse exame de consciência e responder a essa pergunta, nossa terra continuará pagando pela nossa soberba e não poderemos tomar o gole do Santo Graal que irá nos regenerar enquanto povo e seres humanos. Afinal, não há remédio para a nossa dor que não a consciência da nossa responsabilidade frente a comunidade da qual fazemos parte.

Já passou da hora de buscarmos a nossa cura. Precisamos decidir: abandonamos esse barco ou deixamos o presidente voltar a pescar sozinho?

2019: Modo de Usar

Muito obrigado por comprar conosco, mas, infelizmente, lamento lhe informar, o produto que você está adquirindo já vem com defeito. Sim, eu sei, é um absurdo. Como podemos lhe oferecer algo que não vai funcionar? E pior, só avisar agora que você já pagou? Infelizmente, como você pode ver, era o único produto disponível em estoque e no mostruário. E você queria tanto trocar de modelo, não é mesmo? Então…

O que você faz com isso? Bom, desculpe rir, mas você imagina o que me passou na cabeça, não é mesmo? Bom, deixa pra lá. Falando sério, quando a gente recebe algo estragado só tem duas opções: ou consertar ou jogar no lixo. Se bem que no nosso caso, acho que jogar no lixo não é uma opção. Afinal, se a gente jogar ele no lixo, já viu, né? Eu sei que tem uma multidão que fica pedindo meteoro, criando animosidades, comprando drone assassino, sugerindo guerra civil, ou construindo bomba nuclear, mas não vamos fazer coro com os malucos, não é mesmo?

Então, parece que a única opção é consertar. Não, não. Infelizmente não tem possibilidade de troca. Produto único, de mostruário: você sabe, essas coisas.

Como conserta? Aí é mais complicado. Tem um bando de gente que diz que é autorizada, mas, cá entre nós, não tem autorizada. O conserto é com a gente mesmo. Pra falar a verdade, o produto está quebrado justamente porque um bando de gente acreditou em quem dizia que era autorizada. Deixamos na mão desses amadores que nunca entravam num acordo e aí deu no que deu. Claro que o produto é usado. Você achava que era novo? Sério? Que pena. Sempre foi usado. Passou o dia 31 de dezembro, a gente recicla. É, algumas vezes até parece que é novo, mas outras… Você entendeu, né?

Então, como conserta? Bom, uma opção é não ligar e deixar pra lá. Sério, às vezes isso funciona. Deixa o produto quietinho, nem mexe nele, vai cuidar da sua vida e, depois de um tempo, você liga e tá tudo funcionando. Eu sei, eu sei. Dessa vez parece que a gente tem que fazer alguma coisa. Mas, você viu o que aconteceu no ano passado? Era tanta vontade de fazer alguma coisa que a gente acabou quebrando o bichinho. Motivação, você sabe, não significa sabedoria.

Se eu estou dizendo que a culpa é sua? Bem, não dá pra negar que é, né? Pelo menos um pouquinho. Mas, relaxa, também é minha e de um bando de gente. Até quem não se mexeu tem um pouquinho de culpa. Vai ver o negócio é a gente deixar de pensar em quem é o culpado e tentar fazer algo pra consertar ele, concorda?

Olha, vamos fazer o seguinte: chama uns amigos teus, eu chamo uns meus e vamos conversar sobre como o produto devia funcionar. Esquece quem quebrou e por que está quebrado; não vamos tentar reproduzir situações antigas nem enaltecer os bons e velhos tempos que nunca existiram. Vamos focar no futuro. É, isso aí, no futuro. Nostalgia é coisa pra quem não tem imaginação. Vamos simplesmente nos concentrar para que as coisas estejam arrumadinhas em 2020, em comum acordo com todo mundo, e nos comprometer pra que elas realmente funcionem quando o outro ano chegar.

Ah, é. Tem os chatos de todas as espécies que acham que são donos do produto. Meu conselho, deixa eles pra lá e vamos consertar o produto sozinhos. Eles não tem como nos impedir. E, cá entre nós, eles não tem competência, criatividade, nem vontade de verdade pra fazer isso. E cuidado pra não cairmos na provocação deles. Você sabe como é. Esse é um daqueles jogos que a gente perde só de começar a jogar. Então, melhor ignorar.

Então, vamos começar a consertar? É, eu vou te ajudar. Sério. Deixa só eu fechar a loja e a gente pode sentar alí no botequim da esquina pra começar a discutir o que fazer com esse modelo 2019. Talvez no manual tenha algo pra gente aprender, mas não copiar, sobre como eles tentaram resolver os problemas dos modelos de 1929 a 1945. Ditadores; guerras iminentes; valorização da ignorância; crises econômica, política e social; genocídio; ódio e intolerância; nacionalismo exacerbado; culto a personalidades… Os defeitos são beeem parecidos… Eu sei que é difícil, mas vamos dar um jeito. Pode crer que vamos dar um jeito. E pode deixar que a primeira cerveja eu pago. Afinal esse papo vai ser longo.

Então, vamos começar?