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Romeu e Julieta para a meia idade

Mês passado, no Clube do Livro de Teatro comandado pela Joana Poppe, fizemos a leitura de Romeu e Julieta e confesso que estou ainda impactado. Não pelo plot, óbvio. Já tinha lido a peça há muitos anos e as diversas adaptações ou derivações não nos deixam esquecer a história: jovens apaixonados vindos de famílias rivais lutam contra tudo e todos e, surpresa, pagam com as suas próprias vidas pela esperança infrutífera de realizar seu amor.

O que me surpreendeu dessa vez foi que, frente a essa aparentemente bela e inspiradora história, digamos, romântica, só consigo ver um alerta e uma crítica enormes à insanidade que é essa construção que chamamos de amor.

Sim. O amor romântico é uma construção social. Ainda na época de Shakespeare, por exemplo, a maioria dos casamentos e relacionamentos não eram guiados pelo tal amor. Se você tinha dinheiro, posses ou poder ia casar por conta de acordos e alianças; se não tinha, ia casar basicamente com quem estivesse lá e a sua família indicasse. Existia tesão, desejo e afins, claro, mas o tal amor, como o concebemos hoje, não era a justificativa padrão para a união entre as pessoas, mas sim uma novidade que lhe prometia ser arrebatado pela paixão e agir de forma irresponsável e prejudicial com você e com a sua comunidade. Exatamente como prometem alguns comerciais de carro ou fast food hoje em dia.

Em pleno século XXI, parece até estranho desnaturalizar o amor romântico já que a maioria da humanidade, excetuando as mocinhas das novelas da Glória Perez, pode escolher livremente seus parceiros regulares, pseudo-permanentes ou ocasionais. Ao contrário do que acontece em Romeu e Julieta, hoje em dia, o tal do amor romântico, como motivador para os relacionamentos, não é mais surpresa, virou commodity e não suscita conflitos significativos ou objetivos.

A situação chegou a tal ponto que se olharmos bem para as atuais comédias românticas elas não são sobre os problemas que o amor gera, pois ele não gera mais problemas, mas, sim, se a escolha do objeto amado é eficiente e eficaz. Ou seja, são obras sobre gestão do tempo e consumismo. Estarei fazendo o investimento certo nesse objeto libidinal? Vou perder meu tempo ou desgastarei minha imagem? Esse produto é o fit certo pro meu perfil?

Já em Romeu e Julieta a banda toca de forma diferente. Romeu, em busca de uma outra garota que não corresponde o seu interesse, uma tal de Rosalina, vai ao baile da família rival, se encanta com Julieta e depois de trocarem meia duzia de belas palavras são tomados por uma paixão arrebatadora. Para eles não há escolha. E, sem escolha, assim eles agem.

O engraçado é que agora, como um velho em formação, achei totalmente despropositada toda a confusão criada por essa paixão. Sei que, quando jovens, os hormônios e a falta de paciência e experiência fazem tudo parecer urgente e vital. Tanto que o tal conflito entre os Montéquios e os Capuletos me pareceu dessa vez bem controlado depois das ações do Príncipe, e só continuava mesmo por conta de alguns jovens membros das famílias rivais. Ou seja, mais uma vez, tudo culpa da juventude.

Pra piorar, você precisa lembrar que Julieta só tem 13 anos e consegue fazer Romeu perder a cabeça totalmente em dois dias. Ela o convence a se casar com ela em segredo, o joga no meio de uma luta com seu primo, cuja morte não lhe abala em nada, e ainda conspira com um Frei para fingir um suicídio e se livrar da família. No mínimo ela parece uma megerinha mimada, mas não estaria errado considerá-la também como um projeto de sociopata.

E o Romeu, cá entre nós, também não é boa bisca. Desde o início da peça é apresentado como um sátiro interessado em qualquer rabo de saia, lembrem da Rosalina, que, cego por uma paixão arrebatadora por uma sociopata de 13 anos, joga a cidade num conflito sem fim, mata o primo da namorada, provoca a morte do Mercúcio, seu grande amigo e única voz sensata da cidade, é exilado, volta escondido, mata o prometido da sua esposa, e se mata sem nem pensar duas vezes. Imagino que se tivesse demorado uns dois dias a mais no exílio talvez tivesse deixado Julieta de lado por uma nova paixão. Mas isso é só uma conjectura.

Talvez eu esteja ficando velho, mas não achei nada disso bonito, nem romântico. Achei temeroso e preocupante. Talvez esse sentimento venha de um medo crescente que a gente vai adquirindo com a idade dos ímpetos da juventude, afinal, já sofremos o suficiente para saber que, como dizia Steve Allen, as tragédias insuperáveis da vida se somadas ao tempo não passarão de comédias.

Enfim, depois de ler Romeu e Julieta, só tenho um conselho aos jovens do mundo: não envelhecei, pois é ruim pacas; mas, por favor, pelo menos tenham um pouco de paciência. Com o passar dos anos vocês aprenderão que encarar a vida como comédia é bem melhor do que como tragédia.

Por falar nisso, fiquei me perguntando: o que diabos aconteceu com a Rosalina? É, a menina sensata que deu o bolo no Romeu. Aposto que teve uma história de vida muito mais feliz e interessante que a dos inconsequentes de Verona. É, “O que aconteceu com Rosalina?”, taí uma peça que eu gostaria de assistir.

10 de espadas

Foi sem querer.

Estava numa tarde de sábado preguiçosa inundado na quantidade de coisas para não ver no Netflix, quando decidi rever o primeiro episódio de Halt and Catch Fire. É, aquela série sobre o mercado de informática, desde o PC até o início da internet. Agora, 3 semanas depois, acabei de re-assistir ao seu último episódio, e, confesso, estou novamente maravilhado. Mas por razões diferentes daquelas da primeira vez.

Como dizem, você nunca passa pelo mesmo rio duas vezes. Ou mudou o rio, ou mudou você. Com séries e qualquer outra manifestação artística é a mesma coisa. Se você busca a mesma sensação ao resgatar uma experiência, desculpa, mas isso não se chama prazer estético. Tá mais pra dependência psicológica.

Revisitar uma obra de arte é estabelecer um novo diálogo onde, por mais que o seu interlocutor pareça, e muito grifo no pareça, estar dizendo a mesma coisa, você quer se surpreender com as suas próprias respostas. E descobrir o que mudou em você.

Na primeira vez que assisti a Halt and Catch Fire estava num momento muito ruim, angustiado. E foi isso o que a série me passou: uma sensação de ansiedade e medo que não se completou quando Joe MacMillan terminou a série da mesma forma que começou.

As batalhas e sucessivas derrotas dos protagonistas pareciam apenas um destino inescapável e sem sentido. Como o meu. Na época.

Agora, 3 anos depois ouço Joe MacMillan dizer as mesmas palavras e elas ecoam de forma diferente em mim. Mudou a série ou mudei eu?

O nome da série vem de um comando que joga a máquina numa competição interna entre suas funções o que pode destruí-la ou paralisá-la requisitando um reboot. É uma óbvia referência a competição desenfreada no mercado de tecnologia que torna reis em párias de uma hora pra outra e está coalhada de histórias de reinvenção, mas é também um lembrete das forças do destino. O destino que, como uma avalanche, uma bola de neve, é uma força impossível de parar e cujo fim todos nós sabemos. Será?

Por mais que, ao contrário do que lhes vendem nas fantasias corporativas ou de auto-ajuda de meritocracia e crescimento constante, a vida não seja um eterno melhorar, os ciclos que vivemos, apesar de aparentemente sem sentido, estão aí para nos mudar e ao mesmo tempo nos tornar cada vez mais nós mesmos. Como boa ficção, a nossa vida é uma eterna dança entre plot e exposição de personagem. Nunca percebeu isso? Sério? Então para e presta atenção. Está acontecendo a todo momento. Inclusive agora.

Na série, isso fica bem representado pela sua estrutura não circular, mas em espiral. Joe continua inquieto, mas diferente. O que o torna curioso está lá, mas a forma como ele lida com isso mudou. Bos, ainda é o boss, mas de pai tirano se torna a figura paternal e frágil que nos abraça no final. Donna e Cameron, como as forças criativas que representam, renascem, mais uma vez. E Gordon faz a sua transformação através das gerações e das construções que deixa como legado.

Não é a toa a quantidade de citações budistas ou referências taoistas na série. Estamos, sim, falando de (im)permanência. De relações, sonhos, empresas, tecnologia. Nada continua, mas não continuar é uma constante. Por isso é preciso sempre renascer. Mais do que iterações, acontecidas em que cada um desses ciclos de mudança e descoberta, são as interações que importam, pois nada acontece no vácuo, e aqueles que nos acompanham em nossa jornada são os espelhos onde nos veremos, nos construiremos e renasceremos, como a Fênix.

Por isso, o título do episódio final, 10 de espadas, é tão apropriado e tão rico em significado. 10 de espadas é um dos arcanos menores do Tarot que no baralho desenhado pela Pamela Colman Smith tem a imagem de um homem caído no chão apunhalado por 10 espadas enquanto ao fundo o sol nasce cheio de esperanças. Aparentemente um paradoxo, mas claramente uma passagem.

A vida, a carta nos lembra, não é um catálogo de vitórias. Essas mentiras você pode deixar pras entrevistas de emprego e perfis em redes sociais. A vida é um darumá. Como o tradicional boneco japonês, o nosso objetivo não é sempre estar por cima, mas ter forças para se levantar 8 vezes após cair 7. Como fizeram os protagonistas de Halt and Catch Fire, como nós fazemos todos os dias. 

Deixem-me terminar fazendo uma pergunta…

Melhor não. Não quero ouvir respostas. Desculpe, foi sem querer.

Será?

Tudo água

Aí, já pensou nisso? Se vivermos apenas uma vez, passaremos mais tempo sendo tudo do que sendo apenas alguma(s) coisa(s). Vê só. Primeiro você está em lugar nenhum e, ao mesmo tempo, em todos os lugares. Você (se é que podemos falar de “você”) é parte de um todo indiferenciado. Do universo, se você preferir.

Aí, por conta da união de 2 gametas você se torna algo: um feto. Mas, mesmo assim, para o choque não ser tão forte, te deixam dentro da sua mãe num caldeirão de líquido primordial. Seguro, quentinho, uno (com a sua mãe, nesse caso), até estar pronto para você ser uma coisa separada.

Aí você nasce e é sempre complicado. Afinal quem quer sair de lá e encarar a dureza de ser algo separado? E, pior, sozinho. Você, que antes era tudo, vai ser obrigado a ser uma coisa só. Por isso você grita, esperneia e chora. Mas, por pior que seja, sempre tem uma história sobre como seu o nascimento foi glorioso, heróico, surpreendente, mágico, poético, cômico ou dramático. E em geral é. É tudo isso, ao mesmo tempo.

Aí você cresce e estranhamente esse movimento entre ser uma coisa só e ser tudo continua. É como se você estivesse nascendo a todo momento. Primeiro você acha que sua mãe é parte de você até que te desmamam e você precisa se alimentar sozinho. Aí te põem numa escola pra você ser igual a todos ou, pelo menos, a parte de um todo, até que consiga sair da sua família pra ser algo diferente, e, surpresa, formar a sua própria família, onde tudo vai ser igual ou bem parecido. É como se, mesmo  após nascido, você estivesse buscando (ou sendo forçado a fazer parte de) simulacros desse líquido primordial. Uma nostalgia do que já foi.

Aí um dia você descobre que, apesar de se sentir sozinho, você já foi parte de tudo. Nesse ponto a crise existencial te leva à neurose, ao divã, ao desespero, à religião, ao vazio, ao “Thanks, God, it’s friday”. Você, antes compelido pelo mundo, agora começa a buscar ativamente pelas fantasias do sentimento oceânico que te permitiriam voltar a se sentir um com o todo, ou, melhor, não sentir nada. Esse desespero por fazer parte é tão grande que as pessoas brigam e matam umas às outras pois sentem que os outros ameaçam suas fantasias de patriotismo, espiritualidade e família que resgatam a saudade de não serem nada. E serem tudo. Ao mesmo tempo.

Aí você se liga que vai morrer e tem medo. Estranho. Afinal passou boa parte da vida tentando fazer parte de tudo de novo e, quando descobre que isso vai ser inevitável, não sabe o que fazer. Talvez porque você tenha passado tanto tempo fazendo parte de “todos” falsos que não incluíam tudo de verdade. Agora que será obrigado a voltar a fazer parte do “todo” mesmo, você quer que esse “todo” seja igual ao que você é sozinho. Coitado. E soberbo.

Às vezes me pego pensando nisso e imagino que a gente não aproveite esse momento da vida de verdade. Que outra oportunidade a gente tem experimentar o mundo por apenas um ponto de vista? É, porque a gente não deixou de fazer parte do todo. A gente simplesmente está vivendo a oportunidade de experimentar as conexões das quais somos feitos de um ponto específico da rede, ou como dizia Bill Hicks na sua história positiva sobre LSD:

“Today a young man on acid realized that all matter is merely energy condensed to a slow vibration, that we are all one consciousness experiencing itself subjectively, there is no such thing as death, life is only a dream, and we are the imagination of ourselves. Heres Tom with the Weather.”

Por isso quando me sinto sozinho e a melancolia bate, eu lembro que estou nesse mar celestial onde somos tudo e nada. Lembro que nada é permanente, que tudo é interconectado, e que o Nirvana é uma simples questão de percepção e desapego. Mas enquanto ele não chega, tudo o que me resta é sair desse mar, abrir a canga, deitar e olhar o mundo desse ponto tão particular. O meu.

Este texto faz parte da blogagem coletiva Estação Blogagem, com o tema Tarô: cada semana de novembro será regido por um naipe que vai inspirar a produção dos textos. Para saber a programação e participar, leia esse texto aqui.

Uôrque

Quando eu nasci, meu pai já estava aposentado, e, na infância, minha mãe tinha tantos empregos que  eu nunca consegui entender o trabalho de uma maneira normal. Nenhum dos dois saía de casa depois do café dizendo vou trabalhar e voltava no fim do dia para jantar. Era totalmente diferente do que eu via nas novelas ou nas casas dos amigos. Com eles era como se o trabalho fosse ao mesmo tempo tudo e nada em suas vidas.

Meu pai me buscava no colégio, fazia a ronda numa empresa na qual era sócio, ia a escritórios de imobiliárias entregar papéis e recolher dinheiro, e me confidenciava:

– Aqui tá todo mundo enrolando. Vamos tomar um sorvete.

Minha mãe me levava pra passear num determinado lugar e quando eu menos esperava estava sentado no fundo de uma sala onde ela dava aula para um grupo de pessoas que eu nunca tinha visto.

– Vai anotando os pontos que as pessoas mais perguntam- ela me pedia.

Espremido entre essas duas éticas do trabalho bizarras, óbvio que me tornei um jovem adulto com problemas. Trabalhava em excesso por nada, brigava com chefes em prol de clientes, e, quando comecei a ter as minhas empresas, organizava reuniões com os funcionários para levantar maneiras de pagá-los mais. Talvez por isso eu nunca entendi uma linha escrita na revista Você S.A. Para mim trabalho não era o caminho para status e fortuna, mas a única maneira de estabelecer relações e justificar minha existência no mundo.

Depois de anos sofrendo nessas relações comerciais e profissionais dramáticas que eram mais emocionais do que práticas, um dia, na análise, o meu psicanalista acertou na mosca:

– Você não consegue parar de trabalhar.

É verdade. Não consigo. Nunca consegui.

Todas as minhas relações, inclusive as pessoais, tem um quê de prestação de serviço. Conheço uma pessoa, me torno sua amiga, e, pimba!, temos um projeto juntas. Seja uma banca para vender revistas usadas, como fazia na infância; um fanzine ou associação de RPG, na minha adolescência; ou uma das inúmeras empresas que tive ou das quais participei na minha vida. Se você me conhece pessoalmente, me diz a verdade, não lhe dá a impressão às vezes que estou prestando uma consultoria?

Eu sei, é chato pacas. Você vem falar de um problema qualquer e eu já penso em como podemos transformar isso em algo: um podcast, um livro, um projeto, um evento. Parece até que estou ligado no 220, mas não estou. Eu simplesmente não consigo parar de trabalhar. Talvez daí venha a minha mania insuportável de dar palpite em tudo. Mesmo quando as pessoas só querem anuência, eu sempre tenho uma sugestão a fazer. Eu tento me controlar, mas, desculpem, é mais forte do que eu.

O tal psicanalista, que verbalizou o que eu nunca consegui, disse, na época, que o problema vinha de duas mensagens contraditórias que meu inconsciente reinterpretou. Meu pai dizia: não trabalha. Minha mãe dizia: não é trabalho. Mas o inconsciente, cheio de vontades, não entende “não”. Assim, interpretei na minha vida: “trabalha, é trabalho”.

Pra piorar, trabalho, pra mim, nunca teve a ver com dinheiro. Acho que se fosse milionário minha vida ia ser igual a que eu tenho hoje, pois continuaria fazendo a grande maioria das coisas que faço sem precisar me preocupar com dinheiro, um outro assunto problemático que não dá pra tratar aqui.

Durante muito tempo isso me angustiou, mas a idade vai te permitindo perceber que tem algumas coisas que não vão mudar em você, como aquela unha encravada crônica ou a mania de beber leite da caixinha. Então a gente precisa aprender a conviver com isso pois a opção é sempre pior.

Pra mim, por exemplo, não trabalhar é não estabelecer relações, é estar isolado do mundo, deprimido, sem função ou razão de viver. Por isso eu trabalho. O dinheiro, às vezes, é uma apreciada e necessária consequência, mas não é a razão de tudo. A coisa mais importante é, como dizia Andy Warhol, o uôrque.

Por isso, vou continuar a dar palpite na vida alheia, a montar planos de marketing, a revisar livros, a criar jogos,  a fazer listas de leitura, a montar sites, grupos de estudo e tudo mais que me faça me sentir útil. Tudo mais que concretize a minha experiência na Terra e me lembre que estive aqui para servir você. Mesmo que seja acordar às cinco da manhã para escrever um post num blog que ninguém lê.

Este texto faz parte da blogagem coletiva Estação Blogagem, com o tema Tarô: cada semana de novembro será regido por um naipe que vai inspirar a produção dos textos. Para saber a programação e participar, leia esse texto aqui.

O Biscoito dá Sorte

No dia do ano novo chinês, o jovem e recente casal encerra a sua refeição naquele restaurante mezzo japonês, mezzo chinês, mezzo italiano da Avenida Atlântica. Satisfeitos e esperançosos com o novo ano, esperam também a conta. A namorada entediada suspira e descansa o olhar na linha do horizonte; o namorado parece esperar algo mais e quebra o silêncio:

– Será que vem biscoito da sorte?
– Deve vir. Porquê?
– Sei lá. Adoro biscoitos da sorte.
– Sério? Acho meio sem graça. Meio borrachudo. Nem doce, nem salgado.
– Não, tô falando do papelzinho que vem dentro. Sempre me sinto mega bem depois de ler a mensagem da sorte.
– Sério? Aquele bando de frases aleatórias? Lembro até que tinha um episódio do Barrados no Baile em que terminavam todas as frases dos biscoitos com “na cama” e elas continuavam fazendo sentido.
– Não, que absurdo. As mensagens não são de brincadeira. São traduções de antigas frases chinesas e eu acredito na sincronicidade. Se você abriu a mensagem, é pra você. Olha, lá vem o garçom com os biscoitos.
– E a conta. Dessa vez quem paga?
– Infelizmente, você, querida. Você sabe que eu…
– Tô sabendo.
– Mas tenho certeza que a sorte vai vir boa e vou dar uma virada nessa maré de falta de dinheiro.
– Vamos torcer.
– Então, qual biscoito eu escolho?
– Qualquer um, né? É sorte.
– Não, não. Tem uma questão aleatória, sim, mas é a nossa vontade que nos leva à nossa sorte.
– Boiei.
– Olha, nada é fruto da aleatoriedade sem a vontade.
– Continuei sem entender. De onde você tirou isso? De um biscoito da sorte?
– Ah, deixa de ser chata. O que eu quero dizer é que a gente escolhe a própria sorte.
– Sério? Se a gente escolhe, o papel deveria vir em branco pra gente escrever o que quisesse.
– Ai, você é muito chata. Pronto, vou ficar com esse.
– OK. Eu pego o outro. Deixa eu te fazer uma pergunta.
– O que é?
– E se eu roubasse o seu biscoito e lesse a sua sorte?
– Que é que tem?
– A sorte continuaria sua? Ou viraria minha?
– Ahn…não sei…
– Lembra do lance da vontade. Eu escolhi a minha sorte mas ela estava na sua mão. Aí a minha vontade de pegar a sua sorte é mais forte que a…
– Amor, por favor, deixa de complicar e abre a sua sorte.
– Tá. Tá.
– E aí? O que tirou?
– Tem uns números tipo de mega sena e uma mensagem dizendo: “Sua felicidade será do tamanho das suas companhias”.
– Hum…
– O que quer dizer? É tipo “Diga me com quem andas que te direi quem és”?
– Deve ser. Mas a interpretação também faz parte da sorte.
– Azar o meu.
– Para com isso.
– OK. E o seu?
– Deixa eu abrir. Que nervoso.
– Deixa de frescura e abre logo.
– Pera aí…
– O que houve?
– A sorte tá em branco. Só vieram os números.
– Como assim?
– Pô, você é burra? Só vieram os números. O resto do papel: ele tá em branco. EM BRANCO!
– Calma, Bete. Vai ver isso quer dizer algo. A interpretação, lembra, faz parte da sorte. Ou, melhor, faz a sua sorte e escreve o que quiser no papel. Olha que bom!
– Ah, não enche o saco! Garçom, Garçom!

A sorte estava certa.

Os números da mensagem da sorte em branco deram no concurso seguinte da mega sena e podiam ter resolvido os problemas de dinheiro do namorado. Mas, como ninguém jogou, ninguém ganhou.

Ela, que nem lembrava da sorte que tirou, logo depois abandonou o namorado supersticioso já que, além de não ser uma boa companhia, ele era muito baixo pra ela.

O dono do restaurante, depois do escândalo causado pela sorte em branco, teve uma ideia e começou a encomendar biscoitos com papéis em branco. Os clientes ganhavam uma caneta pra escrever a própria sorte e ainda a podiam levar como brinde. Por sorte, todos os clientes gostaram. Ou, como dizia o dono do restaurante, não existe sorte, a sorte é você quem você faz. Ou algo parecido que ele leu em algum biscoito da sorte.

Verde ou Vermelho?

Uma das maiores curiosidades sobre mim e também um dos maiores definidores da minha personalidade é o daltonismo. Sim, sou daltônico. Dos clássicos, de verde e vermelho.

Descobri o daltonismo quando tinha uns quatro anos. Estava fazendo prova pra entrar no pré de uma escolinha e troquei todas as cores:

– Seu filho é inteligente. Provavelmente, deve ser daltônico. Leva ele num oftalmologista- a professora da nova escola sugeriu.

E lá fomos nós descobrir se eu era daltônico. Exames feitos, o médico confirmou:

– Seu filho é daltônico.
– O que é daltônico?- perguntei na maior inocência.
– Se você soubesse, não andaria vestido assim- ele rebateu se referindo à combinação de laranja, roxo e amarelo que minha mãe liberal nos costumes e na educação me deixava usar.

Desde então só visto preto, branco e cinza. Tenho duas camisas azuis e uma vermelha que deixo para momentos especiais como o nascimento da minha filha. No mais finjo que vivemos num mundo monocromático. Mas é impossível manter essa ilusão.

Toda vez que alguém descobre o daltonismo sou inundado de perguntas como se eu fosse um alienígena. Ninguém parece acreditar que é possível ver o mundo de forma diferente. É como se eu estivesse enganando os outros. Aí começam os testes:

– Isso é verde ou vermelho?
– Como você vê isso?
– Impossível que você não esteja vendo esse número.
– Como é ser daltônico?

Não parece ser fácil pras pessoas imaginarem um mundo diferente daquele em que elas vivem. Um mundo onde o vermelho pode ser quase igual ao verde e vice versa.

O engraçado é que ninguém percebe que nada é vermelho ou verde. Essas são apenas palavras que convencionamos utilizar de comum acordo para nos referir a essa ou àquela matiz. Se me faltam recursos fisiológicos, biológicos ou anatômicos para participar desse acordo, isso não é um problema meu. O problema é aceitar a ilusão do mundo sem se questionar. O daltonismo, fico feliz, me tornou um cético.

Como não tenho um aparato que me permite deslizar com facilidade nos acordos coletivos da humanidade, passei a duvidar. De tudo. Comecei a questionar se as coisas são ou se somente entramos num acordo que elas “deveriam” ser assim. Passei a rejeitar crenças coletivas e busquei explicações sempre provisórias que sustentem as decisões que tomo na vida. Rejeitei o empirismo puro e me joguei no mundo das ideias, onde toda a possibilidade é (im)possível, inclusive o verde ser vermelho.

Por isso, quando vejo esses vídeos de daltônicos ficando maravilhados ao descobrirem um mundo diferente ao colocarem esses óculos de correção, por mais que fique emocionado e, confesso, curioso, sinto uma certa tristeza.

Por que abrir mão da incerteza que nos permite pensar tanto e desconfiar de tudo? Por que nos resignar a essa visão coletiva que não é certa nem errada, mas apenas normalizada? Por que não imaginar que os daltônicos são os outros e tudo pode ser diferente? Por que parar de perguntar “porquê”?

Os óculos de correção podem ser um grande avanço cientifico, mas do que estarei me privando ao abdicar da forma diferente com a qual interajo com o mundo?

Sim, ser daltônico, pelo menos pra mim, dá trabalho, mas vale a pena. O que não vale a pena é abrir mão desse lembrete para exercer continuamente a racionalidade pela fantasia de me sentir “normal”.

Este texto faz parte da blogagem coletiva Estação Blogagem, com o tema Tarô: cada semana de novembro será regido por um naipe que vai inspirar a produção dos textos. Para saber a programação e participar, leia esse texto aqui.