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O Presidente Pescador

Não sei pra vocês, mas, pra mim, parece que os últimos seis meses estão sendo uma tragédia atrás da outra. Primeiro Brumadinho; depois os atiradores que mataram as crianças na escola em Suzano; some a eles o aumento das mortes de cidadãos por policiais, a estagnação da economia, a decadência do sistema de saúde, a deterioração da infraestrutura do país, o aumento do desemprego, e, presto, todas as distopias, que pagamos pra ver nas plataformas de streaming, estão começando a ter uma versão Live Action no Brasil.

Você pode dizer que é falta de fé ou, bate na madeira, azar, mas não é. Falta de fé só nos deixa sem esperança e sem forças e o, bate na madeira, azar é um evento negativo aleatório pelo qual não temos culpa e sobre o qual não temos controle.

O que vivemos tá mais pra maldição. É, maldição. Um conceito judaico cristão relacionado ao ato de desejar ou receber um infortúnio por algum motivo específico. Ao contrário dos revezes do, bate na madeira, azar, a maldição tem uma relação de culpa e similaridade ao que a motivou.

E o que tem motivado essa maldição? Todos os atos e intenções do governo. Não sacou a ligação? O “governo” diz que as leis ambientais são um estorvo pra nação, Brumadinho; o “governo” afirma que é preciso aumentar a quantidade de armas em circulação, Suzano; o “governo” afirma que é preciso facilitar a vida dos empresários e diminuir direitos dos trabalhadores para aquecer a economia, ela estagna; o “governo” afirma que é preciso endurecer a ação policial, o exército fuzila com 80 tiros um cidadão. Em suma, cada intenção dos poderes estabelecidos é paga com um simples lembrete da ignorância que guia o seu discurso.

Isso só me lembra a história do Rei Pescador.  

Percival, durante a busca do Santo Graal, entra num reino governado por um monarca ferido. Esse rei recebeu uma lançada nas suas entranhas e nada consegue fazer além de ficar sentado num barco, pescando, à espera de alguém que lhe faça a pergunta que irá lhe curar. É nesse barco que Percival vê o rei pela primeira vez.

O rei lhe indica o caminho do seu castelo e lá, Percival assiste a uma estranha procissão. A corte traz ao rei muitos presentes, tentando satisfazer todos os seus desejos, mesmo que, segundo interpretações psicanalíticas, ele seja impotente. Já a sua corte recebe as benesses que são negadas ao rei, o que aumenta a sua dor. Essa tentativa fracassada de agradar ao rei doente torna o próprio reino um reflexo das suas doenças. A terra é amaldiçoada pela impotência de seu rei. 

Percival pensa em fazer uma pergunta ao rei para curar o reino, mas foi educado a não fazer perguntas impertinentes, e desiste, partindo em direção a Camelot. 20 anos se passam. O reino, como o rei, definhou e se tornou esquecido de todos. Um dia, durante as suas peregrinações, Percival vê novamente o rei em seu barco. Finalmente, ele descobre qual é a pergunta que deve ser feita para curar o rei e seu reino.

A pergunta, como a própria lenda, tem muitas versões. Alguns dizem que a pergunta é sobre o Graal e quem o serve, outros sobre como o rei se feriu ou sobre o seu sofrimento. Em todos os casos há sempre um questionamento a respeito da origem da dor e qual é o seu remédio.

Nós temos um Presidente Pescador.


Um homem ferido, sem poder, lutando para satisfazer desejos vis que tornam a sua terra um lugar amaldiçoado. Um homem que odeia os que são diferentes dele, estimula a violência e não consegue se levantar para olhar além das suas professadas ignorâncias. Um homem que precisa responder a uma pergunta:

Qual é a dor que o fez assim?

E essa pergunta não deve ser feita só ao “rei” mas ao seu reino. Qual é a dor que está tornando tantas pessoas intolerantes e mesquinhas? O que está fazendo as pessoas odiarem o conhecimento e a ciência para justificar o extermínio de pessoas e ideias? O que está matando esse reino e o seu povo?

Qual é a dor que nos fez assim?

Enquanto não conseguirmos realizar esse exame de consciência e responder a essa pergunta, nossa terra continuará pagando pela nossa soberba e não poderemos tomar o gole do Santo Graal que irá nos regenerar enquanto povo e seres humanos. Afinal, não há remédio para a nossa dor que não a consciência da nossa responsabilidade frente a comunidade da qual fazemos parte.

Já passou da hora de buscarmos a nossa cura. Precisamos decidir: abandonamos esse barco ou deixamos o presidente voltar a pescar sozinho?

2019: Modo de Usar

Muito obrigado por comprar conosco, mas, infelizmente, lamento lhe informar, o produto que você está adquirindo já vem com defeito. Sim, eu sei, é um absurdo. Como podemos lhe oferecer algo que não vai funcionar? E pior, só avisar agora que você já pagou? Infelizmente, como você pode ver, era o único produto disponível em estoque e no mostruário. E você queria tanto trocar de modelo, não é mesmo? Então…

O que você faz com isso? Bom, desculpe rir, mas você imagina o que me passou na cabeça, não é mesmo? Bom, deixa pra lá. Falando sério, quando a gente recebe algo estragado só tem duas opções: ou consertar ou jogar no lixo. Se bem que no nosso caso, acho que jogar no lixo não é uma opção. Afinal, se a gente jogar ele no lixo, já viu, né? Eu sei que tem uma multidão que fica pedindo meteoro, criando animosidades, comprando drone assassino, sugerindo guerra civil, ou construindo bomba nuclear, mas não vamos fazer coro com os malucos, não é mesmo?

Então, parece que a única opção é consertar. Não, não. Infelizmente não tem possibilidade de troca. Produto único, de mostruário: você sabe, essas coisas.

Como conserta? Aí é mais complicado. Tem um bando de gente que diz que é autorizada, mas, cá entre nós, não tem autorizada. O conserto é com a gente mesmo. Pra falar a verdade, o produto está quebrado justamente porque um bando de gente acreditou em quem dizia que era autorizada. Deixamos na mão desses amadores que nunca entravam num acordo e aí deu no que deu. Claro que o produto é usado. Você achava que era novo? Sério? Que pena. Sempre foi usado. Passou o dia 31 de dezembro, a gente recicla. É, algumas vezes até parece que é novo, mas outras… Você entendeu, né?

Então, como conserta? Bom, uma opção é não ligar e deixar pra lá. Sério, às vezes isso funciona. Deixa o produto quietinho, nem mexe nele, vai cuidar da sua vida e, depois de um tempo, você liga e tá tudo funcionando. Eu sei, eu sei. Dessa vez parece que a gente tem que fazer alguma coisa. Mas, você viu o que aconteceu no ano passado? Era tanta vontade de fazer alguma coisa que a gente acabou quebrando o bichinho. Motivação, você sabe, não significa sabedoria.

Se eu estou dizendo que a culpa é sua? Bem, não dá pra negar que é, né? Pelo menos um pouquinho. Mas, relaxa, também é minha e de um bando de gente. Até quem não se mexeu tem um pouquinho de culpa. Vai ver o negócio é a gente deixar de pensar em quem é o culpado e tentar fazer algo pra consertar ele, concorda?

Olha, vamos fazer o seguinte: chama uns amigos teus, eu chamo uns meus e vamos conversar sobre como o produto devia funcionar. Esquece quem quebrou e por que está quebrado; não vamos tentar reproduzir situações antigas nem enaltecer os bons e velhos tempos que nunca existiram. Vamos focar no futuro. É, isso aí, no futuro. Nostalgia é coisa pra quem não tem imaginação. Vamos simplesmente nos concentrar para que as coisas estejam arrumadinhas em 2020, em comum acordo com todo mundo, e nos comprometer pra que elas realmente funcionem quando o outro ano chegar.

Ah, é. Tem os chatos de todas as espécies que acham que são donos do produto. Meu conselho, deixa eles pra lá e vamos consertar o produto sozinhos. Eles não tem como nos impedir. E, cá entre nós, eles não tem competência, criatividade, nem vontade de verdade pra fazer isso. E cuidado pra não cairmos na provocação deles. Você sabe como é. Esse é um daqueles jogos que a gente perde só de começar a jogar. Então, melhor ignorar.

Então, vamos começar a consertar? É, eu vou te ajudar. Sério. Deixa só eu fechar a loja e a gente pode sentar alí no botequim da esquina pra começar a discutir o que fazer com esse modelo 2019. Talvez no manual tenha algo pra gente aprender, mas não copiar, sobre como eles tentaram resolver os problemas dos modelos de 1929 a 1945. Ditadores; guerras iminentes; valorização da ignorância; crises econômica, política e social; genocídio; ódio e intolerância; nacionalismo exacerbado; culto a personalidades… Os defeitos são beeem parecidos… Eu sei que é difícil, mas vamos dar um jeito. Pode crer que vamos dar um jeito. E pode deixar que a primeira cerveja eu pago. Afinal esse papo vai ser longo.

Então, vamos começar?

O chafariz

Foi assim, sem aviso, que ele voltou. Não que ele tivesse ido para algum lugar, ele sempre esteve lá, mas ele estava morto. Inerte. Seco. Como todos nós.

Assim, naquela noite de terça feira, enquanto as crianças brincavam na pracinha e os adultos tomavam suas cervejas para esquecer seu hoje e seu amanhã, viu-se o primeiro sinal de vida.

Como o grito de um recém nascido, a água explodiu do seu topo com um estrondo. Vigorosa e abundante; limpa e convidativa, como se nunca tivesse parado de jorrar. Em estouros, a água descia da ânfora segura pela estátua no topo do chafariz, avisando “EU VOLTEI”.

Todos pararam o que faziam para observar. Sem timidez a água fluiu, enchendo a parte superior do chafariz e transbordando para a sua base. Os que passavam ao seu lado foram molhados pela violência desse retorno, mas não se importaram. A surpresa desse renascimento valia qualquer incômodo. As crianças e os adultos maravilhados se aproximaram e se banharam em suas gotas ou colocaram as mãos nos jatos de água. Não podiam acreditar que após tantos anos ele tinha voltado a funcionar.

E por que o chafariz voltou a funcionar? Ninguém sabia responder. Havia teorias. Muitas. Os oficiais da prefeitura, possivelmente responsável pelo retorno, sabiam menos ainda que os moradores. Aos poucos a dúvida e a desconfiança com o retorno foram esquecidas e todos simplesmente ficaram agradecidos por ter presenciado esse ato raro que provavelmente demoraria muito a voltar a acontecer.

Mas no dia seguinte, quando os adultos saiam pra levar as crianças para as escolas e correr atrás de trabalho, o chafariz continuava vivo. O fluxo de água diminuira, é verdade, mas não dava impressões de parar tão cedo.

Passamos a checar o chafariz ao sair e a voltar pra casa. Todo dia e toda noite, agradecíamos por ele estar ativo novamente mas tentávamos nos consolar antecipadamente nos dizendo “da próxima vez não vai estar mais funcionando”. E fomos maravilhosamente frustrados todas as vezes que passávamos pela praça e o víamos jovem novamente.

Aos poucos, as teorias do seu retorno se tornaram mais esotéricas. Alguns diziam que era um sinal positivo: a volta da água depois de uma grande seca. Outros viam como uma profecia maldita: o chafariz não aguentou tudo o que estamos passando e chora por nós. Positivo ou negativo, o fato se impôs e simplesmente aceitamos que ele voltou. Mesmo sabendo que iremos sofrer se ele novamente se for, foi bom reencontrá-lo.

Mas, confesso, toda vez que ponho os pés fora de casa, rezo em silêncio para que ele ainda esteja lá. O seu retorno é o NOSSO retorno e Deus sabe o quanto precisamos desse renascer.

Será que hoje a água ainda continua a jorrar? Só nos resta rezar. Só nos resta rezar.

Um segundo turno no Divã

Agora que o primeiro turno já está no seu final, acho que temos uma boa e triste ideia do que teremos para o segundo. Confesso, que , mesmo depois de tantas idas e vindas, tragédias e comédias, não estou surpreso; apenas frustrado. Não porque tivesse um candidato de minha predileção. Não tinha. Não tenho. Sim, é pública e notória a minha falta de simpatia e empatia pelos dois nomes e frentes ideológicas que vão rachar o país, mas o que me deixa realmente frustrado com toda essa situação é perceber que não vivemos uma crise política, mas uma crise psicológica.

No início do mês, um amigo confidenciou num grupo do What’s App que seu pai, antigo eleitor do Lula, impedido de votar no seu candidato, tinha tomado uma decisão: “Se não tem Lula, vou de Bolsonaro”. Pode parecer esdrúxulo, mas há um belo sentido por trás disso. A escolha feita pelo pai do meu amigo, como a da maioria da população, não é ideológica, política ou econômica. Repito, é psicológica. Mas o que podem ter de tão iguais candidaturas e orientações que parecem tão diferentes? Uma simples coisa: elas vendem a ilusão de um pai.

No final dos anos 90, um dos quadros que fazia mais sucesso no programa do Ratinho era o teste de DNA. Nele, se não lembra ou finge que não conhece, alguém ia pedir um teste de DNA para esclarecer uma paternidade suspeita. Mais importante do que unir a família, era deixar claro quem era o pai da criança. Por isso, na imensa maioria dos casos, depois da revelação, positiva ou negativa, da paternidade, os envolvidos caíam na porrada enquanto a banda do programa cantava “Parabéns pro Papai”. Um cenário bem provável de vermos após o segundo turno.

Quando vejo o embate eleitoral que se avizinha, só fico imaginando, ganhe quem ganhar, uma posse ao som de “Parabéns pro Papai”.

Afinal ambos os candidatos a caminho do segundo turno se apresentam como figuras paternas, ao mesmo tempo perversas e benéficas dependendo do seu ponto de vista. Um se apresenta como uma figura paterna severa que vai botar seus irmãos de castigo e te dar um pirulito por ser um bom filho, quer dizer, cidadão. O outro é o preposto de uma figura paterna quase sobrenatural que promete lhe aninhar no colo e lhe alimentar enquanto o defende dos irmãos maléficos que querem roubar sua mamadeira. O mesmo, não se engane, se aplica, em menor ou maior grau, aos outros candidatos.

Não é preciso ser gênio pra perceber que nenhum dos candidatos consegue se apresentar de uma forma racional. A questão emocional na decisão eleitoral é mais importante que todo o resto. Não precisamos de planos e inteligência; a promessa de segurança psicológica nos é suficiente. E isso não é culpa dos candidatos. Esse parece ser o único tipo de discurso que mobiliza os eleitores. Numa hora dessas vale a pena até questionar se temos maturidade para sermos uma república na medida em que tratamos os líderes políticos como reis eleitos por Deus que vão fazer cair o maná do céu. Já podemos trazer de volta os Orleans e Bragança? Desculpa, tem piada que não se faz.

Voltando a vaca fria, o problema já conhecemos. Agora, como quebrar esse ciclo neurótico? Buscando novos pais ou amadurecendo e nos tornando responsáveis pelo nosso futuro? Novos pais, cá entre nós, não vão funcionar. Desde Getúlio, sabemos disso. O que deveríamos fazer é simplesmente aceitar que somos filhos de uma Mátria solteira ao invés de vermos pais salvadores em qualquer namorado que ela arruma. Funciona. Podes crer. Muitos dos que não encontraram o pai no Ratinho conseguiram amadurecer, com diferentes níveis de dificuldade, mas conseguiram crescer.

E é isso que precisamos. Estamos precisando crescer. Enquanto continuarmos nessa fantasia, seja o resultado que tivermos no segundo turno, perderemos pelo menos mais 4 anos alimentando um sintoma que só serve pra nos infantilizar.

E, por favor, vamos parar de culpar os políticos. A responsabilidade de amadurecer é das crianças. Os pais podem facilitar ou dificultar o processo. E os nossos, na boa, não ajudam nada. Por isso, já passou da hora de assumirmos essa missão.

Mas sempre há a esperança de um milagre: talvez, se formos invadidos e analisados por um exército de psicanalistas de Buenos Aires talvez essa cura venha um pouco mais rápido. Ou talvez até isso seja uma fantasia. Talvez, o nosso caso, nem Freud explica.

Leve-nos a seu (candidato) a líder

Agora que a Copa do Mundo terminou, somos obrigados a voltar a realidade e encarar a triste missão de eleger presidentes, governadores e parlamentares. Não sei se vocês tem certeza do que vão fazer, mas daqui do meu lado, confesso, as coisas estão bem difíceis. Óbvio que tem os eticamente inelegíveis e surpreendentemente populares em quem não voto nem amarrado. Tem uns que me inspiram certa simpatia, mas toda hora estão metendo os pés pelas mãos. Tem uns que parecem até bem intencionados, mas a sua ingenuidade é de matar. E tem aqueles simplesmente desprezíveis. Em resumo, não sei que diabos fazer. Nesse clima geral de necessidade de renovação de estoque sem ter mercadoria de reposição dentro da validade, estou preferindo planejar um exílio.

Mas não dá pra fugir da pergunta: quem escolheremos para nos liderar? Afinal, esse tal exílio não é uma opção tão viável assim e, como cidadãos, temos nossas responsabilidades com o futuro dessa coletividade. Mas como fazer qualquer aposta em alguém nesse cenário de incerteza que vivemos? Como saber se não estamos dando um tiro no pé ou botando revólver na mão de macaco? Como evitar as futuras noites de insônia ao descobrir que escolhemos o pior pra nós mesmos?

Ontem, assistindo a The Arrival, me bateu uma ideia. Ao invés de focar na qualidade dos candidatos, vamos mudar o processo de escolha.

Normalmente, uma escolha racional de um candidato é baseada no histórico e nas propostas que ele apresenta. Confiando cegamente num sonho e com esse fiapo de informações, fazemos uma escolha que cada vez mais tem se mostrado vital pro nosso dia a dia. Talvez pensar com base no que achamos real e agir “racionalmente” seja o problema. Não dá pra projetar o comportamento de alguém com base simplesmente num histórico declarado e um discurso de intenções. Talvez precisemos de um exercício criativo que nos permita pensar em situações limites onde essas pessoas precisariam operar. Assim, para tentar nos auxiliar a fazer uma escolha melhor em outubro, desenvolvi o exercício: “Leve-nos a seu (candidato a) Líder”.

Funciona assim:

Imagine que o nosso país, cidade ou estado é visitado por um grupo de alienígenas; é, do espaço sideral, de roupas prateadas, bem educados, pacíficos e avançados moralmente. Tipo os poucos ETs bonzinhos dos filmes dos anos 50. Uns seres muito loucos mas gente boa que vieram nos auxiliar a melhorar um pouco a nossa condição.

Imagine que seja você o primeiro ser humano a ser contatado; seja numa praia deserta, numa rua escura ou no botequim, depois de meia dúzia de chopes. Os Alienígenas claramente bem intencionados e amistosos pedem: “Leve nos a seu Líder”. Pra quem você gostaria de leva-los?

As opções realmente não são boas. Você pode tentar esse exercício de múltipla escolha, com o que há disponível, ou expandir as opções transformando numa pergunta aberta. Dentre todas as pessoas da sua coletividade, com quem você gostaria que esse povo legal do espaço fosse conversar e discutir o nosso futuro? Não consegue imaginar ninguém? Tranquilo. Crie essa pessoa. Imagine seus valores, de onde ela veio, no que trabalha, a sua história de vida. Agora deu? Ótimo. Assim deve ser seu candidato.

Se conseguiu responder na múltipla escolha, parabéns, pode começar a fazer campanha. Se pensou numa pessoa não envolvida na política, tente de alguma forma contatar ela e mostrar que ela reúne as características que gostaria de ver em alguém para nos representar. Se precisou imaginar a pessoa, que tal se tornar ela? É, nesse tipo de cenário, responder aos aliens: “Tá falando com ela mesma”, é uma resposta bem viável.

Repasse esse exercício a conhecidos, familiares, amigos e até pra aquele chato que vai votar mal. Tente fazê-lo te convencer que o candidato dele, sabe de quem estamos falando, poderia ter um papo produtivo com o povo do espaço.

Ah, e por que esse exercício não é feito pensando em uma invasão alienígena por seres beligerantes? Três razões. Uma, precisamos de representantes que saibam colaborar e viver em paz uns com os outros. Será que já não sofremos o suficiente na mão de tiranos metidos a guerreiros? Em segundo lugar, se os caras vem do espaço sideral pra nos dominar ou exterminar, não vieram pra perder. Simplesmente não teremos chance. Finalmente, como você acha que alguém que não consegue lidar nem com alienígenas que vem dos confins do universo pra nos ajudar vai lidar com uma guerra espacial?

Sinceramente acho que esse método pode nos ajudar a fazer escolhas realmente melhores, mas, pelo bem ou pelo mal, não custa ir decorando: “Klaatu barada nikto”. Só por precaução.

Meu último tweet

Confesso que estou surpreso.

Depois que saí do Facebook em 2012, sempre considerei o twitter um recanto de paz. Poucas pessoas; papos construtivos e bem humorados;, referências interessantes; um lugar onde se estar.

Infelizmente, nos últimos tempos comecei a ver um afluxo de caras conhecidas e o clima meio que começou a mudar. Numa aparente debandada do Facebook, que, pelos comentários, imagino estar mais tóxico que as piscinas dos clientes da Erin Brockovich, o pessoal veio se refugiar no twitter.

Infelizmente, muitas vezes os que fogem de algo carregam em si aquilo mesmo do que estão fugindo. Logo, a mentalidade do Facebook (pagação de moral em textão, conversas agressivas guiadas pela necessidade de lacrar, narcisismo exagerado e sem motivo) se uniu ao espírito de zoação do twitter e transformou o ambiente numa abominação. Ao invés daquele recanto de paz, de repente me vi numa câmera de eco em que se tentava discutir coisas sérias na velocidade da luz com apenas 280 caracteres.

No início, guiado pela minha autodestrutiva ingenuidade, comecei a me manifestar. Tentava parar as tretas; alertar para a divulgação de fake news; questionar comentários preconceituosos e carregados de ódio de amigos que não sabia terem esse tipo de pestilência dentro de si. Óbvio, deu chabu. Ao invés de acalmar os ânimos, comecei sem querer a atiçar brigas. Pessoas que nem estavam no papo começavam a se meter e, em pouco tempo, o que era um esclarecimento ou tentativa de levantar uma outra visão sobre uma polêmica qualquer virava uma batalha campal da qual me retirava pedindo desculpas pelo que tinha feito.

Inevitavelmente, pelo bem da minha saúde mental, fui obrigado a dar mute em amigos. Gente com quem cresci ou trabalhei. Não podia assistir a destruição da imagem de pessoas pelas quais tinha tanto apreço. Era como ver sem a menor ação um parente ser consumido por câncer terminal, só que nesse caso na alma.

Conversei com algumas pessoas a respeito e todas acharam exagerado o meu mal estar. “Deixa pra lá”; “Seja mais seletivo”; “Não dá pra levar a sério as pessoas nas redes sociais”. Eu entendia essa posição mas me sentia como um depressivo recebendo tapinhas nas costas seguido de um “anime-se, isso é coisa da sua cabeça”. Eles tem razão. É coisa da minha cabeça. Gosto de trocar ideias e discutir longamente sobre as coisas; preciso de tempo pra pensar no que dizer e nas minhas conclusões sobre elas; adoro mudar de ideia e opinião; não acho que minhas observações são mais importantes que as dos outros nem acredito em verdades indiscutíveis; enfim, sou um cara do século passado. E o twitter deixou de ser o espaço onde podia fazer isso.

Uma coisa que costumamos esquecer é que a ágora, o espaço de discussão, interfere enormemente na condução de nossas interações. Podemos falar do mesmo assunto no botequim, na universidade, dentro do ambiente corporativo, com nossas famílias, e as conduções dos diálogos e, ás vezes, suas conclusões serão diferentes. Sinto como se estivesse me repetindo, quando saí do Facebook e abandonei alguns grupos de WhatsApp, e me mostrando como uma pessoa bem antissocial. Mas estranhamente sinto exatamente o contrário. Sinto que a minha vontade de sair de ambientes tóxicos é justamente para preservar as minhas relações sociais que, acredito, devem ser governadas pela interação entre os meus desejos e do outro. E, com certeza, não faz parte do meu desejo participar como vítima ou algoz de relações de opressão e ódio. Por isso, o link para esse artigo vai ser meu último tweet.

Se no caso do Facebook, minha saída foi motivada pela falta de propósito ou qualidade nas interações, e dos grupos de WhatsApp pelos monólogos coletivos, estou saindo do Twitter por não querer participar de uma ferramenta cujo propósito se tornou distribuir afirmações narcísicas descabidas e gerar interações abusivas.

Como Thoreau, estou me isolando no meu Walden digital. Pode ser que volte, mas, como aconteceu com o Facebook, tenho quase certeza que esse é um adeus definitivo.

Não acho que todas as ferramentas de mídia social são ruins. Tenho visto experiências e novidades bem interessantes, mas aquelas nas quais as pessoas que conheço se encontram não promovem redes de relacionamento mas a afirmação vazia das características mais vis de nossas personalidades. Nessa horas é que sinto uma bruta saudade do Google Reader, falecido há 5 anos.

Já avisei ao pessoal da minha saída, pedi links de blogs e e-mails, refiz feeds no Old Reader, assinei newsletters e já comecei a interagir diretamente por e-mail com diversos amigos distantes. Usando a Internet como se fosse 1997. Um raro prazer.

Mas essa saída não significa um corte. Vamos manter contato. Os meus estão aqui. Mande uma mensagem, deixe um comentário, vamos construir relações mais positivas. Teremos mais tempo pra pensar sobre o mundo, trocar nossas observações e, quem sabe, até mandar cartas uns para os outros. Vamos alimentar nossas mentes e nossos corações para nos tornarmos pessoas melhores e não simplesmente lacradores orientados por algoritmos skinnerianos.

E assim esse pássaro se despede, deixando no ar um último piado.

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