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O (des)encontro com o escritor

Quando eu tinha o sebo a gente atendia muitos escritores, por isso, quando vejo entrevistas com autores, eu sempre sinto que o livro virou menos do que é. Virou só um pretexto para um pitch de vendas.

Os entrevistadores e jornalistas, geralmente serem terem lido o livro e informados apenas pelos seus press releases, focam suas perguntas no processo de escrita, na rotina dos autores, na mística “de onde vêm as ideias”, nas ambições do livro (que não tem nenhuma), em como lidam com o sucesso (futuro ou presente) e em tudo mais que não se seja o tema do livro.

O livro não é a vida do autor. O livro é uma conversa, uma isca do autor para que o leitor, e o entrevistador, fazendo esse papel simulado, discuta o seu tema ou estética. Não é isso que vejo nas entrevistas. Vejo pessoas entrevistando celebridades cujo sustento virá da compra do livro. “Gostou dessa pessoa? Ela é legal e interessante, né? Inteligente também, não? Então compre o seu livro para que ela continue viva, mas não se preocupe, você não precisa lê-lo. No máximo postar uma foto dele no Instagram pra dar uma força”.

Isso me lembra do livro do Mamet, Teatro, onde ele afirma, com muita propriedade, que o papel do teatro é entreter o público. O livro tem também esse papel. Ele foi feito para ser lido e experienciado, mas, como o próprio teatro, hoje virou apenas um símbolo de ostentação intelectual, um fiapo de ligação com uma pessoa de aparente poder que irá imbuí-lo de um pedaço de identidade. Em suma, anexos de personalidade via poder de compra.

Quando eu tinha sebo a gente atendia muitos escritores e o papo era diferente. O papo era sobre o livro. O que os autores pensavam sobre o tema que tinham escrito a respeito, sobre as escolhas que fizeram na narração, nas personagens, na linguagem. Sobre o que poderia ser melhor, sobre o que ficou bom no livro e para ouvi-los ler. Isso faz diferença: ouvir a autora ler o seu livro. Mas, pelas regras do mundo, estabelecidas pelos nerds dos filmes de super herói e séries, tudo isso é proibido. É spoiler. Num mundo onde tudo é “porn”, a aferição de valor vem da (falsa) sensação de novidade e da possibilidade de repetição de consumo; mesmo numa atividade que sempre termina do mesmo jeito.

Eu não ligo pra isso. Sempre fui o louco que lia o livro depois de ver o filme. Se saber algo sobre a história lhe impede de ler o livro, cá entre nós, você nunca iria lê-lo mesmo. E provavelmente nunca irá ao teatro, afinal Hamlet, Romeu e Julieta, só pra dar um exemplo, morrem no final. Você não sabia? Desculpa o spoiler.

Depois me perguntam se o mercado editorial vai sobreviver depois dessa crise. Não vai. Dessa forma não vai. E não por conta de CoVid e afins. Vai perecer de amnésia. Vai passar boas dificuldades pois esqueceu o seu propósito.

Parece até que as editoras têm vergonha de vender livros, e viraram uma espécie de bar onde o mais importante é o guarda chuva do drinque e não o seu sabor. Ok, o público não é dos melhores, mas está no seu papel educá-lo e não enganá-lo vendendo culto a celebridade para empurrar papel encadernado com sinais de tinta no seu miolo.

Tá, talvez seja só, mais uma vez, chatice da minha parte. Talvez a falta que sinto de boas entrevistas com escritores seja só um reflexo da falta de bons livros, e, quando eles existem, de boas pessoas pra conversar a respeito deles.  Por falar nisso, me diz aí, o que você leu de bom atualmente?

O Último Aniversário

Desde os meus 13 anos eu tinha um ritual que cumpria fielmente no dia do meu aniversário: reler Watchmen. Naquele 11 de setembro de 2001 não foi diferente.

Na época eu gerenciava o turno da manhã no sebo Baratos da Ribeiro e como já ia sair de noite, para não correr o risco de não cumprir a tradição, troquei de turno com o pessoal da tarde. Acordei, como de costume, bem cedo; fiz um café da manhã não memorável;  levei minha namorada no ponto de ônibus; e voltei pra casa pra cumprir o meu dever.

Separei as seis edições de Watchmen da Abril, aquelas originais do lançamento no Brasil; botei o cinzeiro e o maço de cigarros ao lado da cama; e liguei a TV baixinho na Bandeirantes para acompanhar as notícias do dia. Entre um cigarro e outro, ia revisitando o universo alternativo de Alan Moore, onde um bando de heróis impotentes tentavam inutilmente frear os impulsos autodestrutivos da humanidade. Lá pelo meio da história da captura do Rorschach, entrou um plantão da TV: um avião, aparentemente um monomotor, colidiu com o World Trade Center.

Parei a leitura e comecei a zapear pela curta lista de canais da época. Mesmo com TV a cabo foi rápido. A maioria dos canais exibiam as mesmas imagens e diziam algo que o jornalismo de hoje deveria dizer mais: “Não sabemos do que se trata. Ainda estamos apurando”. Só o SBT se mantinha firme na sua missão de alienação e continuava a transmitir desenhos animados durante o seu Bom Dia & Cia. 

Tentei retomar a leitura, mas um dos funcionários do sebo ligou de um orelhão avisando que o sócio que ia me substituir não tinha chegado. Comentei sobre a colisão do avião e pedi que esperasse uns 15 minutos antes de me ligar de novo. Ele me ligou em menos de 10 pra avisar que o sócio tinha chegado.

Liberado da função, voltei pra frente da TV, ainda com esperanças de terminar de reler o Watchmen. Consegui avançar até as sessões de psicoterapia do Rorschach, mas, em breve, ao vivo, logo veio a notícia da colisão do segundo avião. Agora, as dúvidas se tornaram certezas. Não poderia ser uma simples coincidência. Pra fazer sentido, tudo tinha que ter sido orquestrado. Era um ataque terrorista.

Enquanto os jornais começavam a enumerar os possíveis suspeitos, liguei pra loja e comecei a dar ordens, como se numa guerra. Ligar a TV na sala dos fundos; informar aos clientes que a sala estava disponível para quem quisesse acompanhar as notícias; trocar os livros da vitrine por tudo que tivéssemos sobre Oriente Médio, terrorismo e história americana recente; e aumentar o preço de todos os Alcorões que tivéssemos em estoque. Em frenesi, eu gritava no telefone pra motivar a equipe:

– Roma está caindo! Roma está caindo!

Fiquei em pé em frente a TV, dividido entre voltar a reler Watchmen e ir logo pra loja. Afinal, todos precisam assumir seus postos durante uma emergência. Para resolver o meu dilema, a torre atingida pelos aviões não resistiu e caiu. Vi e revi aquela cena por minutos na TV e ainda a vejo na minha mente. Atingido emocionalmente por aquela nuvem de poeira e pelas toneladas de aço de concreto do World Trade Center, não pensei duas vezes.Tomei um banho, botei os volumes de Watchmen que faltavam ler numa mochila, e parti pro trabalho.

A loja estava lotada. Na sala dos fundos as pessoas se espremiam para acompanhar o que acontecia no mundo, mesmo que agora fossem só replays e comentários. Todos tinham teorias e opiniões. Graças a Deus ainda não existiam redes sociais.

O sócio que me substituiu me lembrou que um dos outros sócios estava visitando a irmã em Washington. Comentou que tentaram falar com ele mas não conseguiram completar a ligação. Agora já era público o ataque ao Pentágono e que as comunicações nos e com os Estados Unidos estavam suspensas ou bloqueadas. Lembrei de alguns amigos que estavam por Nova York. Fiquei com vontade de ligar para eles, mas pelo jeito só nos restava rezar para que estivessem bem. 

Liguei pra minha mãe pra comentar sobre o ataque e ela aproveitou para confirmar o meu jantar de aniversário no mexicano da Cobal assim que a loja fechasse. Liguei pra minha namorada pra saber como ela estava e ficamos durante um bom tempo discutindo o que estávamos fazendo quando ficamos sabendo dos ataques e planejando o que faríamos depois do jantar. O turno da manhã acabou e precisei assumir a loja. 

O movimento continuou firme e forte. Quando começaram a anunciar os rumores sobre o envolvimento de Osama bin Laden, já tínhamos vendido quase tudo relacionado ao tema, desde os Alcorões majorados até aquelas besteiras sobre a Guerra do Afeganistão da Bibliex. O mundo como o conhecíamos estava ruindo, mas ainda havia gente no Rio de Janeiro disposta a tentar entender o que estava acontecendo. Era um mundo diferente. Um mundo que acabou naquele dia.

Quando anoiteceu, as pessoas, ainda aturdidas, começaram a se recolher. A sala de TV ficou vazia e alguns poucos clientes regulares vindos do trabalho apareceram na loja para saber como estávamos. Era como se todos nós estivéssemos em Nova York naquele dia. Era como se todos nós fôssemos vítimas daquele ataque. O que não deixava de ser verdade.

Minha namorada chegou do trabalho, esperei a saída dos últimos clientes, fechei a loja e fomos pra Cobal, encontrar a minha mãe. Quando chegamos no mexicano, Bush filho dizia na TV, sem meias palavras, que o mundo ia se tornar um estado global totalitarista mas, abalados com a queda do World Trade Center, não prestamos atenção. E olha só onde fomos parar por esse momento de distração.

Tentando ignorar o avião na torre, passamos a noite comendo tortillas, bebendo micheladas e discutindo como seria o mundo no dia seguinte. Ninguém tinha ideia, nem cantaram parabéns para mim.

Cansado, suspendi os planos pós jantar, me despedi da minha mãe, e fui pra casa com a minha namorada. Quando me deitei, lembrei dos Watchmen lidos pela metade. Deixei minha namorada cair no sono e fui pra sala retomar a leitura. Tudo parecia diferente. Sem gosto. As conspirações imaginárias e filosóficas do Alan Moore não conseguiam mais competir com a realidade brutal do instinto de morte e desejo de poder do Dick Cheney.

Deixei as revistas não lidas sobre o sofá, deitei na cama e abracei minha namorada rezando para que o amanhã fosse melhor. Fui parcialmente atendido. Nos casamos, temos uma filha maravilhosa e vivemos com muito amor e harmonia. Já o mundo… vocês sabem como está.

Quanto à tradição ela morreu. Nunca mais reli Watchmen e, também, nunca mais tive um aniversário só meu. E Roma? Ao contrário da minha previsão, Roma não caiu; ainda. Ainda.

Vale Tudo e as origens do bolsonarismo

Só pra começo de conversa, bolsonarismo não existe, pois bolsonaro (em minúsculo) é minúsculo e não tem ideias. São as ideias que têm bolsonaro. Ele simplesmente se tornou o receptáculo de uma série de preconceitos, discursos de ódios e conceitos retrógrados. Como um ralo sujo reuniu e consolidou um rio de esgoto respeitando simplesmente a lei da gravidade. Mas, por fins de simplificação, vou chamar esse esgoto represado de bolsonarismo. Dito isso vamos ao tema em si.

Semana passada comecei a reassistir Vale Tudo. Foi uma novela que acompanhei quando tinha 12 anos e que até hoje lembro de muitos momentos. Guardo um em especial na memória: quando Marco Aurélio derruba a porta do filho pois acha que ele é gay por estar ouvindo música clássica. “Que imbecil” me lembro de ter pensado na época e comecei a ficar com uma raiva eterna de gente rica preconceituosa e de mau gosto que só dá valor a dinheiro. Quem disse que novela não tem caráter educacional?

Mas óbvio, rever não é ver, e 32 anos criaram uma super sensação de estranheza com a obra. Fora a enorme quantidade de fumantes, a fixação nas cenas de Antônio Fagundes de cueca e o excesso de tempo perdido em cenas longas sem diálogo ou sentido pra vender trilha sonora, algumas coisas parecem realmente exageradas. Uma delas é o grupo de personagens.

Ao contrário das novelas atuais que seguem a linha do maniqueísmo soft onde os bons são sofridos e cometem o mal por vingança, e os maus não são tão ruins pois tem suas razões para terem ficado assim; em Vale Tudo todo mundo, com o perdão da palavra, é filho da puta. Todo mundo precisa e dá suas voltinhas, afinal o Brasil, como a novela preconiza, é assim. Não escapa ninguém. Seja em pequenos ou grandes atos todos estão a fim de se locupletar. Até mesmo a musa do bolsonarismo: Regina Duarte, a Raquel.

É, a Raquel. A otária que tomou uma super manta da filha e vem ao Rio de Janeiro pois está “preocupada com ela”; a reacionária que se aproveita da bondade alheia e gosta de dar lição de moral nos outros; a mulher que acha que todo mundo está errado e só ela está certa. A epítome do passivo agressivo, uma filhote da ditadura em plena nova república.

Imagino bolsonaro, ostracizado do exército depois de conspirar em busca de aumento de salário, assistindo essa novela, enquanto concorria para vereador em 1988, pensando: “A Raquel tem razão, esses filhos da puta desonestos, ricos e pobres, acabaram com o Brasil”. Ou como Raquel diz num dos primeiros capítulos da trama “Me recuso a acreditar que o Brasil não tenha jeito”. Mas o que ele e Raquel não sabem é que o Brasil não precisa ter jeito, pois ele não é um carro que precisa de conserto, mas sim uma ideia e uma comunidade que precisa de acordo e diálogo. O que Raquel nunca teve com seu marido, um artista que ela odeia, e nem com a sua filha, que, sim, deu a volta na mãe. mas teve a coragem e o desejo que sua mãe sempre evitou. 

Assim, ignorante da sua própria mediocridade, como Raquel vendendo sanduíches na praia, bolsonaro se tornou vereador, acreditando ser possuidor de uma moral superior ao resto do mundo, montando a sua banquinha de “venda” de salários na câmara municipal com Fabrício Queiroz, o seu “Poliana”, com o único propósito de se vingar do mundo. Sim, pois em Vale Tudo todo mundo é filho da puta, especialmente a Raquel.

E agora, 32 anos depois, somos governados por uma sensação de ranço feita em carne, por uma Raquel hiper-realista: uma hipócrita, corrupta, vingativa e ignorante, metida a moralista. O que fazer?

Talvez a resposta esteja num exemplo no próprio Vale Tudo. Minto quando digo que todo mundo é filho da puta em Vale Tudo. Há pelo menos um ser humano decente lá: Eugênio, o mordomo. Empático, culto, dedicado e humano. Um homem de gostos simples mas refinados, sempre pronto a proteger Heleninha. Um exemplo pra todos nós. Mas vive numa caverna. Como todos nós. E talvez isso o faça um filho da puta também. Afinal, “Para que o mal triunfe basta que os bons fiquem de braços cruzados”.

E é essa omissão da qual Eugênio e nós somos culpados que tornou o Brasil esse Vale Tudo da vida real. É, Cazuza, qual é o nosso negócio? Por que a gente é assim?

O Rio de Janeiro pode voltar a ser uma cidade turística?

O novo secretário do turismo, empossado ontem, aposta que dessa vez que o Rio voltará a ser um destino turístico.

Tentando apagar as duas décadas de estigma, após a terrível pandemia dos CoVid-19/20/21 que matou 93% da população e transformou o Rio de Janeiro numa grande cova coletiva, o novo secretário do turismo, Benício Huck, empresário e filho do ex-presidente Luciano Huck, garante que a proclamada cidade da morte do século XXI voltará a ser conhecida como uma cidade maravilhosa, assim como no século XX.

– A pandemia já está controlada há 7 anos e aprendemos a lição. A população que permaneceu é bem consciente e nossas belezas naturais estão em plena recuperação- declara Benício.

Com apoio da iniciativa privada, nos últimos anos a prefeitura reformou o centro histórico e recuperou o Aterro do Flamengo, destruídos pelos incêndios gerados pela população para se desfazer dos corpos que se amontoavam pelas ruas. Nos próximos dois anos ainda estão previstas a recuperação da orla, onde ainda se descobrem ocasionalmente corpos infectados tanto no mar como na areia, e da Floresta da Tijuca, destruída a mando do ex-presidente Jair Bolsonaro por um bombardeio de Napalm como uma tentativa de incendiar a cidade inteira e impedir a propagação das mutações do CoVid aqui surgidas.

– Sim, a população da época foi criminosamente negligente e por quebrar as regras de isolamento social transformou a cidade num símbolo da peste, mas isso vai mudar- garante o secretário.

Organizações que representam os cariocas sobreviventes da pandemia não apoiam esse plano. Joana Carvana, presidente da Funera-RIO, reforça que o plano do secretário além de desrespeitoso pode repetir um erro:

– O secretário precisa recordar que seu próprio pai numa atitude de populismo midiático tentou um plano parecido e gerou uma nova onda de CoVid que colocou a cidade em lockdown por dois anos e matou 400 mil pessoas. Uma nova tentativa frustrada pode condenar o secretário ao mesmo destino do presidente que não ouso dizer o nome.

Joana Carvana se refere ao ex-presidente Jair Bolsonaro que, após ser condenado por genocídio pelo tribunal de Haia, se encontra escondido com seus familiares no território das guerrilhas milicianas que tomaram o centro-oeste brasileiro.

O secretário rebate as declarações de Joana e das demais organizações de cariocas sobreviventes:

– Esse alarmismo nos impede de recuperar a cidade. Uma vida com medo paralisante é pior que tomar riscos controlados.

O fato é que o forte cheiro de carniça ainda se mantém na cidade e é comum os moradores sobreviventes declararem ver os fantasmas de antigos cidadãos, tanto os mortos pela pandemia e como os assassinados pelo governo Bolsonaro.

– Os mortos não descansaram. Continuam por aí. Pela culpa de terem votado errado ou minimizado a pandemia- declara Walter Chaves, um famoso autodeclarado médium. – Os erros terrenos de duas décadas vão demorar centenas de anos para serem revertidos espiritualmente. Se apenas soubéssemos onde iríamos parar talvez o povo tivesse sido mais consciente. Infelizmente agora é tarde demais.

O plano do secretário dará resultado? Só o tempo dirá. Ou será que Walter Chaves tem razão e já é tarde demais?

Primeiro Ato

Olho para o que restou de 3 anos e 9 meses de trabalho: alguns livros, cds, crachás de eventos, contracheques e uma papelada terrivelmente inidentificável. Encaro a derradeira decisão: o que levar, o que deixar? Mais da metade disso, é óbvio, vai pro lixo. O resto coloco na minha mochila, presumindo que terá serventia. É um engano. Não terá.

Vou pra reunião em que anunciarão a minha despedida. Depois dos assuntos de praxe, o chefe pede a palavra:

– Agora um assunto fora da agenda- limpa a gargante. – Um dos caras mais criativos com quem trabalhei, não, na verdade, sem dúvida, o cara mais criativo com quem trabalhei está nos deixando.

O grupo não reage. Na minha fantasia teria gente rasgando as vestes. Sou criativo demais pro meu próprio bem.

– Esse cara,- o chefe continua- para quem a gente apresentava os problemas mais insolúveis e que, em dez minutos, arrumava uma solução para eles está indo embora.

O chefe bate no peito para representar que está com a voz embargada. É teatro, mas aprecio o esforço.

– Vai lá, cara- alguns se manifestam.- Fala alguma coisa.

Me levanto constrangido e vou para a frente do grupo. Olho a cara de cada um. Alguns amigos, muitos conhecidos, poucos, graças a Deus, desafetos.

– Vai, fala- clamam.- Tu vai pra onde?

Todo os meus planos de manter em segredo a maior parte do que iria fazer vão por água abaixo. Conto a empresa para onde vou, o cargo que vou assumir, a gerência em que vou trabalhar e a cidade onde vou morar.

– BH? -se espantam.
– É, BH.

A reunião termina e as pessoas, como num casamento, fazem fila para me cumprimentar. Parabéns, boa sorte, é uma perda, sei que vai se dar bem lá. Obrigado, valeu, eu sei, espero que sim. Algumas pessoas me abraçam, outras oferecem um aperto de mão, poucas me surpreendem e choram. É estranho descobrir que você vai fazer falta.

– E aí? Onde você vai pagar o almoço?

Rio amarelo e vamos prum galeto daqueles clássicos do centro da cidade. Linguiça, pão de alho, lembranças e cerveja. Bebemos e comemos o suficiente para não dormir sobre as mesas e voltamos pro trabalho.

Envio o e-mail de praxe avisando aos que não trabalham diretamente comigo que estou deixando a companhia. As respostas chegam rapidamente. Alguns vem a pé de suas estações de trabalho. Outros respondem à mensagem eletronicamente com ironias e deboches amigáveis. Algumas hipocrisias. Algumas sinceridades surpreendentes. A melhor de todas foi um cara que, ao saber, olhou para mim assustado e disse “Fudeu!”. A pior foi a minha desafeta número um batendo no meu ombro e desejando sucesso, longe dela.

Enrolo até o final do expediente e depois parto para o chopp regulamentar. Poucos e bons me acompanham. Livre das amarras da necessidade de manter o emprego, falo o que penso. Livres por estarem falando com alguém não poderá deixar escapar verdades inconvenientes, eles falam o que pensam.

O álcool sobe às cabeças e um a um os últimos companheiros vão abandonando o bar. De repente me encontro sozinho. Pago a conta como prometi e pego um taxi. No caminho o taxista pergunta:

– Pra onde?
– Pra BH.
– BH? Essa corrida vai ficar cara pra caralho.
– Botafogo, botafogo.
– Ah, tá.

O centro do Rio se afasta fisicamente de mim, o prédio onde trabalhei por tanto tempo começa a se desvanecer da minha memória e sinto uma certa inquietude. Estarei fazendo a coisa certa? Sim, sim. Não há dúvida. Nada reflete melhor o futuro do que o que acontece na despedida do passado.

Fim do Primeiro Ato. Plot Point.

Minhas Férias

No mês passado, Papai disse que ia me levar pra passear de noite. Mamãe disse que não. Mamãe disse que depois da peste era muito perigoso sair de noite e que tinha muito bicho na rua. Tipo tigres, leões, lobos, ratos e baratas.

Papai disse pra mamãe calar a boca, que ela era uma ateia infiel,  que ele era um cruzado pentecostal e podia fazer o que quisesse. Disse também que quando acabassem as minhas aulas online na Evangelização, ele ia me levar. E me levou.

No dia do passeio, eu botei uma roupa bem bonita. Uma camisa preta com o rosto do presidente e tudo. Quando ficou escuro, Papai parou na frente do prédio com uma picape grande. Mamãe me beijou e me pediu pra ter cuidado. Eu disse pra ela não se preocupar que eu era ungido do senhor. Ela chorou.

Eu desci e encontrei Papai na portaria. Ele me abraçou. Depois ele me deu uma caixa. Eu abri e tinha uma pistola com uma foto de Jesus no cabo. Ele disse que o próprio Presidente tinha abençoado ela pra eu matar um bicho bem grande. Pra minha sorte, nessa hora um rato gigante passou na rua, eu mirei nele e atirei. Acertei. De primeira. Papai ficou muito orgulhoso. Disse que era tipo um sinal de Deus.

Eu guardei a minha pistola na mochila, entramos na picape e fomos para onde era o zoológico. Papai disse que antes da peste os animais ficavam presos em jaulas  mas elas quebraram e os animais ficaram soltos. Mas agora todos estavam naquele parque e ali ficava mais fácil encontrar um bicho grande pra eu matar.

Papai parou a picape embaixo de uma árvore e ficamos esperando no escuro. Pra eu ficar acordado ele me contou como o mundo era pior antes da peste; que os comunistas mandavam em tudo; que rezar era proibido; e que graças à cloroquina sagrada só os homens de bem sobreviveram. Agora a gente vivia tipo num Paraíso. Um lugar só pro povo temente a Deus mas cheio de bichos selvagens. A história era bem legal mas eu dormi no meio.

Acordei com um barulho muito grande. Tipo o barulho que Golias fez quando atacou Davi. Papai já estava do lado de fora do carro com uma metralhadora. Lá longe tinha um bicho cinza, redondo, com quatro perninhas curtas e tipo uma mangueira no lugar da boca. Eu perguntei que bicho era aquele e Papai disse baixinho “elevante”.

O elevante viu o carro e começou a andar na nossa direção. Papai deu uma rajada no elevante mas ele não morreu, só ficou mais nervoso e avançou pra gente com tudo. Papai entrou no carro e tentou ligar ele pra gente fugir, mas o elevante foi mais rápido e virou a picape. Eu fiquei tonto e vi que o Papai tinha se machucado. Papai disse pra eu não ficar com medo. Eu disse que era corajoso e que quando eu crescer vou ser um cruzado pentecostal tipo ele. Papai não falou nada.

Papai quebrou o vidro da frente e saiu do carro pra tentar derrubar o elevante com mais uma rajada. O elevante de novo foi mais rápido. Ele pegou o Papai com a mangueira da boca e jogou ele longe. Papai caiu em cima de uma árvore e saiu muito sangue dele. Eu fiquei com medo, mas fiz uma oração pro senhor Jesus e fui enfrentar o elevante.

Eu saí devagarinho e me escondi atrás do carro. Depois de matar o Papai, o elevante ficou tipo confuso e parou na minha frente sem fazer nada. Eu tirei a minha pistola da mochila e mirei bem na cabeça dele. O elevante me viu e tentou correr mas eu atirei antes. O elevante caiu. De primeira.

Por causa do tiroteiro, a milícia evangelizadora chegou logo e me levou pra casa da Mamãe.  Todo mundo disse que eu fui muito corajoso e que tinha que ter orgulho do meu pai, que agora ele estava no céu. Eu nem fiquei triste. Mamãe ficou muito nervosa e gritou muito nome feio para a milícia evangelizadora. Um dos milicianos disse pra mim que minha mãe era sobe e versiva. Eu não entendi o que ele queria dizer.

O Presidente ficou sabendo da história e na semana que vem vou participar da Live dele pra contar como eu matei o elevante que é tipo uma fera de Satanás. Mamãe disse que não ia deixar eu ir, que o presidente era ruim, e que a gente vivia num inferno por causa dele. Pelo jeito não gostaram, pois mais uma vez levaram ela pra passar um tempo num campo de reconversão. Disseram que dessa vez ela volta melhor. Tô com saudades da mamãe. Vou pedir pro Presidente soltar ela. Será que ele deixa?