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Não dá ideia

Não lembro da primeira ideia que tive, mas minha mãe ainda tem o registro da minha primeira execução de uma ideia. Numa fita cassete cheia de chiados dá pra me ouvir cantar aos 3 anos de idade:

A bandeira do Brasil era boa
Um dia ela rasgou
Depois quebrou o pau
Depois não tinha nem mais pau

Num pseudo ritmo e sem rimas, eu tentava contar as desventuras da bandeira do Forte do Leme que eu conseguia ver pela janela do meu quarto. Segundo minha mãe, fiquei angustiado por semanas quando, após uma série de ventanias, a bandeira rasgou e aos poucos foi se desgastando até ser substituída. Minha mãe achava que era uma manifestação da musicalidade que ela sempre desejou que eu tivesse mas nunca tive; meu pai já achava que era uma crítica precoce ao regime militar que entrava no período da anistia. Não era nem uma coisa, nem outra. Era uma ideia. Como tantas que tive e tenho. Como as tantas que até hoje me perseguem.

Ideias que me fizeram desenhar por 2 anos uma tira diária chamada ABOBRIM sobre animais transmorfos que comentavam a política do governo Sarney. Ideias que me fizeram criar (e não lançar) dúzias de fanzines na adolescência. Ideias que eu escrevia em caderninhos até se tornarem algo, como poemas sobre freiras que chupavam dedos ou soldados numa guerra do Vietnam psicodélica. Ideias. De todos os tipos, formas e tamanhos.

Saudades de desenhar o ABOBRIM

Pode parecer que esse excesso de ideias me tornaria produtivo, mas não. As ideias, pelo menos pra mim, precisam de um longo e angustiante período de fermentação que, olhando de longe, ou  de perto, parece no melhor dos casos ócio criativo e, no pior, pura preguiça.

Desde que elas surgem, numa imagem, som ou associação cognitiva pouco usual, até cumprirem seu destino, leva tempo. Tenho ideias dos meus 10 anos de idade que ainda estão tomando forma e que retornam, dia sim, dia não, me perguntando: “E aí? Já está na hora?”. E eu respondo: “Ainda não. Ainda não”.

Sim, é demorado. O meu primeiro curta, que filmei aos 33 anos, surgiu como uma ideia para uma história em quadrinhos, aos meus 18 anos, na fila do banheiro da Academia da Cachaça do Leblon. Virou crônica, roteiro de quadrinhos, e depois 7 versões de roteiro cinematográfico, até ser filmado 15 anos depois. O pior é que não fiquei completamente satisfeito com o resultado final e vez ou outra penso em como retomá-lo. Fazer o que?

Mas não me angustio mais. Quer dizer, tanto assim. Minhas ideias precisam de tempo para maturarem adequadamente e nunca estão completas. São pequenas obsessões de longo prazo que culminam em surtos compulsivos, como aquele que tive no fim de semana em que escrevi 60 páginas da Bíblia e do Piloto da minha Sitcom baseada na minha experiência como livreiro, 18 anos depois de tê-la imaginado pela primeira vez.

Ou seja, se quiserem me diagnosticar, podem dizer que sou um obsessivo em tempo integral e um compulsivo bissexto. E está bom pra mim. Posso sofrer, um pouco, mas quem disse que quero ser curado?

Se for pensar bem, a culpa pelas ideias não é minha. Eu nunca tive ideias, elas é que me tiveram, me têm e, se deus quiser, ainda me terão por muito tempo. Tudo que preciso é saber conviver com elas, dar espaço e tempo para elas maturarem, e, quando concluídas, delas, nada esperar. Afinal, não criamos ideias, ou filhas, pelas recompensas que nos trarão. As criamos pro mundo e torcemos que elas, de alguma forma, o tornem melhor. Ou pelo menos mais interessante.

Por isso quando me perguntam pra que eu escrevo, desenho, crio, eu digo: “Não sei”. Mas se me perguntarem o porquê, eu posso responder: “As malditas ideias não me deixam em paz”. E eu adoro.

Este texto faz parte da blogagem coletiva Estação Blogagem, com o tema Tarô: cada semana de novembro será regido por um naipe que vai inspirar a produção dos textos. Para saber a programação e participar, leia esse texto aqui.

A Fisioterapia da alma

Depois de 7 meses em quarentena, começamos a esquecer das coisas simples, por exemplo de nós mesmos. Mas, o mundo taí pra nos lembrar. Avisaram no trabalho que vão mudar o plano dental e acabei me forçando a ir ao dentista antes da troca. Algo que ainda não dá pra fazer de casa. Ainda.

Infelizmente, pós CoVid, pra mim, sair de casa não é mais algo trivial. Trabalhando em home office, fazendo compras e interagindo com os outros exclusivamente pela internet, esqueci como se faz pra ir à rua. Tudo parece novidade e requer planejamento. Como aprender a andar de bicicleta, com a diferença que não é como andar de bicicleta. Sim, desaprendi a sair. Por isso uma simples caminhada de 7 minutos ao dentista requisitou dois dias de expectativa e ansiedade, uma agenda detalhada com horários de sair e chegar, itinerários para encaixar outras atividades externas que estava adiando, e protocolos sanitários na ida e na volta para casa. Foi um trabalhão, mas deu tudo certo. Ou quase.

No dentista, as notícias não foram muito boas. Além de descobrir que meu bruxismo está arruinando os dentes, preciso tirar 3 sisos para resolver 3 cáries que podem virar 3 canais. Mas o pior não foi a expectativa das cirurgias, mas, sim, a avalanche de compromissos que isso gerou. Raio X, farmácia, molde dos dentes, placa miorrelaxante, o escambau. Acabou que fui obrigado a ir à rua mais 3 vezes na mesma semana.

Em cada uma dessas saídas repeti o ritual de planejamento, mas, traído por uma saudade de outras vidas, incluí auto indulgências no meu trajeto. Uma ida à papelaria boa pra comprar canetas nanquim e um caderno; uma passadinha nos correios para enviar umas revistas em quadrinhos para um amigo cada vez mais distante; comprar esfihas no árabe da galeria Condor; e uma visita de leve à livraria Galileu, que não é essas coca colas todas mas é o que me restou no Largo do Machado.

Em cada uma dessas pequenas escapadas senti como se estivesse esticando os músculos da alma e reativando uma memória metafísica do que sou e do que me restou: ler, escrever, desenhar, mandar cartas e comer bem. Como numa fisioterapia da alma, voltei a me alongar e tentar regenerar o que sobrou de mim. Estalando e gemendo, mas, graças a Deus, ainda vivo.

Mas te digo, depois de 7 meses de quarentena, cumprida religiosamente, mesmo tomando todos os cuidados possíveis, ainda me senti culpado por esses “luxos”. Me incluí na mesma categoria dos indecentes do Leblon. Aglomerando sem necessidade, colocando a minha família e outros em risco por simples vaidade. Sim, sou exagerado, mas o sentimento não é despropositado. Cedi aos meus pequenos vícios.

Tento me convencer que não foi de todo mal. Tento me lembrar que não temos personalidade sem essas miudezas, sem esses pecadilhos. Se para uns o que faz a cabeça é simulação de ménage à trois em carro aberto, fazer micareta em meio à pandemia, participar de passeata em prol de fascista, ou pagar de moralista barraqueiro, ok, essas são suas falhas. As minhas são escrever, ler, desenhar e comer bem.

Se meus pecados são menores, e podem ser resolvidos no conforto do meu lar, isso não os torna melhores; apenas diferentes. E, confesso, foi bom sentir que eles estão lá no fundo da minha alma ainda dando a razão a uma existência que, sem erros e desejos vis, não faz sentido algum. Afinal pra ser cristão tem que nascer com o pecado original. Então, exercitemos os nossos pecados derivativos.

Mas de máscara, pelo amor de Deus.

Que sono?

Um amigo dizia que a maturidade chega quando você descobre que dormir não é punição, mas um privilégio. Nunca entendi isso.

Desde pequeno minha relação com o sono é complicada. Não curto dormir. Nunca curti. Até os seis anos tinha pesadelos com uma figura inspirada no Juarez Machado, aquele artista plástico e mímico que se apresentava no Fantástico. Lembra? Provavelmente não, mas eu lembro. Talvez só por conta dos pesadelos.

Normalmente era uma perseguição, onde ele queria me levar embora para um mundo paralelo acessível por paredes secretas no meu apartamento. Antes do sonho concluir, eu sempre acordava no meio da noite em pânico, mas não conseguia pedir ajuda aos meus pais pois no meio do caminho tinha um quadro da Mona Lisa que, posso jurar, me seguia com os olhos. Com medo da minha cama e sem poder atravessar o corredor, eu ia pra sala e adormecia no sofá.

Algum tempo depois esse terror infantil se resolveu num sonho do qual me lembro até hoje; na mesma época meus pais se livraram da Mona Lisa; e eu, tirando os intermediários do meu processo de sono, passei a dormir direto no sofá. Quando o meu peso ainda permitia, minha mãe, antes de dormir, me transferia para a cama. Isso em pouco tempo ficou impossível e, sem ter o que fazer, todos simplesmente aceitaram que eu ia dormir direto no sofá. Dormir? Melhor seria dizer: viver no sofá.

Eu chegava do colégio e me esparramava no sofá pra ler e ver TV. Ao meu lado, pilhas de quadrinhos, livros, brinquedos, cadernos, lápis e canetas. Eu tinha, sim, um quarto, mas, como podem perceber, vivia mesmo no sofá.

Preocupados com isso, meus pais me levavam de tempos em tempos para escolher camas que pudessem me levar de volta ao quarto. Beliches, camas com escrivaninhas, com prateleiras, com até, pasmem, aquários. Dessas, tive todas. Mas elas acabavam se tornando apenas os seus apêndices. Eram playgrounds, depósitos de livros, espaços de trabalho, simulações do mundo marinho; tudo menos camas. Dormir sempre ficava pro sofá.

Quando fiz 15 anos, eles já tinham desistido. Na época, eu até tinha uma cama no quarto, que me foi doada por alguém, mas nunca foi usada. Era velha, pesada e estranha. Um objeto fazia mais sentido no cenário de um quarto de viúva do que no quarto de um adolescente.

Nunca dormi nela, mas era um lugar pra deitar acordado, ouvir músicas, escrever poesia, assistir a videoclipes na TV e a filmes em VHS nas madrugadas. Não para dormir. Dormir eu reservava para o sofá, e para uma cadeira de praia que também me foi doada por alguém. Pra mim, dormir nunca foi planejado. Era uma espécie de ataque de exaustão que me acometia entre um dia e outro. Não era uma necessidade, mas uma fraqueza.

Um dia, sem aviso, essa cama quebrou e não me lembro de sequer termos cogitado consertá-la. Ficou assim até que fui morar sozinho e, no chão da sala, joguei um colchão que me servia de futon, sala de estar e espaço para desmaiar.

Assim permaneci até os meus 25 anos. Sem camas. No máximo tive estrados no chão que suportavam um colchão. Eram espaços para assistir TV, ler, dar festas(!!!) e desmaiar de exaustão. Camas, e o sono, eram conceitos estranhos para mim.

Quando conheci minha mulher e comecei a trabalhar fui obrigado a encarar o sono de maneira diferente. Eu não dormia mais sozinho e meu tempo não era mais só meu, Precisei me alinhar aos hábitos dela e aos horários da fábrica. 8 horas de trabalho, 8 horas de diversão, 8 horas de sono. Sono? Quero dizer, 8 horas de cama.

Nunca cumpri essas 8 horas. Se deitava cedo e conseguia dormir, acordava na madrugada sem saber o que fazer. Sem pesadelos, mas numa espécie de pânico indescritível. Um medo do amanhã, um medo de ainda ser ontem. Se não conseguia dormir, contava as horas como portões, com a certeza que a única cura para a insônia, a única coisa que iria me trazer o sono pelo qual ansiava e temia era a luz do sol.

Abandonei a pós adolescência e o cansaço gerado por 25 anos de noites mal dormidas cobrou o seu preço à vista. Sem crédito tento pagar em prestações. Assim, nos últimos 20 anos resolvi encarar o problema do sono mais seriamente. Fiz terapias, exames, comprei relógios inteligentes e baixei aplicativos que monitoram a minha vida. Sempre tentando encontrar uma maneira de dormir melhor.

O problema é que eu não sei o que é dormir melhor, nem acredito nisso. Se eu pudesse não dormir, confesso, eu não dormiria. Temos tanto a ler, a escrever, a assistir, a desenhar, a ouvir, a conversar e a sonhar acordados, que o sono, como na infância, ainda me parece uma fraqueza. Mesmo com o sono curto, eu sonho muito, e tudo que não seja parte dessa psicodelia orgânica, me parece pura perda de tempo.

Mas não sou mais tão jovem e o corpo pede o descanso. Começo o dia cedo e, quando bate a noite, já estou cansado. Resisto e me arrasto por períodos de baixa de energia e blackout total, tentando encontrar algum método alternativo para realmente descansar. Porém, como a menina da música da Marisa Monte que toma hipofagin mas sonha em comer bolo de chocolate em todas as refeições, eu ainda sonho em não ter sono.

Hoje eu tento manter uma rotina. Dá dez horas eu deito. Na maioria das vezes durmo rápido. Me condicionei. Tem músicas, filmes e sons que me colocam no estado de relaxamento que me permite atravessar a noite. Mas essa noite sempre acaba antes do sol nascer e desperto antes da hora do mundo acordar. Durante muito tempo lutei contra isso, me desesperei e sofri. Hoje, ao invés de lutar, tento usar melhor esse tempo com o que me faz feliz, por exemplo, escrevendo sobre o sono. Continuo cansado, mas tenho um sorriso relaxado no rosto. Não dormi, mas sonhei, mesmo que acordado.

Um amigo dizia que a maturidade chega quando você descobre que dormir não é punição, mas um privilégio. Quando lembro disso, me pergunto se realmente cresci. Pois crescer não é se adequar ao tempo alheio, mas respeitar o seu próprio tempo e saber que de um dia pro outro mudamos, morremos e renascemos para uma realidade que não é a mesma de ontem. Dormir é abraçar sem medo essa transformação. Dormir é não ter medo que o Juarez Machado vai te levar pro mundo paralelo das paredes e nunca mais voltar. Dormir é ter confiança que o passado ficou para trás e que o futuro vai te receber de braços abertos. Dormir é se libertar da culpa e da ansiedade. Se viver é estar no momento, dormir é se permitir não estar aqui ou, melhor, estar nesse lugar nenhum, o u-topos. A Utopia.

Nessa busca, deu 10 horas, me deito, fecho os olhos, respiro fundo e me deixo ser jogado em direção ao futuro nessa viagem psicodélica. O que me esperará?

Bons sonhos. Durmam bem. Espero vê-los do outro lado.

Muito prazer, autossabotador

Tudo começa com a inveja e um pouco de ciúme. A primeira vez que senti isso foi num concurso de escrita na primeira série. O meu colégio todo ano organizava uma coletânea de textos dos alunos da primeira a quarta séries, uma história era escolhida em cada turma e pra cada história tínhamos 3 ou 4 ilustrações. Na primeira vez que participei, tinha certeza que minha história ia ganhar. Não ganhou.

Fui rapidamente da sensação de ciúme, perder o que achava que era meu, à inveja, o desejo de ter o que é o do outro. Foi horrível. O que me confortou foi que ainda tinha chance de participar com a ilustração. Me esmerei, mas também não rolou. A sensação se repetiu e a frustração foi duplicada. Foi assim que, para proteger o meu ego, inconscientemente, entrei num processo compulsivo de planejar e antecipar a minha queda.

Mas o hábito não se firmou de imediato. Eu continuei tentando, ou quase. Me inscrevia, participava das coisas, me entregava, e sofria quando não recebia os louros que achava serem meus. Pra me proteger, minha solução foi fingir pouco caso. Vivia na negação da raposa das “uvas estão verdes”. Eventualmente, era recompensado e ganhava. Inclusive no concurso que desencadeou o processo, lá pela 3a. série, uma das minhas ilustrações foi escolhida. Mas não pude curtir. Infelizmente, para manter a pose quando perdesse da próxima vez, o que eu “sabia” que aconteceria, precisava desmerecer o que eu atingi. Os prêmios eram bestas e os concursos pouco desafiadores, eu mentia pra mim e para os outros. Qualquer um podia ganhar. Qualquer um. Até eu. Um outro qualquer.

Então entre a tentativa de evitar a frustração, não me expondo, e a negação do reconhecimento que eventualmente recebia, comecei a ter uma postura perversa com a arte. Amando em segredo o que fazia, sangrando para produzir, sofrendo quando não era reconhecido, desprezando quando o era, mas fingindo pra todo mundo que não era nada demais. E assim todas as minhas conquistas foram maculadas por esse ar blasé que eu precisava manter. Todas.

Aos onze anos, o meu personagem foi o escolhido para estrelar os desenhos animados que finalizaram o curso de Cartum da Calouste Gulbenkian, mas eu não fui ao lançamento pois estava “cansado do colégio”. Mais de dez anos depois reencontrei meu professor, o mestre Lapi, e ele, que ainda lembrava de mim, me colocou como assistente de produção num documentário sobre o Pinel. Foi um trabalho incrível mas, sei lá por que, pedi para ser retirado dos créditos.

Na adolescência, óbvio, me encontrei nos fanzines. Produzia sozinho e fazia tiragens ridículas para não ser encontrado. As poucas pessoas que liam curtiam e queriam participar. Era a minha deixa para criar problemas com todo mundo e sair “por cima” por não ter comprometido a minha “integridade artística”. Uma vez tive a audácia de mandar um fanzine para avaliação do MAU, o fanzine da revista Animal, e recebi vários elogios, mas como havia pedido, eles não divulgaram meu endereço para contato. Como um bandido na lista dos 10 mais, queria ser reconhecido, mas não encontrado.

Cresci e continuei com o mesmo comportamento. Fiz corpo mole e não fiz a prova pra faculdade de cinema. Fiquei na psicologia pois achei que me frustraria menos. Na mesma época, escrevi uma crítica de cinema pro JB, e tinha um livro de poesias pronto que submeti à editora 7 letras. Eles queriam editar desde que eu pagasse uma parte da tiragem, mas eu me convenci que era golpe e nem respondi. Hoje não tenho nem uma cópia desse livro.

Continuei escrevendo, participando de concursos e tentando me editar. Sempre com um pé atrás e sem acreditar nas benesses que me eram oferecidas. Ia pra saraus de poesia, declamava com desdém e menosprezava os que me elogiavam. Cheguei ao ponto de jogar fora uma caixa com mais de mil poemas e umas três dúzias de contos após uma briga com uma namorada. Quando lembrava dessa autosabotagem, tentava me justificar com a história da vez que o Hemingway perdeu toda a sua produção na sua bagagem; o que não tem nada a ver, afinal ele não jogou fora o que produziu em quase 10 anos por puro medo.

Na transição pro digital o comportamento continuou. Comecei a publicar meus textos num blog e em seis meses estava no Blogs of Note. Fechei o blog, sob a alegação que não merecia ter mais do que sete leitores,  e o reabri em outro lugar. Participei de alguns projetos literários e sites mas nunca mantinha um compromisso maior do que 6 meses. Quando as coisas começavam a engregar, muitas vezes sem explicação, eu sumia.

Assim fui me escondendo e me escondendo cada vez mais, sempre me comprometendo pela metade com o que eu dizia desejar e negando o que a vida às vezes tentava me entregar.

Às vezes, ainda reajo assim,mas estou em recuperação. Se alguém me elogia, imediatamente tento entender quais são os seus motivos escusos para isso. “Óbvio que não é sincero”. Não quero encarar a queda novamente. Uma queda que, sinceramente, nunca sofri, mas que transformei num trauma pois a minha história, escrita aos 6 anos, sobre uma invasão dos povos perdidos de Atlântida repelida por um grupo de jovens num cruzeiro perdeu para a história de uma minhoca que fazia os buracos em queijos suíços num concurso literário de colégio. Hoje sei que a história da minhoca realmente era melhor e que não devia me martirizar tanto assim, mas a cabeça não manda no coração.

Nesse processo de recuperação, procurei amigos e conhecidos que pareciam bem resolvidos com essa questão e todos me confidenciaram que, em maior ou menor grau, vivem com a mesma angústia. É bom não estar sozinho. Sim, gostaria de me jogar sem medo de rejeição e poder aproveitar as coisas boas que a vida vier a me oferecer, mas para isso preciso aprender a ter compaixão comigo mesmo e entender que a fraqueza não é precisar combater mas, sim, fugir da luta.

O pulo do gato talvez seja agradecer mais, olhar os obstáculos como fins em si mesmo, e ter a certeza que a história não termina mesmo quando acaba. Sim, estou melhor mas não cheguei no ideal. Ninguém chega. Mas continuamos na luta. Obrigado por me ler e fazer parte desse processo.

#happythankyoumoreplease

O (des)encontro com o escritor

Quando eu tinha o sebo a gente atendia muitos escritores, por isso, quando vejo entrevistas com autores, eu sempre sinto que o livro virou menos do que é. Virou só um pretexto para um pitch de vendas.

Os entrevistadores e jornalistas, geralmente serem terem lido o livro e informados apenas pelos seus press releases, focam suas perguntas no processo de escrita, na rotina dos autores, na mística “de onde vêm as ideias”, nas ambições do livro (que não tem nenhuma), em como lidam com o sucesso (futuro ou presente) e em tudo mais que não se seja o tema do livro.

O livro não é a vida do autor. O livro é uma conversa, uma isca do autor para que o leitor, e o entrevistador, fazendo esse papel simulado, discuta o seu tema ou estética. Não é isso que vejo nas entrevistas. Vejo pessoas entrevistando celebridades cujo sustento virá da compra do livro. “Gostou dessa pessoa? Ela é legal e interessante, né? Inteligente também, não? Então compre o seu livro para que ela continue viva, mas não se preocupe, você não precisa lê-lo. No máximo postar uma foto dele no Instagram pra dar uma força”.

Isso me lembra do livro do Mamet, Teatro, onde ele afirma, com muita propriedade, que o papel do teatro é entreter o público. O livro tem também esse papel. Ele foi feito para ser lido e experienciado, mas, como o próprio teatro, hoje virou apenas um símbolo de ostentação intelectual, um fiapo de ligação com uma pessoa de aparente poder que irá imbuí-lo de um pedaço de identidade. Em suma, anexos de personalidade via poder de compra.

Quando eu tinha sebo a gente atendia muitos escritores e o papo era diferente. O papo era sobre o livro. O que os autores pensavam sobre o tema que tinham escrito a respeito, sobre as escolhas que fizeram na narração, nas personagens, na linguagem. Sobre o que poderia ser melhor, sobre o que ficou bom no livro e para ouvi-los ler. Isso faz diferença: ouvir a autora ler o seu livro. Mas, pelas regras do mundo, estabelecidas pelos nerds dos filmes de super herói e séries, tudo isso é proibido. É spoiler. Num mundo onde tudo é “porn”, a aferição de valor vem da (falsa) sensação de novidade e da possibilidade de repetição de consumo; mesmo numa atividade que sempre termina do mesmo jeito.

Eu não ligo pra isso. Sempre fui o louco que lia o livro depois de ver o filme. Se saber algo sobre a história lhe impede de ler o livro, cá entre nós, você nunca iria lê-lo mesmo. E provavelmente nunca irá ao teatro, afinal Hamlet, Romeu e Julieta, só pra dar um exemplo, morrem no final. Você não sabia? Desculpa o spoiler.

Depois me perguntam se o mercado editorial vai sobreviver depois dessa crise. Não vai. Dessa forma não vai. E não por conta de CoVid e afins. Vai perecer de amnésia. Vai passar boas dificuldades pois esqueceu o seu propósito.

Parece até que as editoras têm vergonha de vender livros, e viraram uma espécie de bar onde o mais importante é o guarda chuva do drinque e não o seu sabor. Ok, o público não é dos melhores, mas está no seu papel educá-lo e não enganá-lo vendendo culto a celebridade para empurrar papel encadernado com sinais de tinta no seu miolo.

Tá, talvez seja só, mais uma vez, chatice da minha parte. Talvez a falta que sinto de boas entrevistas com escritores seja só um reflexo da falta de bons livros, e, quando eles existem, de boas pessoas pra conversar a respeito deles.  Por falar nisso, me diz aí, o que você leu de bom atualmente?

O Último Aniversário

Desde os meus 13 anos eu tinha um ritual que cumpria fielmente no dia do meu aniversário: reler Watchmen. Naquele 11 de setembro de 2001 não foi diferente.

Na época eu gerenciava o turno da manhã no sebo Baratos da Ribeiro e como já ia sair de noite, para não correr o risco de não cumprir a tradição, troquei de turno com o pessoal da tarde. Acordei, como de costume, bem cedo; fiz um café da manhã não memorável;  levei minha namorada no ponto de ônibus; e voltei pra casa pra cumprir o meu dever.

Separei as seis edições de Watchmen da Abril, aquelas originais do lançamento no Brasil; botei o cinzeiro e o maço de cigarros ao lado da cama; e liguei a TV baixinho na Bandeirantes para acompanhar as notícias do dia. Entre um cigarro e outro, ia revisitando o universo alternativo de Alan Moore, onde um bando de heróis impotentes tentavam inutilmente frear os impulsos autodestrutivos da humanidade. Lá pelo meio da história da captura do Rorschach, entrou um plantão da TV: um avião, aparentemente um monomotor, colidiu com o World Trade Center.

Parei a leitura e comecei a zapear pela curta lista de canais da época. Mesmo com TV a cabo foi rápido. A maioria dos canais exibiam as mesmas imagens e diziam algo que o jornalismo de hoje deveria dizer mais: “Não sabemos do que se trata. Ainda estamos apurando”. Só o SBT se mantinha firme na sua missão de alienação e continuava a transmitir desenhos animados durante o seu Bom Dia & Cia. 

Tentei retomar a leitura, mas um dos funcionários do sebo ligou de um orelhão avisando que o sócio que ia me substituir não tinha chegado. Comentei sobre a colisão do avião e pedi que esperasse uns 15 minutos antes de me ligar de novo. Ele me ligou em menos de 10 pra avisar que o sócio tinha chegado.

Liberado da função, voltei pra frente da TV, ainda com esperanças de terminar de reler o Watchmen. Consegui avançar até as sessões de psicoterapia do Rorschach, mas, em breve, ao vivo, logo veio a notícia da colisão do segundo avião. Agora, as dúvidas se tornaram certezas. Não poderia ser uma simples coincidência. Pra fazer sentido, tudo tinha que ter sido orquestrado. Era um ataque terrorista.

Enquanto os jornais começavam a enumerar os possíveis suspeitos, liguei pra loja e comecei a dar ordens, como se numa guerra. Ligar a TV na sala dos fundos; informar aos clientes que a sala estava disponível para quem quisesse acompanhar as notícias; trocar os livros da vitrine por tudo que tivéssemos sobre Oriente Médio, terrorismo e história americana recente; e aumentar o preço de todos os Alcorões que tivéssemos em estoque. Em frenesi, eu gritava no telefone pra motivar a equipe:

– Roma está caindo! Roma está caindo!

Fiquei em pé em frente a TV, dividido entre voltar a reler Watchmen e ir logo pra loja. Afinal, todos precisam assumir seus postos durante uma emergência. Para resolver o meu dilema, a torre atingida pelos aviões não resistiu e caiu. Vi e revi aquela cena por minutos na TV e ainda a vejo na minha mente. Atingido emocionalmente por aquela nuvem de poeira e pelas toneladas de aço de concreto do World Trade Center, não pensei duas vezes.Tomei um banho, botei os volumes de Watchmen que faltavam ler numa mochila, e parti pro trabalho.

A loja estava lotada. Na sala dos fundos as pessoas se espremiam para acompanhar o que acontecia no mundo, mesmo que agora fossem só replays e comentários. Todos tinham teorias e opiniões. Graças a Deus ainda não existiam redes sociais.

O sócio que me substituiu me lembrou que um dos outros sócios estava visitando a irmã em Washington. Comentou que tentaram falar com ele mas não conseguiram completar a ligação. Agora já era público o ataque ao Pentágono e que as comunicações nos e com os Estados Unidos estavam suspensas ou bloqueadas. Lembrei de alguns amigos que estavam por Nova York. Fiquei com vontade de ligar para eles, mas pelo jeito só nos restava rezar para que estivessem bem. 

Liguei pra minha mãe pra comentar sobre o ataque e ela aproveitou para confirmar o meu jantar de aniversário no mexicano da Cobal assim que a loja fechasse. Liguei pra minha namorada pra saber como ela estava e ficamos durante um bom tempo discutindo o que estávamos fazendo quando ficamos sabendo dos ataques e planejando o que faríamos depois do jantar. O turno da manhã acabou e precisei assumir a loja. 

O movimento continuou firme e forte. Quando começaram a anunciar os rumores sobre o envolvimento de Osama bin Laden, já tínhamos vendido quase tudo relacionado ao tema, desde os Alcorões majorados até aquelas besteiras sobre a Guerra do Afeganistão da Bibliex. O mundo como o conhecíamos estava ruindo, mas ainda havia gente no Rio de Janeiro disposta a tentar entender o que estava acontecendo. Era um mundo diferente. Um mundo que acabou naquele dia.

Quando anoiteceu, as pessoas, ainda aturdidas, começaram a se recolher. A sala de TV ficou vazia e alguns poucos clientes regulares vindos do trabalho apareceram na loja para saber como estávamos. Era como se todos nós estivéssemos em Nova York naquele dia. Era como se todos nós fôssemos vítimas daquele ataque. O que não deixava de ser verdade.

Minha namorada chegou do trabalho, esperei a saída dos últimos clientes, fechei a loja e fomos pra Cobal, encontrar a minha mãe. Quando chegamos no mexicano, Bush filho dizia na TV, sem meias palavras, que o mundo ia se tornar um estado global totalitarista mas, abalados com a queda do World Trade Center, não prestamos atenção. E olha só onde fomos parar por esse momento de distração.

Tentando ignorar o avião na torre, passamos a noite comendo tortillas, bebendo micheladas e discutindo como seria o mundo no dia seguinte. Ninguém tinha ideia, nem cantaram parabéns para mim.

Cansado, suspendi os planos pós jantar, me despedi da minha mãe, e fui pra casa com a minha namorada. Quando me deitei, lembrei dos Watchmen lidos pela metade. Deixei minha namorada cair no sono e fui pra sala retomar a leitura. Tudo parecia diferente. Sem gosto. As conspirações imaginárias e filosóficas do Alan Moore não conseguiam mais competir com a realidade brutal do instinto de morte e desejo de poder do Dick Cheney.

Deixei as revistas não lidas sobre o sofá, deitei na cama e abracei minha namorada rezando para que o amanhã fosse melhor. Fui parcialmente atendido. Nos casamos, temos uma filha maravilhosa e vivemos com muito amor e harmonia. Já o mundo… vocês sabem como está.

Quanto à tradição ela morreu. Nunca mais reli Watchmen e, também, nunca mais tive um aniversário só meu. E Roma? Ao contrário da minha previsão, Roma não caiu; ainda. Ainda.