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Vale Tudo e as origens do bolsonarismo

Só pra começo de conversa, bolsonarismo não existe, pois bolsonaro (em minúsculo) é minúsculo e não tem ideias. São as ideias que têm bolsonaro. Ele simplesmente se tornou o receptáculo de uma série de preconceitos, discursos de ódios e conceitos retrógrados. Como um ralo sujo reuniu e consolidou um rio de esgoto respeitando simplesmente a lei da gravidade. Mas, por fins de simplificação, vou chamar esse esgoto represado de bolsonarismo. Dito isso vamos ao tema em si.

Semana passada comecei a reassistir Vale Tudo. Foi uma novela que acompanhei quando tinha 12 anos e que até hoje lembro de muitos momentos. Guardo um em especial na memória: quando Marco Aurélio derruba a porta do filho pois acha que ele é gay por estar ouvindo música clássica. “Que imbecil” me lembro de ter pensado na época e comecei a ficar com uma raiva eterna de gente rica preconceituosa e de mau gosto que só dá valor a dinheiro. Quem disse que novela não tem caráter educacional?

Mas óbvio, rever não é ver, e 32 anos criaram uma super sensação de estranheza com a obra. Fora a enorme quantidade de fumantes, a fixação nas cenas de Antônio Fagundes de cueca e o excesso de tempo perdido em cenas longas sem diálogo ou sentido pra vender trilha sonora, algumas coisas parecem realmente exageradas. Uma delas é o grupo de personagens.

Ao contrário das novelas atuais que seguem a linha do maniqueísmo soft onde os bons são sofridos e cometem o mal por vingança, e os maus não são tão ruins pois tem suas razões para terem ficado assim; em Vale Tudo todo mundo, com o perdão da palavra, é filho da puta. Todo mundo precisa e dá suas voltinhas, afinal o Brasil, como a novela preconiza, é assim. Não escapa ninguém. Seja em pequenos ou grandes atos todos estão a fim de se locupletar. Até mesmo a musa do bolsonarismo: Regina Duarte, a Raquel.

É, a Raquel. A otária que tomou uma super manta da filha e vem ao Rio de Janeiro pois está “preocupada com ela”; a reacionária que se aproveita da bondade alheia e gosta de dar lição de moral nos outros; a mulher que acha que todo mundo está errado e só ela está certa. A epítome do passivo agressivo, uma filhote da ditadura em plena nova república.

Imagino bolsonaro, ostracizado do exército depois de conspirar em busca de aumento de salário, assistindo essa novela, enquanto concorria para vereador em 1988, pensando: “A Raquel tem razão, esses filhos da puta desonestos, ricos e pobres, acabaram com o Brasil”. Ou como Raquel diz num dos primeiros capítulos da trama “Me recuso a acreditar que o Brasil não tenha jeito”. Mas o que ele e Raquel não sabem é que o Brasil não precisa ter jeito, pois ele não é um carro que precisa de conserto, mas sim uma ideia e uma comunidade que precisa de acordo e diálogo. O que Raquel nunca teve com seu marido, um artista que ela odeia, e nem com a sua filha, que, sim, deu a volta na mãe. mas teve a coragem e o desejo que sua mãe sempre evitou. 

Assim, ignorante da sua própria mediocridade, como Raquel vendendo sanduíches na praia, bolsonaro se tornou vereador, acreditando ser possuidor de uma moral superior ao resto do mundo, montando a sua banquinha de “venda” de salários na câmara municipal com Fabrício Queiroz, o seu “Poliana”, com o único propósito de se vingar do mundo. Sim, pois em Vale Tudo todo mundo é filho da puta, especialmente a Raquel.

E agora, 32 anos depois, somos governados por uma sensação de ranço feita em carne, por uma Raquel hiper-realista: uma hipócrita, corrupta, vingativa e ignorante, metida a moralista. O que fazer?

Talvez a resposta esteja num exemplo no próprio Vale Tudo. Minto quando digo que todo mundo é filho da puta em Vale Tudo. Há pelo menos um ser humano decente lá: Eugênio, o mordomo. Empático, culto, dedicado e humano. Um homem de gostos simples mas refinados, sempre pronto a proteger Heleninha. Um exemplo pra todos nós. Mas vive numa caverna. Como todos nós. E talvez isso o faça um filho da puta também. Afinal, “Para que o mal triunfe basta que os bons fiquem de braços cruzados”.

E é essa omissão da qual Eugênio e nós somos culpados que tornou o Brasil esse Vale Tudo da vida real. É, Cazuza, qual é o nosso negócio? Por que a gente é assim?

O Rio de Janeiro pode voltar a ser uma cidade turística?

O novo secretário do turismo, empossado ontem, aposta que dessa vez que o Rio voltará a ser um destino turístico.

Tentando apagar as duas décadas de estigma, após a terrível pandemia dos CoVid-19/20/21 que matou 93% da população e transformou o Rio de Janeiro numa grande cova coletiva, o novo secretário do turismo, Benício Huck, empresário e filho do ex-presidente Luciano Huck, garante que a proclamada cidade da morte do século XXI voltará a ser conhecida como uma cidade maravilhosa, assim como no século XX.

– A pandemia já está controlada há 7 anos e aprendemos a lição. A população que permaneceu é bem consciente e nossas belezas naturais estão em plena recuperação- declara Benício.

Com apoio da iniciativa privada, nos últimos anos a prefeitura reformou o centro histórico e recuperou o Aterro do Flamengo, destruídos pelos incêndios gerados pela população para se desfazer dos corpos que se amontoavam pelas ruas. Nos próximos dois anos ainda estão previstas a recuperação da orla, onde ainda se descobrem ocasionalmente corpos infectados tanto no mar como na areia, e da Floresta da Tijuca, destruída a mando do ex-presidente Jair Bolsonaro por um bombardeio de Napalm como uma tentativa de incendiar a cidade inteira e impedir a propagação das mutações do CoVid aqui surgidas.

– Sim, a população da época foi criminosamente negligente e por quebrar as regras de isolamento social transformou a cidade num símbolo da peste, mas isso vai mudar- garante o secretário.

Organizações que representam os cariocas sobreviventes da pandemia não apoiam esse plano. Joana Carvana, presidente da Funera-RIO, reforça que o plano do secretário além de desrespeitoso pode repetir um erro:

– O secretário precisa recordar que seu próprio pai numa atitude de populismo midiático tentou um plano parecido e gerou uma nova onda de CoVid que colocou a cidade em lockdown por dois anos e matou 400 mil pessoas. Uma nova tentativa frustrada pode condenar o secretário ao mesmo destino do presidente que não ouso dizer o nome.

Joana Carvana se refere ao ex-presidente Jair Bolsonaro que, após ser condenado por genocídio pelo tribunal de Haia, se encontra escondido com seus familiares no território das guerrilhas milicianas que tomaram o centro-oeste brasileiro.

O secretário rebate as declarações de Joana e das demais organizações de cariocas sobreviventes:

– Esse alarmismo nos impede de recuperar a cidade. Uma vida com medo paralisante é pior que tomar riscos controlados.

O fato é que o forte cheiro de carniça ainda se mantém na cidade e é comum os moradores sobreviventes declararem ver os fantasmas de antigos cidadãos, tanto os mortos pela pandemia e como os assassinados pelo governo Bolsonaro.

– Os mortos não descansaram. Continuam por aí. Pela culpa de terem votado errado ou minimizado a pandemia- declara Walter Chaves, um famoso autodeclarado médium. – Os erros terrenos de duas décadas vão demorar centenas de anos para serem revertidos espiritualmente. Se apenas soubéssemos onde iríamos parar talvez o povo tivesse sido mais consciente. Infelizmente agora é tarde demais.

O plano do secretário dará resultado? Só o tempo dirá. Ou será que Walter Chaves tem razão e já é tarde demais?

Primeiro Ato

Olho para o que restou de 3 anos e 9 meses de trabalho: alguns livros, cds, crachás de eventos, contracheques e uma papelada terrivelmente inidentificável. Encaro a derradeira decisão: o que levar, o que deixar? Mais da metade disso, é óbvio, vai pro lixo. O resto coloco na minha mochila, presumindo que terá serventia. É um engano. Não terá.

Vou pra reunião em que anunciarão a minha despedida. Depois dos assuntos de praxe, o chefe pede a palavra:

– Agora um assunto fora da agenda- limpa a gargante. – Um dos caras mais criativos com quem trabalhei, não, na verdade, sem dúvida, o cara mais criativo com quem trabalhei está nos deixando.

O grupo não reage. Na minha fantasia teria gente rasgando as vestes. Sou criativo demais pro meu próprio bem.

– Esse cara,- o chefe continua- para quem a gente apresentava os problemas mais insolúveis e que, em dez minutos, arrumava uma solução para eles está indo embora.

O chefe bate no peito para representar que está com a voz embargada. É teatro, mas aprecio o esforço.

– Vai lá, cara- alguns se manifestam.- Fala alguma coisa.

Me levanto constrangido e vou para a frente do grupo. Olho a cara de cada um. Alguns amigos, muitos conhecidos, poucos, graças a Deus, desafetos.

– Vai, fala- clamam.- Tu vai pra onde?

Todo os meus planos de manter em segredo a maior parte do que iria fazer vão por água abaixo. Conto a empresa para onde vou, o cargo que vou assumir, a gerência em que vou trabalhar e a cidade onde vou morar.

– BH? -se espantam.
– É, BH.

A reunião termina e as pessoas, como num casamento, fazem fila para me cumprimentar. Parabéns, boa sorte, é uma perda, sei que vai se dar bem lá. Obrigado, valeu, eu sei, espero que sim. Algumas pessoas me abraçam, outras oferecem um aperto de mão, poucas me surpreendem e choram. É estranho descobrir que você vai fazer falta.

– E aí? Onde você vai pagar o almoço?

Rio amarelo e vamos prum galeto daqueles clássicos do centro da cidade. Linguiça, pão de alho, lembranças e cerveja. Bebemos e comemos o suficiente para não dormir sobre as mesas e voltamos pro trabalho.

Envio o e-mail de praxe avisando aos que não trabalham diretamente comigo que estou deixando a companhia. As respostas chegam rapidamente. Alguns vem a pé de suas estações de trabalho. Outros respondem à mensagem eletronicamente com ironias e deboches amigáveis. Algumas hipocrisias. Algumas sinceridades surpreendentes. A melhor de todas foi um cara que, ao saber, olhou para mim assustado e disse “Fudeu!”. A pior foi a minha desafeta número um batendo no meu ombro e desejando sucesso, longe dela.

Enrolo até o final do expediente e depois parto para o chopp regulamentar. Poucos e bons me acompanham. Livre das amarras da necessidade de manter o emprego, falo o que penso. Livres por estarem falando com alguém não poderá deixar escapar verdades inconvenientes, eles falam o que pensam.

O álcool sobe às cabeças e um a um os últimos companheiros vão abandonando o bar. De repente me encontro sozinho. Pago a conta como prometi e pego um taxi. No caminho o taxista pergunta:

– Pra onde?
– Pra BH.
– BH? Essa corrida vai ficar cara pra caralho.
– Botafogo, botafogo.
– Ah, tá.

O centro do Rio se afasta fisicamente de mim, o prédio onde trabalhei por tanto tempo começa a se desvanecer da minha memória e sinto uma certa inquietude. Estarei fazendo a coisa certa? Sim, sim. Não há dúvida. Nada reflete melhor o futuro do que o que acontece na despedida do passado.

Fim do Primeiro Ato. Plot Point.

Minhas Férias

No mês passado, Papai disse que ia me levar pra passear de noite. Mamãe disse que não. Mamãe disse que depois da peste era muito perigoso sair de noite e que tinha muito bicho na rua. Tipo tigres, leões, lobos, ratos e baratas.

Papai disse pra mamãe calar a boca, que ela era uma ateia infiel,  que ele era um cruzado pentecostal e podia fazer o que quisesse. Disse também que quando acabassem as minhas aulas online na Evangelização, ele ia me levar. E me levou.

No dia do passeio, eu botei uma roupa bem bonita. Uma camisa preta com o rosto do presidente e tudo. Quando ficou escuro, Papai parou na frente do prédio com uma picape grande. Mamãe me beijou e me pediu pra ter cuidado. Eu disse pra ela não se preocupar que eu era ungido do senhor. Ela chorou.

Eu desci e encontrei Papai na portaria. Ele me abraçou. Depois ele me deu uma caixa. Eu abri e tinha uma pistola com uma foto de Jesus no cabo. Ele disse que o próprio Presidente tinha abençoado ela pra eu matar um bicho bem grande. Pra minha sorte, nessa hora um rato gigante passou na rua, eu mirei nele e atirei. Acertei. De primeira. Papai ficou muito orgulhoso. Disse que era tipo um sinal de Deus.

Eu guardei a minha pistola na mochila, entramos na picape e fomos para onde era o zoológico. Papai disse que antes da peste os animais ficavam presos em jaulas  mas elas quebraram e os animais ficaram soltos. Mas agora todos estavam naquele parque e ali ficava mais fácil encontrar um bicho grande pra eu matar.

Papai parou a picape embaixo de uma árvore e ficamos esperando no escuro. Pra eu ficar acordado ele me contou como o mundo era pior antes da peste; que os comunistas mandavam em tudo; que rezar era proibido; e que graças à cloroquina sagrada só os homens de bem sobreviveram. Agora a gente vivia tipo num Paraíso. Um lugar só pro povo temente a Deus mas cheio de bichos selvagens. A história era bem legal mas eu dormi no meio.

Acordei com um barulho muito grande. Tipo o barulho que Golias fez quando atacou Davi. Papai já estava do lado de fora do carro com uma metralhadora. Lá longe tinha um bicho cinza, redondo, com quatro perninhas curtas e tipo uma mangueira no lugar da boca. Eu perguntei que bicho era aquele e Papai disse baixinho “elevante”.

O elevante viu o carro e começou a andar na nossa direção. Papai deu uma rajada no elevante mas ele não morreu, só ficou mais nervoso e avançou pra gente com tudo. Papai entrou no carro e tentou ligar ele pra gente fugir, mas o elevante foi mais rápido e virou a picape. Eu fiquei tonto e vi que o Papai tinha se machucado. Papai disse pra eu não ficar com medo. Eu disse que era corajoso e que quando eu crescer vou ser um cruzado pentecostal tipo ele. Papai não falou nada.

Papai quebrou o vidro da frente e saiu do carro pra tentar derrubar o elevante com mais uma rajada. O elevante de novo foi mais rápido. Ele pegou o Papai com a mangueira da boca e jogou ele longe. Papai caiu em cima de uma árvore e saiu muito sangue dele. Eu fiquei com medo, mas fiz uma oração pro senhor Jesus e fui enfrentar o elevante.

Eu saí devagarinho e me escondi atrás do carro. Depois de matar o Papai, o elevante ficou tipo confuso e parou na minha frente sem fazer nada. Eu tirei a minha pistola da mochila e mirei bem na cabeça dele. O elevante me viu e tentou correr mas eu atirei antes. O elevante caiu. De primeira.

Por causa do tiroteiro, a milícia evangelizadora chegou logo e me levou pra casa da Mamãe.  Todo mundo disse que eu fui muito corajoso e que tinha que ter orgulho do meu pai, que agora ele estava no céu. Eu nem fiquei triste. Mamãe ficou muito nervosa e gritou muito nome feio para a milícia evangelizadora. Um dos milicianos disse pra mim que minha mãe era sobe e versiva. Eu não entendi o que ele queria dizer.

O Presidente ficou sabendo da história e na semana que vem vou participar da Live dele pra contar como eu matei o elevante que é tipo uma fera de Satanás. Mamãe disse que não ia deixar eu ir, que o presidente era ruim, e que a gente vivia num inferno por causa dele. Pelo jeito não gostaram, pois mais uma vez levaram ela pra passar um tempo num campo de reconversão. Disseram que dessa vez ela volta melhor. Tô com saudades da mamãe. Vou pedir pro Presidente soltar ela. Será que ele deixa?

Para ver a Peppa Pig

Durante a pandemia, aqueles que têm filhos pequenos foram obrigados a receber uma dose maior do que a usual de programas infantis. Além do que rola no Gloob, Discovery Kids, Disney Channel e afins, as crianças, numa resposta usual de defesa psíquica ao isolamento social, precisaram recorrer a desenhos e programas que reforçassem momentos antigos da sua infância. Por conta disso, muitos pais que acreditavam nunca mais ter que ver certas produções acabaram num revival de fases anteriores do desenvolvimento infantil. Aqui em casa foi com Peppa Pig.

Peppa, um desenho que minha filha, poucos meses antes da pandemia, dizia ser “pra bebê”, voltou ao ar com força total na nossa casa. Questionada por que estava assistindo algo “pra bebê”, ela foi categórica: “Saudades de quando eu era criança”. Saudades de quando eu era criança.

Dessa vez, ao invés de fazer ouvidos de mercador, resolvi prestar atenção e, confesso, me surpreendi. Aos moldes do famoso livro Para Ler o Pato Donald, onde Ariel Dorfman e Armand Mattelart desvelam a ideologia imperialista americana por trás das obras da Disney, descobri em Peppa Pig um enorme mundo de análise social.

Peppa vive num mundo de animais antropomorfizados, ou melhor, de mamíferos antropomorfizados. Répteis, peixes e aves não têm características humanas. Dentre esses animais existem diferenças claras socialmente de acordo com as suas regiões de origem. Os mamíferos de origem europeia representam a classe média incompetente inglesa que se beneficia de uma estrutura burocrática e ineficiente para sobreviver e cujos avôs e avós vivem de fantasias militaristas do passado. Os animais vindos da África trabalham com artesanato, com o tratamento de animais ou no mundo do entretenimento. Os animais asiáticos têm empregos especializados na área médica e de tecnologia ou cuidam dos serviços públicos, como segurança e educação. Além disso há uma crítica velada aos irlandeses, representados pela família coelho que tem a maior quantidade de filhos e cuja mãe sempre aparece mudando de emprego.

Além dessa visão extremamente estereotipada dos imigrantes na Inglaterra, o que de certa forma mostra os aspectos inconscientes que estimularam o Brexit, temos uma divisão que supera as questões sociais. Em Peppa existem apenas dois personagens humanos: Papai Noel e a Rainha, representando o capital e a nobreza. Essa divisão expõe um outro fosso de iniquidade intransponível para os animais: o de espécie. Por mais que os porcos, como em A Revolução dos Bichos, tenham aprendido a andar em duas patas, eles nunca serão tão poderosos como os humanos. Afinal sua origem biológica, animais (4 patas) bons, mas humanos (2 patas) melhor, continuará a assombrá-los.

E aí se encontra na minha opinião o ponto central da discussão socio-política de Peppa Pig.

Como um herdeiro de Bola de Neve e Napoleão, o primeiro começou a Revolução dos Bichos, e o segundo se tornou um tirano se aliando aos humanos, Papai Pig é a cria de um modelo opressivo que foi normalizado. Os animais vivem suas vidas alienados, preocupados com o senhor Batata e outros legumes que ao mesmo tempo que representam suas maiores celebridades também são o seu alimento. Não há diferença, como no nosso mundo, entre a obesidade biológica ou o excesso de consumo de informações inúteis. Todas são estimuladas por uma sociedade que nunca fica saciada e precisa consumir sem parar.

Nesse estupor de consumo, o Papai Pig, sempre apresentado como obeso, incompetente e fraco, é um sujeito emasculado, ameaçado por animais migrantes com maior expertise ou força de trabalho que ele. Um supremacista branco com nostalgia dos tempos onde só a origem já era suficiente para justificar o seu poder sobre os outros. Assim, atrás dos sorrisos forçados e vexatórios de Papai Pig, há um enorme potencial fascista que só precisa de uma pequena fagulha para se manifestar.

O universo de Peppa Pig é um retrato do nosso passado recente: um mundo aparentemente em paz, vindo de revoluções esquecidas, onde a semente totalitarista está brotando escondida numa classe média incompetente e reacionária. Se em Para ler o Pato Donald aprendemos como o imperialismo americano tenta oprimir e subjugar as demais culturas, considerando-as primitivas, e as corrompendo pelo interesse financeiro, em Peppa Pig vemos um momento pós imperialista onde se vive uma nostalgia da opressão. Será que Papai Pig, como Boris Johnson, Trump, Bolsonaro, e seu avô Napoleão, irá instituir uma nova ditadura com o pretexto de manter a lei e a ordem? Só o tempo dirá. E a resposta não estará em Peppa Pig, mas, sim, nos nossos telejornais.

Talvez seja melhor a gente trocar logo de canal.

Como lidar com os adeptos da carteirada

Quando eu era pequeno, todo mundo se referia ao meu pai como Coronel. Só fui saber que ele não era mesmo do exército aos 10 anos. Um choque. Afinal ele tinha lutado na Segunda Guerra, estudou no Colégio Militar e todo ano recebia uma romaria de gente pedindo para tirar os filhos do serviço militar. Não era coronel, mas se fazia como tal, mesmo sem dizer.

Lembro, inclusive, que insistiu comigo pra fazer uma tal carteirinha de filho de ex-combatente que, na sua fantasia, me daria acesso gratuito ao Maracanã, o que nunca me interessou, e me livraria de problemas não especificados, algo no que nunca me meti e, assim, para os quais nunca testei a solução mágica.

O fato é que, como uma boa parcela da população, ele se achava no direito de ter mais direitos que o restante da população. Era, sim, um adepto da famosa carteirada. Como não tinha um cargo ou amigos poderosos que o bancassem, ele o fazia através da malandragem e do soft power. Nunca dizia “você sabe com quem está falando”, mas era extremamente  hábil na arte de “name dropping” e adorava contar histórias, na maioria, falsas, sobre conhecidos em altos cargos. Assim nunca o vi pagar cinema, ônibus ou metrô, vivia ganhando coisas de graça e alguns, que realmente acreditavam nos poderes que não tinha, lhe usavam como mentor para assuntos que iam desde candidatura política até criação dos filhos; o que só aumentava o seu poder de influência. Era um abuso.

Agora, toda semana vemos um caso de gente tentando fazer o mesmo, sem graça ou finesse. A minha pergunta é: o que fazer?

O linchamento público não é boa opção pois, como visto no caso do Engenheiro Civil melhor que você e do Desembargador abusivo, eles não sentem culpa. Pra piorar, isso só os aproxima dos setores mais radicais da carteirada e podem torná-los, escreve aí, futuros candidatos a cargos legislativos onde terão mais oportunidades, mas não o direito, de fazer isso.

A reeducação desses sujeitos é uma impossibilidade. Ninguém quer aprender a ter menos poder. E, outra, ao sair de um treinamento ou mesmo lavagem cerebral, voltariam para uma sociedade onde tudo o que lhes foi ensinado como ruim continua a ser ostensivamente usado e funciona para seus nefastos fins egóicos.

Logo, a única saída é mexer no sistema, na cultura, e fazer com que esse expediente não funcione mais e seja uma vergonha tentar utilizá-lo. Quanto mais esse poder inexistente for confrontado e se tornar inútil, menos eles se sentirão compelidos a usá-lo. Coisa difícil e demorada, eu sei, mas é a única maneira. Se o sistema, que foi criado para favorecer a carteirada, não mudar,  não dá pra esperar que ele rode altruisticamente graças à consciência e à cidadania que a população, veja só as praias lotadas, não têm.

Foi mais ou menos assim que o meu pai parou de se meter com a história de tirar os filhos dos outros do serviço militar.

Como disse, quase como um Don Corleone, todo ano, meu pai recebia a população do Flamengo com pedidos para tirar seus filhos do serviço militar. Ele reforçava como era difícil e prometia fazer o possível. Todos saíam muito agradecidos e ficavam ainda mais agradecidos quando os filhos não serviam. Na verdade não era difícil: tinha excesso de gente querendo servir e se você se alistasse no exército, pertinho do fim do prazo, e disesse que não queria servir seria liberado. Até o dia que deu chabú.

No início da Nova República, um cara que estudava no meu colégio, umas duas séries pra frente, cabeludo, meio hippongo, boa praça, estava pra se alistar e a mãe preocupada foi procurar o meu pai. Ele fez todo o teatro, recebeu os agradecimentos da mãe e se esqueceu da história. Não sei o que rolou, se com o fim do governo militar menos gente quis se alistar, mas o menino serviu. E como estava entrando na faculdade ainda botaram ele no CPOR.

Vez ou outra eu o encontrava na rua, cabelo recado, de uniforme, e recebia os olhares de ódio que eram pro meu pai. Uma vez comentei com meu pai sobre o garoto e isso o chocou. A boa providência, pronunciou, o tinha abandonado nesse aspecto. Na sua cabeça, não tinha culpa por nunca fazer nada, era só uma questão de sorte ou azar.

Assim, ao invés de assumir seu erro, toda vez que ainda vinham lhe pedir o milagre que não fazia, ele passou a recusar a missão, falando que seus amigos tinham sido reformados, o sistema político era outro e sua influência tinha diminuído. O povo saía triste, mas ele ainda prometia fazer algo, mas sem garantir resultados, perseverando sua aparência de poder.

Enfim, o problema da carteirada não é só de quem dá mas de quem a recebe e de quem se beneficia dela indiretamente. Se mesmo sem garantias reais do poder alheio, continuamos acatando ou a pedindo precisamos questionar por que somos tão servis, ou, pior, como desejamos promover essa cultura com a esperança de sermos nós futuramente aqueles na posição de dar a carteirada.

Quando penso nessas coisas, me dá um frio na espinha e só melhoro quando começo a cantarolar La Marseillaise. Funciona. Sério. Tudo o que precisamos é cantar mais alto e por mais tempo que os tiranos.