Para ver a Peppa Pig

Durante a pandemia, aqueles que têm filhos pequenos foram obrigados a receber uma dose maior do que a usual de programas infantis. Além do que rola no Gloob, Discovery Kids, Disney Channel e afins, as crianças, numa resposta usual de defesa psíquica ao isolamento social, precisaram recorrer a desenhos e programas que reforçassem momentos antigos da sua infância. Por conta disso, muitos pais que acreditavam nunca mais ter que ver certas produções acabaram num revival de fases anteriores do desenvolvimento infantil. Aqui em casa foi com Peppa Pig.

Peppa, um desenho que minha filha, poucos meses antes da pandemia, dizia ser “pra bebê”, voltou ao ar com força total na nossa casa. Questionada por que estava assistindo algo “pra bebê”, ela foi categórica: “Saudades de quando eu era criança”. Saudades de quando eu era criança.

Dessa vez, ao invés de fazer ouvidos de mercador, resolvi prestar atenção e, confesso, me surpreendi. Aos moldes do famoso livro Para Ler o Pato Donald, onde Ariel Dorfman e Armand Mattelart desvelam a ideologia imperialista americana por trás das obras da Disney, descobri em Peppa Pig um enorme mundo de análise social.

Peppa vive num mundo de animais antropomorfizados, ou melhor, de mamíferos antropomorfizados. Répteis, peixes e aves não têm características humanas. Dentre esses animais existem diferenças claras socialmente de acordo com as suas regiões de origem. Os mamíferos de origem europeia representam a classe média incompetente inglesa que se beneficia de uma estrutura burocrática e ineficiente para sobreviver e cujos avôs e avós vivem de fantasias militaristas do passado. Os animais vindos da África trabalham com artesanato, com o tratamento de animais ou no mundo do entretenimento. Os animais asiáticos têm empregos especializados na área médica e de tecnologia ou cuidam dos serviços públicos, como segurança e educação. Além disso há uma crítica velada aos irlandeses, representados pela família coelho que tem a maior quantidade de filhos e cuja mãe sempre aparece mudando de emprego.

Além dessa visão extremamente estereotipada dos imigrantes na Inglaterra, o que de certa forma mostra os aspectos inconscientes que estimularam o Brexit, temos uma divisão que supera as questões sociais. Em Peppa existem apenas dois personagens humanos: Papai Noel e a Rainha, representando o capital e a nobreza. Essa divisão expõe um outro fosso de iniquidade intransponível para os animais: o de espécie. Por mais que os porcos, como em A Revolução dos Bichos, tenham aprendido a andar em duas patas, eles nunca serão tão poderosos como os humanos. Afinal sua origem biológica, animais (4 patas) bons, mas humanos (2 patas) melhor, continuará a assombrá-los.

E aí se encontra na minha opinião o ponto central da discussão socio-política de Peppa Pig.

Como um herdeiro de Bola de Neve e Napoleão, o primeiro começou a Revolução dos Bichos, e o segundo se tornou um tirano se aliando aos humanos, Papai Pig é a cria de um modelo opressivo que foi normalizado. Os animais vivem suas vidas alienados, preocupados com o senhor Batata e outros legumes que ao mesmo tempo que representam suas maiores celebridades também são o seu alimento. Não há diferença, como no nosso mundo, entre a obesidade biológica ou o excesso de consumo de informações inúteis. Todas são estimuladas por uma sociedade que nunca fica saciada e precisa consumir sem parar.

Nesse estupor de consumo, o Papai Pig, sempre apresentado como obeso, incompetente e fraco, é um sujeito emasculado, ameaçado por animais migrantes com maior expertise ou força de trabalho que ele. Um supremacista branco com nostalgia dos tempos onde só a origem já era suficiente para justificar o seu poder sobre os outros. Assim, atrás dos sorrisos forçados e vexatórios de Papai Pig, há um enorme potencial fascista que só precisa de uma pequena fagulha para se manifestar.

O universo de Peppa Pig é um retrato do nosso passado recente: um mundo aparentemente em paz, vindo de revoluções esquecidas, onde a semente totalitarista está brotando escondida numa classe média incompetente e reacionária. Se em Para ler o Pato Donald aprendemos como o imperialismo americano tenta oprimir e subjugar as demais culturas, considerando-as primitivas, e as corrompendo pelo interesse financeiro, em Peppa Pig vemos um momento pós imperialista onde se vive uma nostalgia da opressão. Será que Papai Pig, como Boris Johnson, Trump, Bolsonaro, e seu avô Napoleão, irá instituir uma nova ditadura com o pretexto de manter a lei e a ordem? Só o tempo dirá. E a resposta não estará em Peppa Pig, mas, sim, nos nossos telejornais.

Talvez seja melhor a gente trocar logo de canal.

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