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A triste sina do empreendedor brasileiro pós CoVid-19

Com o relaxamento das medidas de distanciamento social impostas pela pandemia do CoVid-19, o Motel Bali, um conhecido Drive In e centro de prostituição em Sta. Helena da Boa Vista, como tantos empreendimentos brasileiros, resolveu reabrir para retomar a atividade econômica do país e sanear suas finanças.

Promovendo a inovação nos seus negócios, José Pereira Nunes, gerente e proprietário do Motel Bali, instalou televisores de tela plana em cada um dos pit stops do drive-in e desenvolveu um sistema de entrega de kits de higiene, petiscos, preservativos e bebidas utilizando drones operados por seus filhos gêmeos, Maxwell e Norton, estudantes do curso técnico de eletrônica da ETEC e últimos ganhadores do prêmio Cientistas do Futuro do nosso jornal.

A reabertura do Motel Bali aconteceu no último sábado com um open bar de Gin acompanhado da exibição do documentário Um Homem Feio, sobre a vida do ator, ex-namorado da ex-esposa do ex-presidente Fernando Collor, e atualmente diretor do Instituto Inhotim, Antônio Grassi. A fila de carros no Motel Bali chegava à praça Otacílio Correia, o que confirmou a popularidade local de Grassi que morou em Sta. Helena da Boa Vista de agosto de 1983 a maio de 1984.

Depois de todos os carros e espectadores estarem acomodados em seus pit stops, o filme começou a ser transmitido às 19:23 o que deu início também ao serviço de entregas por drone. Às 20:14, o filme foi reprisado por pressão dos clientes que se comunicavam com a gerência e faziam pedidos aos drones pelos seus celulares. A tragédia, segundo informações do Corpo de Bombeiros de Pintassilgo, município fronteiriço a Sta. Helena da Boa Vista, começou às 20:33.

Devido à interferência entre os sinais de celular, dos cabos de internet usados para replicar o serviço de streaming, e dos controles remotos dos drones, alguns dos aparelhos voadores que entregavam bebidas aos pit stops através dos seus tetos solares ficaram desgovernados e começaram literalmente uma guerra de garrafas. Segundo uma das vítimas, que preferiu não se identificar, a situação era “uma mistura dos filmes O Exterminador do Futuro e Matrix com a cena de luta de facas no clipe Beat it (sic) do Michael Jackson”. Com as garrafas quebradas nesse combate aéreo, o Gin de má qualidade, comprado por Pereira Nunes, molhou todo o motel como uma chuva mortal e, pelos tetos solares, atingiu as TVs gerando a faísca que transformou o Motel Bali numa bola de fogo.

Os espectadores evadiram-se do Motel, a maioria nús, e foram resgatados pela Polícia Militar que também os protegeu dos seus cônjuges que, atraídos pelo incêndio, acabaram descobrindo que estavam sendo vítimas de adultério.

Nunes e seus filhos, Maxwell e Norton, foram presos em flagrante por formação de quadrilha, rufianismo, pela exibição não autorizada do documentário, e pela violação das leis de controle do espaço aéreo da ANAC.

Coincidentemente, Antônio Grassi, o tema do documentário exibido ilegalmente, evadiu-se de Sta. Helena da Boa Vista em maio de 1984 após um grande incêndio que consumiu o hotel onde ele estava hospedado. Grassi pode até ser um homem feio, mas, nesse sábado, feio mesmo ficou pro proprietário do Motel Bali, José Pereira Nunes, que declarou em sua defesa que “Com tantas regras, é impossível ser empreendedor no Brasil”.

Meu pai, antifa de ocasião

Quando eu perguntava ao meu pai por que diabos ele foi lutar na segunda guerra, ele sempre me dizia:

– Pra derrubar o Getúlio.

Não parecia coerente. A guerra era na Europa e o Brasil estava lutando junto com os Aliados. Mas ele explicava:

– Vargas se aliou pensando no dinheiro, não na ideologia. Eu sabia que, mesmo com essa virada de casaca em cima da hora, o governo fascista dele não sobreviveria à queda da Alemanha e da Itália.

Ele estava certo. Seu governo realmente deixou de fazer sentido com a nova ordem mundial, mesmo que 10 anos depois ele tenha voltado ao poder pelas mãos do povo, o que prova que brasileiro se amarra num tirano.

A birra do meu pai com Vargas durou até o fim da sua vida. Um dos dias que mais ansiava no ano era o aniversário da morte de Getúlio quando ele ia xingar as viúvas espirituais do ditador que colocavam flores no seu busto na Cinelândia.

Vocês vão se surpreender, mas o engraçado é que as suas motivações não eram exatamente políticas. Meu pai era um sujeito reacionário, ex-aluno do colégio militar, que apoiou a ditadura de 64 comandada por vários de seus colegas de escola, e, vergonha suprema, votou no Bolsonaro pra vereador, o que o torna responsável pela criação desse monstro, pela simples expectativa de um aumento na sua pensão de ex-combatente.

Às vezes me pergunto: “que força estranha moveu a versão jovem do meu pai a ser um antifa de ocasião durante a segunda guerra?”.

Não sei exatamente, mas desconfio que foi ciúme. Meu pai era meio aparentado do Getúlio. A avó do meu pai era tia avó de Vargas o que faria dele uma espécie de primo de milésimo grau. Provavelmente, sendo criado na década de 30, deve ter ouvido a família enaltecendo o parente que se deu bem, enquanto ele era um estorvo, o orfão que eles precisavam criar. Calhou que, por conta desse parentesco longínquo, numa visita de Getúlio ao colégio militar ele foi apontado para fazer o discurso de boas vindas. Era a sua oportunidade de se vingar.

Disse ele que fez dois discursos: um pra apresentar aos oficiais do colégio, outro pra fazer na hora. Discurso aceito pelo colégio, lhe foi concedida a oportunidade de dizer o que pensava ao ditador. Eu só imagino como foi. No meio de um jantar para todo o colégio e convidados; os alunos com uniformes de gala; puxa-sacos tendo seu dia de glória; um dia de festa reacionária.

O homem chegou. Foi aplaudido de pé,  os oficiais do colégio fizeram a abertura cumprimentando o ditador e chamaram meu pai ao palco. Ele tirou do bolso o seu discurso alternativo, respirou fundo e finalmente disse o que estava entalado na sua garganta. Mas nem conseguiu terminar; foi retirado do palco no meio da sua fala e preso por 30 dias. Algo realmente marcante para um menino de 12 anos. Até sua morte, contava essa história cheio de orgulho. E tinha razão pra isso.

Quando vejo o povo discutindo quem é antifa de verdade ou não, lembro do meu pai. Ele não era, mas fez a sua parte na hora certa. Seus motivos podiam ser vis e pessoais, mas, não tivessem ido ele e tantos outros lutarem na Itália, as coisas poderiam ser diferentes. Tá, não muito, mas nessas horas toda ajuda conta.

Por isso, se aquele tua amiga arrependida,  aquele outro que não sabe bem o que quer, a patricinha que se acha politizada, o que só quer ver o circo pegar fogo, ou mesmo aquela intelectual que apoia totalitarismos do outro lado do espectro político querem entrar na luta, os abrace. Tem certas horas que frente ampla tem que ser ampla mesmo.

E depois que as coisas se resolverem, a gente discute as nossas diferenças. Afinal se a gente não fizer nada agora, pode ser que a gente não possa discutir mais nada por um bom tempo. Então melhor antifa de ocasião do que fascista de coração.

Não concorda? Tudo bem, vamos discutir no boteco depois. Agora é hora de união.

Bye, Bye, Brazil

Tive duas oportunidades, meio sem querer, de conhecer boa parte do Brasil.

A primeira foi por ingenuidade.

Eu tinha 20 anos, relia compulsivamente On The Road desde os 17, e, espremido entre a adolescência e a fase adulta, e paralisado pela falta de perspectiva que os anos 90 e a minha faculdade eternamente em greve me geravam, eu só queria ir embora. Pra onde? Não sei. Eu não tinha um plano. Podia ser pros anos 40/50, pra rota 66, pra qualquer lugar. Como eu disse, foi in-ge-nu-i-da-de.

Guardei durante um semestre 800 reais e combinei com uma colega de faculdade que em janeiro de 1996 iríamos rumar para a Rodoviária Novo Rio e pular no primeiro ônibus que estivesse pra sair. Faríamos o mesmo nos demais destinos até o dinheiro acabar. Um sonho. Ela consentiu, eu acreditei, e na hora H, ou quase, ela pulou fora. Como disse, in-ge-nu-i-da-de.

Frustrado, comentei com uns amigos dos planos furados e um deles, que tinha carro e carteira de motorista, mesmo que vencida, se prontificou a participar da aventura. Outros dois que também nada tinham a fazer naquele verão se apresentaram e completaram a tripulação. E lá fomos nós quatro, num Uno, sem uma carteira de motorista válida, do Rio ao Piauí e de volta em um mês e um dia. O motorista se tornou nosso desafeto, um dos tripulantes ficou no Piauí, e o outro se tornou padrinho da minha filha.

Sem precisar entrar em detalhes, foi uma viagem que mudou a minha existência. Mas bastou. Me tornei uma nova pessoa, terminei a faculdade, comecei a trabalhar, abri 3 empresas, e me tornei, aos trancos e barrancos, adulto. Era hora de ficar em casa, no Rio, de onde não saí, pelos próximos 10 anos.

Aí veio a segunda oportunidade. Saindo de uma falência humilhante e complicada, fui obrigado aos meus trinta e poucos anos a trabalhar pela primeira vez de carteira assinada. Parecia um garoto velho obrigado a colocar calças curtas e voltar pra escola. Mas não foi ruim.

Uma das minhas primeiras tarefas foi dividir um roteiro de treinamento pelo Brasil com um colega. Ele dividiu a missão irmãmente:

– Pra ninguém ficar sobrecarregado, vamos pegar cada um o mesmo número de cidades. Aqui, ó, eu vou pra Salvador, você vai pra Açu. Eu vou pra Recife, você pra Coari. Eu pego as cidades na linha verde do Nordeste e você faz o ABCD paulista. Combinado?

– Combinado.

Era um sujeito generoso. Mesmo que não intencionalmente.

Graças a essa divisão, conheci o sertão, os pampas, as cidades industriais paulistas, andei de canoa pelo rio Amazonas, visitei as cidades petrolíferas do litoral do sudeste, os estaleiros do sul do país, e as minas de Minas e os portos no norte. Fiz amigos, conheci novas realidades e, com orgulho, fiz a minha parte pra melhorar um pouco o país.

Durante 8 anos, nessa e numa outra empresa, fazia trajetos loucos e conduzia treinamentos e reuniões de troca de conhecimento nos mais distantes rincões do Brasil. Enquanto uns iam pra Vienna, apresentar trabalhos acadêmicos baseados nos meus esforços, eu não me incomodava de trabalhar durante feriados em Ourilândia. Sou um sujeito humilde, mas um pouquinho ressentido. Deu pra notar?

Depois dessa loucura, mais uma vez cresci e aquietei. Virei os 40, tivemos a nossa filha e voltamos pro lugar de onde viemos.

Agora, olhando o futuro através da nesga de céu que a janela da casa que o meu pai me deixou permite, não vejo horizontes para esse país que eu desbravei.

Nunca fui fã da bandeira ou da camisa de futebol, mas hoje tenho nojo do significado que os grupos fascistas lhe impuseram. Nunca acreditei em políticos profissionais, nem em partidos, afinal política se faz na mesa de bar, mas toda vez que vejo menção ao nome Brasil ou alguém cantarolando o hino dá vontade sair do recinto.

A apropriação messiânica desta terra, que nunca teve a ambição de fazer sentido ou ter um propósito, a tornou inóspita. O Brasil era, foi, pra mim, um lugar de descoberta, de alegria, de crescimento, de emoção, de maturidade, de trabalho, de surpresa e de introspecção. Agora, esse país, do qual pessoas cheias de ódio falam nas ruas e na TV, se tornou o pretexto para a opressão e para o genocídio de quem o tornava melhor justamente por não fazer nada por ele. No melhor estilo taoísta, o caminho dessa terra era muito melhor quando não havia destino. A sua melhor missão era simplesmente (não) ser.

Agora que Aldir Blanc morreu, impossível não lembrar que o “Brazil não conhece o Brasil”. Nem eu, que andei pacas por ele, o conheço. Quem dirá esses sujeitos gananciosos e mal intencionados buzinando pelo direito de passar o fim de semana em Miami às custas do trabalho e das vidas alheias, dentro de caminhonetes importadas balançando bandeiras verde amarelas made in China?

E, assim, em respeito a memória desse Brasil que definha, eu penso que essa ideia insistentemente nascedoura de Brazil deveria morrer também. Vamos rachar a terra, separar tudo isso, antes que as lembranças dela se tornem amargas e fatais demais.

Vamos viver em nossos condados, e lembrar, sem saudades de quando essa terra era uma só, e sem alimentar as falsas esperanças de um rei Artur que venha reuni-la mais uma vez.

Vamos, após o isolamento social, voltar aos botequins e discutir uma ideia de país, ou melhor, de países sem messianismos ou destinos manifestos. A ideia de um conjunto de terras diversas e amigas, uma nação nem melhor, nem pior, mas, como o Salgueiro, apenas diferente. Sob vários deuses e acima de ninguém. Assim, como o Brasil já foi e não é mais.

Bye, bye, Brasil. A última ficha caiu.

Nome e Sobrenome

Oi, tudo bem? Podia fazer o meu crachá de novo? É que o meu nome tá errado. Onde? Aqui, ó. É LisanDRO e não LisanDRA. OK. OK. Sem problemas. É um erro comum. Não é a primeira nem a última vez que vai acontecer comigo. Também, cheio de Lisandra por aí e quase nenhum Lisandro. A não ser na Argentina. Lá o nome é bem mais comum. 

E o pior, sabia?, é que Lisandra não faz o menor sentido. Sério. Afinal, ANDRO é homem. É, não tem ANDRA. Meu nome, por exemplo, é LIS-ANDRO. Lis, flor; andro, homem; Homem Flor em grego. De onde? Coisas da minha mãe. Ela queria botar em grego: Lysander. Sei lá por quê. Tinha uma história que o Lisandro grego, o original, foi um espartano que, cheio de esquemas, conseguiu dominar Atenas. Lisandro, o tirano de Atenas. Doido, né? 

Uma vez li um artigo de um psicanalista italiano falando que a escolha do nome tem a maior implicação no nosso comportamento, porque é o indicativo das expectativas dos pais. E eles tendem a te criar tentando cumprir essas expectativas. Aí eu fico pensando: qual era a expectativa da minha mãe? Que eu dominasse através da astúcia uma comunidade rival que se gabava justamente da sua inteligência? Expectativa nada difícil de cumprir, né? 

O meu sobrenome? Pra quê? Ah, pro crachá novo. Se prepara: Gaertner. Deixa eu soletrar. G-A-E-R-T-N-E-R. Complicado, né? Com primeiro e último nomes desse jeito, não tem como acertarem. A pronúncia ainda é complicada: Guértiner. O pessoal lê e diz Gaértiner. Mas eu nem ligo. Tem um tio da minha mulher que eu conheço há 20 anos e me chama de Leandro até hoje. Vou me ligar com o sobrenome? 

Não, o sobrenome não é alemão. Na época que a minha família veio pra cá nem tinha Alemanha ainda. No máximo é Austro-Húngaro. É nome de cristão novo, sabe? Os judeus pra fugir das perseguições trocavam seus nomes pra nome de árvore ou de profissão. Gaertner, por exemplo, é Jardineiro. E eu ainda sou Oliveira, da parte da minha mãe. Dupla ascendência judaica. Pra complicar a minha vida um pouco mais, estudei num colégio católico mega rígido e na adolescência era apaixonado por uma judia. Vivia falando que ia me converter, mas, cá entre nós, não ia ter coragem de passar pela circuncisão já adolescente. Imagina só. Punk.

Como? É, traduzindo o meu nome é Homem Flor Jardineiro. Não, não foi pensado. Mas a coincidência é legal. Será que sou o jardineiro de mim mesmo? Acho que todo mundo tem essa função de se regar e se alimentar, como se fôssemos plantas conscientes. Engraçado, nunca tinha pensado nisso. É uma maneira interessante de ver a vida.

Bom, o crachá tá pronto? Obrigado, querida. Pera ai. Acho que você errou de novo. É LISANdro, e não LISSANdro. Desculpe pedir pra corrigir de novo, mas você sabe como é… Não vai dar trabalho? Que bom. Obrigado.

Calma aí. Escrever CHATO é sacanagem. Pô, a culpa não é minha. Preciso te lembrar que não fui eu que escolhi meu nome? Eu sei que é complicado mas não fui eu que escolhi. Ei, ei, não precisa me chamar de Tirano. Tá bom, eu levo esse crachá com LisANDRA mesmo. Pô, por que tanta complicação só por conta de um nome e de um sobrenome? Onde já se viu? Por falar nisso, qual é o teu nome?

Por que precisamos de Picard

Quando Star Trek foi criado a comoção foi grande. Num mundo extremamente polarizado e a beira da extinção nuclear, éramos confrontados e desafiados por uma série de TV a imaginar um futuro bem diferente. Um futuro sem dinheiro, sem preconceitos, onde a maior força militar da Galáxia era voltada a exploração de novos mundos e civilizações. Exploração, não. O duplo sentido não favorece a explicação da sua missão. Busca ou, melhor, encontro são palavras mais adequadas. Seu propósito era propiciar o encontro entre entes diferentes em busca pela paz.

Óbvio que havia ranços do passado. O conflito com os Klingons e o caráter belicista da Frota Estelar estavam sempre lá para nos lembrar que, embora estivéssemos no caminho certo, não podíamos nos descuidar.

O mundo mudou e Star Trek mudou junto. Nos anos 80, com o fim da Guerra Fria, 25 anos após o movimento dos direitos civis nos Estados Unidos, parecíamos mais próximos desse mundo ideal. Por isso foi tão providencial termos a Nova Geração. E Jean Luc Picard.

Picard, ao contrário de Kirk, sempre propenso a lutar e deixar seus instintos tomarem decisões precipitadas, era ponderado e sábio. Um líder e ao mesmo tempo um team player. Um humanista. Enquanto na Geração Clássica, o mundo ainda meio que buscava ser a utopia que ele era destinado a se tornar, em a Nova Geração assim já o éramos e o desafio era manter esse sonho. Vivíamos numa versão fantasiosa do que os anos 90, com seus mercados comuns, liberação dos costumes, internet e livre expressão, diziam ser.

Os anos passaram. O mundo mudou, assim como Star Trek.

Como qualquer ficção científica, ela espelhou o nosso mundo atual, mas aos poucos foi esquecendo a sua missão de nos fazer olhar pra frente. Esqueceu que seu destino era servir de exemplo e não exaltar o Status Quo. Esqueceu que seu destino não era glorificar as desventuras de um Kirk adolescente ouvindo Beastie Boys, nem transformar Kahn num terrorista sem charme ou sexualizar e imbecilizar Spock. Seu destino não era a comédia, nem a ação. Seu destino ainda era a reflexão. Por isso, precisamos de Picard.

Num mundo novamente polarizado, onde a caricatura se tornou a realidade e a ignorância é exaltada, precisamos lembrar. Precisamos lembrar que o mundo de paz e união que sonhamos é possível, mesmo que a Frota Estelar tenha se tornado populista e corrupta. Precisamos lembrar que todos são iguais, inclusive as formas de vida sintéticas. Que os nossos inimigos, como os Romulanos, podem dormir sob o nosso teto em paz. Que o mundo, que hoje parece tão confuso e ameaçador, pode ser, sim, melhor. E que a Terra é azul e não é plana.

Por isso é tão providencial que Picard e suas Lembranças, no primeiro episódio dessa nova série, venham nos resgatar e ensinar. Ensinar que só com respeito aos antepassados e com amor aos descendentes conseguiremos reconstruir a Utopia perdida dos anos 90 e da Nova Geração. E, assim, entre sonhos e memórias nos vinhedos Picard ouviremos o chamado que nos permitirá “ir aonde nenhum ser humano jamais esteve”. Mais uma vez.

A invasão dos críticos amadores

Hoje em dia, para evitar qualquer papo político, a única opção que resta em conversas com pessoas com as quais temos pouca intimidade é falar de filmes e séries. Mesmo assim, não conseguimos escapar do conflito gerado por posições engessadas e estanques. Sim, é triste, mas não podemos nos esconder dessa realidade. Na política e no entretenimento: somos fãs de polarização.

Enquanto alguns tentam falar da qualidade ou da sua apreciação pessoal dos filmes, outros insistem em evocar a fidedignidade, seja a conceitos, personagens, obras em que foram baseadas, estruturas narrativas e/ou estéticas. Enfim, Fidedignidade. Assunto complexo. Quero dizer, vai ser fidedigno a que?

Se pegar os personagens de filmes de super herói, já dá pra ver como o pessoal complica essa questão. Batman, por exemplo, do trabalho inicial do Bob Kane, que dizem não foi tão original assim; passando pela fase do Bat-Mite, alguém lembra dele?, dos anos 60; e avançando por Neil Adams, Frank Miller e as abominações dos anos 90 provocadas pelo inexplicável sucesso da Image, você tem uma tonelada de referências para se basear. E olha que nem mencionei a fase do Grant Morrison. Ops, tarde demais…

Se nem histórias em quadrinhos conseguem manter essa tal fidedignidade a supostos conceitos originais dos personagens, por que cobramos perfeição de qualquer outra obra de arte? Acho que isso tem um pouco a ver com uma virada de chave que rolou em diversas relações humanas e institucionais causada pelo mito de “O Cliente tem sempre razão”.

Antigamente, a gente, pelo limite de opções, era obrigado a consumir o que estava disponível ou despender energia física e libidinal para conseguir o que buscava. Afinal, ler um livro específico, ver um filme mais difícil de encontrar, ou ter que acompanhar um programa na TV síncrona requeriam planejamento e, algumas vezes, esforço.

Lembro de ter rotina rígida e objetiva de visita a sebos de discos e livros; frequentar cinemas escondidos na Tijuca para assistir a filmes dos anos 30 e 40; e ser sócio de mais de 50 locadoras de vídeo, do Leblon ao centro da cidade, muitas por conta de um só filme. Tanto investimento me fazia aproveitar melhor todas as experiências, de forma existencial e menos crítica. A busca não era pelo melhor, mas pelo mais interessante. E se não fosse interessante, a gente dava um jeito de fazer ficar interessante.

Isso não nos tornava complacentes com a baixa qualidade do entretenimento mas razoavelmente tolerantes e envolvidos. Era como se fosse nossa responsabilidade NOS divertirmos. A pergunta era: o que podíamos tirar de melhor das experiências que vivenciávamos?

Quando a quantidade de conteúdo disponível começou a aumentar e o nível de esforço para encontrar o que queríamos diminuiu, a preocupação e o trabalho passou a ser de curadoria. Atualmente, investimos nosso tempo e dinheiro em buscar as experiências que consideramos melhores, a.k.a. mais adequadas aos nossos gostos.

Nessa loucura de encontrar o entretenimento certo para o momento certo, viramos escravos de listas de 10 mais, 10 menos e 10 mais ou menos. É o inferno particular do protagonista de Alta Fidelidade. Só nos justificamos como seres humanos se provarmos que temos não só bom gosto mas um gosto melhor do que o dos outros. Enfim, tudo tem que ser perfeito, pois, afinal de contas, nós merecemos. Certo?

Nesse cenário, o ônus da diversão passou do espectador para o produtor. Não somos mais capazes de apreciar todas as experiências e dar-lhes significado pessoal. É como se houvesse uma tentativa de mostrar uma verdade oculta em tudo e que é nossa função avaliar se ela foi bem sucedida ou não. Pra isso o produto deve estar completo, posicionamento político, comercial, religioso, espiritual, estético e o escambau, para ser convenientemente consumido. Afinal, não sou eu que estou pagando? Então, divirta-me! Preciso lembrar? O cliente tem sempre razão.

O outro lado da moeda é que isso gera uma ansiedade brutal que te impele a acompanhar o processo de desenvolvimento das obras desde a criação para se assegurar que no fim terá a experiência perfeita e orgiástica que esperava. Buscamos uma originalidade impossível de se atingir; respeito e homenagem a obras que tem tantas interpretações quanto leitores ou espectadores; ousadia e inovação em equilíbrio com o cumprimento estrito das regras do McKee, Monomito, da estrutura de 3 atos e afins. Ficamos chatos pacas. Até nas coisas mais insignificantes. E conversamos sobre isso quando queremos escapar de falar de política?

Me questiono se as futuras gerações perderão a capacidade de experienciar a suspensão de descrença e a substituirão pela crítica imediata e lacradora tornando a obra apenas um pretexto para mostrar sua superioridade intelectual sobre o outro. Talvez a única maneira de evitar esse terrível futuro seja consumir menos, se importar menos com o que está em voga e buscar os seus interesses mais primais. Um belo exercício de humildade. Quase utópico. Melhor ficar vasculhando o Netflix por aquele filme perfeito que mostrará ao mundo como você é mais… mais… você sabe. Não sabe?

Enquanto isso, como continua impossível falar de política, não vamos contradizer os críticos amadores de plantão. Vamos apenas fingir que ouvimos os conhecidos enquanto esperamos sair a próxima alcatra no churrasco.

“Ah, você gosta do Tobey Maguire como Peter Parker mas prefere o Tom Holland como Homem Aranha? Tá, tá. E acha que nos filmes da Marvel o Aranha é coadjuvante, enquanto nos da Sony ele era o protagonista? Sei. Sei. Eu? O que eu acho? Sei lá. Acredita que eu nunca pensei a respeito?”

Assim, sabe?, exatamente como fazemos quando falam de política com a gente.