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Para ver a Peppa Pig

Durante a pandemia, aqueles que têm filhos pequenos foram obrigados a receber uma dose maior do que a usual de programas infantis. Além do que rola no Gloob, Discovery Kids, Disney Channel e afins, as crianças, numa resposta usual de defesa psíquica ao isolamento social, precisaram recorrer a desenhos e programas que reforçassem momentos antigos da sua infância. Por conta disso, muitos pais que acreditavam nunca mais ter que ver certas produções acabaram num revival de fases anteriores do desenvolvimento infantil. Aqui em casa foi com Peppa Pig.

Peppa, um desenho que minha filha, poucos meses antes da pandemia, dizia ser “pra bebê”, voltou ao ar com força total na nossa casa. Questionada por que estava assistindo algo “pra bebê”, ela foi categórica: “Saudades de quando eu era criança”. Saudades de quando eu era criança.

Dessa vez, ao invés de fazer ouvidos de mercador, resolvi prestar atenção e, confesso, me surpreendi. Aos moldes do famoso livro Para Ler o Pato Donald, onde Ariel Dorfman e Armand Mattelart desvelam a ideologia imperialista americana por trás das obras da Disney, descobri em Peppa Pig um enorme mundo de análise social.

Peppa vive num mundo de animais antropomorfizados, ou melhor, de mamíferos antropomorfizados. Répteis, peixes e aves não têm características humanas. Dentre esses animais existem diferenças claras socialmente de acordo com as suas regiões de origem. Os mamíferos de origem europeia representam a classe média incompetente inglesa que se beneficia de uma estrutura burocrática e ineficiente para sobreviver e cujos avôs e avós vivem de fantasias militaristas do passado. Os animais vindos da África trabalham com artesanato, com o tratamento de animais ou no mundo do entretenimento. Os animais asiáticos têm empregos especializados na área médica e de tecnologia ou cuidam dos serviços públicos, como segurança e educação. Além disso há uma crítica velada aos irlandeses, representados pela família coelho que tem a maior quantidade de filhos e cuja mãe sempre aparece mudando de emprego.

Além dessa visão extremamente estereotipada dos imigrantes na Inglaterra, o que de certa forma mostra os aspectos inconscientes que estimularam o Brexit, temos uma divisão que supera as questões sociais. Em Peppa existem apenas dois personagens humanos: Papai Noel e a Rainha, representando o capital e a nobreza. Essa divisão expõe um outro fosso de iniquidade intransponível para os animais: o de espécie. Por mais que os porcos, como em A Revolução dos Bichos, tenham aprendido a andar em duas patas, eles nunca serão tão poderosos como os humanos. Afinal sua origem biológica, animais (4 patas) bons, mas humanos (2 patas) melhor, continuará a assombrá-los.

E aí se encontra na minha opinião o ponto central da discussão socio-política de Peppa Pig.

Como um herdeiro de Bola de Neve e Napoleão, o primeiro começou a Revolução dos Bichos, e o segundo se tornou um tirano se aliando aos humanos, Papai Pig é a cria de um modelo opressivo que foi normalizado. Os animais vivem suas vidas alienados, preocupados com o senhor Batata e outros legumes que ao mesmo tempo que representam suas maiores celebridades também são o seu alimento. Não há diferença, como no nosso mundo, entre a obesidade biológica ou o excesso de consumo de informações inúteis. Todas são estimuladas por uma sociedade que nunca fica saciada e precisa consumir sem parar.

Nesse estupor de consumo, o Papai Pig, sempre apresentado como obeso, incompetente e fraco, é um sujeito emasculado, ameaçado por animais migrantes com maior expertise ou força de trabalho que ele. Um supremacista branco com nostalgia dos tempos onde só a origem já era suficiente para justificar o seu poder sobre os outros. Assim, atrás dos sorrisos forçados e vexatórios de Papai Pig, há um enorme potencial fascista que só precisa de uma pequena fagulha para se manifestar.

O universo de Peppa Pig é um retrato do nosso passado recente: um mundo aparentemente em paz, vindo de revoluções esquecidas, onde a semente totalitarista está brotando escondida numa classe média incompetente e reacionária. Se em Para ler o Pato Donald aprendemos como o imperialismo americano tenta oprimir e subjugar as demais culturas, considerando-as primitivas, e as corrompendo pelo interesse financeiro, em Peppa Pig vemos um momento pós imperialista onde se vive uma nostalgia da opressão. Será que Papai Pig, como Boris Johnson, Trump, Bolsonaro, e seu avô Napoleão, irá instituir uma nova ditadura com o pretexto de manter a lei e a ordem? Só o tempo dirá. E a resposta não estará em Peppa Pig, mas, sim, nos nossos telejornais.

Talvez seja melhor a gente trocar logo de canal.

Como lidar com os adeptos da carteirada

Quando eu era pequeno, todo mundo se referia ao meu pai como Coronel. Só fui saber que ele não era mesmo do exército aos 10 anos. Um choque. Afinal ele tinha lutado na Segunda Guerra, estudou no Colégio Militar e todo ano recebia uma romaria de gente pedindo para tirar os filhos do serviço militar. Não era coronel, mas se fazia como tal, mesmo sem dizer.

Lembro, inclusive, que insistiu comigo pra fazer uma tal carteirinha de filho de ex-combatente que, na sua fantasia, me daria acesso gratuito ao Maracanã, o que nunca me interessou, e me livraria de problemas não especificados, algo no que nunca me meti e, assim, para os quais nunca testei a solução mágica.

O fato é que, como uma boa parcela da população, ele se achava no direito de ter mais direitos que o restante da população. Era, sim, um adepto da famosa carteirada. Como não tinha um cargo ou amigos poderosos que o bancassem, ele o fazia através da malandragem e do soft power. Nunca dizia “você sabe com quem está falando”, mas era extremamente  hábil na arte de “name dropping” e adorava contar histórias, na maioria, falsas, sobre conhecidos em altos cargos. Assim nunca o vi pagar cinema, ônibus ou metrô, vivia ganhando coisas de graça e alguns, que realmente acreditavam nos poderes que não tinha, lhe usavam como mentor para assuntos que iam desde candidatura política até criação dos filhos; o que só aumentava o seu poder de influência. Era um abuso.

Agora, toda semana vemos um caso de gente tentando fazer o mesmo, sem graça ou finesse. A minha pergunta é: o que fazer?

O linchamento público não é boa opção pois, como visto no caso do Engenheiro Civil melhor que você e do Desembargador abusivo, eles não sentem culpa. Pra piorar, isso só os aproxima dos setores mais radicais da carteirada e podem torná-los, escreve aí, futuros candidatos a cargos legislativos onde terão mais oportunidades, mas não o direito, de fazer isso.

A reeducação desses sujeitos é uma impossibilidade. Ninguém quer aprender a ter menos poder. E, outra, ao sair de um treinamento ou mesmo lavagem cerebral, voltariam para uma sociedade onde tudo o que lhes foi ensinado como ruim continua a ser ostensivamente usado e funciona para seus nefastos fins egóicos.

Logo, a única saída é mexer no sistema, na cultura, e fazer com que esse expediente não funcione mais e seja uma vergonha tentar utilizá-lo. Quanto mais esse poder inexistente for confrontado e se tornar inútil, menos eles se sentirão compelidos a usá-lo. Coisa difícil e demorada, eu sei, mas é a única maneira. Se o sistema, que foi criado para favorecer a carteirada, não mudar,  não dá pra esperar que ele rode altruisticamente graças à consciência e à cidadania que a população, veja só as praias lotadas, não têm.

Foi mais ou menos assim que o meu pai parou de se meter com a história de tirar os filhos dos outros do serviço militar.

Como disse, quase como um Don Corleone, todo ano, meu pai recebia a população do Flamengo com pedidos para tirar seus filhos do serviço militar. Ele reforçava como era difícil e prometia fazer o possível. Todos saíam muito agradecidos e ficavam ainda mais agradecidos quando os filhos não serviam. Na verdade não era difícil: tinha excesso de gente querendo servir e se você se alistasse no exército, pertinho do fim do prazo, e disesse que não queria servir seria liberado. Até o dia que deu chabú.

No início da Nova República, um cara que estudava no meu colégio, umas duas séries pra frente, cabeludo, meio hippongo, boa praça, estava pra se alistar e a mãe preocupada foi procurar o meu pai. Ele fez todo o teatro, recebeu os agradecimentos da mãe e se esqueceu da história. Não sei o que rolou, se com o fim do governo militar menos gente quis se alistar, mas o menino serviu. E como estava entrando na faculdade ainda botaram ele no CPOR.

Vez ou outra eu o encontrava na rua, cabelo recado, de uniforme, e recebia os olhares de ódio que eram pro meu pai. Uma vez comentei com meu pai sobre o garoto e isso o chocou. A boa providência, pronunciou, o tinha abandonado nesse aspecto. Na sua cabeça, não tinha culpa por nunca fazer nada, era só uma questão de sorte ou azar.

Assim, ao invés de assumir seu erro, toda vez que ainda vinham lhe pedir o milagre que não fazia, ele passou a recusar a missão, falando que seus amigos tinham sido reformados, o sistema político era outro e sua influência tinha diminuído. O povo saía triste, mas ele ainda prometia fazer algo, mas sem garantir resultados, perseverando sua aparência de poder.

Enfim, o problema da carteirada não é só de quem dá mas de quem a recebe e de quem se beneficia dela indiretamente. Se mesmo sem garantias reais do poder alheio, continuamos acatando ou a pedindo precisamos questionar por que somos tão servis, ou, pior, como desejamos promover essa cultura com a esperança de sermos nós futuramente aqueles na posição de dar a carteirada.

Quando penso nessas coisas, me dá um frio na espinha e só melhoro quando começo a cantarolar La Marseillaise. Funciona. Sério. Tudo o que precisamos é cantar mais alto e por mais tempo que os tiranos.

Obrigado, meu irmão

Tenho escrito obituários demais.

Ainda me lembro do dia em que nos conhecemos. Eu tinha saído de um colégio experimental e caí de paraquedas na pré alfabetização de uma escola protestante tradicional. No primeiro dia, você, acompanhado de uma ganguezinha, que nunca mais vi, me abordou:

– Veio de saia, novato?

– Não. Isso se chama bermuda. Bermuda.

Nos tornamos amigos.

Compartilhamos as primeiras revistas em quadrinhos. Brigamos pois você preferia a Elektra e eu, a Sharon Carter.  De Socos. Como as crianças de seis anos que éramos: pulando numa cama que quebrou. Quando o estrado ruiu, caímos rolando de rir. Você tinha razão, Elektra era melhor.

Você me acompanhou no período em que minha mãe teve câncer de útero e eu, aos seis anos de idade, não sabia o que seria da minha vida. A menina mais bonita da escola, pela qual éramos ambos apaixonados, foi visitá-la no hospital. Você disse:

– Que sorte que sua mãe teve câncer.

O pior é que eu entendi o que você queria dizer.

Concorremos para entrar no mesmo colégio no ensino fundamental mas você bombou, pois, como de costume, levantou pra ver a minha prova. Quando entrei na nova escola, perdi o contato com todo mundo, menos com você. Continuamos amigos. Éramos filhos únicos, mesmo que seu pai tivesse dois filhos grandes do primeiro casamento, e nos considerávamos irmãos. Éramos irmãos.

Passamos aniversários juntos. Anos novos juntos. Vimos o flamengo ser campeão mundial juntos quando eu ainda torcia pra futebol. Dormíamos o tempo todo um na casa do outro, mas quando eu ia pra sua sempre acontecia uma tragédia. Uma vez você rachou a cabeça e precisou tomar pontos na madrugada, na outra engoliu, sabe-se lá como, uma corrente.

Jogamos Atari, Alerta Vermelho, Scotland Yard, Marvel Super Heroes, Call of Cthulhu, quando desistiu do RPG porque morreu, enquanto o jogador que desmaiou de susto sobreviveu. Jogamos Escrete. É, você tinha aquele jogo rarão criado pelo Chico Buarque. Mas só jogávamos a parte de comprar e vender jogadores. O resto era chato.

Quando chegamos à adolescência não nos afastamos, pelo contrário, o cinema reforçou nossos laços. Você já dava sinais que seria o que se tornou: crítico de cinema. Ou como a gente costumava te chamar: a crítica especializada. Fizemos parte do Hollywood Connection, aquele clube de cinema bacana onde a gente curtia as cabines para a crítica; pegamos o período do auge da Miramax e do Festival do Rio, onde emendávamos 4 sessões consecutivas de cinema. Você às vezes ia até além e assistia a tudo sem pudor. Desde que fosse bom, afinal, como você não nos deixava esquecer:

– Alta cultura é alta cultura. O resto é bonde do tigrão.

Uma vez esbarrou comigo no Cervantes antes de uma dessas maratonas e comentou que a do dia era do Festival de Cinema Gay e Lésbico. Um popular te questionou se o filme que ia ver era gay ou lésbico. Você respondeu envergonhado:

– Gay.

Graças ao seu gosto refinado fomos obrigados a assistir a uma pá de filmes com você. Uns ótimos, outros,umas bombas, como um filme francês longo, lento e chato chamado Contos Imorais. Quando reclamamos dele no chopp pós cinema, você foi categórico:

– Vocês não sabem o que é erotismo.

Todo mundo te conhecia no circuito de cinema alternativo do Rio. Na locadora do Estação inclusive nos chamavam de Gêmeos, Mórbida Semelhança. Uma vez fizeram uma matéria no jornal contigo por conta da mania de entrar, de graça, no cinema para ver os trailers. Na reportagem você revelou a sua outra mania chata pacas de ir pro cinema com a gente e sentar separado, declarando:

– Com amigos ou namorada, só quando for assistir ao filme pela segunda vez.

Quando questionado sobre a tal namorada, gritou exasperado:

– É uma namorada virtual! Virtual!

Você inaugurou a era do amor líquido antes do Bauman.

No começo dos anos 90 você fez parte da criação do Bocão do Oscar, evento que ainda nomeia o grupo de Whatsapp dos nossos amigos. Como você não comemorava aniversário, a entrega do Oscar era a nossa festa pra você. Era o dia em que a gente te curtia na plenitude. Você exacerbava as suas idiossincrasias sobre onde sentar, e tomava ódio de quem pegava o seu lugar; perdia a linha e pulava na piscina; ou, uma vez só, exagerou na dose e acabou desmaiando da mistura de álcool e remédio pra dormir.

Nos tornamos jovens adultos e, além da festa do Oscar, a gente continuou acompanhando a vida um do outro. Você foi, óbvio, meu padrinho de casamento; quando abri o primeiro sebo, você estava lá com um mural dedicado à sua arte onde a gente colocava as suas críticas hilárias sobre a programação da TV publicadas na finada Tribuna da Imprensa; quando resolvi abrir o segundo, você foi um dos sócios. Numas férias minhas assumiu a loja e foi obrigado a lidar com um escândalo de uma sub-celebridade, filmado pelo TV Fama, porque a gente tinha uma placa na vitrine proibindo a entrada de ex Big Brothers. Por isso te peço desculpas.

Há alguns anos atrás sua mãe morreu e esse foi um puta baque pra você. Lembro que foi como se tivesse caído de repente na idade adulta, coisa para a qual não estava preparado de verdade. Na saída da cremação da sua mãe, eu peguei uma carona com uns amigos dela. No caminho eles me perguntaram:

– Como o João vai se virar sozinho agora?

Não se virou, ecoando a sua proverbial resposta a nossa pergunta sobre o que faria quando sua mãe morresse:

– Conto com vocês.

Você contou, a gente esteve lá, mas depois de 10 anos de uma lenta e repentina queda, você morreu.

Eu tentei retomar o contato  com você durante essa queda e tive o privilégio de te ver mais umas vezes, mas não soube como te ajudar. Uma culpa que vou carregar pra sempre. Agora fica a saudade, a frustração de, por conta do CoVid, não poder lhe prestar uma última homenagem, e a lembrança da última mensagem que te mandei e não tive resposta:

“Fala, amigo,

Quanto tempo. Posso fingir que é normal, um desencontro aleatório do mundo, caminhos diferentes e afastados, por conta de compromissos e mudanças de vida; em parte é, mas também não é.

Você meio que sumiu. Por conta própria. E eu, mesmo sentindo a sua falta, fiz pouco esforço para te encontrar, talvez por medo de te incomodar, não entender o que você está passando ou simplesmente ter poucas ideias de como lhe ajudar. Uma parte medo, uma parte vergonha. Como quase tudo.

Saiba que estou aguardando o seu retorno ao nosso meio. Um cara que sempre admirei e que foi, em boa parte, um interlocutor para as minhas doideiras mesmo quando não estava presente. Se puder, e quiser, dê um alô, marque um chopp, um almoço, um telefonema. Quero saber como você está e como podemos retomar o nosso contato.

Esperando que você esteja bem, um abraço do seu amigo de sempre,”

Esperando que você esteja bem. Onde estiver.

Esperando que você esteja melhor. Onde estiver.

Um abraço do seu amigo de sempre.

Um abraço do seu irmão

Gula e Ganância

Mauro chegou ao aeroporto de Wattay exatamente às 20:32, horário local. Logo após passar sem problemas pela alfândega laosiana, encontrou com o advogado de sua tia Carô, um senhor bastante idoso, chamado Loum Soung, que o aguardava no desembarque. Com uma certa dificuldade, se cumprimentaram em inglês e seguiram para o carro que os esperava para levá-los ao enterro da sua tia perdida. Ivete mandou uma mensagem: “E aí, a herança?”. Mauro respondeu: “Nada, ainda”.

O motorista cortava as ruas de Vientiane com agressividade e precisão. Loum Soung, no seu inglês ruim, contava a Mauro como Carô tinha auxiliado o Partido Popular Revolucionário do Laos a manter o poder desde 1975 e com isso construído uma pequena fortuna e um grande prestígio.

– Ano em que nasci…- Mauro murmurrou

– Are you hungry? – Loum Soung o interpretou mal.

O advogado deu algumas indicações ao motorista e logo eles pararam em frente a um restaurante. Mauro não reclamou. Ele até podia comer alguma coisa. Sempre. Ivete insistia, enviando mensagens: “E aí, quanto ela te deixou?”. Mauro respondeu: “Não sei. A caminho”. Eram 21:58.

Loum Soung e Mauro entraram no restaurante pequeno e congestionado e sentaram numa janela que dava vista para a rua. Tudo era muito barulhento, laranja e vermelho. Mauro pegou o cardápio e não entendeu nada. Loum Soung o tirou da sua mão e ofereceu:

– My treat.

Mauro entendeu e relaxou. Os garçons traziam um prato atrás do outro, enquanto Loum Soung ia enumerando as propriedades de sua tia: as minas de pedras preciosas, as casas e hotéis que só podiam ser possuídas por estrangeiros, as plantações de arroz, o zoológico de animais exóticos, e a rede ferroviária em Saravane.

– Sarajane?- Mauro não entendeu.

Loum Soung e alguns clientes próximos que ouviram seu comentário riram alto. Loum Soung gritou algo pro gerente do restaurante, que, em resposta, colocou um CD no sistema de som e logo todos cantavam ou dançavam o hit: “Vamos abrir a roda”, sucesso no Brasil em 1987 e, aparentemente, uma preferência nacional no Laos.

Enquanto o Axé dominava o ambiente, Mauro se deliciava com Laap, uma salada de carne, Paeng Pet, um cozido de sangue de pato, e Jaew Bong, um guisado de carne seca de búfalo. Tudo estava muito bom e em grande quantidade, mas Mauro sentia falta de algo a mais e chamou o gerente:

– Fish?

– NO FISH!- o gerente frustrou seus desejos.

Mauro e Loum Soung deixaram  restaurante empanzinados às 23:43 enquanto o Laos se tornava uma pequena filial do Farol da Barra de Salvador.

Retomaram a viagem. Ivete mandou mais uma mensagem: “Quando tiver notícias da herança, me avisa”. Mauro respondeu: “OK”.

Rodaram a noite toda pelas estradas esburacadas do Laos e às 5:22, com o sol nascendo, chegaram a propriedade de Carô, uma enorme hacienda estilo mexicano no meio do sudeste asiático. Na porta um grupo de empregados, vestidos como bandoleiros de um faroeste espaguete, os aguardava. 

Loum Soung os afastou como um enxame de moscas e arrastou Mauro pela casa até chegarem a um salão onde Carô, completamente nua, repousava sobre uma cama de flores.

Mauro ficou paralisado com a surpresa. A tia, que só tinha visto uma vez em 1994, por conta de uma visita que ela fez ao presidente Itamar, em homenagem ao time vitorioso na Copa dos Estados Unidos, estava alí pura e completa, como uma deusa baiana no meio de um filme sobre a Guerra do Vietnam. Loum Soung interpretou mal a reação de Mauro mais uma vez:

– Hungry?

Mauro aceitou. Sempre havia espaço para fazer uma boquinha. Loum Soung gritou para os empregados que trouxeram Khao Piak Sen, uma sopa de macarrão, acompanhada de pão de arroz. Ivete insistia: “Como estão as coisas? Estou ficando preocupada”. Mauro respondeu: “Relaxa, tudo tranquilo”.  

Mauro, completamente satisfeito, mas com aquela sensação de desejo mal resolvido,  chamou uma das empregadas e perguntou:

– Fish?

Ela pareceu assustada e se afastou rapidamente. O que tinham contra peixe no Laos? Ele foi ver as horas e deu falta do relógio.

Começou a refazer o caminho até o carro, para encontrá-lo mas nada. Loum Soung, sem entender o que acontecia começou a ficar tenso. Os empregados o observavam nervosos pelos cantos, como baratas esperando pelo dedetizador. Loum Soung chamava Mauro e perguntava o que havia acontecido em inglês, mas Mauro não entendia nada e batendo no pulso, gritava:

– Relógio! Relógio!

Os empregados e Loum Soung se escandalizavam a cada reação de Mauro que poderia muito bem estar xingando suas mães ou maldizendo o Partido Popular Revolucionário do Laos. Para dar um fim a essa crise de Mauro, Loum Soung lhe aplicou um cirúrgico golpe no pescoço que o fez desmaiar. Ivete mandou uma mensagem: “Cade tú?”. Não houve resposta. Ninguém sabia que horas eram.

Mauro acordou no chão de terra batida. A sua volta um enorme aquário cheio de peixes estranhos e um  terrário onde cobras e lagartos sofriam espremidos. Loum Soung se aproximou de Mauro com uma caixa e a entregou a ele:

– Yours.

– Herança?

Yeah. Heritage.

Mauro percebeu que cometeu algum erro e se havia algo a receber de Carô só aquilo tinha restado. Colocou a caixa embaixo do braço e seguiu Loum Soung em direção ao carro. O motorista os esperava usando o relógio de Mauro. Ele preferiu não falar nada. Eram 11:42.

Mauro voltou sozinho para o aeroporto evitando responder as mensagens de Ivete. A missão tinha sido um fracasso, mas nem isso ele tinha coragem de conferir. Podia até ser que a caixa estivesse cheia de jóias, pedras preciosas, dinheiro, mas a sua intuição lhe dizia que não era nada disso. Na caixa estaria, sim, a concretização da sua derrota. 

Chegou ao aeroporto, segundo o seu relógio no pulso do motorista às 17:34. Ainda faltavam 9 horas pro seu voo de volta. Sentou-se no salão de espera e finalmente resolveu abrir a caixa. Dentro dela um peixe-pedra aparentemente cozido pela elevada temperatura ambiente. Lembrou que não comia nada desde o café e resolveu provar um pedaço. Estaria bom? se perguntou. Não estava. Pra dizer a verdade era o peixe mais venenoso do mundo. 

Caiu no chão sem conseguir respirar. Enquanto os locais tentavam acudi-lo, ele pegou o celular para mandar uma última mensagem a Ivete. Finalmente ele viu que ela, como se adivinhasse o desfecho dessa aventura, repetira uma mesma mensagem várias vezes: “Dá notícias, estou com um mau pressentimento. Dá notícias”. Ele, sufocado, sendo contido por uma pequena multidão, respondeu como um último suspiro: “Não peça Peixe!”.

Guia turístico para uma cidade que não há mais – NYC

Na época em que a gente podia viajar, eu costumava dar muitas dicas de viagem para amigos que iam conhecer lugares que eu já tinha visitado. Acabei esbarrando com um desses e-mails recentemente e me parece uma mensagem na garrafa enviada para o passado. Pra fins de saudosismo, vou começar a compartilhar esses relatos.

Se não podemos mais viajar pelo espaço, viajemos pelo tempo.


Não faça planos em NYC. Quer dizer, faça-os mas ignore-os. Mantenha apenas uma grande atividade por dia e caminhe para ela e dela para o hotel. No caminho encontrará coisas que nunca esperava. E quando descobrir, me conte. Como estou fazendo com você agora

Por falar nisso, onde vai ficar? Se não tiver marcado hotel recomendo o barato e bem localizado Chelsea Savoy. Operado por russos, é bem simples mas honesto.

Primeiro, os museus. Você acha na Internet uma lista com os dias em que eles são de graça. Não a usei. Achei mais do que justo pagar o que paguei. O Metropolitan foi o que mais me impressionou. É um programa de dia inteiro, caminhando pela história da arte. Assim como o Museu de História Natural. Mas, se tiver que escolher um, escolha o Metropolitan. O MoMA é armadilha para turista e não dá pra aproveitar direito. Um excesso excessivamente excessivo de pessoas tirando selfies com os quadros. Me pergunto se olharam para eles em algum momento. O Gugenheim é incrível e no caminho do Metropolitan. Pode ser uma dobradinha de um dia. Viste as galerias do Chelsea. Valem um dia de passeio com muitas descobertas interessantes e mais legais que o MoMa. Dois museus pouco badalados que realmente me interessaram foram o Museum of Sex (em cima de uma sex shop e de um bar) e o Rubin. Esse último é meu xodó. Um museu de arte religiosa do Nepal. Tem uma bela agenda de eventos, mostras e exposições. Lá, na véspera da chegada do furacão Sandy, vestido com uma camisa do Dude, ouvi Neil LaBute e Amee Mann discutirem o que é felicidade frente a uma platéia tensa com a chegada do Apocalypse. Ah, a livraria deles é muito boa. Para quem curte budismo.

Falando de livros… A Strand é o que há, mas as outras livrarias que encontrar pelas ruas também são boas e com bons preços que rivalizam com os sebos. Dentre as que me marcaram, destaco a livraria do partido comunista americano: Revolution Books. Mais como curiosidade do que pelo acervo. Nas ruas e no Highline (um belo passeio que comentarei mais a seguir) você encontra bancas de livros. Não se preocupe com as lojas. Os livros vão te encontrar em NYC.

Quadrinhos? Esqueça Forbidden Planet e as lojas grandes de quadrinhos perto da Times Square. Apesar de que a Forbidden é do lado da Strand e você com certeza vai passar nela. Para passar um bom tempo garimpando só recomendo duas: a JHU Comics e a Time Machine. A primeira foi a com perfil mais alternativo que encontrei em contraposição aos reinos de quadrinhos de super heróis das lojas maiores. O atendimento como não podia deixar de ser é desleixado e desrespeitoso. Pra nerd se sentir em casa. A Time Machine já um lance para tarados. Um sebo de quadrinhos, revistas de cinema e memorabilia. Uma portinha que leva a uma loja no segundo andar de um pequeno prédio. Parece até um antro para pervertidos e de certa forma é. O dono é um bom papo e encontrei coisas doidas lá como livros do Fu Manchu e do Doc Savage. Vale a visita.

Comer e beber em NYC é fácil. Fui bastante displicente nesse aspecto. Testava qualquer birosca e em raras ocasiões me dei mal. É óbvio que me afeiçoei a alguns lugares, mas sem motivos muito claros. Não sou, no fim das contas, um fanático por food porn. Costumava tomar café num diner na 23rd st chamado Malibu Diner. Um belo café da manhã e um clima totalmente NYC com clientes e funcionários amigavelmente se agredindo. Ia bastante cedo e sempre encontrava um grupo de cegos que davam um show quebrando copos e falando alto. Amacord perde. Para um jantar bom e barato visite o Les Halles, o restaurante do Anthony Bourdain. É bem em conta e na segunda feira o vinho ainda fica na metade do preço. É uma opção para curtir a Park Avenue. Como curiosidade cinematográfica visite o Katz. O sanduíche também é bom. Tem diversas cervejarias pela cidade, a Heartland Brewery, por exemplo, você encontra em cada esquina. Recomendaria uma no pier que realmente me cativou, a Chelsea Brewey, mas ela não sobreviveu ao Sandy. Uma outra opção muito legal é a feira de orgânicos na Union Square: Greenmarket. Dá pra tomar um belo café, assistir a apresentações non sense de artistas de rua e até levar algumas coisas para o hotel para beslicar depois. Não esqueça de comprar a cerveja Tundra se a encontrar. Pode parecer maluquice, mas recomendo visitar o Whole Foods também. Muitas opções de cervejas artesanais americanas. Além disso, coma na rua. Não pense em almoçar. Procure um bom guia com a indicação dos food trucks e faça como os NYers.

Coisas a visitar. Fugi dos passeios padrão. Não fui à estátua da liberdade, nem ao Empire State. A Times Square você acaba te sugando para lá como um buraco negro. É meio inevitável. Mas não tem nada a fazer não ser que queira assistir aos musicais, o que não fiz questão. Ah, nessa área, se tiver um coração brega como o meu, uma visita ao museu do Acredite Se Quiser é obrigatória. O Central Park é incrível e deve ser estudado com cuidado. Cada pessoa encontra lá o seu cantinho favorito. O meu é a estátua do Balto. Tudo por conta de uma frase no filme 6 graus de separação: “I was trying to figure out why there was a statue of a dog who saved lives in the Yukon in the middle of Central Park.”. Você vai encontrar o seu. E vários outros.

Dois programas imperdíveis são o Rocky Horror Picture Show no cinema Chelsea Boulevard, com a exibição do filme acompanhado de um grupo de atores; e ir a um show de stand up. Fui num no Gotham e me diverti horrores.

Ah, faça o passeio do High Line, parque surgido do descomissionamento de uma linha do metrô, e termine no Chelsea Meat Market. Lá tome uma sopa de lagosta com uma ginger beer. Perto há também um Bier Garten, como no Battery Park onde tem uma boa visão da estátua da liberdade. Esse pode ser o seu destino depois de fazer a visita obrigatória ao Ground Zero e passar as mãos nas bolas do touro de Wall Street. Confesso, que na hora só me lembrava de Moisés gritando contra os adoradores do bezerro dourado.

Com certeza esqueci de muita coisa que poderia te contar e provavelmente se me perguntar em outro momento darei outras indicações como minhas preferidas. Nova York tem esse efeito em você se sua preocupação for além dos outlets e das forever 21s da vida. Realmente amei a cidade e sempre tentei passar os momentos que estive lá sem a mente de turista. Se tenho uma dica, é essa. Seja natural, não tente esgotar a cidade. É inútil. Deixe ela se mostrar a você e saiba que você irá voltar. Como Copacabana, Manhattan é um dos corações secretos do mundo. Não é possível entendê-la, dissecá-la ou explicá-la. Deixe ela ser ela e deixe você ser você. Isso, não se engane, não é turismo. Está mais para um encontro amoroso.

Boa viagem

E pra você, do signo de Prometeu…

Você provavelmente nem percebeu, pois ou estava preso dentro de casa, respeitando as orientações da Organização Mundial da Saúde, ou estava se infectando de CoVid nos bares que deveriam estar fechados, mas uma nova constelação surgiu no céu.

A constelação de Prometeu se formou como que por mágica e acabou intrigando os astrólogos que resolveram criar o 13o. signo. Quer dizer, não intrigou a todos. Os astrólogos brasileiros moradores da Virginia perderam essa pois, ao invés de olharem pro céu, estavam com as cabeças enfiadas em seus rabos.

Ao contrário dos demais signos que são divididos por períodos relativos a sua data de nascimento, o signo de Prometeu é como uma segunda denominação que qualquer um pode ter ou não, não importando quando nasceu. Além disso, o signo de Prometeu não faz parte de um só dos elementos e se aproxima mais da lama, entre a terra e a água. Uma lambança só.

Pelo que notamos, aqueles que respeitam a quarentena são de Prometeu; os que não usam máscaras, frequentam bares durante a pandemia, ou discutem com funcionários públicos querendo dar moral de elite enquanto recebem auxílio assistencial do Bolsonaro são do signo “mas não cumpriu”.

Aqueles do signo de Prometeu, também conhecidos como os acorrentados, tem muitas características similares ao mito, não o da excrescência federal, o grego.

Os acorrentados são em geral pessoas boas que se importam o suficiente com os outros pra tentar lhes trazer iluminação mesmo que sejam punidos por isso; tem visão de longo prazo e tentam organizar as coisas pelo bem comum; normalmente fazem parte de famílias de visão curta com cunhadas curiosas que, na sua inocência, espalharão o mal sobre o mundo; e demonstram uma imensa paciência pra lidar com a arrogância e ignorância humanas e divinas, também.

Pelo lado negativo, os acorrentados tendem a beber um pouco demais o que consome seus fígados como se um abutre os comesse; e costumam ser bem caseiros. Presos a seus compromissos familiares e profissionais, saem pouco, mais ou menos de 30 em 30 mil anos.

Para você que é do signo de Prometeu, aqui estão as previsões para as suas semanas até o fim da pandemia:

SEGUNDA – A sua semana de trabalho começará com um sentimento de vazio, de que não está indo pra lugar algum. Seu amigo Sísifo, entende. Se estiver desempregado sentirá inveja da falta de propósito alheia. Aceite seu destino. O que lhe resta afinal?

TERÇA – Você prometeu que só ia beber no fim de semana mas por conta de (insira sua desculpa aqui) precisará tomar uma. Não uma. Várias. O Abutre agradecerá pelo fígado ao vinho.

QUARTA – Você acordará de ressaca, verá o que os seres humanos fizeram com o fogo, ligará para o trabalho para avisar que está doente, mas ninguém atenderá. Todos estarão de ressaca também.

QUINTA – Agora, sim, você não se sentirá culpado para começar a beber, mas compromissos externos demandados por Zeus o deixarão amarrado supervisionando a criação de todos os animais da Terra até ser tarde demais para se intoxicar.

SEXTA – Você começará a beber na madrugada e sonhará que faz parte dos Titãs. Não os mitológicos, os do Iê-Iê-Iê. Azar que pegou a fase das canções de Auto-Ajuda. Acordará e verá que o trabalho de ontem ficou um lixo e precisará ser refeito. O Acaso não vai te proteger.

SÁBADO – Um amigo chamado Hércules irá ligar oferecendo lhe libertar da quarentena. Você declinará. Se sentirá moralmente superior mas ficará o dia inteiro stalkeando a farra de Hércules com o centauro Quíron que ele chamará no seu lugar.

DOMINGO – Você se sentirá presa no dilema de precisar descansar e achar que não tem tempo pra descansar. Resultado: a tensão tomará o seu dia a jogando numa maratona mortal de The Office e vídeos antigos do Topa Tudo por Dinheiro. De noite cairá na asneira de assistir ao Fantástico e sofrerá como se um Abutre comesse o seu fígado, o que é fato. Fazer o que? Amanhã começa tudo de novo.